Friday, March 03, 2006

micro-crédito

Hoje estive numa sessão de esclarecimento da Associação Nacional de Direito ao Crédito realizada no âmbito da implementação de um dos projectos escolhidos pela Agenda 21 Local.
Empolgo-me com estas coisas e acredito. Acredito no micro, acredito nos idealistas e sonhadores, acredito na bondade das pessoas! Quanto mais micro, mais acredito.
Dói-me no entanto perceber que este não é um sentimento geral, nem sequer maioritário e ainda nem sequer de uma significativa minoria.
Mas se eu, que nasci do lado bom do mundo, sinto tantas dificuldades para tornar real um projecto, porque não acreditar que a bondade das ideias não depende da dimensão material de um projecto, mas antes das redes de solidariedade que se criam? Pouco importa que o máximo de crédito possível seja € 5000. O relevante é haver uma instituição, que garanta a quem precisa dos €5000, o direito a que lhos emprestem. Esse empréstimo implica responsabilidade e confiança, provavelmente o que não é exigível a quem precisa de muitos €5000 para investir ( ou enterrar) em empresas tidas como fundamentais para a recuperação da nossa economia… e que depois, porque se perspectivam à escala global, deixam centenas ou mesmo milhares de trabalhadores ( dependentes) no desemprego.
É tudo uma questão de atitude, para mim, de valores. E poderão estar certos, não sou eu profeta que o digo, que economia social e que valores como os da coesão, são os únicos que nos podem salvar …ou por cegueira, perder-nos definitivamente.

Wednesday, March 01, 2006

que dizer mais...fazer!














Recordava uma figura, figura de sábio...

"Eu nada sou é tudo quanto digo
um sonho apenas do senhor do mundo
me perco mesmo quando me consigo
e só me salvo se em não ser me afundo."

Agostinho da Silva; Quadras Inéditas, Ulmeiro 1990

... redescubro um sábio por outras mãos, por diversas mãos.
Depois, vale a pena olhar infinitamente o ar do fim de tarde, ouvir as ondas sonoras que se fazem música nos meus ouvidos e respirar/absorver todo o não ser que nos constrói.

Nota: No Sábado, na Biblioteca Municipal de Santo Tirso às 15 horas, alguns amantes de Agostinho da Silva vão falar sobre o seu pensamento. Eu vou ouvir.

Monday, February 27, 2006

A recordar

Maia, 30 de Maio de 2004

Tentei, mais do que uma vez, escrever-lhe uma simples frase. Tenho muito para lhe dizer, sei-o dentro de mim, mas não me sinto apta a transformá-lo em palavras.
Queria agradecer-lhe os livros e os poemas que me emprestou, as aulas que deu e os sorrisos que sorriu com olhos. Queria agradecer-lhe o conforto, a ténue segurança e o doce alento que trouxe à minha descoberta interior, que apenas agora comecei, mas que acarreta já dúvidas e medos imensos.
Queria muito explicar-lhe como, nas suas aulas, frequentemente, encontrei o que precisava numa curta frase (palavra, som) de um poema. Queria muito explicar-lhe como, por vezes, essas palavras me apanhavam desprevenida, me secaram lágrimas antigas. Queria dizer-lhe tudo isto, queria mostrar-lhe como estou grata mas, agora que escrevo, tudo me parece incoerente e estupidamente pequeno, comparado com o que sinto. Começo a aborrecer-me com esta incapacidade sucessiva.
“As palavras são pedras”. E são-o realmente. Tornam concreto e plano o que tento dizer. Gosto do silêncio, professora. Faço por não gastar certas palavras. Vou comprar aquele livro também. No entanto, atrevo-me a abusar um pouco mais delas: obrigada por me ensinar a gostar muito de poesia, obrigada mesmo.

Joana

***

Foi assim que, há dois anos, percebi qual era o meu caminho, que descobri qual era a estrada a seguir, para me perceber e concretizar. Sei que tem buracos e eu tenho a tendência para dar trambolhões, desviar-me a fazer curvas e duvidar do caminho. Sei que darei muitas voltas e sei que nunca chegarei ao fim da estrada, de uma forma absoluta e completa. Mas ela, esta senhora, continua cá para me guiar e me levar a bom porto. E eu hei-se lá chegar. Obrigada.

Saturday, February 25, 2006

O segredo de Brokeback Mountain

Fomos os três ao cinema. Eu a Joana e o Pedro.
Depois do filme, como sempre e como gosto, conseguimos quebrar silêncio e falar sobre ele. O silêncio depois de um filme é essencial. Como depois de um sonho, depois de um concerto, depois de uma conferência, depois de... qualquer coisa que, porque nos tocou, precisa de espaço. Ficamos tensos se temos, logo de seguida, de manifestar opinião.
Foi igual com este. Passaram duas horas. Mesmo assim não sei se sei alinhavar alguns pensamentos. Tentemos.
Perguntava-me a Joana: Gostaste? Respondi: Não sei.
Agora posso dizer gostei. Porquê?
Porque de um modo directo e sensível vi abordar a homosexualidade. Sem preconceito? Julgo que não. O filme é feito sobre o preconceito. Ele próprio discorre sobre ele. Sobre a dificuldade de assumir preferências. Sobre a impossibilidade de assumir preferências. O que não é possível viver de outra maneira, porque a vida normal e a sociedade o impedem, será vivido assim, sob o olhar magnífico e ominipresente de Brokeback Mountain, inventando fins-de semana de pesca entre amigos. Apenas sob a discrição do céu e das montanhas pode ser consumada e vivida uma relação interpessoal tão natural e saudável que se transforma em desejo. Cá fora, no mundo real, tudo continua sob o domínio da regra e do correcto, ainda que o caminho da paixão leve, por inexistência de alternativa, à vida solitária. Quando assim não é, sobrevém a morte – destino ou castigo social – fica a dúvida
Dizia a Joana e eu concordo: “ O filme devia ter acabado quando eles se encontram a última vez em Brokeback Mountain”. De facto nada do que se segue acrescenta ao filme, apenas baralha. Ennis viverá sobre a culpa e sobre a dor da perda, encontrando pedaços do passado, mensagens de amor, que tendem a reduzir o filme a um melodrama tradicional. Mas o que me impressionou foi exactamente o contrário: contra o que o mundo heterosexual pensa e faz passar o amor entre dois homens, é realmente entre dois homens, másculos e viris. A idéia de fazer corresponder a cada homem um dos sexos, como se o amor, a paixão e o desejo só fosse possível entre dois contrários, dois seres que se completam, se fundem e se unem porque se complementam, não é verdadeira, pelo menos aqui. É puro preconceito.
Gostaria de perceber, para além da opinião dos críticos cinematográficos, que vêem o filme sob o ponto de vista do o objecto artístico, como é que um homem assumidamente heterosexual, entende este filme.

Friday, February 24, 2006

recomposição

Como um arqueólogo que junta bocados do passado, pacientemente, teimosamente…
Como quem faz um puzzle e junta peças, pacientemente…
Como um psicanalista, que junta passos, pacientemente, inteligentemente…
Como um poeta que junta palavras, sabiamente…
Como um pássaro que junta palhas e penas, diligentemente…

Juntar, relacionar de um modo quente
Criar ambiente perfeito para nossa imperfeição
Ninho
Gerar um lar é um dom.

no príncipio

(…)
Dir-lhe-ia
Vê como vejo. Não quero viver contigo, nem com ninguém. Quero ser nómada ou eremita. Ir ou estar, de modo só. Ocupar-me na observação do que vejo, e sinto, e imagino.
Criar mundo no pensamento, praticar o paradoxo.
Cuidar absurdamente do meu jardim, limpar o limiar da minha porta.
Dar forma. Aprender a linguagem dos pássaros.

De tempos a tempos, vir ter contigo, humana.
Praticar o rito do chá, a delícia da tua morada, a claridade do teu espírito,
O prazer do corpo. (…)

A tal página 107 de Finita de Maria Gabriela Llansol. Isto e muito mais. A tal escrita que poderia ter sido hoje e aqui escrita por alguns de nós. Escrita presente. Sem passado e sem futuro. Vida intensa e silêncio…mas também reverberação.
No princípio era o Verbo. Não era o nome, nem o adjectivo, era o Verbo – acção pura imaterialidade.

Monday, February 20, 2006

ler

Por vezes sentimo-nos tão identificados com a escrita de outros que faz sentido perguntarmos se ela tem passado. Se o que lemos, não foi escrito por nós, para traduzir aquilo que sentimos e pensamos no exacto momento em que o lemos. Acontece-me frequentemente e ainda bem. Só não faz sentido a pergunta, porque a mais das vezes, o que leio traduz muito melhor o que eu penso e sinto do que eu seria capaz de escrever. Esta é a diferença entre um poeta e eu … que procuro.
Ler é muito bom.

Saturday, February 18, 2006

nostalgia negra

Escrever hoje é uma catarse. Tentar pelo encadeamento de uma linguagem comunicável encontrar o sentido que falta para ligar o somatório de estratos quotidianos. A língua é uma estrutura de pensamento, que se funda na nossa cultura e por isso nos agarra, submetendo-nos. A estrutura do meu pensamento feito linguagem permite-me clarificar o meu modo de estar no mundo, reconhecer uma filosofia.
Não me é difícil escrever. A escrita está muitas vezes além do que consigo pensar, estruturar, relacionar. Por isso a dicotomia entre o que escrevo e realizo pensamento e o que sinto/vivo é muito acentuada. Aquilo em que acredito como verdadeiro sinto-o como dor. E a essa dor, ao contrário do que diz António Damásio, não tem para mim correspondência física. Não a detecto conscientemente no meu corpo, apenas no vazio da minha alma, talvez acompanhada sim, de uma respiração activamente lenta e funda que ocupa dentro do meu peito um lugar maior do que ele.
Para estes momentos, apenas estádios de linguagem poética ou música podem constituir sinónimo, acentuando o sentimento, numa doçura de morte.
A música sei onde vou buscá-la: Arvo Pärt, Mahler, Ravel ou Debussy.
O poema vou procurá-lo…ou alguém, que o saiba, me prende.

Thursday, February 16, 2006

a carta de condução

Está desvendado o segredo do post de ontem. A Joana já tem carta de condução.
Hoje começa o futuro na estrada. Sei que conscientemente, quero que conscientemente. Conduzir é uma responsabilidade. Pegar num automóvel dá-nos independência, mas exige muito autodomínio.
Ao fim de 26 anos na estrada tenho dois medos: a distracção e a violência pela auto-afirmação.
O primeiro tenho-o por mim. O segundo tenho-o pelos outros.
Ser distraída, conduzir sem pensar no que estou a fazer, de um modo automático é um risco que, todos os dias, me esforço por não correr. A minha cabeça trabalha muito enquanto conduzo: programo o dia, o trabalho, as tarefas domésticas, vibro com a música que ouço, com as paisagens que vejo… e sonho. Contra essa tendência tenho algumas defesas. Ando sempre devagar, esforço-me por me concentrar, respeitar passadeiras, peões, limites de velocidade...
O segundo assusta-me. Não gosto de ver as pessoas transformarem-se em animais ferozes ao volante, como se o carro fosse uma arma de defesa ou de ataque. Impacientes, rabujam, insultam, vociferam…. Egoístas, estacionam em cima dos passeios, à porta das lojas, em segunda fila… e dentro do automóvel têm sempre razão. E hoje cada vez mais também fora dele: saltam fora do carro e agridem. O aconchego da máquina, o sentido de posse e de poder arrebata e leva o cidadão mais anódino a cometer actos impensáveis.Desculpem-me a brejeirice, mas lembro-me sempre do Mister Been, que quando entrava no automóvel, este ficava com uma grande pila levantada.
A distracção e auto-afirmação duas formas de egoísmo que temos que aprender a dominar quando nos é dado o direito de conduzirmos.

