Tuesday, May 16, 2006

suspiros

Fiz suspiros. O Pedro tem uma festa amanhã e eu tinha claras de sobra.
Os suspiros são uma herança da casa dos meus pais. Aquela de que eu me orgulho ser a principal continuadora. Sempre se comenta: a receita, a temperatura do forno, a consistência, a forma e se têm “colinha”. Este é sem dúvida o objectivo mais almejado…mas se os outros não forem conquistados o trabalho não é perfeito.
Saem-me bem, quase sempre. Hoje também. Mas é muito importante a prática. Fazê-los muitas vezes para construir o método, para tirar partido, para inventar, para inovar. Mas só podemos inovar quando estamos seguros do material que temos e do modo de o fazer.
Tantas vezes fiz suspiros que agora estou a vontade. Mas os suspiros fazem-se sempre com as claras que sobram: do pudim, da aletria, do leite-creme. Nunca se guardam gemas, guardam-se claras, o parente pobre do ovo. Interessante, sendo os suspiros um dos paradigmas da família Melo.
As sobras; a experiência; o método; o conhecimento do conteúdo e do material; a inovação… como em tudo…na vida.
A fotografia não a consigo passar para o computador.

Saturday, May 13, 2006

Para ti, sempre

Separados fomos

Separados fomos por cítaras e canto
E pelos longos poemas silabados
E entre nós dois deitaram-se paisagens
Que nos mantinham imóveis e distantes

Embora o fogo secreto das palavras
E a veemência do canto e das imagens
Embora a paixão das noites consteladas
E o nevoeiro tocando a nossa face

Separados fomos por cítaras e canto
Como outros por prisões ou por espadas

Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das Coisas; Caminho


Comprei um livro especial para oferecer a uma pessoa, para mim, muito especial.

Friday, May 12, 2006

Alcino Soutinho

Gostei imenso de rever o Soutinho. Duas horas a falar de arquitectura, passando por biologia, por ecologia, por pedras, por sentido, por opção, por política. Já quase me tinha esquecido do que é um arquitecto, telúrico ou eclético com a despretensiosidade de uma conduta que, independentemente de leituras mais ou menos moralistas ou preconceituosas, faz dele um homem integral. Já quase me tinha esquecido de um passado anti-fascista, de uma luta que foi vital e que determina um homem em que a velhice é um dom. Ele relembrou-o de um modo simples mas avassalador, predeterminante na pessoa e na serenidade que transmite, sem contemplações mas com disponibilidade. Lembro aquela crónica que há anos li no Jornal de Arquitectos do Pitum Keil do Amaral, que retratava os arquitectos que perdiam a coluna vertebral à custa de tantas cedências… face ao politicamente correcto e conveniente. Mesmo quando as leituras exteriores, que às vezes fazemos, nos orientem para juízos mais dependentes. Nada é tão linear como os nossos juízos precondiconados por ideais externos e sonhados, romanticamente.
É muito bom ouvir falar apaixonamente do que se faz aos dezoito anos, como aos quarenta, como aos setenta. Só temos uma vida, oferecida. Resta-nos saber honrar a prenda, completando-a com os adereços que conseguirmos resgatar.

Thursday, May 11, 2006

brasileiros

Não gosto de brasileiros. Quem comigo lida já sabe. Digo-o amiúde, também como provocação.
Deixem-me ser primária.
Não gosto porque:
- Falam bem demais;
- Têm um país onde é fácil viver: não precisam de roupa para se aquecer do frio do Inverno, a natureza dá-lhes espontaneamente alimento;
- Têm a música no corpo e não precisam de se construir para a entenderem;
- Usam a nossa língua com um a vontade tão natural que dizem o que não sabem, dizem apenas; …
- O Carnaval faz esquecer tudo;

… e depois na vida é igual: facilidade, improviso, expediente, desigualdade sem remorso e samba.

Puro preconceito talvez …ou não, porque tenho paixão por África, pela África que não conheço.

Wednesday, May 10, 2006

insatisfeita

Às vezes gostaria de ter as palavras certas para dizer. Depois penso que direito, ou melhor que sabedoria tenho eu para o fazer? Estou do outro lado ou penso que estou, não sei. Porque é sempre uma incógnita o decurso da vida e o que ela nos tem destinado. Até que a surpresa surge. Pode sempre surgir a qualquer hora, sem qualquer razão, sem qualquer justificação. A vida não é como a matemática. Há problemas sem determinantes, há resultados sem parcelas. Há resultados que não satisfazem uma incógnita e então na vida quatro podem ser igual a dois. Esta é a minha insatisfação. Não poder determinar a causa do resultado. Sabendo o resultado não poder dar outra resolução ao problema. A vida é o que é … até hoje estou do lado bom, mas insatisfeita.
Para quem me entende ou quer entender, duas parcelas: uma hora de estudo com o Pedro e... uma incógnita, uma injustiça. Estou aqui sempre atenta.

Saturday, May 06, 2006

Chifon de laranja

Este lugar é para tudo, até para deixar a tal receita do “Chifon de laranja”:

1 chávena e meia de açúcar;
1 chávena e meia de farinha
½ chávena de sumo de laranja
½ chávena de óleo
6 ovos

Mistura-se o açúcar com a farinha. De seguida os líquidos ( óleo, sumo de laranja e gemas de ovos), por fim as claras em castelo.
Coze em forno médio.

Friday, May 05, 2006

Morte em Veneza

Pois que a beleza, meu Fedro, e só ela, é digna de ser amada e visível e ao mesmo tempo: ela é – nota bem!- a única forma do espiritual que recebemos através dos sentidos. Ou então, o que seria de nós se, por outro lado, o divino, a razão, a virtude e a verdade se nos quisessem revelar através dos sentidos? Acaso não morreríamos e nos consumiríamos de amor, como outrora Sémele perante Zeus? Assim, a beleza é o caminho do homem sensível para o espírito – só o caminho, um meio apenas, pequeno Fedro… E em seguida proferiu o mais subtil, aquele cortejador astuto: ou seja, que o amante é mais divino que o amado, visto que naquele existe o deus e nestoutro não - ideia que talvez seja a mais terna e a mais irónica que jamais foi pensada e da qual nasce toda a malícia e a mais secreta volúpia do desejo.

Thomas Mann; Morte em Veneza; Biblioteca de Verão; Edição Diário de Notícias; pag59/60

Thursday, May 04, 2006

Vou ler

Trouxe trabalho. Não cheguei tarde. Fiz o jantar com calma e sem rasgo. O tempo esgota-se e eu não tenho vontade de fazer nada. Queria um poema, mas não me apetece procurá-lo. Um poema que falasse da vida, daquela que se conquista por entre a doença e a dor – que eu hoje não tenho ( doença e dor). Que falasse da luta, daquela tal capacidade de transformar o mal-estar em bem estar, das transformações que o nosso corpo opera pela sobrevivência. Pulsão vital e biológica, explicável cientificamente pelas palavras de Damásio. Que falasse da injustiça da doença, que retirasse Deus à Natureza, que não confundisse destino com vida. Que caia do céu o pão da vida para me alimentar a mim e a outros que me parecem menos afortunados do que eu. Mas não sei nada, porque muito se passa sem que o saibamos e a vida é um fio ténue, sempre no limite da tensão. Que não sejamos nós humanos a estica-lo até à ruptura, porque nascemos para ser felizes, ainda que essa felicidade nos chegue pelos mais recônditos atalhos.
Decididamente não vou trabalhar hoje. Vou ler.

Sunday, April 30, 2006

Dona Maria

Com um arrepio ao fim da tarde, pelas mãos de Carlos Drumond de Andrade chegou a mim a mãe da Dulce: a Dona Maria.
A Dona Maria, quando a conheci, já se movia mal. Pousava de leve sobre as coisas, falava baixo, murmurava à vida.
A Dona Maria era a mãe…da Dulce.
Das flores do jardim que olhava curvada e explicava de cima com carinho.
Lembro os bolos – ainda guardo na minha agenda a receita do chifon de laranja, que ela me ditou de cor, num passeio também ao fim da tarde. Lembro o pão de abóbora e frutos secos. Lembro a casa que se confundia com a terra, a pedra castanha posta e sobreposta, colada com terra, para sobreviver na sua precariedade ao tempo.
A Dona Maria era a casa, era o jardim, era a terra.
Agora a Dulce é a Dona Maria.
Agora a Dulce é a Mãe.

Santa Maria

Dizia, a quem me entende, duas horas depois de terminar a visita a Santa Maria no Marco, que se não for mais, só por momentos destes vale a pena continuar a Cultour.
Só pode ser assim, com pessoas que gostam de ouvir, gostam de entender e vão apenas à espera de que aconteça. Se esta viagem fosse só com arquitectos, Álvaro Siza não teria a oportunidade de nos falar de espírito, de teatro, de arquitectura. Porque é de arquitectura que se trata, quando fala do movimento do ajoelhar, do levantar, do barulho do objecto que cai. Porque, como bem terminou, o espírito não se constrói porque se quer, o espírito está… e está sempre, numa, casa, num museu, num hotel, em suma numa pedra ou numa árvore. O espírito não faz parte do programa de um templo, cristão ou pagão.
Mas ele, Siza, é assim, disponível e total. Sentado no meio da assembleia a falar e a responder às inteligentes perguntas que lhe foram feitas. Ouviu e contou…e nós absorvemos por dentro, ficamos impregnados de um estado.
Não tenho fotografias, guardo-as na alma: o azul intenso recortado na alta porta de madeira já vivida; a barriga grávida da parede pronta à oferta, a reflexão difundida da luz tépida sobre os azulejos que reflectiam ainda o som…da água que escorre pela pia de mármore, a marca do homem que vem até nós pela paisagem exterior que se oferece, pelo som dos passos, dos objectos manipulados e até dos grafittis ou das esmorradelas nas paredes.
Não precisamos por certo que nos indiquem o caminho, que estabeleçam paredes/regras nem que nos dirijam o olhar, basta que nos deixemos guiar para esse estado, essa eterna viagem, que nos leva de nós para Deus.
Agradeço o prilégio.

Friday, April 28, 2006

Torre do Burgo

Talvez o projecto mais abstracto do arquitecto. Projecto em que a pele é determinante, puramente conceptual. Pilha de madeira, de esteios de granito ou de betão, ou apenas torre. Edifício e encomenda que em 1991 não era comum ser entregue a um arquitecto autor. Mas foi assim em 1991. O projecto de uma torre apanhou de surpresa o arquitecto habituado a projectar casas. A grande escala foi por isso um desafio. Resolvida a questão da relação com a rua, neste caso a Avenida, através de um edifício substancialmente mais baixo, ficou a torre, que agora, em 2006, se ergue alta e bem visível para quem circula na Avenida, na VCI ou na parte ocidental da cidade. Em Junho próximo vai terminar a obra, mas antes disso, o arquitecto, aceitando o repto da Cultour, vai guiar-nos pelos seus interiores explícitos e implícitos. Iremos perceber como se ilude a escala ou como o desenho pode determina-la. Como se relaciona interior e exterior, como o conceito pode ser construído sem cedências e com uma coerência a que não é alheia a técnica – a engenharia, a regulamentação, a construção, feita acto e tornada real, também pela nossa visita.
No próximo dia 20 de Maio, o arquitecto Eduardo Souto Moura, guiará as pessoas que interessadas pela arquitectura, o irão acompanhar nesta incursão por uma das suas obras mais emblemáticas. Esta é uma oportunidade única para visitar esta obra de um modo integral e orientado.

