Tuesday, February 06, 2007

cristais

Cristais, reacções químicas, danças de moléculas, protões e neutrões.
Quando penso nas relações humanas, esta dança apresenta-se-me no meu imaginário. Sempre em mutação. Sobressai uma virtude ou defeito, uma característica ou amorfismo. Mudam os afectos, reagem as vontades, sobrevêm paixões ou neutralidades.
Paixões que acalmadas pacificam e equalizam os sistemas moleculares, tornando-os estáveis, propícios a uma nova reacção… química. Falamos de química acertadamente, a química do corpo e a da mente. Falamos de contexto, o mesmo será dizer de ambiente, substâncias e reagentes que, considerados em comum, determinam a reacção, a paixão. Dança das moléculas, dança dos corpos em activos pensamentos. Não somos mais que matéria e espaço. Espaço tenso, sujeito a forças atractivas e repulsivas numa aparente e móvel estabilidade.
Olhem-me nos olhos, também eles compostos de ínfimas partículas que se arranjam para devolver sintonias e vontades. Quando olho e não vejo nada, para além da espessa cortina do nevoeiro inter-estrelar, penso que morro no processo de imaterialização desta matéria.
Onde estão?

sou uma expert

Acabei de ligar o skype em casa do Tio Manel. Estivemos a falar com a Joana. Estou perita nas novas tecnologias. Nunca pensei, mas é bom, muito bom. Estar contigo Joana, todos os dias, puder ver-te em tempo real, ou quase... é óptimo. Afinal não sou assim tão trenga. Bem, hoje não dá para mais, o esforço foi hérculeo.

Friday, February 02, 2007

Janeiro em canções


Download aqui
. No canto superior direto têm uma caixa, insiram as letras e números à esquerda e carreguem no botão que diz download, et voilà! Enjoy.

SIM

Duas razões para ser sim:

1- Porque é que em Espanha, sendo a lei idêntica à nossa, é possível praticar o aborto por vontade da mulher até às …. e em Portugal não. Por razões subjectivas que são dadas como válidas subjectivamente e, na subjectividade, a opinião que deveria valer era a da verdadeira interessada. Não me conformo com a ideia de, se eu decidir fazer um aborto em Portugal, ter que sujeitar a minha vontade ao referendo dos médicos ou outros profissionais, que têm o direito de definir se essa decisão põe em causa a minha saúde mental, a minha integridade como pessoa humana, ou não. A decisão é minha ou é de outros exteriores que por mim decidem? Tenho também que referendar o meu corpo e a minha absoluta vontade?

2- É uma razão de saúde pública. É completamente cego dizer que não se pode praticar o aborto, sabendo que se pratica. E desafio qualquer mulher a pensar a situação por dentro, como algo que pode acontecer-lhe. Eu penso: se por ventura hoje engravidasse, usando os métodos anticonceptivos que uso, decidia abortar, com 99% de probabilidades. O 1% deixo para quem, no tal acompanhamento previsto pela lei que vamos decidir no dia 11 tornar possível, me conseguir convencer a não o fazer. Se fosse hoje, recorreria a uma clínica privada, que o faria sem interrogar, em segurança.

Tenho 48 anos, reivindico uma vida sexual activa, o meu direito à realização integral e nunca pratiquei um aborto.

Delicatessen

Ontem lá peguei num dos filmes da biblioteca que tinha trazido. Delicatessen é porco, estranho, nojento e é lindo. A história (as estórias) macabras, duras, suicidas e deliciosas. As cores saturadas. As pessoas saturadas. Há as bolas de sabão do Louison, o sopro no olho da Julie, com as caras muito perto, e a casa de banho com água até ao tecto que partilham, no fim.

Uma surpresa boa, vejam.

Wednesday, January 31, 2007

Cinema


Esqueci-me de vos dizer que o Pandora’s Box é genial. Esqueci-me de dizer que é muito bem filmado, que tem imagens muito bonitas. Esqueci-me de vos dizer que a exibição era com acompanhamento ao vivo, piano. Esqueci-me de dizer que ontem foi dia de Catherine Deneuve e Truffaut, em Le Dernier Métro e que, agora, tenho ali na mochila o La Strada e o Delicatessen. Ai cinema cinema!