Wednesday, February 15, 2006

Voto

Apenas um voto: que tudo te corra bem. Às vezes o caminho que nos parece certo, não é.
" Deus escreve direito por linhas tortas" mas, às vezes, Deus também escreve torto por linhas direitas. Vá lá a gente entender...

Sunday, February 12, 2006

on line

Por dentro. Ainda por dentro, com medo de que alguma pedra do dia venha desfazer esta magia:

Sol quente, conduzindo na VCI, acima, lentamente
Deixei a Joana em Campanhã
Herberto Helder por Herberto Helder
De (no) regresso
poesia
A minha vida feita poema – melancolia.

Encanto que não se quebrou
inflexões integradas
vozes, barulho de colheres - o silêncio
interior povoado
de rupturas, imprecisões
inteiras
que convivem ternamente
no limbo de um torpor maior…
Deixem-me estar.

Quem me dera ter o dom de vos levar a esse lugar!

esclarecimento

Devo um esclarecimento.
O poema da Maria do Rosário Pedreira foi enviado pela Susana à Joana.
Este simples facto revela-se muito significativo, para mim e para este blog.
Para mim, porque cada vez mais, o meu modo de vida assenta em dois paradigmas, que penso são visíveis no que vou escrevendo: comunicação e individualidade.
Para o blog, porque o seu conceito inicial assentou na necessidade e na vontade de comunicação intergeracional.
Por isso é bom que isto aconteça e que aconteça muito mais, trazendo para aqui vontade de debate, de troca de ideias e de experiências.

A Música

Há dias em que a música me ultrapassa, por ser perfeita para aquele bocadinho de dia, ou espaço temporal. Não consigo escrever a banda sonora da minha vida, mas sei qual é a música que tocará quando estiver a morrer e a ver os meus passos passarem-me à frente dos olhos. Conheço o seu som decadente e reconheço-a. Não sei nada de música, formalmente. Amanho-me mal com pautas e flautas e, no entanto, tenho-lhe um apego! Sinto-a sempre e todos e dias e de formas diferentes. E depois há memórias nas músicas: dias, cores, os olhos pintados com o risco preto numa manhã de fevereiro do ano passado, um fim de tarde de ressaca em Aveiro a escrever poemas sozinha, nos cafés, a pensar, o verão nos Pirineus, as viagens de carro, as praias, os ex-namorados e os pequenos almoços juntos. A música, a música!


A Música

I.
A música é
A gabardine do dia
Que corta a chuva
Até quando ela nos bate.

A chuva não molha
Quando o dia são notas
E as notas são horas.

II.
A música é
O cabide do dia
Penduramo-lo de mansinho
Pelas pontas.
Desejamos que não caia
Que não se desfaça.

E o dia faz-se
Em cal branca
Na parede da vida.
E o dia pendura-se
Na malha da música.

Até amanhã.

Olívia Rosmaninho


Saturday, February 11, 2006

assim serenamente

Aprender a viver em espaços diferentes e não querer sempre tudo e todos. Aqui ganha um enorme sentido o respeito pelo outro. A capacidade que, com a idade(maturidade) vamos conseguindo, de nos levantarmos antes de todos e serenamente esperarmos os seus acordares.

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre - a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos - dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que te tenha revelado uma só vez que o queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã - as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim

haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros.

...é assim mesmo num tempo de clivagens.

Wednesday, February 08, 2006

para ti(s)

Tenho saudades tuas. Muitas, muitas…
Das nossas conversas, mulher para mulher, ao jantar.
Dos comentários ao melhor arroz do mundo…hoje quase.
De navegar em atmosferas líquidas, que nos levam para espaços inter galácticos
Como hoje, sozinha em vapores distorcidos.

Tenho saudades. Mas, aqui sozinha, recrio o tempo em que estou contigo.
Ele já pôs os fones. Bem sabes … que a música pode tocar todos os níveis da experiência humana. A bordo da nave de John Seri, quem conhece o espírito daquele?
Incongruências quotidianas nos dias anódinos da semana.
Uma boa noite para ti. Em qualquer cama, encontra os melhores sonhos.

emoções

“Os seres humanos estão de parabéns, pelo menos em parte, por duas razões. Primeiro, porque em situações comparáveis, as reacções automáticas criam no organismo humano, sem qualquer dúvida, condições que são mapeadas no sistema nervoso, representadas como agradáveis ou dolorosas, e eventualmente feitas conscientes. É exactamente nesta capacidade que vem a ter origem a glória e a tragédia humanas. Quando à segunda razão para os parabéns: os seres humanos conscientes da relação entre certos objectivos e certas emoções podem esforçar-se, de livre vontade, por controlar as suas emoções, pelo menos em parte.”

António Damásio; Ao encontro de Espinosa; Publicações Europa América; pág. 69

Esta capacidade de, de livre vontade, controlarmos as nossas emoções, ou digo eu, de contornarmos os objectivos/obstáculos de modo a evitarmos certas emoções, distingue-nos dos animais. Ou então torna-nos iguais ou piores, quando, sabendo que vamos desencadear essas mesmas emoções, as provocamos indo directos ao objectivo que as vai provocar, de livre vontade. Conscientemente caminhamos para aquilo que, de acordo com o mapeamento do nosso sistema nervoso, sabemos que nos vai gerar emoções dolorosas, a nossa tragédia humana.

Saturday, February 04, 2006

gineceu ii

Rescaldo de outro gineceu.
Voltando ao tema da casa de mulheres. Desta vez sem qualquer provocação.
Tenho para mim que o sexo, entendido no sentido restrito, limita um relacionamento profundo e intenso, quando falamos em grupos de mais que duas pessoas. Quando numa relação de partilha e de dádiva se intromete o desejo sexual e com ele o sentido de posse, de exclusividade e de ciúme, a relação fica prejudicada. Por isso será mais fácil que a intensidade das relações se atinja em grupos do mesmo sexo ou em grupos em que o objecto sexual sejam pessoas do sexo oposto (para não excluir situações de homosexualidade, já que as de bisexualidade nunca se poderão englobar nesta reflexão).
Isto para chegar a outra interrogação: será que a célula base da nossa sociedade ocidental, a família (pai, mãe e filhos ou homem e mulher) é a mais correcta ou, dito de outro modo, a que nos faz mais felizes? Porque assentes nesta célula base de organização social, somos induzidos a regrar as nossas vidas pelo sentido da exclusividade e da fidelidade (entendida como tudo vale, menos partilhar o corpo – quanto a mim um conceito muito estrito e materialista). Para alguns mais evoluídos, até a admissão dos chamados “casos” pode ser integrada no conceito de família. Desde que tenha sido uma coisa episódica, confinada no tempo... satisfeito o desejo: foi uma “fraqueza” passou e até muitas vezes consolidou a relação do casal.
Não partilho de modo nenhum esta perspectiva. Entendo que qualquer relação interpessoal tem que partir da base da individualidade e do respeito por ela. A concepção cristã de que pelo casamento são “dois num só” não faz, para mim, qualquer sentido. Eu sou Um, completo e independente, que me relaciono com outro(s) para valorizar ou intensificar partes desconhecidas ou adormecidas desse Um. Eu aceito viver com outros desde que o respeito pela minha individualidade e pela minha intimidade seja total e assim de total confiança. Não a confiança básica, que se justifica pela hipotética certeza da exclusividade da relação. Antes a confiança de que tudo o que o outro faça é para a sua realização enquanto pessoa e isso nunca pode prejudicar os outros que ele ama – eu/nós. Eu gosto do outro, sou amada por ele na minha especificidade, amo-o na sua e permito-lhe a liberdade de ele se expressar, se realizar nas múltiplas facetas, algumas das quais, não tem nada a ver com as minhas. Viver assim exige verdadeiro amor: dádiva sem espera de retorno. Duro, difícil na prática, quando há o tal desejo de posse e medo de perda, que sobrevém ao sexo e à paixão física ( ainda que platónica). Porque, se for platónica, as nossas mentes desculpam, mesmo que o nosso credo condene. Um dos dez mandamentos é: Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos.
Regresso ao início: viver numa casa de mulheres heterossexuais. Muitas das quezílias, zangas, pecados e “mortes”, que se vivem no seio das famílias tradicionais, ficariam de lado… e permitiria partilhar os encargos pesados da educação dos filhos, da logística do lar e algum conforto afectivo que sempre faz falta.

Friday, February 03, 2006

recompor

"Ela tinha toda a vida presa por um fio. Nas mãos dela estava um papel coberto de palavras que ela havia de ler e reordenar. Há uma física e uma química das palavras; há uma electrólise da linguagem, pensamento elevado a símbolo, investido e despojado, polarizado pelo sangue, ancorado no instinto, mudando com a lua o rumo das marés por todo o ciclo monótono e louco da vida e da carne imaginadas, grades de cárcere e janela do céu, canto e delírio. Ela havia de tomar nas mãos as palavras uma a uma, a intangível harmonia íntima do cátodo e do vórtice e a doce e visível substância do crescimento molecular, havia de tomar nas mãos palavras e reordená-las dinamicamente em escrita da vida."

Não me apetece dizer de onde tirei o texto. Regressei apenas. Com a vontade de recompor sentimentos em palavras, em escrita de vida.

Wednesday, February 01, 2006

aviso

Estou com dificuldades de acesso à net.
Estou com muito trabalho. Não estranhem a ausência.
Mas também como tenho pouco eco...vamos andando.
Até amnhã.

Saturday, January 28, 2006

um bom conselho

“ …Lembro-me de um conselho de Colette ao jovem Georges Simenon: “ Agora tire-lhe essa poesia toda”.
Um bom conselho. Um escritor nasce no momento em que a sua verdadeira voz de autoridade se funde em fogo vivo com o tema que ele nasceu para contar. A literatura retira-se e o que resta é a crónica da vida – a vida crua, que pulsa: “ Um escarro na cara da Arte”.
A verdade é esta: cada geração, cada escritor, tem de redescobrir a natureza. As convenções literárias tendem a esclerosar-se com o tempo, e o que antes era novo já é velho. Só a coragem de uma voz nova pode redescobrir a vida real enterrada sobre décadas de pó literário.”