Wednesday, April 26, 2006

com ou sem cravo

Há dias assim contra a norma, contra a regra, que nem por isso me seduzem. Vagueio pelas horas como sonâmbula, sem deixar de ser uma imagem desfocada, descontextualizada: nem mãe, nem mulher, nem profissional, nem dona de casa, nem mulher de limpeza. Retiro a maquilhagem que nada encobre nem nada refaz. Dispo a roupa e apetece-me pôr sobre o corpo, para conformar a brisa, uma t/shirt velha e umas calças largas não de forma, mas por ausência de conteúdo…e apagar-me lentamente em vapores de incenso e penumbra.
Há dias assim, dias de mudança, dias sem nome e sem tom, ainda que cheios de significado social e cultural: 25 de Abril. Talvez assim seja porque Abril 25 tem para mim muito significado na memória. Tem demasiado significado para poder ser confundido com uma polémica sobre um cravo na lapela, ou não, enquanto se faz discurso na Assembleia da República. Porque sim ou porque não, falsa discussão, sobre a posse de um símbolo, que não morrerá na minha história, com ou sem ele na lapela ou no decote.

Monday, April 24, 2006

Uma história de Violência- David Cronenberg

Senti desconforto. O filme, do princípio ao fim, não nos deixa desviar um segundo do problema essencial: a violência extrema e potencial que todos nós carregamos e a fina e precária linha de fronteira que separa o bem do mal. Porque a mais pura violência tem justificação.
O percurso da personagem principal Tom Stall e Joye, não é linear como também não é linear a mistura das duas identidades, no presente. Elas no mesmo tempo se misturam, num tempo cronológico, embora coexistindo separadas ainda, são, sem qualquer sombra de esquizofrenia partes do mesmo homem, presente. Embora para Edie talvez essa fosse, a esquizofrenia, a justificação mais pacífica para perceber o marido, quando, ao fim de vinte anos de casamento, o descobre um assassino.Ela manifesta repulsa ao descobrir que o marido que amava é também outro: porque não o possuia completamente e porque não o reconhece nesta nova personagem.
Mas não é esse o caminho que segue a história, nem que seguem as outras personagens, de que o caso evidente é o filho. Para o bem e para o mal o assassino mistura-se com o marido, sem se destruírem, antes reconstruindo-se e dando corpo à sua verdadeira identidade. Um, sem o outro, não existem. E no olhar final que trocam, ela percebe-o integralmente (esta é a minha leitura, já que tudo fica em aberto).
Tom nunca deixou de ser Joye. Tom apagou Joye por opção até ao momento em que, para defender a sua nova vida (a empregada, o filho e a si próprio), deixou explodir a violência de Joye. Não era uma questão de esconder o passado, mas de sobrevivência, de uma escolha definitiva da sua vida de opção. A ideia de que são os contextos que criam os assassinos também não justifica comportamentos, por si só. Porque Tom teve que atravessar o deserto para mudar e mudou, deixando para trás o irmão e a violência gratuita. Mudou para a aparente “normalidade”, que contém sempre, ainda que submerso e oculto, o lado de Joye. Mas não é essa a normalidade?
Impressionaram-me ainda as duas cenas de sexo: a primeira pelo reencontro com a adolescência e a paixão de um casal com vinte anos de casamento. Num cenário recomposto, ela seduz o marido para outro tempo. Tempo de gozo, de desprendimento, de surpresa, de subversão. A segunda pelo reencontro de Edie com Joye, um lado violento e essencial, sem limite e sem tempo, em que o prazer se consuma no desconforto de o viver para além da coerência e do já adquirido.
Na linguagem o filme é também essencial. Na construção do discurso narrativo transporta-nos, desde o início, para um limiar alto e contínuo, sem oscilações. Nada ( ou quase nada) está a mais. A transfiguração das personagens obtida pela posição da câmara e pela iluminação é incomodativa de tão real: sem nada aparentemente se passar.

Saturday, April 22, 2006

sobre a mesma mistura

Ainda sobre a mesma mistura…aquela que me faz aspirar à eternidade e por momentos vivê-la. Longos momentos da tal beatitude a que só se chega, segundo Damásio ou Espinosa, pelo controlo sobre os estímulos emocionalmente competentes negativos: absorvendo-os para os reduzir, pela sua experiência controlada, criando assim imunidade e deles fazer estímulos emocionalmente competentes positivos. Nesses momentos é possível experimentar a beleza pura, do bem, bem-fazer, bem sentir: interferindo milimetricamente e gratuitamente com os outros (amando), ouvindo Bach ou Mozart, Schubert ou Malher, como diz Damásio, a quem eu neste momento acrescento Keith Jarret ( como poderia acrescentar mais alguns), vendo Miguel Ângelo; experimentando Siza; ouvindo Herberto Hélder; lendo Sophia; olhando o mar ou as pedras de granito em paisagem agreste; conversando simplesmente sobre isto, com…, com…, com… e com.
Outro dos caminhos é a ciência. Sobre esse estou menos informada, mas interessa-me cada vez mais- e na arquitectura vejo, ainda, esse lado potencial.
E finalmente percebendo, por isto e pelo muito mais que se chama esperança, que não estou sozinha.

misturas explosivamente pacíficas

“ A solução Espinosa pede ao indivíduo para reflectir sobre a sua vida, com o auxílio do conhecimento e da razão, na perspectiva da eternidade e não na perspectiva da imortalidade de cada um. E a liberdade é um dos resultados da solução Espinosa, não a espécie de liberdade que habitualmente contemplamos em discussões sobre o livre arbítrio, mas sim uma liberdade radical, uma redução da dependência em relação aos objectos de que somos escravos. Um outro resultado é a possibilidade de intuir as essências da condição humana. Essa intuição junta-se a um sentimento de serenidade cujos ingredientes incluem prazer, a alegria, o deleite mesmo, mas para o qual a palavra beatitude me parece mais apropriada (...). Este sentimento “intelectual” é sinónimo de uma forma de amar a Deus de modo intelectual – amor intellectualis Dei
António Damásio; Ao Encontro de Espinosa; Publicações Europa-América; Pág 308

Este último capítulo do livro foi para mim uma revelação cientifica e filosófica. Nele encontrei o principio das minhas dúvidas, das minhas angústias … e da salvação pela esperança, segundo Espinosa, na última frase citação do livro “ A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa futura ou passada, sobre cujo resultado temos alguma dúvida.”
Sempre.

Em fundo Keith Jarret, Concerto de Paris, em boa hora veio ter às minhas mãos.

Thursday, April 20, 2006

cultour

Tresmalho-me nas ondas da Cultour. Apostada num projecto que iniciei há dois anos, adquiriu visibilidade há um ano e ainda não vingou completamente, mas dá sinais disso.
Que me satisfaz e me cumpre. Me dá a alegria das conquistas por entre saudáveis gargalhadas. Somos uma equipa que cada dia se vai tornando mais coesa e mais complementar. Cada um vai protagonizando as tarefas que mais tem a ver com as suas características. Conquistamos pessoas para o terreno da arquitectura como profissão, desempenhada com paixão e rigor. Tarefa que arrebata e eleva e nos faz vibrar a cada conquista. Às vezes tenho medo de que o contexto não confirme este projecto.
Noutros países projectos destes tem sucesso. Em Berlim uma empresa do género programa duzentas viagens por ano! Aqui, fazem-se mais do que isso certamente. Mas todas, ou quase todas com base no expediente, no trabalho sem recibo e sem encargos, feito pelo amigo do amigo, que até tem um amigo, que está cá a trabalhar no Siza ou no Souto Moura e dá um jeito. Somos explorados, exploramos e deixamos que nos explorem. Até quando?

Monday, April 17, 2006

santa bárbara



Começo a escrever sem destino. Como sem destino foram os últimos dias passados com uma grande família muito perto da natureza e da precariedade.
Ao abrir o blog descobri um post que vem de São Paulo. Abri-o. Nas fotografias reconheci alguns dos lugares por onde passei aqui em Portugal, na Beira Alta, ainda terra de paixão. Só que aqui percebi que a atitude perante a paisagem não será a mesma. Aqui estraga-se a paisagem, para marcar-se o tempo com o sentido de posse sobre o lugar. Aqui vi a Santa Bárbara destruída pela mão do homem de hoje: uma estrada aberta rumo ao topo, um morro amontoado de perdas partidas e uma Santa (Bárbara) grotesca de granito pousada em cima do morro artificial. No sopé um altar de granito voltado à paisagem e uma placa comemorativa do acto, fixo ao morro.
Santa Bárbara faz parte da minha memória. A primeira vez que lá fui, a pé, não havia outra forma de lá chegar, teria dez anos. Tínhamos partido sem destino, ou talvez o destino estivesse apenas na vontade do meu pai que nos guiou: a mim, aos meus dois irmãos e a dois primos. Subimos a encosta inclinada, com paus e uma bandeira da monarquia que sempre levávamos. Não sabíamos bem o significado da bandeira, ela era para nós apenas uma marca e um aviso que permitia a comunicação com a restante família que ficava em casa, no monte em frente e que, com os binóculos, outro objecto fetiche da minha infância, nos procurava por entre as pedras e a vegetação rasteira característica da altitude. Do alto tínhamos o mundo aos nossos pés, o nosso pequeno mundo feito uma imensidão.
A descida foi atribulada: pela sede, pela trovoada, pela chuva, pelas bolhas nos pés. E depois da descida rumo a Lalim no vale do Varosa, restava ainda a subida pela outra encosta até casa.
Voltei lá mais tarde, duas vezes ainda a pé.
Ontem fui de carro. Vi a violação do sítio arqueológico. Os meus filhos subiram um pouco mais, atravessaram a “floresta dos druidas” ( plantação densa de coníferas feita há cerca de trinta anos) e lá de cima olharam um horizonte sem mácula.

Thursday, April 13, 2006

quarta feira (ainda) santa

Mesmo nas férias de Joana, este blog está abandonado há dias. Para mim dias cheios…de trabalho. Planeados ao minuto e vividos tão absorventemente que os intervalos sobrantes são as viagens de automóvel ou então um cair na cama como uma pedra e dar lugar aos sonhos, estúpidos, frequentemente, mas também frequentemente muito exactos e explicáveis. Daqueles que nos perseguem durante o dia em imagens, que de soltas, se conjugam.
Tudo sempre feito a pensar no fim-de-semana de Páscoa – a tal pontuação, que entrecorta a escrita de parágrafos densos.
Volto a falar dos ritos e da Quaresma. Vivida de um modo exterior à religião cristã, mas aproveitando o conceito: luto, revisão interior, olhar para dentro, jejum, deserto. Como é possível deserto no nosso mundo sobrepovoado e cheio de estímulo? Um apelo, uma vontade, uma mudança, um recentramento: posso abrir novamente os olhos.

Sunday, April 09, 2006

boneca de linho

Boneca de linho, o que fazes?
Porque reeditas sentimentos?
Levas-me contigo
e não sabes que as tuas penas
são momentos.
Sombras do pecado ancestral
Sempre eco
de uma culpa irreal
Que torna a angústia em tensas linhas
Montadas em redes finas
Tecidas na mesma malha das minhas.

A pergunta, sempre uma miragem:
Como é possível viver assim,
Em terreno de alta voltagem
Rumo ao horizonte sem fim?

Wednesday, April 05, 2006

vocabulários

Exausta de vivências paralelas que se entrecruzam:
políticas, projectos, planos, estratégia, conceito, parcerias, custos, sustentabilidade, criação de públicos, multiusos, interagir, integrar,emocional, acertivo, autentozóide, liderança, eficácia, eficiência, recursos, sistema, diversidade, coesão, viável, divulgar, comunicar, interactividade,empreendorismo,…

Alma, lugar, sentimento, amor, afecto, emoção, sabedoria, luz, Terra, universo, raízes, silêncio, tudo, nada, essência, vazio, intimo, individuo, privacidade, perda, sonho, fantasia,ciúme, desejo, sexo, sobrevida, morte, tempo, momento, espaço, cor, perfume, corpo, mãe,….