Tuesday, January 30, 2007

comunicar

Agora é assim. Iniciei uma nova era com a minha nova máquina fotográfica. Ainda não sei utilizá-la bem, mas pelo menos, já sei reduzir o tamanho das imagens para publicar.
O novo ano dá frutos de muitos modos. As duas promotoras do blog continuam em alta e cheias de novidades e de esperanças.
Gosto muito de falar com a Joana e vê-la com os movimentos lentos e doces diferidos no tempo através da web câmara. Perdemo-nos e, num instante, se passam horas. Na realidade as novas tecnologias são qualquer coisa de inimaginável. Aos poucos os de minha geração são conquistados por elas e rendêm-se às novas formas de comunicação. Mas não pus de lado a forma epistolar e ainda esta semana lhe escreverei uma carta em papel que começará com " Minha querida filha" e terminará " A tua mãe que te adora, Maria". O papel, a caneta, o envelope, o selo, o carimbo, a viagem ... e a recepção são um percurso inestimável e insubstituível - uma outra emoção.

Mais duas imagens


Monday, January 29, 2007

Lençol

Aqui está a fotografia que faltava. O bordado é meu, a renda da minha Avó. O lençol anda em serviço na casa.

Guiding Architects

Estava um dia azul. Aprenderei a reduzir o tamanho das fotografias para melhor as colocar aqui.
Terminou o 7º Meeting dos Guidings Architects. Deixo o link http://www.guiding-architects.net
.

Sunday, January 28, 2007

Duas exposições



Hoje foi dia de procura, aqui nas Inglaterras. Além de me perder de propósito nas ruas e de me encontrar, de procurar uma determinada loja de cds que queria encontrar, andei no rasto das galerias de arte. Uma encontrei por mero acaso. Outra fui lá dar guiada por mapas e guias. E vi, então, duas expoisções. Nenhuma extraordinária. Medianas, mas com um ou dois detalhes lindíssimos. Na Urbis, uma esposição sobre Hong Kong, com um filme de animação lindo (tenho de lá voltar), na Cornerhouse a instalação com o meninos sem cabeça, mas com muitas cores e muitas sombras. E, amanhã, é dia de Pandora's Box no Cornerhouse. Ai vida boa...

Saturday, January 27, 2007

Uma fotografia...


...das terras por onde ando.

Thursday, January 25, 2007

meia semana

Já contava que assim fosse. A promessa de uma semana contra o tempo material estava expressa.
Para quem gosta de fazer a compensação é suprema. Para quem gosta de parar, de pensar, as dúvidas são muitas. Fica o dilema, mas o pensamento não para e encontra sempre um nicho onde alojar-se: uma viagem até casa, uma ida ao quarto de banho, um a sessão de ginásio ou de piscina, um intervalo para fazer o jantar, o ritual do pré-dormir... os papéis com recados acumulam-se em montes metodicamente sobrepostos no meio da aparente desarrumação. Os papéis que funcionam no momento da escrita como forma de memorização, apenas. Quando a eles regresso descubro com satisfação que as tarefas estão escrupolosamente executadas.
Sobrevivi à partida e quem quiser saber da outra metade pode procurar o senhorerasmus ou simplesmente sobre o nome Joana deste blog fazer um clic.

Sunday, January 21, 2007

esta semana

Semana em alta a que se inicia.
A mais nova, quando acordar, estará na "ilha".
A mais velha, para além de sobreviver à partida, terá que preparar-se para um fim de semana empresarial e cosmopolita.