Erica Yong, Maio de 1991, in Abetura de “Crazy Coock” de Henry Miller, Colecção Nova Ficção; Puma Editora

Erica Yong reflecte sobre a impossibilidade de ser artista na América. América que rejeita os sonhadores e onde a pobreza “é uma ofensa moral, uma infâmia que a sociedade não pode perdoar”, atitude que segundo ela se funda no “puritanismo e na puritana suposição de que sonhar e imaginar são actividades suspeitas”. Ao contrário a Europa, no caso concrecto a França, a condição de artista e de escritor pode viver-se de cabeça erguida. “ Em Paris era ponto assente (ainda hoje o é) que um escritor precisa de tempo, de viver sem pressas, precisa de conversar, de solidão, de estímulo”.

The Greatest by Cat Power


Hoje entrei na fnac de forma descomprometida, depois de umas horas a ler e a escrever, no café. Entrei para ler uns poemas, que li e anotei, para ver uns livros de Design, para ouvir uns cds. Só para ver e não para comprar, que o mês foi duro e o saldo já se foi.
No entanto, foi com alguma timidez que me vi telefonar à mãe, perguntando-lhe se podia ‘estourar’ os últimos euros que me restavam, se ela me suportaria financeiramente até ao fim do mês, já que tinha, na mão, um dos melhores álbuns dos últimos tempos. Arrisquei-me mesmo a dizer 'anos', mas não disse.

A mestria de Chan Marshall (aka Cat Power) é sabida, o álbum anterior, You Are Free, não deixava espaço para dúvidas, com canções como Good Woman ou He War. As letras sempre bem desenhadas (Sim, sou apanhada por letras de música! E aquela Good Woman salvou-me a vida em Julho.), a guitarra e o piano. Aqui, The Greatest, a receita não é diferente, mas o disco é mais luminoso, com mais arranjos, menos da sala ou do quarto e mais do estúdio. Não deixa, no entanto, de ser intimista, Where is my love (aliás a mais bela faixa do disco, na minha opinião) é a prova mais concreta disso. The Greatest conquistou-me desde a primeira audição, já o ouvi no metro, no quarto e na sala, cabe em todos os espaços. A voz de Chan é áspera e agreste e ao mesmo tempo doce. A capa é brutalmente pop e brutalmente bem desenhada. Dos cds mais bonitos que tenho, de fora para dentro. E eu não sei que dizer para além de ‘adoro-o, adoro-o, adoro-o’. Ouçam-no, caramba!

Gineceu

Desculpem a intimidade. Desculpem o desafio. Desculpem a provocação.
Hoje teria muito, muito para desenrolar neste blog, ou noutros lugares. A Joana está em casa e regressamos aos nossos maravilhosos jantares.
Vou falar sobre o gineceu. O lugar específico das mulheres: este ninho e este conforto de encostar a face e sentir cetim quente. De poder roçar os lábios sem sentir desejo, nada que importune a doçura de gostar. A sociedade está mal organizada, ou, este não é o modo melhor de a organizar. O meu sonho sempre foi uma casa de mulheres. De cuidadoras, de trabalhadoras, de pensadoras, de independência e de respeito. E isso consegue-se muito melhor entre pessoas do mesmo sexo ( desculpem!) ou então, entre as quais as orientações sexuais são idênticas. Adoramos os homens, desejamos os homens, gostamos de conversar sobre eles, sobre o corpo deles, sobre aquilo que nele nos provoca, mas… nunca pode existir um lugar doce, gratificante e reconfortante como este: o gineceu. Eles que venham de vez em quando, inquietar este mundo, reconstruir matéria, geradora da energia que conforta este lar. Que venham muitas vezes, mas que partam, sempre, para que vivamos integras a nossa intimidade.
A Joana apaixonou-se por um CD, discorrerá sobre ele neste blog. Desafio um homem a senti-lo como nós. Se o sentir, todo o meu discurso sobre o gineceu vai por água abaixo!
Nota: Os homens cá de casa estão: um a milhares de quilómetros e outro de fones nos ouvidos a ver o Telecine Premium.

Wednesday, January 25, 2006

José luís peixoto iii

Ontem procurei desesperadamente o livro. Hoje pus os óculos e encontrei…o livro.
Dentro dele mil palavras, dele para mim, outras agora.
Depois de ouvir José Luís Peixoto falar numa linguagem didáctica, para uma assistência invulgarmente jovem, a Joana confidenciou-me ( espero não cometer inconfidência) vazio. Reinterpretar e traduzir para a nossa linguagem, a incerteza da vida, o reverberar da nossa condição humana e solitária, a angústia de procurar na comunicação o conforto, a casa, a mãe, a terra e a finalidade, é difícil, quando o ambiente e a palavra são, apenas e só, a transição ou a ponte para o indizível. Por isso, para ti Joana e para todas(os) as Joanas transcrevo outro poema:

Vertigem
somos tão novos e estamos tão perdidos, o teu silêncio
dentro do grito das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.

José Luís Peixoto, A casa, A escuridão, Temas e Debates;

Tudo é possível. (dentro do livro está um marcador com um desenho de Eduardo Chillida, outro modo de viver a eternidade)

José Luís Peixoto ii.

mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no teu colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são todas as estrelas que existem.
(José Luís Peixoto in A Casa, a Escuridão)

José Luís Peixoto

Há inigmas. Às vezes vivo tanto algumas coisas que elas passam a existir. Li um livro de poemas de José Luís Peixoto. Li poemas em voz alta para que outros os ouvissem também. Aquele sobre as estrelas, o outro, mínimo, sobre a mãe ... e agora procuro-o e não encontro o livro. Não está na minha base de dados. Tinha o livro? Li o livro? Dei o livro?
Amanhã ele estará em Santo Tirso e eu estarei lá, para além do livro.
“Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança, o desencanto.”
José Luís Peixoto; Antídoto; Temas e Debates

Monday, January 23, 2006

Eleições

Agora que o mundo vai pensar que nós somos um país de androides, a julgar pelo nosso representante máximo, que para além de querer que todos os portugueses sejam muito felizes, sabe comer bolo rei com a boca bem aberta, penso sucessivamente em fazer um programa extensivo de erasmus, de muitos anos. Ontem, foi mau, muito mau. Sem dramatizar, nestes próximos anos, não terei grande orgulho em ser portuguesa, infelizmente.

Sunday, January 22, 2006

Domingo de eleições

As eleições estiveram quase ausentes deste espaço. A não ser quando o extraterrestre anunciou a sua candidatura. Extraterrestre, andróide, Kanibal Tabaco Silva… Qualquer nome será bom demais para o provável futuro presidente.
Vamos sair para votar, todos contra Cavaco. Gostaríamos de ter uma surpresa.
A minha indecisão resolver-se-á lá, no cacifo de voto. Falta ainda saber se a pergunta “ Quem queres ter na segunda volta?” vai fazer algum sentido no momento. Votar em consciência também é difícil porque nenhum daqueles cinco homens me pode representar.
Saudades de Jorge Sampaio.

Friday, January 20, 2006

Swing

“O swing é um modo de vida, mais do que um modo de contornar o tempo. Quem me está a ouvir tem swing.”
José Duarte no programa Jazz com Brancas, antena 2.
Então eu tenho swing. Vá-se lá saber como e onde.

Wednesday, January 18, 2006

um bom sinal

“A pediatra socialista Michelle Bachelet venceu este domingo, com maioria absoluta, as eleições presidenciais do Chile tornando-se também a primeira mulher a ser eleita para o cargo naquele pais. O seu opositor, Sebastian Pinera, ficou a sete pontos de Bachelet.”

Já ontem queria fazer esta referência. Não tive oportunidade. Mas chega hoje e nunca tarde. Na europa do norte e do leste existem algumas mulheres nos cargos mais altos. Na europa do sul não. Comentávamos na mesa da cantina, se é por os homens serem machistas nas sociedades mediterrânicas. Concluíamos, na mesma mesa, que não são só os homens que são machistas as mulheres também o são, porque:
· Para nos impormos fazemos o papel de super mulheres: o do trabalho, o de casa, o de mães;
· Deixamos que os homens nos continuem a tratar como menores;
· Deixamos que os homens vivam plenamente as suas responsabilidades e ambições profissionais, continuando sempre a cobrir as suas retaguardas;
· Até achamos isso bem e natural: não somos iguais somos diferentes. Mas esta "diferença" mascara muitas sujeições.

Michelle Bachelet, veremos se um bom exemplo, ou se mais uma mulher/ homem. Não o creio, acho que vamos ter um bom exemplo.

Monday, January 16, 2006

Depoimento

Depoimento
Para uma aula na Escola Superior de Belas Artes do Porto (21.05.1980)

Eu sei, eu sei
sim eu sei. Sei-o agora e já há muito tempo o sabia.
Sim, sei, sei isso.
Mas eu sei isso e também sei o contrário.
E é tão difícil saber isso e saber o contrário.
Sim, eu sei
eu sei que a Terra terá cinco milhões de anos
eu sei que a Vida terá mil milhões de anos
eu sei que a “pequena” distância da Terra à Lua anda aproximadamente pelos 400 000 Kilómetros.
Eu sei, sim eu sei
eu sei que tenho apenas 56 anos de idade, 1,65m de alto e um passo de 70 centímetros.
Sim eu sei,
mas sei também
que a praia ficará diferente se eu lhe roubar um grão de areia
eu sei
que o mar não será o mesmo se eu lhe chorar uma lágrima
eu sei
que o Universo se altera quando respiro ou mesmo quando penso.
Sei, eu sei, eu sei que venho de longe e vou para longe
sei que não estou apenas aqui mas em muito lado, sei que não vivo “apenas” o tempo que vivo.
Sei que o infinitamente grande é tão infinito como o infinitamente pequeno.
Eu sei e sei mais e muito mais.
Sei que não sou excepção.
Sei que sou como todos os homens
os que nasceram e os que morreram
os que hão-de nascer para morrer.
Eu sei que entre mim e os outros há uma eterna e indissolúvel união.
E que os outros precisam de mim, tanto quanto eu deles necessito.
Eu sei que é este saber-mo-nos infinitamente grandes por sermos infinitamente pequenos que constitui
a paixão pela vida.
Eu sei, sim eu sei.
E é sobre esta Vida de paixão que tem sido a minha que vou falar.
Com ironia, com tristeza, por vezes com rancor, mas sempre, sempre com paixão.
Há anos pensei um pensamento para gravar numa porta que ofereci, simbolicamente, para a casa de uns amigos.
Esse pensamento pensava simplesmente: faz de cada um momento uma Vida.
Ofereci a porta mas não gravei o pensamento.
Gravei-o na memória e procuro praticá-lo no quotidiano.
E é essa paixão pela Vida que quero apaixonadamente transmitir. Porque não vive quem não mergulha permanentemente e apaixonadamente na paixão da Vida.
Eu sei, sim eu sei.
Eu sei.