Minuto, hora, dia, trânsito, stress, violência, exaustão, limite, pobreza, fachada, exterior, púbico, sexo, droga, comida, promoção, valor, empresa, corpo, …


de partido a filosofia ou princípios e agora é o conceito.
Apenas palavras, que se excluem ou se incluem, conjunção ou disjunção na matemática, ciência exacta da VIDA.

Tuesday, April 04, 2006

Os Cabelos

Os Cabelos

Sinto os cabelos
A pisarem-me o pescoço
A entrarem em mim
Pela redonda gola da alma.

Enrolados em meus ossos,
Tecem os fios do meu corpo
E entrançam-se nas suas dobras.

Olivia Rosmaninho (com voz aqui)

Monday, April 03, 2006

Domingo (versão 2)


Domingo, esta semana, não foi em família. Aveiro, à semana, custa-me muito. Por razões do coração. Domingo foi fotografias à hora do almoço e do jantar, gelados, músicas, a varanda da Raquel e muitos passeios sozinha. Muitas ruas, muitas casas, muito ar. Ainda bem que mudou a hora.

Sunday, April 02, 2006

domingo

Fechei os olhos para o sol. O verde passou a laranja e depois a cor de tijolo escuro e novamente a laranja claro que escureceu até à cor de tijolo escuro. Os raios de sol fim de tarde de Primavera, lamberam-me a cara, docemente. Um verdadeiro domingo de Páscoa ainda em tempo de paixão. Ao longe ouvia a monocórdica voz do padre que relatava a paixão de Cristo, ampliada até este infinito pelo megafone, em dia de procissão dos passos. Quase esqueço este ritual! Preparo pacientemente o grande fim-de-semana que se avizinha para redescobrir na natureza a força das coisas. Tão somente a força da vida, por detrás das minhas pálpebras cor de fogo.
Nada como este domingo de sol para me libertar da noite longa dos últimos dias e fazer regressar a paz do dia. Finalmente, sempre concluo que sou diurna. Sol do sol, sou do silêncio conquistado, sou da luz, sou do dia.
Ainda bem que mudou a hora.

Friday, March 31, 2006

que dizer

Quando eu morrer ouçam o II andamento do concerto para piano n.º 2 de Dmitri Schostakovich. Porque ele leva-me em vida para . Podem ouvir o concerto todo, porque se começarem a ouvir só o Andante talvez não cheguem , onde eu vou, onde eu já fui, onde eu estou, onde eu estarei. E não me chorem porque esse é muito bom.
Chorem-me antes em vida. Nestes passos em falso que me transtornam e me deixam à deriva. Nestes não lugares que se nos impõe visitar. Felizmente há lugar, dentro de Schostakovich, como de Ravel, ou de Malher, ou de Bhrams, ou de Reich, ou…. para misturar o sonho com a realidade, sem medo, sem corpo, sem moral, sem tempo.

Thursday, March 30, 2006

Saudades


trabalho trabalho trabalho.

europa

Por acaso a procurar a Antena 2 caí numa entrevista de Luís Osório a Carlos Magno na Rádio Clube. Por entre as imensas coisas que Carlos Magno diz, que não me interessa nem faria sentido aqui transcrever, fiquei presa quando os ouvi falar da europa e da “ Ideia de Europa” de George Steiner, livro que me foi delicadamente oferecido há uns meses atrás e que, não só me cativou, como me construiu. Dizia Carlos Magno que " ...esta é a ideia mais luminosa de Europa que conheço". Concordo. Li o texto de George Steiner de um fôlego e percebi-me europeia e confortada com isso. Referia ainda Carlos Magno a resposta que lhe dera Agostinho da Silva numa entrevista quando este lhe perguntou se deveríamos pertencer à Europa: “A Europa é o único sítio do mundo onde nós portugueses nunca estivemos”... e estivemos na Índia, na América, na África e na Ásia.

Wednesday, March 29, 2006

falta uma fotografia

Falta ainda a fotografia para ilustrar o post sobre Ponte de Lima. Às vezes dói-me ser tão inábil com as novas tecnologias. Valho-me do que tenho e recorro aos amigos para conseguir alguns efeitos que não consigo por mim só. Falta a Joana…mas ela também não pode ser sempre a muleta. Por outro lado, penso que estas facilidades, ajudadas pela habilidade, conduzem ao “facilitismo” e “superfilizam” aquilo que queremos comunicar de um modo mais profundo. Para quem domine as técnicas de comunicação é fácil fazer bonito, ou melhor, é fácil parecer bonito, ou melhor é fácil parecer… porque o bonito é puro (pré)conceito. Que isto não soe a desculpa, porque a fotografia de Ponte de Lima aparecerá...

Tuesday, March 28, 2006

o lugar

A hora mudou. Para mim, hoje, ainda não.
Quando procurava num livro a identificação das flores selvagens que encontrei em Ponte de Lima, deparei com um pequeno cartão, datado de Dezembro de 1983, em que um amigo meu transcrevia um texto que eu tinha escrito nos primeiros dias da minha actividade profissional. Na primavera do mesmo ano, já em Santo Tirso: “ …era amarelo e lilás, eram pampilos e tufos de lírios, nas margens do rio eram cerejeiras,…e rãs talvez. É um paraíso fechado e esquecido pelas ruas que o envolvem.
Alguém vive esse idílio, alguém o cultiva, alguém sua e poucos o pressentem.”
Esta atenção levou-me mais tarde a Christopher Alexander que nomeia o “lugar árvore” que me persegue ainda hoje, quando me identifico nos velhos carvalhos, nas tílias, nos castanheiros – árvores no lugar. Depois, ou simultaneamente, “genius locci” de Norberg-Schulz, o espírito do lugar. Saber ler o espírito do lugar, com olhos de hoje e sem as vendas ou as lentes, que moldam o nosso olhar com a luz do passado. Perceber que a paisagem muda para além do que queremos ver teimosamente. Ver como Alberto Caeiro e não como Álvaro de Campos, com uma alma limpa e não tempestuosa. O espírito está lá, fora de nós, no lugar. Se soubermos, viveremos nele em paz.

Monday, March 27, 2006

domingo e convite

Os jantares de domingo cá em casa foram-se adaptando com o decorrer do tempo e das circunstâncias.
O domingo foi sempre o almoço. Almoço de família. A família que, com o decorrer do tempo se foi recompondo, sem até agora, se decompor. Contínua centrada na casa mãe de Vermoim, com os pais, os filhos e os netos, sendo que estes últimos, constituem o segmento mutante do clã. Dos mais velhos, apenas partiu a Senhora Rosalina. O segmento mutante, crescente no que se refere aos mais novos, vadio, no que respeita aos mais velhos, vai variando de domingo para domingo. Hoje não esteve a Joana. A preparação do almoço e o respectivo são um acontecimento, que ganhou lugar e rotina e que nos ocupa cerca de um quarto de um dia de vinte e quatro horas. O Manel esmera-se na cozinha, que faz as nossas delícias tanto ao nível da degustação propriamente dita, como da envolvente convivial da espera e do pós-repasto, que se desdobra no arrumar as dezenas de pratos, talheres, copos e enormes tachos, que deixamos para que a D. Maria José os esfregue e lave convenientemente na segunda-feira. Cumpre viver plenamente este espaço único e confinado à circunstância presente que tanto nos preenche.
Por isso os jantares de domingo são o que tem que ser – para mim um copo de água das pedras, para o Pedro uma invenção qualquer que se assemelhe a “comida”, a palavra mais comum em estado de ávido crescimento e para o João a invenção de qualquer coisa que tape o buraco da fome que sempre aparece. (Por isso Joana, porque não estás - mesmo que quando estás não comas, a tua presença era por certo aquilo que me obrigava a sentar à mesa ao domingo à noite – o quarto vértice do quadrado que permitia o equilíbrio familiar. Aqui o triângulo é instável, sem que isto represente algum juízo de valor. Há muito que a instabilidade deixou de ter conotação negativa para ser uma característica substantiva da realidade.)

Convite:
No dia 29 de Abril de manhã a Cultour tem o privilégio de contar com Álvaro Siza numa visita ao Marco. Os lugares estão circunscritos aos quarenta. Eu tenho a minha cota e para isso tenho que construir a lista dos meus convidados. Manifestem-se. Esta visita exige descrição e disposição e será, se soubermos entender, um momento único.

Saturday, March 25, 2006

ponte de lima

Para dizer como arquitectura preenche a vida.
O acto de construir. Construir como acto que se inicia na concepção e termina muito depois da obra acabada. Construir como acto que se inicia antes da concepção, no envolvimento cultural com o sítio. Siza. O sítio – paradigma da nossa – minha - formação. Hoje a cultura do lugar parece que passou de moda. Agora que provavelmente ela deveria estar muito mais presente, não como a defesa contra o global, assim explicitamente defendida pelas correntes do poder, mas como algo que nos identifica globalmente, sem preconceito e sem xenofobias. Contra a tentação da marca e do comércio. Contra a afirmação do arquitecto e mais pela afirmação do construtor.
Hoje saber construir significa, antes do mais, interpretar para apagar e não para marcar. Encontrar o lugar que, de um modo indelével, tem que ser tocado pela mão do homem para imanar um novo significado.
Passeei em Ponte de Lima, com um rio cheio e lasso, onde se lia corrente, que teimava em contrariar a sua denominação de rio morto. O Lima estava cheio, vital. Os patos-reais deixavam-se ir ao sabor da água e levantavam voo rasante por entre as árvores e arbustos submersos pelo meio. Os pescadores, equipados e cantantes, debatiam-se com a corrente à espera das trutas. Os muros húmidos mostravam texturas e cores feitas de inertes e da vida dos líquenes, dos pequenos malmequeres, dos musgos e das violetas bravas.A água da chuva reluzia nos campos verdes e planos já sem os tesmunhos das culturas tradicionais. Restam pequenos pontos brancos desenhados pela flor da couve galega e a amarela dos grelos e dos hortos. Os muros também eram ruínas.
O tempo parou por entre os nossos passos contínuos ao longo da margem debaixo do olhar cirúrgico de arquitectos… e não só. Porque neste não só, estará o limite para aquilo que o arquitecto anseia fazer, marcar o lugar. Estará o bom senso de nos entendermos enquanto prolongamento do natural, culturalmente moldados, para dele sabermos colher toda a sua força vital.

Friday, March 24, 2006

Sopro

Quando o desejo não se conjuga no plural
Sobrevive o singular parco e trémulo
Em momento não reeditável – sopro.

Quando o desejo não se conjuga no singular
Apenas na memória e nela sobrevive
Como um sopro trémulo – evasivo.

Quando o desejo se conjuga noutro tempo
Leve e solto, etéreo e intenso
Morre evasivo em ondas interiores – ardente.

Sobrevive no ar o desejo intenso
Material sem corpo e sem objecto
Queima ardente as pregas da existência – denso.

Voa leva e eleva quem nele vive fora
Dentro dele longe vai sem ser apenas sendo-o
Sopro evasivo ardente denso.


Nas recolhas que fazemos (às vezes) encontramos coisas interessantes e sem nome.
Nas recolhas que fazemos sem tema e sem tempo apenas vagueando por papéis escritos, livros, jornais, folhas velhas – actividade de respigar que me fascina. Deixo aqui um testemunho dessa actividade de respigar, sem nome, sem lugar, sem tempo.
Com o temporal caiu uma árvore sobre a minha casa e vim mais cedo, respigar árvores, folhas e textos.

Sunday, March 19, 2006

já dentro do fim-de-semana

As reticências, confirmam-se enquanto tal – campo aberto e profícuo, adiadas para um futuro presente e sempre próximo. A vírgula deu origem a uma nova oração com um ponto final, que não significa final de parágrafo. A interrogação trans formou-se numa afirmação, em concorrência com a ideia, mas que se fechou num círculo restrito, ainda assim muito compensador: da arquitectura para a teoria das cordas e dela de novo para o acto conceptual, passando por arte, artista, sobre-vida, homeostasia, ensino, individuo, colectivo, social, biologia, física,…. Parece que as reticências fazem sentido – ou tão só a interrogação da condição humana.
Para amanhã, já hoje fica, a exclamação.