"Nos próximos dias 27 e 28 de Janeiro vai realizar-se no Porto o 7º Meeting da rede de Guidings-Architects. Esta organização reúne as empresas europeias que trabalham na organização e acompanhamento de viagens turísticas orientadas para tema da arquitectura contemporânea, sendo sua característica a integração de arquitectos na sua direcção.
O Porto foi escolhido como local de reunião porque a Cultour foi recentemente aceite como representante portuguesa nesta rede internacional, fazendo actualmente parte dela como membro efectivo. A Cultour, que iniciou a sua actividade em 2005, será a anfitriã do encontro, que no seu programa inclui, para além da reunião de trabalho a realizar nas instalações da FAUP, no dia 27, uma visita guiada às obras de arquitectura contemporânea mais emblemáticas da cidade a realizar no dia 28 de Janeiro. A arquitectura contemporânea constitui um dos nichos de mercado mais promissores para o desenvolvimento do turismo cultural em Portugal e a cidade do Porto, enquanto berço da Escola do Porto, um dos destinos mais visitados por turistas estrangeiros.
Este encontro contará com a presença de catorze empresas para além da Cultour que representam onze países, originários de toda a Europa desde o leste, donde se destaca a sua congénere de Moscovo, passando pelo norte, com Oslo, pelo centro com a Alemanha e Aústria, até ao mediterrâneo representado pela Itália, pela Grécia e pela Espanha (Barcelona). Serão cerca de trinta os participantes que durante dois dias irão debater os problemas e as oportunidades com que se debate esta actividade, tentando encontrar soluções conjuntas para ultrapassar as actuais debilidades e projectar a sua actividade no mundo.
Num contexto em que Portugal se pretende afirmar como destino turístico é particularmente relevante que a cidade do Porto tenha sido escolhida para este encontro de elevado nível profissional." Nota de imprensa

Saturday, January 20, 2007

Fiama

Morrem os nossos poetas queridos.
Os nossos poetas queridos nunca morrem.
Morrem para nós quando nós morremos.

Das Lágrimas

A pequeníssima aranha assusta

a criança que eu estava a olhar,

e chora. “ Meu duplo filho,

não temas a imensa labuta

da caçadora de insectos.

Ela estende uma rede, tão frágil

que a podes romper com o menor dedo.

A menos que, antes do gesto, encontres

a beleza do tecido luminoso,

quando a aranha ofende o Sol

roubando-lhe alguns raios,

ou a beleza da água que ela retém,

como diamantes sem preço,

rosácea de lágrimas.” Fiama Hasse Pais Brandão


"Sobre a sua obra poética escreveu o também poeta António Ramos Rosa: "Fiama sente a inextricável complexidade do mundo e a sua perplexidade perante ela é permanente, embora não passiva. Essa perplexidade não paralisa a investigação activa do real, antes parece estimulá-la e desenvolvê-la"."

retirado de www.rtp.pt


Galeria de cheiros

Os nossos cheiros, a memória dos cheiros: Cheiro a café, cheiro a torradas, cheiro a tília, cheiro a terra molhada, cheiro a mosto, cheiro a...
(para completar)

Friday, January 19, 2007

Para a cp...


o último projecto antes de Inglaterra.

Thursday, January 18, 2007

lençóis

Na casa dos meus pais havia um hábito que ficou submerso e do qual me recordei ao pensar nas malas da Joana. Todas as semanas à sexta-feira mudavam-se os lençóis da cama, mas só se mudava um: o de cima passava para baixo e punha-se um lavado em cima. Mudava-se também a travesseira. Combinavam sempre, porque os lençóis eram brancos, sempre brancos. Bordados por nós, eu já entrava na linha de montagem que era liderada pela minha avó e pela minha mãe, ou com um entremeio em renda. Alguns estão agora em minha casa e usam-se. Porque eu não gosto de guardar, gosto de usar.

A Joana tem que levar lençóis para Inglaterra. Por isso me lembrei que pode levar só três e usar o método que usávamos em casa dos pais.

( não consigo pôr a imagem porque é muito pesada)

Tuesday, January 16, 2007

desculpas

Tenho um post escrito e uma fotografia tirada.
Ontem tive problemas de acesso à net e hoje estarei muito ocupada à noite ... alguns sabem porquê e desculpar-me-ão.
Amanhã.

Sunday, January 14, 2007

Ota, em todos os sentidos!



A comunicação global para o Aeroporto Internacional da Ota tem-nos ocupado os dias. Rouba-nos a paciência a todas as horas mas, quando vemos as coisas no sítio, juro, ficamos felizes. Duas, das muitas,aplicações.

As bandeiras dos nossos pais - Clint Eastwood



Fomos ontem, sem a Joana, ver o filme. Saímos os três com ar de quem queria mais. Talvez faltem “As Cartas de Iwo Jima”. No entanto durante mais de duas horas conversamos sobre o filme. Para mim, que não sou grande conhecedora de história, sobretudo se comparada com os meus dois companheiros de filme e de conversa, foi interessante ver outros lados da guerra, assentes sobre o equívoco e a mentira.