Fernando Távora
Agenda da Câmara Municipal de Matosinhos uma homenagem ao arquitecto Fernando Távora, 2006

Saturday, January 14, 2006

excentricidade

Lembro-me recorrentemente de uma entrevista com Miguel de Sousa Tavares em que ele referenciava a sua mãe, Sophia, como um sopro de excentricidade que lhes alimentava a alma. Falava disso com amor e admiração, como se esse fosse o papel mais completo e pleno de uma mãe.
Conquistar o direito a uma vida própria e sedutora para os filhos, luz que abre caminhos não percorridos e não sabidos, para além de todas as tarefas quotidianas e socialmente correctas, é um desafio. Porta para uma identidade, que ultrapassa a meta única de ser mãe. Certeza de que a vida continua para além daqueles que realmente criamos através do acto biológico da procriação. Por isso rejeito visceralmente máximas que dizem “ Se não fizer mais nada já cumpri o meu dever” ao olhar para os meus filhos bonitos, inteligentes e justos.
O meu dever, o nosso dever é de todos os dias criarmos futuro, o Nosso, e termos como dizia João Ferrão, hoje, aqui e agora “Saudades do futuro”. “A vida é dura e mais dura é a razão que a sustém”.

Friday, January 13, 2006

Um excerto de Proust

... sobre esse estado, ou outro parecido com esse.

"De entre todos os modos de produção do amor, de entre todos os agentes de disseminação do mal sagrado, efectivamente este grande sopro de agitação que por vezes passa sobre nós é um dos mais eficazes. Então está a sorte lançada, o ser com quem nos recreamos em determinado momento é o que iremos amar. E nem sequer é preciso que nos tenha agradado até então mais ou tanto como outros. O que é necessário é que o nosso gosto por ele se torne exclusivo. E essa condição é realizada quando – nesse momento em que ele nos fez falta – a busca dos prazeres que o seu encanto nos dava foi bruscamente substituída em nós por uma necessidade ansiosa, que tem por objecto aquele mesmo ser, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam impossível de satisfazer e difícil de curar – a necessidade insensata e dolorosa de o possuir."

Em "Em busca do tempo perdido (Volume I) - Do lado de Swan", Pág. 245, Edição Relógio de Água

Thursday, January 12, 2006

Desculpas

A minha vida não anda facilitada: exames e projectos. Por isto, peço desculpa pela falta de actualizações. Prometo escrever sobre Nova Iorque, A Noiva Cadáver, de Tim Burton, e uns cds, mas por enquanto não contem com nada. Fora isso, estou apaixonada. E sabe bem, maior parte do tempo.

Monday, January 09, 2006

história e identidade

Alinhamento musical: Vivaldi, Arvo Pärte
Espaço: Uma sala aberta para o pátio/jardim
Tempo: Parado/suspenso
Contexto: Um almoço simples e um bom vinho
Conteúdo: Uma conversa sobre identidade
Causas próximas: a leitura de "Dimensão Oculta" de Edward T. Hall e viagem a Nova Iorque

Porque é que nós portugueses vivemos sempre a pedir desculpa, com um misto de complexo de inferioridade e de nostalgia do passado, da era dos descobrimentos?
Pergunto muitas vezes porque é que os programas de história no 4º ano, no 5º, no 6º, no 7º e no 8º anos do ensino básico (falta-me ver se no nono também), são sempre à volta dos descobrimentos? E sobre os descobrimentos, a perspectiva é sempre a de um povo empreendedor e conquistador?
Tenho para mim que o mais importante da nossa história dessa época, é a capacidade de aculturação, de perceber por dentro as civilizações que abordamos e de com elas nos misturarmos. Ao contrário dos espanhóis que impuseram pela violência o domínio da sua cultura, os portugueses, ficaram, estabeleceram laços, integraram. Mas essa é a perspectiva menos valorizada no ensino comum da história. Dá-mos sempre mais importância a um Afonso de Albuquerque, que na Índia dominou pela força.
Hoje Portugal acolhe povos de muitas origens, desde África, América do Sul, ao Leste Europeu. Não me parece contudo, que tenhamos hoje essa capacidade histórica, que outrora nos caracterizou, de saber aprender e integrar outras culturas. Ontem via na televisão uma reportagem sobre o Natal dos ucranianos, com manifestações de repercussão pública, que mais pareciam folclore do que vontade de apreender e aculturar. Mas esta capacidade de integrar exige uma consciência de identidade e de orgulho próprio que definitivamente não temos. Porque não temos consciência de povo, não sabemos de história, da nossa história e não nos reconhecemos. Estamos sempre mais preocupados com o vizinho do lado do que com o nosso lugar no mundo. Outro dia, Jorge Gaspar, dizia que não percebia porque é que o Porto queria rivalizar com Vigo, estando sempre preocupado com dominar o eixo atlântico, quando, como região, devia era preocupar-se com o seu lugar na Europa.
Esta reflexão decorre da viagem, não com o objectivo da fuga, mas como um modo de regresso, de retorno ao nosso interior, à nossa identidade.

Saturday, January 07, 2006

eternidade presente

Na nossa cultura ocidental somos escravos do tempo. Temos medo de não ter tempo. Fazemos programas para gerir o tempo. Vivemos o imediato e no imediato, sem perceber que tudo tem o seu tempo. “ Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje” porque temos que estar sempre preparados para a morte. Inventamos maneiras de matar o tempo. As parábolas bíblicas ensinam-nos que temos que estar vigilantes, como virgens de lamparinas acesas, porque o Senhor e o dia do juízo, podem chegar a qualquer hora. Ao contrário, a natureza ensina-nos que há um tempo linear e irreversível: tempo de preparar a terra, de semear e de colher.
Quando tudo se desenrola num tempo assustadoramente acelerado, como outro dia reflectia neste espaço, julgo que o nosso papel como educadores e como seres que querem estar vivos, é o de conquistar tempo ao tempo. Saber esperar, encontrar o momento oportuno para criar, para dizer, para dar, para ter, é o desafio que se põe. Resistir ao impulso de conquistar o tempo no momento, para que o momento transcenda o tempo e se torne eternidade presente.

Friday, January 06, 2006

Ressaca II

Como gosto das viagens nos dias seguintes. Como gosto de reviver lugares e sensações doutro modo, de cá para lá, no que ficou por cumprir e que agora revivo em memórias inventadas. Viajar é preciso. Refazê-lo é-me essencial.

Thursday, January 05, 2006

Ressaca

Da primeira vez que estive em New York vinha de Chicago. Ao longo destes cinco anos relembrei Chicago como “a cidade”, com boa arquitectura, organizada, calma e muito bonita. De New York guardei uma ideia indistinta, de mistura, de vida, de confusão.
A minha visão da cidade alterou-se nesta segunda visita. Esta alteração não se operou sobre a visão exterior que tinha da cidade: ela conquistou-me e como raras vezes tive pena de regressar. Estranho, porque quando cheguei senti desconforto e perguntei-me como é que eu vou aturar isto seis dias? Sinto que ficaram coisas por fazer mais do que por ver, porque Manhattan, sob ponto de vista do turista não é difícil de ver. A geometria e métrica das cidades americanas facilita a vida aos turistas, que percorrem por cima cada rua, cada avenida, cada loja, como que debicando sem saborear as diferenças de paladar.
Desta vez o Pedro fez um magnífico trabalho de compilação de lojas e espaços temáticos que eu completei com a definição de percursos que procuraram mostrar-lhes a cidade nas suas diferenças. A chuva e a neve não permitiram a conclusão do programa mas deram um gosto especial (sobretudo a neve no último dia do ano).
Como vou fazer para regressar a New York e: perder-me em Greenwich Vilage; sentar-me a ouvir no Blue Note; voltar ao Witney Museum; saborear o Harlem; experimentar as comidas coreanas, japonesas e turcas; jantar nos acolhedores restaurantes italianos da down town; e reconhecer a partir de dentro a história urbana da cidade?

Tuesday, January 03, 2006

2º prato


Madison Square Garden
(New York Knicks vs. Phoenix Suns)
2 de Janeiro de 2006

Sunday, January 01, 2006

impressões

É muito difícil falar de qualquer coisa quando estamos dentro dela. Se estes USA são muito diferentes dos que experimentei há cinco anos, julgo que não. Recordo apenas que não sinto a influência hispânica que senti em 2000.

Estando aqui agora uma ideia vêm-me sempre à cabeça: os extremos tocam-se. Uma cidade de altura e densidade e uma cidade de espaço. As distâncias são imensas e os vazios contam-se em milhares de passos que se desenrolam automaticamente avenidas fora. As pessoas amontoam-se e não nos olham nos olhos. Quando o fazem é para usarem um sorriso cínico de censura perante algum lapso interpretativo de quem não entende este “novo mundo”. A ostentação toca na miséria e ao mesmo tempo tudo se mistura.

Mas o que é certo é que os USA conquistaram o mundo, sobretudo para os mais novos. Aqui apercebi-me que as referências do Pedro são as da NBA, da NBC, ... e que tudo lhe é familiar. Sentem-se em casa na língua, nas referências, nos heróis, esperemos que não na cultura e na identidade.

Saturday, December 31, 2005

1º Prato


(MoMA; 30 de Dezembro de 2005)

Friday, December 30, 2005

Entrada



Aperitivo


(post feito num quarto da 31st street)

Wednesday, December 28, 2005

Até lá

Agora estamos mesmo de partida. Para a eventualidade de não conseguirmos dar notícias de Nova Iorque, só dentro de oito dias estaremos de volta. Espero que, com novidades, estórias para contar e outras que serão contadas, ou não, pela vida fora. Espera-nos um dia comprido, vamos conquistar cinco horas que devolveremos no regresso. Não há volta a dar.

Tuesday, December 27, 2005

Sempre de partida

Estranhamente calma e de férias. Aproxima-se o dia da viagem. Não tenho medo de andar de avião, ainda que a ideia de que durante horas estaremos sobre o atlântico me faça sempre alguma espécie. Quando fui ao Perú era não só o Atlântico mas também a floresta amazónica, um outro mar verde e impenetrável.
Não preparo a ida para além do essencial e também não arrumo nada do que fica. Porque a vida é sempre uma permanente viagem e cada lugar deve estar sempre pronto para deixar. O que nos custa é esta consciência de que tudo é efémero por mais essencial que se afigure no nosso presente. Mais do que as coisas os sentimentos. Um sentimento que hoje sentimos vital amanhã pode apenas ser uma recordação, sem qualquer dor ou mágoa. Mas hoje pensar nisso dói, uma dor por antecipação da perda, que provavelmente nunca se terá. Uma dor por pensar que pode até nem doer. Uma dor do futuro.
Um modo de tomar consciência da nossa insignificância.

Saturday, December 24, 2005

Desejo de Natal

À Avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.

No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se era para voltar a sentir o quante do teu colo.

Maria do Rosário Pedreira
em "Natal...Natais"
Oito séculos de Poesia sobre o Natal
Antologia de Vasco Graça Moura

Friday, December 23, 2005

Tardio Advento

Cheguei finalmente ao Natal.
As velas do Advento continuam por acender. Não fez sentido.
As prendas, compradas por empreitada. Agora vou compô-las. Respigar.
Este é o verdadeiro trabalho de Natal. Escolher o que faz sentido, juntar, redistribuir, para voltar a dar. Dar.
A família está novamente junta. Soube-me especialmente bem rever a Joana e estar com ela, excessivamente constipada e com saudades, já, de Aveiro, bom sinal.
Hoje começa o meu Natal. As lembranças de um ano cheio de mudanças que eu compilo, a partir deste momento, em alguns dias que auguro felizes.
Para todos.