Thursday, March 16, 2006

...,?!

Continuo a pontuação por entre a calma e o calor do nascer da primavera. Pontuo o fim-de -semana que se aproxima com reticências, uma vírgula, uma interrogação e um grande ponto de exclamação, no domingo. Mantenho-me em suspenso, a compor as palavras pensamento com que vou intervalar a pontuação. Os suportes são tão diversos como os espaços. A acção desenrolar-se-á com as múltiplas personagens do meu universo presente… e outras do domínio da mente. A música será serigrafada no fundo do papel. Como agora, enquanto escrevo com Chet Baker por fundo, profundo.

Tuesday, March 14, 2006

boas e más acções

"E que dizer de boas e más acções? Boas acções e más acções não são meramente aquelas que concordam ou não com os apetites individuais e com as emoções. As boas acções são aquelas que, não só produzem bons resultados para o indivíduo através dos apetites e das emoções, mas também não causam qualquer dano a outros indivíduos. Esta barreira é intransponível. Uma acção que possa ser pessoalmente benéfica mas que cause danos a outros não é uma boa acção, porque o dano causado a outros vem por seu turno causar dano ao indivíduo que o causa. Tais acções são más: “…o nosso bem resulta especialmente da amizade que nos liga a outros seres humanos e às vantagens que assim resultam para a sociedade.” ( A Ética, Parte V, Proposição 10). Julgo que Espinosa quer dizer que o sistema constrói em cada pessoa imperativos éticos com base na presença de mecanismos de auto-preservação, desde que essa pessoa tenha em mente a realidade sócio-cultural. Para além de cada si individual há os outros, como indivíduos ou como entidades sociais, e a auto-preservação desses outros, através dos seus próprios apetites e emoções, deve ser tomada em consideração."

António Damásio; Ao encontro de Espinosa; Públicações Europa-América Forum Ciência, Pág 198

Às vezes é tão díficil distinguir o bem do mal, sobretudo quando a dualidade e o maniqueismo é tido como fundamento ético das sociedades totalitárias e antidemocráticas, que é particularmente grato descobrir um pensamento tão clarividente. Mesmo quando acreditamos que, sempre, tudo contém tudo o seu contrário.
Porque também aqui uma acção pode ser boa por uma lado, para o próprio indíviduo, mas transforma-se em má pelo efeito nos outros indíviduos. Porque o nosso bem resulta da "amizade que nos liga a outros seres humanos e às vantagens que dela resultam para a sociedade." Somos sis sociais. Somos Sós Sociais.

Saturday, March 11, 2006

pontuação

Pontuar a vida com momentos especiais é um segredo para viver bem.
A rotina, tantas vezes identificada como uma causa de insatisfação faz sentido quando pontuada. Com uma exclamação, com reticências, com parênteses, com uma interrogação, até com uma vírgula. Nunca com um ponto final. O ponto final limita a respiração – conclui.
Todas as outras pontuações do dia a dia, programadas ou imprevistas, são bem vindas. Abrem perspectivas e restituem o infinito, no momento. Pode ser uma conversa, uma prenda, uma festa, uma exposição, um concerto, uma conferência ou até um momento especial no trabalho. Cabe descobri-los, programá-los, inventá-los ou simplesmente vivê-los quando aparecem. Mesmo que vividos solitariamente são sempre momentos de diálogo, com outros seres vivos e com a humanidade. O que dá sentido à nossa dimensão una e vertical. Verticalidade aqui entendida como a dimensão do ser humano único que se enraíza na terra, como uma árvore e se eleva até ao infinito, céu.
(Estou grata a quem me educou neste dom de saber viver)

Thursday, March 09, 2006

os pais

Reflectia o Pedro enquanto estava à minha espera à porta da escola do ténis: “ São as mães que trazem os rapazes pequenos ao ténis. Quanto passam para a Academia (classe dos alunos mais avançados que estão em competição), são os pais que os trazem. Vêm vestidos de fatos de treino vermelhos, cabelo à beto, sacos para duas raquetes. Os pais vêm atrás, tem barriga grande e vêm a falar ao telemóvel”.
Quando entrou no carro, confessou-me a reflexão. Eu rematei: “ Pois é. As mães tratam da educação os pais da competição. Os pais fazem dos filhos aquilo que eles gostariam de ser.”

Wednesday, March 08, 2006

Poemax xr

GENÉRICO DE EFEITO PROLONGADO

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome,
Depois perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira

Este foi o medicamento que me foi destinado em sorte. Terei que o tomar durante alguns dias para o perceber. Persistentemente como convém a qualquer remédio, para fazer o devido efeito. Tomo nota das contra-indicações: “ O medicamento não deve ser administrado em pacientes portadores de manifesta surdez à musicalidade das palavras, ao encanto das imagens e metáforas e à perplexidade entre o som e o sentido”. Não é o meu caso, posso tomá-lo à vontade.
Quanto aos efeitos secundários: “ Foram detectados sintomas de dependências em pacientes pouco habituados à leitura e à partilha dos sentidos. Não existem sinais de arrependimento em utilizadores que correm a este genérico de olhos vidrados.” Quem me conhece sabe que não os temo.
Por isso, vamos a isto.

A Poesia Está na Rua , Santo Tirso 2006

Monday, March 06, 2006

concha

Como um caracol em defesa dentro da sua concha.
Como um animal de sangue frio em hibernação.
Alimentam-se de si próprios.
Se do que colheram, meditam – a melhor das hipóteses.
Se do que tem de si, apenas – a pior das hipóteses.
Se é apenas quaresma, para chegar à páscoa – a melhor das hipóteses.
Se é autismo por escolha – a pior das hipóteses.
Assim somos humanos – caracol ou cobra,
Cristãos ou autistas.
Algumas vezes na vida – a melhor das hipóteses.
Na vida sempre – a pior das hipóteses.

Saturday, March 04, 2006

A dimensão do erro

Por causa de um caso concreto tenho andado a pensar sobre o erro e a sua dimensão.
“Errar é humano”, diz-se.
Primeiro: o que é errar? Por certo haverá muitas reflexões acerca desta matéria que até concluem que o erro não existe.
No entanto para mim, comum mortal, existem erros. Erros relativamente às ciências exactas, erros de ortografia e gramaticais, na estrutura que é a língua, erros subjectivos, se falarmos em comportamentos, erros históricos, estes provavelmente condicionados pelo tempo e susceptíveis de por ele serem ressalvados.
É também importante para esta reflexão dizer que falo de erro não premeditado.
Neste caso falo de um erro de cálculo que deriva de uma vírgula mal colocada. A deslocação da vírgula para a esquerda alterou significativamente o resultado. Mas a dimensão do erro deve avaliar-se pelo erro em si, perfeitamente compreensível e humano, ou deve avaliar-se pelas suas consequências? E se optarmos pelo segundo modo de avaliação, se o erro for reversível, faz sentido avalia-lo pelo resultado?
A reversibilidade constitui pelo menos algum conforto a quem o cometeu, pacificando ainda que não inteiramente, a sua consciência. Se as consequências forem irreversíveis, o caso torna-se mais grave e pode trazer danos irremediáveis e não assimiláveis para o seu autor. (Tenho muito medo deste tipo de erros, porque creio que quando praticado por pessoas com estruturas mentais mais sensíveis, podem conduzir à verdadeira morte).
Estes pensamentos levam-me a duas conclusões. A primeira é que o erro é sempre erro, independentemente da sua natureza ou da sua dimensão e como tal deve ser evitado. A segunda é que o erro tem que produzir efeitos no sentido de alterar comportamentos ou procedimentos com objectivo de o tornar evitável. Até porque, independentemente das suas consequências, o erro é uma fonte de sofrimento, que danifica a auto-confiança de quem o comete.

Friday, March 03, 2006

micro-crédito

Hoje estive numa sessão de esclarecimento da Associação Nacional de Direito ao Crédito realizada no âmbito da implementação de um dos projectos escolhidos pela Agenda 21 Local.
Empolgo-me com estas coisas e acredito. Acredito no micro, acredito nos idealistas e sonhadores, acredito na bondade das pessoas! Quanto mais micro, mais acredito.
Dói-me no entanto perceber que este não é um sentimento geral, nem sequer maioritário e ainda nem sequer de uma significativa minoria.
Mas se eu, que nasci do lado bom do mundo, sinto tantas dificuldades para tornar real um projecto, porque não acreditar que a bondade das ideias não depende da dimensão material de um projecto, mas antes das redes de solidariedade que se criam? Pouco importa que o máximo de crédito possível seja € 5000. O relevante é haver uma instituição, que garanta a quem precisa dos €5000, o direito a que lhos emprestem. Esse empréstimo implica responsabilidade e confiança, provavelmente o que não é exigível a quem precisa de muitos €5000 para investir ( ou enterrar) em empresas tidas como fundamentais para a recuperação da nossa economia… e que depois, porque se perspectivam à escala global, deixam centenas ou mesmo milhares de trabalhadores ( dependentes) no desemprego.
É tudo uma questão de atitude, para mim, de valores. E poderão estar certos, não sou eu profeta que o digo, que economia social e que valores como os da coesão, são os únicos que nos podem salvar …ou por cegueira, perder-nos definitivamente.

Wednesday, March 01, 2006

que dizer mais...fazer!














Recordava uma figura, figura de sábio...

"Eu nada sou é tudo quanto digo
um sonho apenas do senhor do mundo
me perco mesmo quando me consigo
e só me salvo se em não ser me afundo."

Agostinho da Silva; Quadras Inéditas, Ulmeiro 1990

... redescubro um sábio por outras mãos, por diversas mãos.
Depois, vale a pena olhar infinitamente o ar do fim de tarde, ouvir as ondas sonoras que se fazem música nos meus ouvidos e respirar/absorver todo o não ser que nos constrói.

Nota: No Sábado, na Biblioteca Municipal de Santo Tirso às 15 horas, alguns amantes de Agostinho da Silva vão falar sobre o seu pensamento. Eu vou ouvir.

Monday, February 27, 2006

A recordar

Maia, 30 de Maio de 2004

Tentei, mais do que uma vez, escrever-lhe uma simples frase. Tenho muito para lhe dizer, sei-o dentro de mim, mas não me sinto apta a transformá-lo em palavras.
Queria agradecer-lhe os livros e os poemas que me emprestou, as aulas que deu e os sorrisos que sorriu com olhos. Queria agradecer-lhe o conforto, a ténue segurança e o doce alento que trouxe à minha descoberta interior, que apenas agora comecei, mas que acarreta já dúvidas e medos imensos.
Queria muito explicar-lhe como, nas suas aulas, frequentemente, encontrei o que precisava numa curta frase (palavra, som) de um poema. Queria muito explicar-lhe como, por vezes, essas palavras me apanhavam desprevenida, me secaram lágrimas antigas. Queria dizer-lhe tudo isto, queria mostrar-lhe como estou grata mas, agora que escrevo, tudo me parece incoerente e estupidamente pequeno, comparado com o que sinto. Começo a aborrecer-me com esta incapacidade sucessiva.
“As palavras são pedras”. E são-o realmente. Tornam concreto e plano o que tento dizer. Gosto do silêncio, professora. Faço por não gastar certas palavras. Vou comprar aquele livro também. No entanto, atrevo-me a abusar um pouco mais delas: obrigada por me ensinar a gostar muito de poesia, obrigada mesmo.

Joana

***

Foi assim que, há dois anos, percebi qual era o meu caminho, que descobri qual era a estrada a seguir, para me perceber e concretizar. Sei que tem buracos e eu tenho a tendência para dar trambolhões, desviar-me a fazer curvas e duvidar do caminho. Sei que darei muitas voltas e sei que nunca chegarei ao fim da estrada, de uma forma absoluta e completa. Mas ela, esta senhora, continua cá para me guiar e me levar a bom porto. E eu hei-se lá chegar. Obrigada.