Apenas duas ideias:

- A guerra vista do lado do negócio, como monstro sorvedor de dinheiro, muito dinheiro. A construção do herói a partir de um logro. A utilização do logro e do herói para angariar fundos. As famílias que dão os homens para a morte também dão o dinheiro para os matar.

Mas os homens são bem mais interessantes do que os heróis. Ou melhor, como diz o filme, não há heróis, há homens.

- Pela primeira vez num filme de guerra vi claramente que os homens que a fazem são miúdos. Usualmente os actores consagrados dos outros filmes roubam-nos essa ideia de juventude assustada e perdida que se vê na guerra sem saber como. Neste filme é assim mesmo. Olho aqueles actores e vejo meninos.

Sob ponto de vista da imagem é espectacularmente cinzento e imenso.

E agora esta deliciosa transcrição da entrevista de Clint Eastwood publicada no Expresso da semana passada: “Tenho um amigo que tem mais ou menos a mesma idade que eu e que me disse há dias: “ Sabes qual é a grande vantagem de um gajo já ter passado dos 70?” Eu, naturalmente, fiquei um bocado perdido, porque não me estava a ocorrer nada de positivo. “ O que nos podem fazer se não nos portarmos bem?” Talvez seja isso.”

Saturday, January 13, 2007

Cheeeeese!


Cá em casa recebemos as nossas prendas de anos. Eu e a mãe. Casa conta-mina e casa casa. Agora temos as duas máquinas digitais compactas, para levar para todo o lado, com saltinhos e olhinhos abertos. Uma mais ligeirinha para a maria, uma mais robusta para mim e a esperança de muitas imagens para adornar este blog. De segunda a oito, fotografo em Manchester, amigos!

Friday, January 12, 2007

sentidos

Ouvir, o prazer do som e do silêncio.

A música e o ruído, o ruído música.

Sentir com as mãos, com os dedos,

com o corpo, o calor e a seda.

Cheirar, o cheiro natural, das flores.

Madressilva, canela.

Mais do que ver.

Mais do que degustar – paladar.

Ouvir, sentir e cheirar,

Mais do que o gosto,

Mais do que o ver.

Ou só ver parado e sentir com a língua

O cheiro do tacto.

Thursday, January 11, 2007

índia

A Índia apoderou-se de mim. Sem rumo, sem história, sem objectivo, sem intenção. Apenas como qualquer coisa que se cravou na minha carne e dela passou a fazer parte ( ou já fazia, Calicute, Bombaim…). Alguma coisa que se evidenciou para me fazer sofrer de vontade de lá ir…para já de um modo pouco disciplinado, apenas pela imagem, pela dispersão onírica que ela permite.

…e o mais estranho é que este movimento foi originado pelo insólito de ver Cavaco com uma pinta na testa.

Wednesday, January 10, 2007

Por aqui...


...abre-se mão de coisas que não se devia (exposições, amigos, livros) mas, vos garanto, que estes serão os melhores cartazes de sempre. E vão dar muito prazer!

Tuesday, January 09, 2007

Meditações

A certeza de que um dia tudo isto acaba.

A força da vida e o gosto de viver.

Não sei o que reserva o futuro e também sei que não importa preocupar-me com isso. Mas a passagem do tempo assusta. Porque tenho a certeza que depois desta vida nada resta. Resta o que deixo nos outros e no mundo. Depois pergunto: pretensão? Porque esta consciência de que nada somos também é aquela que dita a humildade de nada sermos.

O que procuro? Porque luto? Porque trabalho? Para comer “viver”? Para dar condições de vida aos outros? Para permitir aos meus filhos terem momentos de felicidade?

Assusta-me pensar que há coisas boas que vou deixar de sentir e de fazer? Mas quando deixar de sentir é porque já não me interessa ou porque o relógio biológico entra noutro tempo? Vou perder ou vou ganhar? Vou sentir-me mal, ou sinto-me agora mal, porque penso que me vou sentir mal?