Wednesday, December 21, 2005

Amanhecer

O título fui eu que dei.
Deixo este pequeno poema, leve e juvenil, cuja autora é uma recente descoberta nossa.
Na impossibilidade de o publicar ao amanhecer, faço-o no início da noite.


As luzes pestanejam
Verde, azul, vermelho
Beijam o vidro.

Eu arregalo os pés
Acordo os braços
Enquanto o dia boceja.

Olívia Rosmaninho

Sunday, December 18, 2005

Há dias

…que ultrapassam as barreiras do tempo e se prolongam no máximo da vivência. Conversas que se desfiam com diferentes personagens que igualmente me desafiam para o infinito. Um tema, um facto, uma pessoa, uma coincidência. Há catorze anos nasceu o Pedro. O Pedro é muito inteligente. Conversa connosco qualquer coisa e desafia-nos. Respeita a nossa individualidade… e provoca-nos, entende-nos na nossa sede de conhecer.
O João, aqui ao lado navega por Time Square, onde estaremos daqui por catorze dias.
Há pouco, em conversa de pós-jantar, concluíamos que a chave para ultrapassar a barreira do tempo e do espaço está na comunicação. Cada vez o tempo é maior, infinitamente grande porque cada vez é mais pequeno, infinitamente pequeno, porque mais denso. Hoje um ano corresponde a um século de umas décadas atrás. Com o Francisquinho, há uma semana, falava disso mesmo, ao recordar o Perú, em que a falta de comunicação, isolou séculos e parou-os no tempo.
O espaço é cada vez maior, porque cada vez mais pequeno, também. A velocidade, que desafia o tempo no espaço, já não é vivivel para um humano. O João dizia-me que as velocidades possíveis na fórmula um são impraticáveis porque um humano desmaia se as experimentar. Ontem, eu e o Zé, concluíamos que o presente não existe, porque o tempo se ultrapassa a ele mesmo, em cada instante. E também que o vazio é fundamento da matéria. Hoje eu e a Emília líamos a vida no presente, passado, futuro.
A ficção científica de ontem é hoje passado.
Existimos? Ou talvez não.

Friday, December 16, 2005

Agradecimento

"É uma actividade fascinante, esta, a que se entregam algumas almas mais melindrosas.
Toda esta perseverança e diligência, este comércio inocente e magnífico de figurações e símbolos, este ritmo nascido de mãos cheias de memória, talvez seja tão-só magia sem segredo, um reverenciar uma divindade de que até o nome já se esqueceu, uma nostalgia de coisas elementares sem mácula. Talvez… Seja como for, é perturbante que um homem em certas horas, e não das menos sombrias, se empenhe até alucinação em recriar umas frágeis raízes que o mar deu à costa, pedras de um rosa delicado, folhas onde o oiro da manhã se refugiou, pálpebras ainda com restos de sono." (…) e Eugénio de Andrade continua em “Tudo é só um puro dizer no tempo” a desfolhar sentidos e a evocar almas de homens que nos oferecem a paz, a luz, ultrapassando o tempo. Ele e outros, outros por ele, às vezes têm o dom mágico de nos transportar para este estado de pura harmonia, indizível e intemporal que, porque vivido uma vez, nos atingiu o coração.

Wednesday, December 14, 2005

Publicidade

Ora desculpem. É só para dizer que a mais velha deste blog, amanhã fica um bocadinho mais nova. Como não tem jeito para a composição gráfica digital, desafia a mais nova a fazer uma composição. Apela ao seu bom gosto e à sua imaginação…e espera ansiosamente que ela, a mais nova, leia este post. Seria bom sinal, depois de tantos dias arredadas e evasivas. Mas…alguns saberão...que para já não é sinal de desistência, apenas de outras confusões ou ilusões.

Sunday, December 04, 2005

ruínas

Hoje, numa festa de família alargada, reencontrei os meus tios e primos que já não via há muito. Fez-me pensar.
Reencontrei-os no passado e não os reconheci no presente. Quebrei laços e com isso perdi um pedaço de história. Isso não me preocupa minimamente nem me faz sentir mal. Só que faltavam lá pessoas, as pessoas do passado que faziam parte da essencialidade daquele quadro. Sem elas o quadro não é o mesmo. Por isso tive saudades dos meus avós, muitas saudades. A continuidade da relação teria permitido a substituição: os avós morrem e são substituídos pelos pais, para que o tecido se reajuste e remende os buracos que se sucedem ao desaparecimento. No meu caso os buracos continuam lá, bem visíveis, bem presentes, ainda bem. Não preciso de fotografias para os lembrar. Basta-me o quadro desfeito desta existência.
Porque temos sempre a necessidade de substituir para recompormos o nosso quadro afectivo? Porque lidamos mal com a ausência? Porque inventamos outros destinos para os que desaparecem? A nossa tradição cristã empurra-nos para a ilusão de uma outra vida para que os mortos não morram e para apaziguarmos a nossa pouca aptidão para lidarmos com o nosso certo destino.
Isto leva-me a um texto de Henry Miller, sobre a ruína e o modo de com ela lidarmos:

“Um dos fascínios das ruínas é que sugerem ou revelam sempre a configuração original ou, por outras palavras, a intenção. No meio da maior devastação temos a certeza de encontrar pedaços isolados de perfeição: um arco, um pilar, uma cúpula, um pedaço de pavimento. O trabalho de restauro não só dissipa o charme e o mistério como produz o efeito, um simulacro, de rigor mortis. Nunca nada parece o que foi. O tempo é o mestre apaixonado da decomposição. A criação e a destruição são gémeas, como o foram o amor e a justiça.”

Viagem a uma terra antiga, in Viragem aos oitenta; Henry Miller; Editora Fenda; Lisboa 1999

Friday, December 02, 2005

SIDA


Não quero fazer grandes comentários, é apenas isto. Um grave problema inter-geracional.

Magnífico feriado

Em casa dos meus pais, estes eram os melhores feriados: feriados sem missa.Aqui em casa, esta particularidade não faz qualquer sentido, porque todos os feriados são sem missa.
No entanto este foi um excelente feriado. Fiz tudo o que gosto: li, fui ao ginásio, tomei um óptimo banho a seguir, fiz o almoço calmamente, ouvi música, trabalhei.
O almoço merece destaque. Contra o costume, em dias como este, decidi fazer almoço. Sentamo-nos os quatro à mesa, conversamos, rimos, divertimo-nos. Como foi diferente de quando comemos apenas “qualquer coisa” informal e rapidamente! Comer, independentemente da qualidade e da quantidade, é um acto social e contribui mesmo para comuniquemos.
Isto não é sempre assim tão harmonioso. Às vezes a mesa é local de conflito, de discussão, de não entendimento. Mesmo assim lugar de fundamental para o nosso equilíbrio e crescimento conjunto.
E se juntarmos um copo de um bom vinho tanto melhor.

Tuesday, November 29, 2005

Beleza e Comunicação

Hoje estava a ouvir o Ritornello na antena 2 e o Jorge Rodrigues pedia a um compositor, de que não me lembro o nome, que explicasse a música que seguidamente ouviríamos. Ele disse que não o fazia, porque se a música não fosse capaz de se explicar por si mesma, então tinha falhado.
Lembrei-me de um pequeno e delicioso texto que li ontem, de Gao Xingjian, todo ele intenso de conteúdo e sentido. Escolho no entanto uma passagem que tem tudo a ver com o que diz o compositor.
“ Suprimir el sentimiento estético individual en provecho de explicaciones no contribuye en nada al desarrollo de la individualidad en la creación artística, pues, en ese caso el individuo se hunde en el último concepto artístico de moda. Desde el momento en que el artista intenta ser el primero en expresar la voz de su época, en hablar de su época, debe recurrir al lenguaje más común, pero cuanto más común es el lenguaje, más vacío resulta. Entonces el discurso non tiene nada de novo que expresar, solo tiene una apariencia de discurso.”

"La belleza está en el instante"; Gao Xingjian; Em "Por outra estética seguido de relexiones sobre la pintura"; El Cobre Ediciones, S.L. ; España 2004

Sunday, November 27, 2005

O Fiel Jardineiro- notas sobre o filme

Fui à procura do meu lugar em África. Aquele lugar quente, feito de luz dourada onde, para além do essencial, só existe lixo. Percebi que o lixo é o nosso, o do mundo desenvolvido, exportado para África por interesse e pretenso altruísmo. Já o sabia. O Pedro saiu do filme e perguntou-me: Mãe, isto é mesmo assim?
A leitura que faço para mim, não é tão benevolente: A verdade da vida não é tão clara, a divisão do mundo entre bons e maus, parece-me aqui demasiado linear. Tessa, um anjo; Justin um amante, no sentido em que o amor dá força e sentido a tudo, até à própria morte. Ele vai ao encontro dela deliberadamente, prepara-a continuando o projecto que ela deixara inacabado, redimindo-se das suas pequenas infidelidades a Tessa.
Por outro lado a construção da narrativa, interessante e capaz de nos prender, possui alguns ruídos que nos desviam a atenção, prejudicando a leitura do encadeamento dos factos que constituem o triller, que adensam a estória, mas que lhe retiram força.
Encontrei o meu lugar em África, bem no seu interior, onde nada existe para além das pessoas, com insignificantes roupas que as protegem, fome, doença e o lixo exportado do mundo global (neste caso medicamentos fora de validade e novas drogas para teste) para ajudar este outro mundo global que é África.

Delírio de mar e pátria.


Temos andado a correr para o Museu Marítimo de Ílhavo, duas vezes por semana, à custa de um projecto acerca da pesca do bacalhau. Sinto uma proximidade às ondas, ao mar, às redes, à pesca, ao trabalho árduo quase comparável às directas. Sinto uma proximidade à vida solitária do pescador sozinho no seu dory. E uma proximidade à nossa tradição, à nossa nação. É pá, desculpem, é do sono. Não durmo desde as 9.30 de ontem. São 7.24. Mas isto é uma bela fotografia, se é!

Wednesday, November 23, 2005

Os passarinhos

O Pedro tem quatro passarinhos numa gaiola, daqueles que lhe deu o Sr. Albino. Dois bengalins e dois mandarins. Estão na cozinha enquanto não lhes arranjo novo poiso. São muito vivos e brincalhões. Mas também são muito porquinhos, sujam tudo à sua volta.
Hoje depois de jantar, já tarde, estava na cozinha a tomar café e a observar os passarinhos… a namorar. A namorar no Outono. O bengalim macho com a bengalim fêmea e o mandarim macho com a mandarim fêmea. Não se misturam. Encostam as cabeças e “beijam-se” com os biquinhos duros. Os dos mandarins são vermelhos e os dos bengalins escuros. À noite juntam-se todos em linha no poleiro, nunca intercalados – dois bengalins e dois mandarins, mas os quatro completamente encostados. Encolhem as cabeças nas penas e adormecem. A graça deles advém da sua vitalidade e dos movimentos muito entrecortados e frenéticos. Piam só. Um piar grave, mas sonoro.
Mas certo, certo, é que namoram no Outono.