Saturday, February 25, 2006

O segredo de Brokeback Mountain

Fomos os três ao cinema. Eu a Joana e o Pedro.
Depois do filme, como sempre e como gosto, conseguimos quebrar silêncio e falar sobre ele. O silêncio depois de um filme é essencial. Como depois de um sonho, depois de um concerto, depois de uma conferência, depois de... qualquer coisa que, porque nos tocou, precisa de espaço. Ficamos tensos se temos, logo de seguida, de manifestar opinião.
Foi igual com este. Passaram duas horas. Mesmo assim não sei se sei alinhavar alguns pensamentos. Tentemos.
Perguntava-me a Joana: Gostaste? Respondi: Não sei.
Agora posso dizer gostei. Porquê?
Porque de um modo directo e sensível vi abordar a homosexualidade. Sem preconceito? Julgo que não. O filme é feito sobre o preconceito. Ele próprio discorre sobre ele. Sobre a dificuldade de assumir preferências. Sobre a impossibilidade de assumir preferências. O que não é possível viver de outra maneira, porque a vida normal e a sociedade o impedem, será vivido assim, sob o olhar magnífico e ominipresente de Brokeback Mountain, inventando fins-de semana de pesca entre amigos. Apenas sob a discrição do céu e das montanhas pode ser consumada e vivida uma relação interpessoal tão natural e saudável que se transforma em desejo. Cá fora, no mundo real, tudo continua sob o domínio da regra e do correcto, ainda que o caminho da paixão leve, por inexistência de alternativa, à vida solitária. Quando assim não é, sobrevém a morte – destino ou castigo social – fica a dúvida
Dizia a Joana e eu concordo: “ O filme devia ter acabado quando eles se encontram a última vez em Brokeback Mountain”. De facto nada do que se segue acrescenta ao filme, apenas baralha. Ennis viverá sobre a culpa e sobre a dor da perda, encontrando pedaços do passado, mensagens de amor, que tendem a reduzir o filme a um melodrama tradicional. Mas o que me impressionou foi exactamente o contrário: contra o que o mundo heterosexual pensa e faz passar o amor entre dois homens, é realmente entre dois homens, másculos e viris. A idéia de fazer corresponder a cada homem um dos sexos, como se o amor, a paixão e o desejo só fosse possível entre dois contrários, dois seres que se completam, se fundem e se unem porque se complementam, não é verdadeira, pelo menos aqui. É puro preconceito.
Gostaria de perceber, para além da opinião dos críticos cinematográficos, que vêem o filme sob o ponto de vista do o objecto artístico, como é que um homem assumidamente heterosexual, entende este filme.

Friday, February 24, 2006

recomposição

Como um arqueólogo que junta bocados do passado, pacientemente, teimosamente…
Como quem faz um puzzle e junta peças, pacientemente…
Como um psicanalista, que junta passos, pacientemente, inteligentemente…
Como um poeta que junta palavras, sabiamente…
Como um pássaro que junta palhas e penas, diligentemente…

Juntar, relacionar de um modo quente
Criar ambiente perfeito para nossa imperfeição
Ninho
Gerar um lar é um dom.

no príncipio

(…)
Dir-lhe-ia
Vê como vejo. Não quero viver contigo, nem com ninguém. Quero ser nómada ou eremita. Ir ou estar, de modo só. Ocupar-me na observação do que vejo, e sinto, e imagino.
Criar mundo no pensamento, praticar o paradoxo.
Cuidar absurdamente do meu jardim, limpar o limiar da minha porta.
Dar forma. Aprender a linguagem dos pássaros.

De tempos a tempos, vir ter contigo, humana.
Praticar o rito do chá, a delícia da tua morada, a claridade do teu espírito,
O prazer do corpo. (…)

A tal página 107 de Finita de Maria Gabriela Llansol. Isto e muito mais. A tal escrita que poderia ter sido hoje e aqui escrita por alguns de nós. Escrita presente. Sem passado e sem futuro. Vida intensa e silêncio…mas também reverberação.
No princípio era o Verbo. Não era o nome, nem o adjectivo, era o Verbo – acção pura imaterialidade.

Monday, February 20, 2006

ler

Por vezes sentimo-nos tão identificados com a escrita de outros que faz sentido perguntarmos se ela tem passado. Se o que lemos, não foi escrito por nós, para traduzir aquilo que sentimos e pensamos no exacto momento em que o lemos. Acontece-me frequentemente e ainda bem. Só não faz sentido a pergunta, porque a mais das vezes, o que leio traduz muito melhor o que eu penso e sinto do que eu seria capaz de escrever. Esta é a diferença entre um poeta e eu … que procuro.
Ler é muito bom.

Saturday, February 18, 2006

nostalgia negra

Escrever hoje é uma catarse. Tentar pelo encadeamento de uma linguagem comunicável encontrar o sentido que falta para ligar o somatório de estratos quotidianos. A língua é uma estrutura de pensamento, que se funda na nossa cultura e por isso nos agarra, submetendo-nos. A estrutura do meu pensamento feito linguagem permite-me clarificar o meu modo de estar no mundo, reconhecer uma filosofia.
Não me é difícil escrever. A escrita está muitas vezes além do que consigo pensar, estruturar, relacionar. Por isso a dicotomia entre o que escrevo e realizo pensamento e o que sinto/vivo é muito acentuada. Aquilo em que acredito como verdadeiro sinto-o como dor. E a essa dor, ao contrário do que diz António Damásio, não tem para mim correspondência física. Não a detecto conscientemente no meu corpo, apenas no vazio da minha alma, talvez acompanhada sim, de uma respiração activamente lenta e funda que ocupa dentro do meu peito um lugar maior do que ele.
Para estes momentos, apenas estádios de linguagem poética ou música podem constituir sinónimo, acentuando o sentimento, numa doçura de morte.
A música sei onde vou buscá-la: Arvo Pärt, Mahler, Ravel ou Debussy.
O poema vou procurá-lo…ou alguém, que o saiba, me prende.

Thursday, February 16, 2006

a carta de condução

Está desvendado o segredo do post de ontem. A Joana já tem carta de condução.
Hoje começa o futuro na estrada. Sei que conscientemente, quero que conscientemente. Conduzir é uma responsabilidade. Pegar num automóvel dá-nos independência, mas exige muito autodomínio.
Ao fim de 26 anos na estrada tenho dois medos: a distracção e a violência pela auto-afirmação.
O primeiro tenho-o por mim. O segundo tenho-o pelos outros.
Ser distraída, conduzir sem pensar no que estou a fazer, de um modo automático é um risco que, todos os dias, me esforço por não correr. A minha cabeça trabalha muito enquanto conduzo: programo o dia, o trabalho, as tarefas domésticas, vibro com a música que ouço, com as paisagens que vejo… e sonho. Contra essa tendência tenho algumas defesas. Ando sempre devagar, esforço-me por me concentrar, respeitar passadeiras, peões, limites de velocidade...
O segundo assusta-me. Não gosto de ver as pessoas transformarem-se em animais ferozes ao volante, como se o carro fosse uma arma de defesa ou de ataque. Impacientes, rabujam, insultam, vociferam…. Egoístas, estacionam em cima dos passeios, à porta das lojas, em segunda fila… e dentro do automóvel têm sempre razão. E hoje cada vez mais também fora dele: saltam fora do carro e agridem. O aconchego da máquina, o sentido de posse e de poder arrebata e leva o cidadão mais anódino a cometer actos impensáveis.Desculpem-me a brejeirice, mas lembro-me sempre do Mister Been, que quando entrava no automóvel, este ficava com uma grande pila levantada.
A distracção e auto-afirmação duas formas de egoísmo que temos que aprender a dominar quando nos é dado o direito de conduzirmos.

Wednesday, February 15, 2006

Voto

Apenas um voto: que tudo te corra bem. Às vezes o caminho que nos parece certo, não é.
" Deus escreve direito por linhas tortas" mas, às vezes, Deus também escreve torto por linhas direitas. Vá lá a gente entender...

Sunday, February 12, 2006

on line

Por dentro. Ainda por dentro, com medo de que alguma pedra do dia venha desfazer esta magia:

Sol quente, conduzindo na VCI, acima, lentamente
Deixei a Joana em Campanhã
Herberto Helder por Herberto Helder
De (no) regresso
poesia
A minha vida feita poema – melancolia.

Encanto que não se quebrou
inflexões integradas
vozes, barulho de colheres - o silêncio
interior povoado
de rupturas, imprecisões
inteiras
que convivem ternamente
no limbo de um torpor maior…
Deixem-me estar.

Quem me dera ter o dom de vos levar a esse lugar!

esclarecimento

Devo um esclarecimento.
O poema da Maria do Rosário Pedreira foi enviado pela Susana à Joana.
Este simples facto revela-se muito significativo, para mim e para este blog.
Para mim, porque cada vez mais, o meu modo de vida assenta em dois paradigmas, que penso são visíveis no que vou escrevendo: comunicação e individualidade.
Para o blog, porque o seu conceito inicial assentou na necessidade e na vontade de comunicação intergeracional.
Por isso é bom que isto aconteça e que aconteça muito mais, trazendo para aqui vontade de debate, de troca de ideias e de experiências.

A Música

Há dias em que a música me ultrapassa, por ser perfeita para aquele bocadinho de dia, ou espaço temporal. Não consigo escrever a banda sonora da minha vida, mas sei qual é a música que tocará quando estiver a morrer e a ver os meus passos passarem-me à frente dos olhos. Conheço o seu som decadente e reconheço-a. Não sei nada de música, formalmente. Amanho-me mal com pautas e flautas e, no entanto, tenho-lhe um apego! Sinto-a sempre e todos e dias e de formas diferentes. E depois há memórias nas músicas: dias, cores, os olhos pintados com o risco preto numa manhã de fevereiro do ano passado, um fim de tarde de ressaca em Aveiro a escrever poemas sozinha, nos cafés, a pensar, o verão nos Pirineus, as viagens de carro, as praias, os ex-namorados e os pequenos almoços juntos. A música, a música!


A Música

I.
A música é
A gabardine do dia
Que corta a chuva
Até quando ela nos bate.

A chuva não molha
Quando o dia são notas
E as notas são horas.

II.
A música é
O cabide do dia
Penduramo-lo de mansinho
Pelas pontas.
Desejamos que não caia
Que não se desfaça.

E o dia faz-se
Em cal branca
Na parede da vida.
E o dia pendura-se
Na malha da música.

Até amanhã.

Olívia Rosmaninho


Saturday, February 11, 2006

assim serenamente

Aprender a viver em espaços diferentes e não querer sempre tudo e todos. Aqui ganha um enorme sentido o respeito pelo outro. A capacidade que, com a idade(maturidade) vamos conseguindo, de nos levantarmos antes de todos e serenamente esperarmos os seus acordares.

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre - a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos - dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que te tenha revelado uma só vez que o queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã - as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim

haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros.

...é assim mesmo num tempo de clivagens.

Wednesday, February 08, 2006

para ti(s)

Tenho saudades tuas. Muitas, muitas…
Das nossas conversas, mulher para mulher, ao jantar.
Dos comentários ao melhor arroz do mundo…hoje quase.
De navegar em atmosferas líquidas, que nos levam para espaços inter galácticos
Como hoje, sozinha em vapores distorcidos.