Monday, November 21, 2005

Outra lógica

Acabei de ler os jornais de fim de semana. Algumas notícias misturam-se na minha cabeça. Cabo Verde, Brasil, AMI, Banco Alimentar Contra Fome, minorias, colapso da economia mundial,…. Lógicas que precisam de uma outra lógica que não a da desregulação. Essa outra lógica que cresce nos contra-poderes que surgem, também eles, às vezes já ameaçados pela do poder. Mas isso não nos pode fazer desacreditar das nossas qualidades humanas. São sinais de contra-poder a recuperação dos excedentes alimentares recusados pela economia de mercado para a confecção de alimentos cuja venda revertem a favor do Banco Alimentar contra a Fome, como o são as iniciativas da AMI, transformando imaginação em solidariedade.
Mas porque é que esta lógica, que deveria ser a lógica da vida, é hoje, como ontem, uma lógica de contra-poder? Parece evidente, para qualquer mente saudável, que não faz qualquer sentido deitar fora alimentos quando há milhões a morrer à fome. Não me esqueço da bem conseguida imagem do Live Aid, quando puseram a multidão a estalar os dedos de três em três segundos, significando cada estalar uma pessoa a morrer à fome. Em cada três segundos morre uma pessoa à fome! E não me venham com discursos de globalização da economia mundial, de garantias de preços de mercado ou de cotas, ou de qualquer outra coisa.
Reivindico a minha ingenuidade, os meus sonhos de ser missionária, a minha condição de humanista outsider, para relembrar à Joana e ao Pedro e a muitas Joanas e Pedros de qualquer idade, que o mundo não é só aquele que lhes é dado viver. É preciso ver mais longe e sobretudo ambicionar ser solidário a qualquer preço.

Friday, November 18, 2005

E mais um poema

Estas sombras que nos encaixam
Em paredes, em pedaços,
Turvam-nos os dias em horas
De amarguras, de demoras.

Estas sombras que morrem
Sobre os sonhos dos que dormem
E o mundo não recolhe.
Só mente, só acolhe.


Olívia Rosmaninho

(É que, ao que parece, hoje é mais um dia com uma noite mal dormida e muito trabalho para fazer, enfim.)

confidências

A partir de segunda-feira estarei noutro lugar.
A disponibilidade a mesma. O lugar sabido. Convoquem-me sempre.
Essa será a circunstância da minha vida…de resto contínuo, como sabem, a mesma.
Sonhadora, romântica, efabuladora, mas sempre com muitos por perto.
Este tom épico, não vem só da Íliada que leio com gosto…mas de mim que exaltada e confiante continuo a acreditar que o que nos move é o amor e a confiança de que não somos indiferentes.

Thursday, November 17, 2005

Balanço

Desculpem o desmazelo. Não é preguiça, apenas impossibilidade física. Incapacidade de lidar com o tempo material. Para quem, como eu, sempre defendeu a verticalidade do tempo, e por isso o tempo infinito, esta situação é imperdoável ou, no mínimo, enganadora. Infidelidade.
Como também ainda não tenho certeza da importância deste espaço para outros, sinto que posso ceder a outras paixões e esquecer este lugar. Por outro lado acredito-o como uma ponte que nos leva para universos insuspeitáveis.
Digam de vossa justiça.

Monday, November 14, 2005

exactamente

Encontrei este poema de Torga no "Dias com árvores". Não sei o título, não estava lá. Vou procurá-lo. Não gosto desta falta de rigor, desta maneira de se usarem as palavras dos outros sem correctamente as referenciar. Mas hoje dão-me jeito e por isso transcrevi o poema na forma em que o li, ali.

Tarde triste.
É o Outono doente que começa.
Cada folha parece que tem pressa
De morrer.
Madura e fatigada, a natureza,
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.

E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar,
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dei na Primavera.

Miguel Torga, Diário XIV, 1984

Thursday, November 10, 2005

...não é só arquitectura

No fim de semana passado li um testemunho de Júlio Machado Vaz na revista Linha que acompanha a edição do Expresso que me tocou. Ele transcreveu-o no seu blog, com o título"Agradecimento mais do que mercido". Sugiro que o leiam. Se tiverem a revista podem perceber um pouco mais.
Eu vou de fim-de-semana, sem Internet. Saboreiem bem o texto.

Wednesday, November 09, 2005

Maria do Céu Guerra na Fábrica

Foi com surpresa que me deparei, Segunda, dia 7 de Novembro, numa das paredes do meu Departamento, na Universidade de Aveiro, com um cartaz acerca de um Ciclo de Poesia, sobre os 4 Elementos, na cidade de Aveiro. Logo, os meus olhos deslizaram um pouco mais e encontraram um nome conhecido: Maria do Céu Guerra.

Assim, nesse mesmo dia, às nove e trinta da noite, caminhei até à Fábrica, com a Helena e o Daniel “caladinho”. No caminho, ainda me cruzei com a Carolina, que vinha da print-shop, com o último projecto que nos foi proposto impresso. Dei-lhe a opinião que ela queria ouvir. Quando cheguei à Fábrica já a Maria do Céu se movia e contava poemas, deixando que eles se mexessem no seu corpo, que o tomassem, que o moldassem. Desde logo, achei-lhe a voz muito mais bonita, muito mais grave, muito mais sincera. A telivisão estraga as pessoas, torna-as pouco intensas. Seríamos quarenta na sala? Logo passei para a fila da frente, para que ela me fitasse os olhos em alguns versos, para eu não perder os pormenores dos movimentos. Quarenta com o mesmo gosto, a mesma entrega? Fiquei meia hora a conversar com ela, no fim. Tem uns olhos que parecem o mar. Quarenta a ver na poesia a única salvação? Quero deixar tudo. Deixar tudo pela Poesia. E por isso já mandei um email. O princípio.

Tuesday, November 08, 2005

De Sophia

Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços
Como se de novo fosse criada cada coisa.

Sophia de Mello Breyner
Arte poética

Declaração

Continuo a querer os mesmos amigos, as mesmas conversas, os mesmos cafés, as mesmas rotinas. Se elas se mudarem é porque nós, eu convosco, já não precisamos delas, sem drama, sem dor. Continuo a acreditar nos mesmos projectos e a combater militantemente por eles. Eles que são: realizar-me como arquitecta que faz arquitectura pondo os Arquitectos a fazer Arquitectura; realizar-me como arquitecta enquanto divulgadora de uma profissão e de um modo de a exercer com paixão; realizar-me como mulher que acredita na condição feminina, com especificidade e com igualdade de oportunidades; realizar-me como educadora, que acredita na juventude responsável e sem preconceitos raciais, religiosos, sexuais. Que combata a pobreza e a discriminação e que assuma uma postura de vida que assenta na dádiva sem retorno. O único retorno, será porventura o da amizade ou o de percepção de que pela nossa acção alguma coisa mudou para melhor. Mesmo assim teremos que ter humildade para aceitar que a nossa vontade e a nossa crença pode ser vã. A verdade não é única. Verdade/valor universal é apenas o respeito pela dignidade de cada homem.
Concluir que uma alteração circunstancial modifica relações fundamentais não era, até hoje, para mim evidência. Não estou disposta a aceitá-lo a não ser pela liberdade de esquecer aquilo que ingenuamente julgava verdadeiro.

Sunday, November 06, 2005

Sábado sempre

Sábado, Sábado, Sábado…
Cá em casa cabe música, cabe diálogo, cabe…
Cá em casa quase não cabemos nós.
Mas cabe trabalho, jantar (fazer jantar) leitura.
Cabe natureza, folhas, orvalho, cor de Outono.
Cabe a angústia da segunda-feira também.
A certeza de que o sábado não cabe na segunda-feira.
A angústia de que vou subir aquela escada para um mundo que não entendo.
…e onde suspeito não vou poder descobrir o meu canto…
O meu sábado. O ilusório real.

( A Joana está copiosamente bonita. Rosada. Os olhos negros e vivos. O som do teclado do computador, a duas, mistura-se. A boca é uma flor. Ela é a Joana eu, a sua mãe. A música de fundo - Ryuchi Sakamoto)

Alberto Carneiro em tinta vermelha


Alberto Carneiro de volta às nossas manhãs de fim de semana. Homemade Conceptual Art, baby! Hoje, eu, a mãe e o Pedro saímos para encontrar a Natureza e manchá-la, infelizmente. Encontrámos quedas de água e rios, àrvores e fungos, pedras e folhas e, nisto tudo, uma bela manhã de Outono. Senhor Francisco Providência, se por acaso ler isto, pode bater-me na terça, que eu não me importo!

Friday, November 04, 2005

Para viver é preciso namorar a vida.

Para viver é preciso namorar a vida.
Por favor arranje um amante.
Durar é ter medo de viver. É trocar o hoje pelo incerto amanhã.


Frases soltas que retirei de conversas em programa de rádio ao sábado à tarde.

Que significado tem para mim? Muito.
Quantas vezes hipotecamos a vida presente por um amanhã supostamente melhor? Faz-me lembrar, aquela imagem recorrente, dos que tem por objectivo ganhar dinheiro que não tem tempo para gastar. Trabalhar por gosto é viver. Praticar desporto por gosto é viver. Namorar a vida é encontrar gosto a cada passo, é descobrir encanto nas coisas mais simples, é ser capaz de contemplar. Mais importante do que tentar adiar a morte é viver.
A ideia de vida eterna é markting. Sob a ideia de qualidade de vida vende-se imagem, corpos belos e saudáveis, iguais, indefinidamente e por muitos anos. O corpo não se transforma, envelhece e mantém-se jovem. Luta-se exaustivamente contra as rugas, contra a flacidez, contra o cabelo branco, contra ….Fazem-se sacrifícios imensos e compram-se hipóteses. Põem-nos uns óculos que só deixam ver beleza na juventude e na perfeição do modelo esteticamente convencionado. Os mesmos óculos que ficcionam a vida e a transformam em imagem de telenovela: praias idílicas de mar azul turquesa, palmeiras e bebidas espirituosas, claro que com a melhor companhia, quente e bronzeada deitada ao nosso lado ou nas suas melhores brincadeiras fogosas.

Viver hoje não é ficção. Comprar a beleza eterna é um logro. Entender que a beleza é eterna é sabedoria e saber vê-la sempre, a minha ambição.

Wednesday, November 02, 2005

Sophia & a poesia

É possível que esta maneira esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir.

Sophia, extracto de
arte poética iv

***

Consigo imaginá-la, uma miúda quieta num canto, tão nova e já a ver a música das coisas. Com poemas a cairem-lhe nos ouvidos, para ela os escrever. A verdade é que a poesia paira no ar e basta-nos estar atentos para agarrá-la. Às vezes, agarra-se com uma fotografia, outras vezes com a memória, às vezes é um desenho, umas frases, às vezes agarra-se a poesia com um poema. Mas poucos agarraram os momentos como a Sophia.

(este post é para a Susana, que ouve a poesia suspensa no ar.*)

Monday, October 31, 2005

Outono [parte 2]


No Outono, que começa com tigelas de marmelada, nós sentamo-nos tardes inteiras a trabalhar, na mesa da sala, enquanto a chuva molha as folhas acabadas de cair.

Sunday, October 30, 2005

Escola de Educação Ambiental da Quinta da Gruta


Voltei à Escola Ambiental da Quinta da Gruta.
Depois da inauguração formal. Hoje com chuva.
Pela segunda vez esta obra voltou a falar-me. Pondo a hipótese de o conceito não ser brilhante (sobre este tenho alguma dificuldade em estabelecer qualquer julgamento) penso que nesta obra, conceito e construção, não só andam a par, como se identificam completamente. É paradigmática sob este ponto de vista: a exaustiva atenção para que cada pormenor e mais do que isso, para que o próprio processo construtivo se identifique com a ideia. Sente-se que o resultado decorre duma íntima relação da obra com o seu autor e deste com o construtor/artesão. O processo construtivo está completamente determinado pelo projecto e pelo resultado que se pretende obter. Mudar a ordem de construção, mudar o dimensionamento de uma peça, de uma das camadas de que é composta a parede ou a cobertura, implica uma sucessão contínua de alterações em cadeia. Não há detalhe, o detalhe é a própria obra.
Tudo se conjuga para a desconstrução da forma a partir dela própria. A forte presença volumétrica exterior, construída a partir de uma solução de decomposição dos volumes ritmada e de regra mais sensível do que racionalmente perceptível, abre-se a um interior desconcertante. Um corredor roto, completamente iluminado de luz natural que nos coloca no exterior. Um corredor/rua que se vai sucedendo em praças, largos, recantos, mais ou menos misteriosos. Ainda que de um relance, após a passagem do átrio iniciático, se abranja toda a longitude do edifício, ele nunca nos é presente, excepto pela condição do nosso percurso.
Aqui arquitectura percorre-se, a arquitectura usa-se.

Saturday, October 29, 2005

Machu Pichu



Quando há dias ouvi a notícia dos turistas que ficaram bloqueados por uma derrocada em Machu Pichu, recordei a minha viagem, também em Outubro, mas de 2004, faz hoje exactamente um ano.
Esta é uma memória recorrente que faz tanto mais sentido quanto o tempo dela nos afasta. O peso da altitude, a obra do homem e a pujança da natureza … e eu, perdida no ar rarefeito, com os movimentos lentos e entrecortados pela atmosfera e pelos raios intensos do Sol, como planos fixos.
De resto o mistério que ainda envolve este lugar contribui para o insólito da experiência.
Ficar preso em Machu Pichu deve ser assustador. Porque esta cidade encantada e perdida emerge de desfiladeiros apertados donde se despregam grandes pedras. Águas Férreas, povoado donde se acede a Machu Pichu é asfixiante – uma fenda que é bom deixar. Lembro-me de comentar que não queria ficar naquela terra nem uma noite. Ao contrário Machu Pichu é uma fuga para o céu onde apetece repousar.
Deixo aqui um dos desenhos que então me ajudaram a sentir esta cidade.

Snow Borne Sorrow


A tarefa a que Sylvian, Jansen e Friedman se propõem, ao juntarem-se sob o nome de 9 Horses, é a revitalização da pop acústica já muito explorada por Sylvian, ao longo do seu percurso musical. Snow Borne Sorrow é um disco que escorre como um todo parecendo não ter princípio nem fim, sem se destacar uma canção. Isto é bom, não mau. Um disco para ouvir no quotidiano: ao acordar, no caminho para a universidade, nas aulas de desenho, no comboio, no carro e numa conversa ao jantar, a trabalhar, para adormecer, enquanto sentado, a ouvir o vento rebolar, do outro lado da janela. A voz de David Sylvian é inconfundível, grave e profunda, com uma dicção perfeita, desvendando as letras geniais. Os músicos, de uma mestria exímia, tocam melodias complexas em pormenores que resultam num ambiente quente e sensível. Steve Jansen e a sua bateria e percursão estão no seu melhor. De salientar só a vontade que me dá, ao ouvir a faixa número 8, Serotonin, de abanar e balançar a cabeça, como fiz no carro, com o pai, hoje. O grafismo do cd é belíssimo e cuidado. A comprar, não aconselho download. Podem ouvir-se alguns segundos aqui.

Friday, October 28, 2005

apenas um poema

Não são duradouros, o choro e o riso,
Amor desejo e ódio:
Penso que não fazem parte de nós depois
Que passamos o portão.

Não são duradouros, os dias do vinho e das rosas:
Saído de um sonho enevoado
O nosso caminho emerge por algum tempo, fechando-se depois
Dentro de um sonho.

Ernest Dowson (1867/1900)
In Rosa do Mundo- 2001 Poemas para o futuro
(tradução de Cecília Rego Pinheiro)

Thursday, October 27, 2005

Joaniversário



(peço desculpa a todos os que já passaram os olhos por esta imagem...) É só para dizer que a mais nova deste blog está um bocadinho mais velha.

Wednesday, October 26, 2005

O Arco das Espumas

O mar rolou as suas ondas negras
Sobre as praias tocadas de infinito.

Sophia de Mello Breyner Andersen
em " O tempo dividido"

Hoje estou triste

Para quem me lê, dos que lidam comigo todos os dias. Sei que são alguns.
Hoje também estou em perda. Aquele post de há uns meses, sobre a reserva de eficiência, hoje não é verdade. Depois de 21 anos de serviço na Câmara onde trabalho, de 13 como Directora de Departamento, decidi mudar. Por vontade própria e contra outras vontades. Mas saibam que estou triste. Este bolg, desculpem-me,será algumas, raras vezes, diário. Hoje. Sinto-me um pouco perdida dos olhos dos que me apoiam e me gostam. Um pouco desconfortável por não saber exactamente o que me espera.
Desculpem o desabafo incongruente com a dinâmica de mudança que eu sempre defendi.
Tudo bem. Eu sei que nada ficará na mesma e que amanhã seremos outros, com ou sem vontades de mudança determinadas.
Mas hoje estou triste e parada sem energia e sem vontade.

Monday, October 24, 2005

Domingo de manhã


Arte conceptual por via do trabalho da Joana.
Divertimo-nos imenso a preparar uma fotografia. Não uma fotografia qualquer, mas daquelas que exigem muita preparação e engenho. Pinhas a arder, água vísivel, terra preparada e ar – puramente conceptual. Mais um Pedro ágil e bem disposto, para tirar a fotografia encomendada pela Joana, que tem vertigens. Tudo para retratar Alberto Carneiro – ele que não saiba da galhofa. Os quatro elementos e a Seiva, palavra escolhida pela Joana, para retratar a personagem e a obra.
Este mundo e estes domingos às vezes são particularmente interessantes e revitalizantes.

Friday, October 21, 2005

A pergunta pró-activa


Quando me encontro perante a dúvida do que devo fazer.
Quando a legalidade me leva para uma resposta que contradiz o bom senso.
Quando o socialmente ou politicamente correcto contradiz a minha verdade.
Faço a pergunta ao contrário: O que é que perco se proceder contra a lei, ou contra o social ou politicamente correcto? O que é que os outros perdem? Se a minha atitude vier a gerar um problema como o resolvo? Tem solução a posteriori?
Estas perguntas são de risco e induzem a acção. Não são defensivas, não me deixam instalar na paz podre. Tenho para mim que, o que não quero, é decidir distraidamente e sem pesar consequências. Isso é erro e negligência. Agora quando ajo conscientemente, estou segura, porque saberei, perante qualquer um, justificar a razão porque o fiz… e se for “condenada” será pela minha boa causa.
Dizia-me hoje uma minha colaboradora: " Pois é! Agora, não quero engolir um sapo e depois vou ter que engolir um elefante!"

Presidente interplanetário

Porque acabei de ouvir Cavaco Silva.
Muitos vão ser os comentários hoje, amanhã e depois de amanhã!
Não vou comentar conteúdos, não vou manifestar-me a favor ou contra.
Aliás, terão de repetir o discurso muitas vezes para eu descobrir alguma coisa.
Mas continua a ser o homem frio e tenso. Cada palavra parece arrancada de um poço de escuridão e profundidades insondáveis.Tem um ruído metálico de fundo que soa a qualquer engrenagem desconjuntada.
Nem a particularidade de o fazer no dia de aniversário do seu casamento torna este homem mais humano. Será sempre um extraterrestre.
Teremos um presidente interplanetário?

Wednesday, October 19, 2005

Temporada de Patos


Um filme num preto e branco mexicano, em que só nos apercebemos do ruivo do cabelo da personagem, quando, mais tarde, o declaram. Um filme cheio de subtilezas, variando entre o denso e as piadas non-sense, cheio de imagens que parecem quadros, impossível de descartar uma cena que seja (a não esquecer o discurso de Ulisses acerca do vôo em v dos patos e a cena final do quadro atado à mota, com uma corda, a passear pelas estradas movimentadas). Um despojamento de recursos, utilizando o mínimo possível, a fazer lembrar a comparação de Ilkka Suppanen: “Eu acredito que o Design é como a Poesia: absoluta e precisa com o uso mínimo de meios para obter um resultado máximo”. A história é simples e enche-nos em cada expressão. Uma montagem peculiar, em frames, com um incrível uso de silêncios e sons quotidianos. Eu e a Raquel saímos do cinema com o brilhozinho nos olhos, da música do Sérgio e conversámos o caminho todo para casa, acerca das imagens. Genial, até na banda sonora. Agarrem se puderem, Temporada de Patos.

Monday, October 17, 2005

Somos

Ainda de Alberto Carneiro:
Penso logo existo: não. Existo e por isso penso.
...ou o erro de Descartes, segundo Damásio.

Para os mais novos

Hoje, Alberto Carneiro relembrava à Joana o que dizia aos seus alunos :“Ignorante não é quem não sabe. Ignorante é quem não quer saber.” Esta é uma postura de vida. Não pudemos nunca saber tudo, porque somos ínfimos no meio de toda a informação que nos chega. Mas, sob pena de ficarmos ignorantes, não pudemos recusar saber mais, nem devemos resistir aos novos temas que se nos abrem. No mundo da informação, a desinformação é o nosso maior inimigo. E na sua maioria a informação que nos chega é superficial e pouco rigorosa, feita de falácias, de preconceitos e de estilos de vida ficcionados.
Por ignorante entendo não me perceber na minha relação íntima e individual com o mundo e com a natureza. Essa construo-a por referência a outros e com outros, por isso, também como ele diz, procuramos a informação para saber aquilo que não queremos fazer. Nada existe por si só, mas por referência, no campo da matéria e no campo das ideias.
"Quando um artista se lança na criação, só existe a sua necessidade de expressar-se enquanto indíviduo. Esta necessidade quase biológica tranforma-se numa força motriz contínua e poderosa." Gao Xingjian; Por otra estética seguido de reflexiones sobre la pintura; Editora: El Cobre
…e para os mais velhos a quem a novidade assusta!