Tenho saudades. Mas, aqui sozinha, recrio o tempo em que estou contigo.
Ele já pôs os fones. Bem sabes … que a música pode tocar todos os níveis da experiência humana. A bordo da nave de John Seri, quem conhece o espírito daquele?
Incongruências quotidianas nos dias anódinos da semana.
Uma boa noite para ti. Em qualquer cama, encontra os melhores sonhos.

emoções

“Os seres humanos estão de parabéns, pelo menos em parte, por duas razões. Primeiro, porque em situações comparáveis, as reacções automáticas criam no organismo humano, sem qualquer dúvida, condições que são mapeadas no sistema nervoso, representadas como agradáveis ou dolorosas, e eventualmente feitas conscientes. É exactamente nesta capacidade que vem a ter origem a glória e a tragédia humanas. Quando à segunda razão para os parabéns: os seres humanos conscientes da relação entre certos objectivos e certas emoções podem esforçar-se, de livre vontade, por controlar as suas emoções, pelo menos em parte.”

António Damásio; Ao encontro de Espinosa; Publicações Europa América; pág. 69

Esta capacidade de, de livre vontade, controlarmos as nossas emoções, ou digo eu, de contornarmos os objectivos/obstáculos de modo a evitarmos certas emoções, distingue-nos dos animais. Ou então torna-nos iguais ou piores, quando, sabendo que vamos desencadear essas mesmas emoções, as provocamos indo directos ao objectivo que as vai provocar, de livre vontade. Conscientemente caminhamos para aquilo que, de acordo com o mapeamento do nosso sistema nervoso, sabemos que nos vai gerar emoções dolorosas, a nossa tragédia humana.

Saturday, February 04, 2006

gineceu ii

Rescaldo de outro gineceu.
Voltando ao tema da casa de mulheres. Desta vez sem qualquer provocação.
Tenho para mim que o sexo, entendido no sentido restrito, limita um relacionamento profundo e intenso, quando falamos em grupos de mais que duas pessoas. Quando numa relação de partilha e de dádiva se intromete o desejo sexual e com ele o sentido de posse, de exclusividade e de ciúme, a relação fica prejudicada. Por isso será mais fácil que a intensidade das relações se atinja em grupos do mesmo sexo ou em grupos em que o objecto sexual sejam pessoas do sexo oposto (para não excluir situações de homosexualidade, já que as de bisexualidade nunca se poderão englobar nesta reflexão).
Isto para chegar a outra interrogação: será que a célula base da nossa sociedade ocidental, a família (pai, mãe e filhos ou homem e mulher) é a mais correcta ou, dito de outro modo, a que nos faz mais felizes? Porque assentes nesta célula base de organização social, somos induzidos a regrar as nossas vidas pelo sentido da exclusividade e da fidelidade (entendida como tudo vale, menos partilhar o corpo – quanto a mim um conceito muito estrito e materialista). Para alguns mais evoluídos, até a admissão dos chamados “casos” pode ser integrada no conceito de família. Desde que tenha sido uma coisa episódica, confinada no tempo... satisfeito o desejo: foi uma “fraqueza” passou e até muitas vezes consolidou a relação do casal.
Não partilho de modo nenhum esta perspectiva. Entendo que qualquer relação interpessoal tem que partir da base da individualidade e do respeito por ela. A concepção cristã de que pelo casamento são “dois num só” não faz, para mim, qualquer sentido. Eu sou Um, completo e independente, que me relaciono com outro(s) para valorizar ou intensificar partes desconhecidas ou adormecidas desse Um. Eu aceito viver com outros desde que o respeito pela minha individualidade e pela minha intimidade seja total e assim de total confiança. Não a confiança básica, que se justifica pela hipotética certeza da exclusividade da relação. Antes a confiança de que tudo o que o outro faça é para a sua realização enquanto pessoa e isso nunca pode prejudicar os outros que ele ama – eu/nós. Eu gosto do outro, sou amada por ele na minha especificidade, amo-o na sua e permito-lhe a liberdade de ele se expressar, se realizar nas múltiplas facetas, algumas das quais, não tem nada a ver com as minhas. Viver assim exige verdadeiro amor: dádiva sem espera de retorno. Duro, difícil na prática, quando há o tal desejo de posse e medo de perda, que sobrevém ao sexo e à paixão física ( ainda que platónica). Porque, se for platónica, as nossas mentes desculpam, mesmo que o nosso credo condene. Um dos dez mandamentos é: Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos.
Regresso ao início: viver numa casa de mulheres heterossexuais. Muitas das quezílias, zangas, pecados e “mortes”, que se vivem no seio das famílias tradicionais, ficariam de lado… e permitiria partilhar os encargos pesados da educação dos filhos, da logística do lar e algum conforto afectivo que sempre faz falta.

Friday, February 03, 2006

recompor

"Ela tinha toda a vida presa por um fio. Nas mãos dela estava um papel coberto de palavras que ela havia de ler e reordenar. Há uma física e uma química das palavras; há uma electrólise da linguagem, pensamento elevado a símbolo, investido e despojado, polarizado pelo sangue, ancorado no instinto, mudando com a lua o rumo das marés por todo o ciclo monótono e louco da vida e da carne imaginadas, grades de cárcere e janela do céu, canto e delírio. Ela havia de tomar nas mãos as palavras uma a uma, a intangível harmonia íntima do cátodo e do vórtice e a doce e visível substância do crescimento molecular, havia de tomar nas mãos palavras e reordená-las dinamicamente em escrita da vida."

Não me apetece dizer de onde tirei o texto. Regressei apenas. Com a vontade de recompor sentimentos em palavras, em escrita de vida.

Wednesday, February 01, 2006

aviso

Estou com dificuldades de acesso à net.
Estou com muito trabalho. Não estranhem a ausência.
Mas também como tenho pouco eco...vamos andando.
Até amnhã.

Saturday, January 28, 2006

um bom conselho

“ …Lembro-me de um conselho de Colette ao jovem Georges Simenon: “ Agora tire-lhe essa poesia toda”.
Um bom conselho. Um escritor nasce no momento em que a sua verdadeira voz de autoridade se funde em fogo vivo com o tema que ele nasceu para contar. A literatura retira-se e o que resta é a crónica da vida – a vida crua, que pulsa: “ Um escarro na cara da Arte”.
A verdade é esta: cada geração, cada escritor, tem de redescobrir a natureza. As convenções literárias tendem a esclerosar-se com o tempo, e o que antes era novo já é velho. Só a coragem de uma voz nova pode redescobrir a vida real enterrada sobre décadas de pó literário.”

Erica Yong, Maio de 1991, in Abetura de “Crazy Coock” de Henry Miller, Colecção Nova Ficção; Puma Editora

Erica Yong reflecte sobre a impossibilidade de ser artista na América. América que rejeita os sonhadores e onde a pobreza “é uma ofensa moral, uma infâmia que a sociedade não pode perdoar”, atitude que segundo ela se funda no “puritanismo e na puritana suposição de que sonhar e imaginar são actividades suspeitas”. Ao contrário a Europa, no caso concrecto a França, a condição de artista e de escritor pode viver-se de cabeça erguida. “ Em Paris era ponto assente (ainda hoje o é) que um escritor precisa de tempo, de viver sem pressas, precisa de conversar, de solidão, de estímulo”.

The Greatest by Cat Power


Hoje entrei na fnac de forma descomprometida, depois de umas horas a ler e a escrever, no café. Entrei para ler uns poemas, que li e anotei, para ver uns livros de Design, para ouvir uns cds. Só para ver e não para comprar, que o mês foi duro e o saldo já se foi.
No entanto, foi com alguma timidez que me vi telefonar à mãe, perguntando-lhe se podia ‘estourar’ os últimos euros que me restavam, se ela me suportaria financeiramente até ao fim do mês, já que tinha, na mão, um dos melhores álbuns dos últimos tempos. Arrisquei-me mesmo a dizer 'anos', mas não disse.

A mestria de Chan Marshall (aka Cat Power) é sabida, o álbum anterior, You Are Free, não deixava espaço para dúvidas, com canções como Good Woman ou He War. As letras sempre bem desenhadas (Sim, sou apanhada por letras de música! E aquela Good Woman salvou-me a vida em Julho.), a guitarra e o piano. Aqui, The Greatest, a receita não é diferente, mas o disco é mais luminoso, com mais arranjos, menos da sala ou do quarto e mais do estúdio. Não deixa, no entanto, de ser intimista, Where is my love (aliás a mais bela faixa do disco, na minha opinião) é a prova mais concreta disso. The Greatest conquistou-me desde a primeira audição, já o ouvi no metro, no quarto e na sala, cabe em todos os espaços. A voz de Chan é áspera e agreste e ao mesmo tempo doce. A capa é brutalmente pop e brutalmente bem desenhada. Dos cds mais bonitos que tenho, de fora para dentro. E eu não sei que dizer para além de ‘adoro-o, adoro-o, adoro-o’. Ouçam-no, caramba!

Gineceu

Desculpem a intimidade. Desculpem o desafio. Desculpem a provocação.
Hoje teria muito, muito para desenrolar neste blog, ou noutros lugares. A Joana está em casa e regressamos aos nossos maravilhosos jantares.
Vou falar sobre o gineceu. O lugar específico das mulheres: este ninho e este conforto de encostar a face e sentir cetim quente. De poder roçar os lábios sem sentir desejo, nada que importune a doçura de gostar. A sociedade está mal organizada, ou, este não é o modo melhor de a organizar. O meu sonho sempre foi uma casa de mulheres. De cuidadoras, de trabalhadoras, de pensadoras, de independência e de respeito. E isso consegue-se muito melhor entre pessoas do mesmo sexo ( desculpem!) ou então, entre as quais as orientações sexuais são idênticas. Adoramos os homens, desejamos os homens, gostamos de conversar sobre eles, sobre o corpo deles, sobre aquilo que nele nos provoca, mas… nunca pode existir um lugar doce, gratificante e reconfortante como este: o gineceu. Eles que venham de vez em quando, inquietar este mundo, reconstruir matéria, geradora da energia que conforta este lar. Que venham muitas vezes, mas que partam, sempre, para que vivamos integras a nossa intimidade.
A Joana apaixonou-se por um CD, discorrerá sobre ele neste blog. Desafio um homem a senti-lo como nós. Se o sentir, todo o meu discurso sobre o gineceu vai por água abaixo!
Nota: Os homens cá de casa estão: um a milhares de quilómetros e outro de fones nos ouvidos a ver o Telecine Premium.

Wednesday, January 25, 2006

José luís peixoto iii

Ontem procurei desesperadamente o livro. Hoje pus os óculos e encontrei…o livro.
Dentro dele mil palavras, dele para mim, outras agora.
Depois de ouvir José Luís Peixoto falar numa linguagem didáctica, para uma assistência invulgarmente jovem, a Joana confidenciou-me ( espero não cometer inconfidência) vazio. Reinterpretar e traduzir para a nossa linguagem, a incerteza da vida, o reverberar da nossa condição humana e solitária, a angústia de procurar na comunicação o conforto, a casa, a mãe, a terra e a finalidade, é difícil, quando o ambiente e a palavra são, apenas e só, a transição ou a ponte para o indizível. Por isso, para ti Joana e para todas(os) as Joanas transcrevo outro poema:

Vertigem
somos tão novos e estamos tão perdidos, o teu silêncio
dentro do grito das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.

José Luís Peixoto, A casa, A escuridão, Temas e Debates;

Tudo é possível. (dentro do livro está um marcador com um desenho de Eduardo Chillida, outro modo de viver a eternidade)

José Luís Peixoto ii.

mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no teu colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são todas as estrelas que existem.
(José Luís Peixoto in A Casa, a Escuridão)

José Luís Peixoto

Há inigmas. Às vezes vivo tanto algumas coisas que elas passam a existir. Li um livro de poemas de José Luís Peixoto. Li poemas em voz alta para que outros os ouvissem também. Aquele sobre as estrelas, o outro, mínimo, sobre a mãe ... e agora procuro-o e não encontro o livro. Não está na minha base de dados. Tinha o livro? Li o livro? Dei o livro?
Amanhã ele estará em Santo Tirso e eu estarei lá, para além do livro.
“Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança, o desencanto.”
José Luís Peixoto; Antídoto; Temas e Debates

Monday, January 23, 2006

Eleições

Agora que o mundo vai pensar que nós somos um país de androides, a julgar pelo nosso representante máximo, que para além de querer que todos os portugueses sejam muito felizes, sabe comer bolo rei com a boca bem aberta, penso sucessivamente em fazer um programa extensivo de erasmus, de muitos anos. Ontem, foi mau, muito mau. Sem dramatizar, nestes próximos anos, não terei grande orgulho em ser portuguesa, infelizmente.