Sunday, October 16, 2005

A Cultour em Santiago


Como vem sendo hábito ( aparte a modéstia) a visita da Culrour correu lindamente.
Porque as obras são excepcionais.
Porque o arquitecto Marco Rampulla é simples e acessível (desculpem se firo susceptibilidades, mas nem parece argentino).
Porque as pessoas são das mais variadas origens e gostam de arquitectura.
Um público de eleição.
Vivemos calmamente um dia diferente que vai ficar na nossa memória muito tempo.
Brevemente darei outras notícias.
Ficam duas fotografias feitas com o telemóvel, porque a minha fotógrafa falhou.

Thursday, October 13, 2005

Das Lágrimas

Das Lágrimas

A pequeníssima aranha assusta
a criança que eu estava a olhar,
e chora. “ Meu duplo filho,
não temas a imensa labuta
da caçadora de insectos.
Ela estende uma rede, tão frágil
que a podes romper com o menor dedo.
A menos que, antes do gesto, encontres
a beleza do tecido luminoso,
quando a aranha ofende o Sol
roubando-lhe alguns raios,
ou a beleza da água que ela retém,
como diamantes sem preço,
rosácea de lágrimas.”

Fiama Hasse Pais Brandão

Memória de momentos mágicos que se podem esfumar ao mínimo gesto.

linguagens

Ontem, Marco Martins, em entrevista a Carlos Vaz Marques na TSF, dizia que no início da sua actividade cinematográfica, nos primeiros dois anos, quando ia ao cinema não conseguia ver os filmes, olhava para eles como making of’s. Hoje uma terapeuta pela música, que foi ao programa da manhã da Antena 2, dizia que era preciso “ libertar a técnica para usufruir da música”. Dizia ainda que, embora com formação musical no Conservatório Nacional, se diferenciava dos colegas, porque quando ia ouvir um concerto, imaginava coisas em vez de analisar a obra.
Levantam-se questões interessantes e aparentemente contraditórias com o que penso. Provavelmente há vários estádios de maturação e entendimento de uma linguagem, mas será que só quando a dominamos completamente, somos capazes de retirar dela o verdadeiro gozo?
Será que quando desconhecemos completamente as regras de uma linguagem temos a mesma abertura para a acolher sem preconceito na sua plenitude? De uma forma menos completa mas até mais aberta e despreconceituosa? E será que se soubermos as regras ficamos presos a elas e não podemos interpretar a linguagem conforme o sentimento?
Dúvidas que partilho. Porém julgo saber que o caminho da procura e do conhecimento é irreversível, um vício que nos mantém vivos, pelo gozo de descobrir e precisar sempre de mais descobrir.

Wednesday, October 12, 2005

Nenhuma obra-prima é cobarde

Toda a beleza é previsível, como todo o passado. E exige-se um outro ritmo. Porque é na embarcação do medo que recordas o modo de construir outros barcos. Nenhuma obra-prima é cobarde.
Gonçalo M. Tavares

Tuesday, October 11, 2005

Um voto faz a diferença!

Teria também que dizer alguma coisa sobre as autárquicas. Não me apetece dizer nada de comum: “ Que desastre! Isto cada vez está pior! Ao menos o Avelino Ferreira Torres não ganhou em Amarante (triste consolação)! Temos o país que merecemos.”
Sim senhor! Este é o país que temos, eu sou cidadã eleitora. Votei na freguesia de Vermoim, concelho da Maia, Escola Preparatória Gonçalo Mendes da Maia, na mesa de voto nº 1, com o cartão de eleitor 1699.
Mas, … em Manteigas o PSD ganhou ao PS por um voto. Como é lógico e evidente o candidato do PS pediu para recontarem os votos. A Comissão Nacional de Eleições disse que não era possível porque as actas estavam todas assinadas sem ter havido, no acto, qualquer contestação.
Porque é que o que é lógico se torna impossibilidade? Somos escravos das leis, do papel?
Mas o lema denominador comum de todas as campanhas foi: “ Primeiro as Pessoas”. As pessoas não se enganam e um voto legitima uma equipe, com maioria absoluta, para governar quatro anos. Um voto faz a diferença!

Monday, October 10, 2005

Atárquicas 2005

Desculpem dizê-lo assim e desculpem ferir susceptibilidades, mas este país a votar É UMA MERDA! Fátima, Isaltino, Valentim e o Rio. Mais 4 anos no charco.

Friday, October 07, 2005

A casa e a música (partes III e IV)

Parte III ( dia 6 às 21 horas)
A casa estava cheia de um público mais formal e mais social, mas muito menos musical.

Il Giardino Armonico
Conhecia interpretações mas nunca os tinha visto ao vivo ou em qualquer filme. Se não estranhei o insólito da interpretação que se faz de ritmo e movimento, fiquei no mínimo presa à composição e movimentação dos músicos no palco. Os músicos tocavam de pé, excepto o violoncelo o alaúde e o cravo, por impossibilidade.
De bom gosto, mas quase a tocar o excessivo no que se refere a expressividade corporal. O Pedro diz que os músicos pareciam árvores frágeis ao vento. Polichinelos movimentados por qualquer teia invisível.
Com Viktoria Mullova. Achei muito interessantes as variações de intensidade que numa transição suave nos absorviam até ficarmos presos no mais ténue som do violino. ( Vantagens da acústica da casa?)

A música
Vivaldi, Sammartine e Haendel, todos da mesma época, mas Vivaldi muito diferente. Para mim de uma composição mais clara, mais sintética e mais directamente comunicativa.

Parte IV ( dia 7 às 13horas)
A casa estava virada do avesso. O concerto foi na sala 1. O público estava no coro. Viktoria virada de costas para a plateia e de frente para nós. Um público musical.

A música uma bolha. A ténue superfície transparente separou-nos do mundo e da casa.
Não foi empolgante, mas suave e sóbrio como Bach.
Agora vou regressar ao mundo. A crítica fica para quem sabe…para mim a oportunidade de entrar na bolha.

Wednesday, October 05, 2005

Dogville hoje











Nos últimos dias DOGVILLE tem sido, para mim, um recurso inevitável. A espiral de desagragação dos valores mais nobres do ser humano, a desintegração dos nossos sentimentos até que o lado mais ínfimo e mais negro, cresce desmesuradamente e toma conta do nosso comportamento, o inevitável (ainda que antiquado) maniqueísmo entre o bem e o mal…
Depois a transformação das personagens e de nós com elas quando somos confrontados com a vulnerabilidade e inconstância dos nossos juízos.
Filme profético e divino.
Profético, porque a cada momento presenciamos Dogville nas nossas relações e vemos impotentes, o fio débil mas incrivelmente forte que nos puxa para baixo! Down…down…down…
Divino, porque de uma lucidez exterior e altiva que nos faz sentir como marionetas perante o seu olhar.
( desculpem a composição, mas foi com muito custo que consegui inserir a fotografia. Falta a Joana para me ensinar.)

Tuesday, October 04, 2005

A terra é...

Porque nós temos justificação científica para fenómenos como o de hoje. Mesmo assim sentimos instintivamente, mais ou menos, como refere a Joana, a nossa primeira forma.
Então transcrevo este comentário passado, que me foi oferecido, porque hoje faz todo o sentido:

" A terra é uma grande ilha que flutua num grande mar e está suspensa por uma grande corda em cada um dos pontos cardeais que desce, desde a abóbada celeste, a qual é feita de rocha sólida. Quando o mundo envelhece e fica usado demais, as pessoas começam a morrer, as cordas quebram-se e deixam que a terra se afunde no grande mar e tudo volta a ser água outra vez.”
Como foi criado o mundo - segundo a tribo dos Cherokees - retirado de O Sopro das Vozes, textos de índios americanos.

Monday, October 03, 2005

Eclipse


Hoje o dia nasceu duas vezes. Eu vi as duas. As sombras eram feitas de unhas de sol. Eu e a Helena eramos dois borrões escuros no chão. A manhã parecia vespertina. Senti-me reduzida ao meu instinto, a minha forma primeira, ao essencial. Eclipse.

Desculpa antecipar-me!

Perguntaste: “ Tu viste mãe? Foi tão lindo! E as sombras? Era tão estranho!”
Eu arrepiei-me. Sim, eu também tinha visto. Sozinha, na rua e na sala. Não tinha reparado na diferença das sombras.
Quando falei contigo percebi que o elo estava fechado. Nós e o universo. Nós no universo… e nós percebemos que só encontramos a nossa verdadeira dimensão quando nos entendemos neste mundo infinitamente maior e infinitamente mais pequeno do que nós. Por isso gostamos da física e da filosofia. Por isso sentimos no corpo, como animais que somos, o incómodo e a compensação, de ter vivido este eclipse.

Pina Bausch


Tem presente essa dimensão humana nos olhos profundos, que se afastam do mundo para a distância de um recolhimento interior, na denuncia dessa hesitação do vocábulo que possa substituir o gesto e tornar transparente o seu sentido profundo na ausência do bailarino. É um olhar da mesma ordem de complexa vulnerabilidade da vida que aborda em algumas das suas peças. Quando se solta o discurso, normalmente sobre processos ou sobre a dificuldade do dizer, gesticula as belas mãos magras num novelo de movimentos que ondulam e desenham no ar o significado de todas as palavras que não diz.

(Actual-Expresso; 1 de Outubro de 2005)

Sunday, October 02, 2005

Trabalho e Arte

"Nunca nutri especial admiração por Pedro Burmester como pianista. Acho-o dotado desde que o ouvi na aula magna da Reitoria da Universidade de Lisboa no concurso Vianna da Motta em que não foi atribuído o primeiro prémio. Depois desta ocasião escutei o pianista inúmeras vezes e sempre me soube a pouco, creio que Burmester é um superdotado, um intuitivo, para ele o piano é fácil. No meu entender este é o seu principal problema, a apreensão rápida das obras a fogosidade mas pouco amadurecimento, pouco estudo, quando as coisas lhe saem bem o concerto ou recital é excitante mas pouco profundo, quando lhe correm mal é uma trapalhada."

Henrique Silveira no seu blog “ Crítico Musical”
O problema é sempre o mesmo em todas artes. A facilidade é inimiga da profundidade e da perfeição.

Saturday, October 01, 2005

O Vazio da Ausência

"... e de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre".

Quase poderia transcrever este pensamento, extraido de um qualquer texto de Miguel Sousa Tavares, que me foi enviado por uma amiga, sem nada dizer.
Mas não quero.
Porque precisamos de guardar objectos, de pretender possuir pessoas, para nos equilibrarmos? Porque temos dificuldade em conviver com a ausência? Porque fomos educados para uma economia de mercado, na qual o usar e deitar fora, é o fundamento da criação de riqueza? (Ou às vezes até o deitar fora sem usar, como modo de criar valor). Porque nos criam necessidades que não temos?
Tenho vindo a perceber que é mais compensador descolar do ilusório real: uma fotografia, um objecto ( ou até mesmo uma pessoa), para o reinventar com as asas do meu afecto, da minha recordação, do meu amor.