Sunday, January 22, 2006

Domingo de eleições

As eleições estiveram quase ausentes deste espaço. A não ser quando o extraterrestre anunciou a sua candidatura. Extraterrestre, andróide, Kanibal Tabaco Silva… Qualquer nome será bom demais para o provável futuro presidente.
Vamos sair para votar, todos contra Cavaco. Gostaríamos de ter uma surpresa.
A minha indecisão resolver-se-á lá, no cacifo de voto. Falta ainda saber se a pergunta “ Quem queres ter na segunda volta?” vai fazer algum sentido no momento. Votar em consciência também é difícil porque nenhum daqueles cinco homens me pode representar.
Saudades de Jorge Sampaio.

Friday, January 20, 2006

Swing

“O swing é um modo de vida, mais do que um modo de contornar o tempo. Quem me está a ouvir tem swing.”
José Duarte no programa Jazz com Brancas, antena 2.
Então eu tenho swing. Vá-se lá saber como e onde.

Wednesday, January 18, 2006

um bom sinal

“A pediatra socialista Michelle Bachelet venceu este domingo, com maioria absoluta, as eleições presidenciais do Chile tornando-se também a primeira mulher a ser eleita para o cargo naquele pais. O seu opositor, Sebastian Pinera, ficou a sete pontos de Bachelet.”

Já ontem queria fazer esta referência. Não tive oportunidade. Mas chega hoje e nunca tarde. Na europa do norte e do leste existem algumas mulheres nos cargos mais altos. Na europa do sul não. Comentávamos na mesa da cantina, se é por os homens serem machistas nas sociedades mediterrânicas. Concluíamos, na mesma mesa, que não são só os homens que são machistas as mulheres também o são, porque:
· Para nos impormos fazemos o papel de super mulheres: o do trabalho, o de casa, o de mães;
· Deixamos que os homens nos continuem a tratar como menores;
· Deixamos que os homens vivam plenamente as suas responsabilidades e ambições profissionais, continuando sempre a cobrir as suas retaguardas;
· Até achamos isso bem e natural: não somos iguais somos diferentes. Mas esta "diferença" mascara muitas sujeições.

Michelle Bachelet, veremos se um bom exemplo, ou se mais uma mulher/ homem. Não o creio, acho que vamos ter um bom exemplo.

Monday, January 16, 2006

Depoimento

Depoimento
Para uma aula na Escola Superior de Belas Artes do Porto (21.05.1980)

Eu sei, eu sei
sim eu sei. Sei-o agora e já há muito tempo o sabia.
Sim, sei, sei isso.
Mas eu sei isso e também sei o contrário.
E é tão difícil saber isso e saber o contrário.
Sim, eu sei
eu sei que a Terra terá cinco milhões de anos
eu sei que a Vida terá mil milhões de anos
eu sei que a “pequena” distância da Terra à Lua anda aproximadamente pelos 400 000 Kilómetros.
Eu sei, sim eu sei
eu sei que tenho apenas 56 anos de idade, 1,65m de alto e um passo de 70 centímetros.
Sim eu sei,
mas sei também
que a praia ficará diferente se eu lhe roubar um grão de areia
eu sei
que o mar não será o mesmo se eu lhe chorar uma lágrima
eu sei
que o Universo se altera quando respiro ou mesmo quando penso.
Sei, eu sei, eu sei que venho de longe e vou para longe
sei que não estou apenas aqui mas em muito lado, sei que não vivo “apenas” o tempo que vivo.
Sei que o infinitamente grande é tão infinito como o infinitamente pequeno.
Eu sei e sei mais e muito mais.
Sei que não sou excepção.
Sei que sou como todos os homens
os que nasceram e os que morreram
os que hão-de nascer para morrer.
Eu sei que entre mim e os outros há uma eterna e indissolúvel união.
E que os outros precisam de mim, tanto quanto eu deles necessito.
Eu sei que é este saber-mo-nos infinitamente grandes por sermos infinitamente pequenos que constitui
a paixão pela vida.
Eu sei, sim eu sei.
E é sobre esta Vida de paixão que tem sido a minha que vou falar.
Com ironia, com tristeza, por vezes com rancor, mas sempre, sempre com paixão.
Há anos pensei um pensamento para gravar numa porta que ofereci, simbolicamente, para a casa de uns amigos.
Esse pensamento pensava simplesmente: faz de cada um momento uma Vida.
Ofereci a porta mas não gravei o pensamento.
Gravei-o na memória e procuro praticá-lo no quotidiano.
E é essa paixão pela Vida que quero apaixonadamente transmitir. Porque não vive quem não mergulha permanentemente e apaixonadamente na paixão da Vida.
Eu sei, sim eu sei.
Eu sei.


Fernando Távora
Agenda da Câmara Municipal de Matosinhos uma homenagem ao arquitecto Fernando Távora, 2006

Saturday, January 14, 2006

excentricidade

Lembro-me recorrentemente de uma entrevista com Miguel de Sousa Tavares em que ele referenciava a sua mãe, Sophia, como um sopro de excentricidade que lhes alimentava a alma. Falava disso com amor e admiração, como se esse fosse o papel mais completo e pleno de uma mãe.
Conquistar o direito a uma vida própria e sedutora para os filhos, luz que abre caminhos não percorridos e não sabidos, para além de todas as tarefas quotidianas e socialmente correctas, é um desafio. Porta para uma identidade, que ultrapassa a meta única de ser mãe. Certeza de que a vida continua para além daqueles que realmente criamos através do acto biológico da procriação. Por isso rejeito visceralmente máximas que dizem “ Se não fizer mais nada já cumpri o meu dever” ao olhar para os meus filhos bonitos, inteligentes e justos.
O meu dever, o nosso dever é de todos os dias criarmos futuro, o Nosso, e termos como dizia João Ferrão, hoje, aqui e agora “Saudades do futuro”. “A vida é dura e mais dura é a razão que a sustém”.

Friday, January 13, 2006

Um excerto de Proust

... sobre esse estado, ou outro parecido com esse.

"De entre todos os modos de produção do amor, de entre todos os agentes de disseminação do mal sagrado, efectivamente este grande sopro de agitação que por vezes passa sobre nós é um dos mais eficazes. Então está a sorte lançada, o ser com quem nos recreamos em determinado momento é o que iremos amar. E nem sequer é preciso que nos tenha agradado até então mais ou tanto como outros. O que é necessário é que o nosso gosto por ele se torne exclusivo. E essa condição é realizada quando – nesse momento em que ele nos fez falta – a busca dos prazeres que o seu encanto nos dava foi bruscamente substituída em nós por uma necessidade ansiosa, que tem por objecto aquele mesmo ser, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam impossível de satisfazer e difícil de curar – a necessidade insensata e dolorosa de o possuir."

Em "Em busca do tempo perdido (Volume I) - Do lado de Swan", Pág. 245, Edição Relógio de Água

Thursday, January 12, 2006

Desculpas

A minha vida não anda facilitada: exames e projectos. Por isto, peço desculpa pela falta de actualizações. Prometo escrever sobre Nova Iorque, A Noiva Cadáver, de Tim Burton, e uns cds, mas por enquanto não contem com nada. Fora isso, estou apaixonada. E sabe bem, maior parte do tempo.

Monday, January 09, 2006

história e identidade

Alinhamento musical: Vivaldi, Arvo Pärte
Espaço: Uma sala aberta para o pátio/jardim
Tempo: Parado/suspenso
Contexto: Um almoço simples e um bom vinho
Conteúdo: Uma conversa sobre identidade
Causas próximas: a leitura de "Dimensão Oculta" de Edward T. Hall e viagem a Nova Iorque

Porque é que nós portugueses vivemos sempre a pedir desculpa, com um misto de complexo de inferioridade e de nostalgia do passado, da era dos descobrimentos?
Pergunto muitas vezes porque é que os programas de história no 4º ano, no 5º, no 6º, no 7º e no 8º anos do ensino básico (falta-me ver se no nono também), são sempre à volta dos descobrimentos? E sobre os descobrimentos, a perspectiva é sempre a de um povo empreendedor e conquistador?
Tenho para mim que o mais importante da nossa história dessa época, é a capacidade de aculturação, de perceber por dentro as civilizações que abordamos e de com elas nos misturarmos. Ao contrário dos espanhóis que impuseram pela violência o domínio da sua cultura, os portugueses, ficaram, estabeleceram laços, integraram. Mas essa é a perspectiva menos valorizada no ensino comum da história. Dá-mos sempre mais importância a um Afonso de Albuquerque, que na Índia dominou pela força.
Hoje Portugal acolhe povos de muitas origens, desde África, América do Sul, ao Leste Europeu. Não me parece contudo, que tenhamos hoje essa capacidade histórica, que outrora nos caracterizou, de saber aprender e integrar outras culturas. Ontem via na televisão uma reportagem sobre o Natal dos ucranianos, com manifestações de repercussão pública, que mais pareciam folclore do que vontade de apreender e aculturar. Mas esta capacidade de integrar exige uma consciência de identidade e de orgulho próprio que definitivamente não temos. Porque não temos consciência de povo, não sabemos de história, da nossa história e não nos reconhecemos. Estamos sempre mais preocupados com o vizinho do lado do que com o nosso lugar no mundo. Outro dia, Jorge Gaspar, dizia que não percebia porque é que o Porto queria rivalizar com Vigo, estando sempre preocupado com dominar o eixo atlântico, quando, como região, devia era preocupar-se com o seu lugar na Europa.
Esta reflexão decorre da viagem, não com o objectivo da fuga, mas como um modo de regresso, de retorno ao nosso interior, à nossa identidade.

Saturday, January 07, 2006

eternidade presente

Na nossa cultura ocidental somos escravos do tempo. Temos medo de não ter tempo. Fazemos programas para gerir o tempo. Vivemos o imediato e no imediato, sem perceber que tudo tem o seu tempo. “ Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje” porque temos que estar sempre preparados para a morte. Inventamos maneiras de matar o tempo. As parábolas bíblicas ensinam-nos que temos que estar vigilantes, como virgens de lamparinas acesas, porque o Senhor e o dia do juízo, podem chegar a qualquer hora. Ao contrário, a natureza ensina-nos que há um tempo linear e irreversível: tempo de preparar a terra, de semear e de colher.
Quando tudo se desenrola num tempo assustadoramente acelerado, como outro dia reflectia neste espaço, julgo que o nosso papel como educadores e como seres que querem estar vivos, é o de conquistar tempo ao tempo. Saber esperar, encontrar o momento oportuno para criar, para dizer, para dar, para ter, é o desafio que se põe. Resistir ao impulso de conquistar o tempo no momento, para que o momento transcenda o tempo e se torne eternidade presente.

Friday, January 06, 2006

Ressaca II

Como gosto das viagens nos dias seguintes. Como gosto de reviver lugares e sensações doutro modo, de cá para lá, no que ficou por cumprir e que agora revivo em memórias inventadas. Viajar é preciso. Refazê-lo é-me essencial.

Thursday, January 05, 2006

Ressaca

Da primeira vez que estive em New York vinha de Chicago. Ao longo destes cinco anos relembrei Chicago como “a cidade”, com boa arquitectura, organizada, calma e muito bonita. De New York guardei uma ideia indistinta, de mistura, de vida, de confusão.
A minha visão da cidade alterou-se nesta segunda visita. Esta alteração não se operou sobre a visão exterior que tinha da cidade: ela conquistou-me e como raras vezes tive pena de regressar. Estranho, porque quando cheguei senti desconforto e perguntei-me como é que eu vou aturar isto seis dias? Sinto que ficaram coisas por fazer mais do que por ver, porque Manhattan, sob ponto de vista do turista não é difícil de ver. A geometria e métrica das cidades americanas facilita a vida aos turistas, que percorrem por cima cada rua, cada avenida, cada loja, como que debicando sem saborear as diferenças de paladar.
Desta vez o Pedro fez um magnífico trabalho de compilação de lojas e espaços temáticos que eu completei com a definição de percursos que procuraram mostrar-lhes a cidade nas suas diferenças. A chuva e a neve não permitiram a conclusão do programa mas deram um gosto especial (sobretudo a neve no último dia do ano).
Como vou fazer para regressar a New York e: perder-me em Greenwich Vilage; sentar-me a ouvir no Blue Note; voltar ao Witney Museum; saborear o Harlem; experimentar as comidas coreanas, japonesas e turcas; jantar nos acolhedores restaurantes italianos da down town; e reconhecer a partir de dentro a história urbana da cidade?

Tuesday, January 03, 2006

2º prato


Madison Square Garden
(New York Knicks vs. Phoenix Suns)
2 de Janeiro de 2006

Sunday, January 01, 2006

impressões

É muito difícil falar de qualquer coisa quando estamos dentro dela. Se estes USA são muito diferentes dos que experimentei há cinco anos, julgo que não. Recordo apenas que não sinto a influência hispânica que senti em 2000.

Estando aqui agora uma ideia vêm-me sempre à cabeça: os extremos tocam-se. Uma cidade de altura e densidade e uma cidade de espaço. As distâncias são imensas e os vazios contam-se em milhares de passos que se desenrolam automaticamente avenidas fora. As pessoas amontoam-se e não nos olham nos olhos. Quando o fazem é para usarem um sorriso cínico de censura perante algum lapso interpretativo de quem não entende este “novo mundo”. A ostentação toca na miséria e ao mesmo tempo tudo se mistura.

Mas o que é certo é que os USA conquistaram o mundo, sobretudo para os mais novos. Aqui apercebi-me que as referências do Pedro são as da NBA, da NBC, ... e que tudo lhe é familiar. Sentem-se em casa na língua, nas referências, nos heróis, esperemos que não na cultura e na identidade.

Saturday, December 31, 2005

1º Prato


(MoMA; 30 de Dezembro de 2005)

Friday, December 30, 2005

Entrada



Aperitivo


(post feito num quarto da 31st street)

Wednesday, December 28, 2005

Até lá

Agora estamos mesmo de partida. Para a eventualidade de não conseguirmos dar notícias de Nova Iorque, só dentro de oito dias estaremos de volta. Espero que, com novidades, estórias para contar e outras que serão contadas, ou não, pela vida fora. Espera-nos um dia comprido, vamos conquistar cinco horas que devolveremos no regresso. Não há volta a dar.

Tuesday, December 27, 2005

Sempre de partida

Estranhamente calma e de férias. Aproxima-se o dia da viagem. Não tenho medo de andar de avião, ainda que a ideia de que durante horas estaremos sobre o atlântico me faça sempre alguma espécie. Quando fui ao Perú era não só o Atlântico mas também a floresta amazónica, um outro mar verde e impenetrável.
Não preparo a ida para além do essencial e também não arrumo nada do que fica. Porque a vida é sempre uma permanente viagem e cada lugar deve estar sempre pronto para deixar. O que nos custa é esta consciência de que tudo é efémero por mais essencial que se afigure no nosso presente. Mais do que as coisas os sentimentos. Um sentimento que hoje sentimos vital amanhã pode apenas ser uma recordação, sem qualquer dor ou mágoa. Mas hoje pensar nisso dói, uma dor por antecipação da perda, que provavelmente nunca se terá. Uma dor por pensar que pode até nem doer. Uma dor do futuro.
Um modo de tomar consciência da nossa insignificância.

Saturday, December 24, 2005

Desejo de Natal

À Avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.

No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se era para voltar a sentir o quante do teu colo.

Maria do Rosário Pedreira
em "Natal...Natais"
Oito séculos de Poesia sobre o Natal
Antologia de Vasco Graça Moura

Friday, December 23, 2005

Tardio Advento

Cheguei finalmente ao Natal.
As velas do Advento continuam por acender. Não fez sentido.
As prendas, compradas por empreitada. Agora vou compô-las. Respigar.
Este é o verdadeiro trabalho de Natal. Escolher o que faz sentido, juntar, redistribuir, para voltar a dar. Dar.
A família está novamente junta. Soube-me especialmente bem rever a Joana e estar com ela, excessivamente constipada e com saudades, já, de Aveiro, bom sinal.
Hoje começa o meu Natal. As lembranças de um ano cheio de mudanças que eu compilo, a partir deste momento, em alguns dias que auguro felizes.
Para todos.

Wednesday, December 21, 2005

Amanhecer

O título fui eu que dei.
Deixo este pequeno poema, leve e juvenil, cuja autora é uma recente descoberta nossa.
Na impossibilidade de o publicar ao amanhecer, faço-o no início da noite.


As luzes pestanejam
Verde, azul, vermelho
Beijam o vidro.

Eu arregalo os pés
Acordo os braços
Enquanto o dia boceja.

Olívia Rosmaninho

Sunday, December 18, 2005

Há dias

…que ultrapassam as barreiras do tempo e se prolongam no máximo da vivência. Conversas que se desfiam com diferentes personagens que igualmente me desafiam para o infinito. Um tema, um facto, uma pessoa, uma coincidência. Há catorze anos nasceu o Pedro. O Pedro é muito inteligente. Conversa connosco qualquer coisa e desafia-nos. Respeita a nossa individualidade… e provoca-nos, entende-nos na nossa sede de conhecer.
O João, aqui ao lado navega por Time Square, onde estaremos daqui por catorze dias.
Há pouco, em conversa de pós-jantar, concluíamos que a chave para ultrapassar a barreira do tempo e do espaço está na comunicação. Cada vez o tempo é maior, infinitamente grande porque cada vez é mais pequeno, infinitamente pequeno, porque mais denso. Hoje um ano corresponde a um século de umas décadas atrás. Com o Francisquinho, há uma semana, falava disso mesmo, ao recordar o Perú, em que a falta de comunicação, isolou séculos e parou-os no tempo.
O espaço é cada vez maior, porque cada vez mais pequeno, também. A velocidade, que desafia o tempo no espaço, já não é vivivel para um humano. O João dizia-me que as velocidades possíveis na fórmula um são impraticáveis porque um humano desmaia se as experimentar. Ontem, eu e o Zé, concluíamos que o presente não existe, porque o tempo se ultrapassa a ele mesmo, em cada instante. E também que o vazio é fundamento da matéria. Hoje eu e a Emília líamos a vida no presente, passado, futuro.
A ficção científica de ontem é hoje passado.
Existimos? Ou talvez não.

Friday, December 16, 2005

Agradecimento

"É uma actividade fascinante, esta, a que se entregam algumas almas mais melindrosas.
Toda esta perseverança e diligência, este comércio inocente e magnífico de figurações e símbolos, este ritmo nascido de mãos cheias de memória, talvez seja tão-só magia sem segredo, um reverenciar uma divindade de que até o nome já se esqueceu, uma nostalgia de coisas elementares sem mácula. Talvez… Seja como for, é perturbante que um homem em certas horas, e não das menos sombrias, se empenhe até alucinação em recriar umas frágeis raízes que o mar deu à costa, pedras de um rosa delicado, folhas onde o oiro da manhã se refugiou, pálpebras ainda com restos de sono." (…) e Eugénio de Andrade continua em “Tudo é só um puro dizer no tempo” a desfolhar sentidos e a evocar almas de homens que nos oferecem a paz, a luz, ultrapassando o tempo. Ele e outros, outros por ele, às vezes têm o dom mágico de nos transportar para este estado de pura harmonia, indizível e intemporal que, porque vivido uma vez, nos atingiu o coração.

Wednesday, December 14, 2005

Publicidade

Ora desculpem. É só para dizer que a mais velha deste blog, amanhã fica um bocadinho mais nova. Como não tem jeito para a composição gráfica digital, desafia a mais nova a fazer uma composição. Apela ao seu bom gosto e à sua imaginação…e espera ansiosamente que ela, a mais nova, leia este post. Seria bom sinal, depois de tantos dias arredadas e evasivas. Mas…alguns saberão...que para já não é sinal de desistência, apenas de outras confusões ou ilusões.

Sunday, December 04, 2005

ruínas

Hoje, numa festa de família alargada, reencontrei os meus tios e primos que já não via há muito. Fez-me pensar.
Reencontrei-os no passado e não os reconheci no presente. Quebrei laços e com isso perdi um pedaço de história. Isso não me preocupa minimamente nem me faz sentir mal. Só que faltavam lá pessoas, as pessoas do passado que faziam parte da essencialidade daquele quadro. Sem elas o quadro não é o mesmo. Por isso tive saudades dos meus avós, muitas saudades. A continuidade da relação teria permitido a substituição: os avós morrem e são substituídos pelos pais, para que o tecido se reajuste e remende os buracos que se sucedem ao desaparecimento. No meu caso os buracos continuam lá, bem visíveis, bem presentes, ainda bem. Não preciso de fotografias para os lembrar. Basta-me o quadro desfeito desta existência.
Porque temos sempre a necessidade de substituir para recompormos o nosso quadro afectivo? Porque lidamos mal com a ausência? Porque inventamos outros destinos para os que desaparecem? A nossa tradição cristã empurra-nos para a ilusão de uma outra vida para que os mortos não morram e para apaziguarmos a nossa pouca aptidão para lidarmos com o nosso certo destino.
Isto leva-me a um texto de Henry Miller, sobre a ruína e o modo de com ela lidarmos:

“Um dos fascínios das ruínas é que sugerem ou revelam sempre a configuração original ou, por outras palavras, a intenção. No meio da maior devastação temos a certeza de encontrar pedaços isolados de perfeição: um arco, um pilar, uma cúpula, um pedaço de pavimento. O trabalho de restauro não só dissipa o charme e o mistério como produz o efeito, um simulacro, de rigor mortis. Nunca nada parece o que foi. O tempo é o mestre apaixonado da decomposição. A criação e a destruição são gémeas, como o foram o amor e a justiça.”

Viagem a uma terra antiga, in Viragem aos oitenta; Henry Miller; Editora Fenda; Lisboa 1999

Friday, December 02, 2005

SIDA


Não quero fazer grandes comentários, é apenas isto. Um grave problema inter-geracional.

Magnífico feriado

Em casa dos meus pais, estes eram os melhores feriados: feriados sem missa.Aqui em casa, esta particularidade não faz qualquer sentido, porque todos os feriados são sem missa.
No entanto este foi um excelente feriado. Fiz tudo o que gosto: li, fui ao ginásio, tomei um óptimo banho a seguir, fiz o almoço calmamente, ouvi música, trabalhei.
O almoço merece destaque. Contra o costume, em dias como este, decidi fazer almoço. Sentamo-nos os quatro à mesa, conversamos, rimos, divertimo-nos. Como foi diferente de quando comemos apenas “qualquer coisa” informal e rapidamente! Comer, independentemente da qualidade e da quantidade, é um acto social e contribui mesmo para comuniquemos.
Isto não é sempre assim tão harmonioso. Às vezes a mesa é local de conflito, de discussão, de não entendimento. Mesmo assim lugar de fundamental para o nosso equilíbrio e crescimento conjunto.
E se juntarmos um copo de um bom vinho tanto melhor.