Somos todos iguais no começo e no fim. Quando nascemos e quando morremos. O que nos distingue é o que sentimos e o que fazemos sentir. Abençoados os que são capazes de nos fazer sentir: os que criam um magnífico concerto como o que ouço ( n.º1 para piano de Brahms); os que criam aquele especial espaço sem nome onde tudo bate certo pelo incerto, pelo desconexo; os que criam aquela imagem bidimensional que nos transporta para intemporalidade do presente. Neste reconhecimento o artista sou eu, que me perco e envolvo, que sei reconhecer no instante da solidão suprema a felicidade de ser.

“ Acautela-te, leitor, porque o artista és tu, somos todos nós – a estátua que deve desenvencilhar-se do bruto bloco de granito que a contém e começa a viver.”

Durrell, Lawrence; Clea; Quarteto de Alexandria; Ulisseia

Monday, January 08, 2007

quarto de banho 2


A fotografia é pior, eu sei. Em breve não terei desculpas para qualidades destas, mas para já... é do telemóvel. Mas teria que retornar àquele espaço. Para que vejam a tal janela.
Assim fomos criados, numa mistura entre velho e novo, em que o equilíbrio se compõe com o nosso gosto e o nosso sentido de estética. Uns mais artísticos e sensíveis aos ambientes, outros mais desprendidos, mas todos compostos desta mistura que nos molda. Desenho erudito e desenho tradicional ou empírico. Lavores femininos ou mãos de carpinteiro. Montalbán ou Tio Patinhas.
Todos moramos em casas modernas e todos sabemos o que é passar por uma porta de 2,50 de altura, mais a dita bandeira. Vivemos em casas funcionais mas regressamos sempre aos compartimentos interiores, que obrigam a pedir licença por respeito à individualidade. Também dava direito a umas bulhas quando um de nós entendia que não tinha sido devidamente respeitado.
A primeira metade da minha vida foi passada em outras duas casas fascinantes que recordo, sobretudo uma, com saudade, porque a ela não posso retornar a não ser em sonhos vivos.

Sunday, January 07, 2007

quarto de banho







Tem cerca de 16 m2. É grande como um quarto grande. O pé direito ultrapassa os quatro metros. Até cerca de um terço da altura, está revestido com azulejo branco, rematado com um friso preto e branco. O chão é revestido a mosaico amarelo, rosa, castanho e beije, onde se desenham flores estilizadas ( pelo menos como tal sempre as li). A caixilharia da janela foi desenhada pelo meu pai. Lembro-me de as colocarem, há seguramente quarenta anos. Tinham uma ferragem inovadora, oscilo-batente. Mantêm-se impecáveis. Torneiras passadoras nas paredes, tubagens à vista, esquentador a gás, uma cadeira e um banco pintados de branco onde repousam as leituras de ocasião – um policial de Manuel Vasquez Montálban, “ O comportamento Sexual da Mulher e a Arte da Sedução Erótica” em edição antiga da Moraes, jornais e revistas variadas e um Tio Patinhas.

As portas altas, excessivamente verticais, com as bandeiras ocupadas por dois vidros, a luz amarela originária de um ponto suspenso, enquadrado por uma túlipa de vidro, o som dos passos ou da água que ecoa no imenso volume de ar, o lavatório embutido num armário balcão revestido a pastilha branca, também desenho do pai, uma atmosfera única, que faz parte da nossa infância, e que sinto essencialmente presente na constituição da pessoa que sou: não como memória ou memórias, mas com uma qualidade cénica e romântica, um halo de orgulhosa decadência, que me estrutura. Este lugar constitui-me.

Friday, January 05, 2007

Barcelona


De dia um até hoje de manhã estive em Barcelona. Mais nas ruas que nos museus, mais nas pessoas que nas representações. Excelente maneira de começar o ano, abrir os olhos aos pequenos detalhes, às coisas pequenas: as caixas de lata, nos antiquários, as praças com música nos cantos, as escadas nas traseiras da Sé acompanhadas de gelados, colheres que rodam na boca e muitas conversas e as roupas limpas estendidas no acordar da tarde. Barcelona, ó Barcelona!

Thursday, January 04, 2007

fumar

Não tenho fumado. Fumar irrita-me. A cada cigarro penso que não devia fumar. Faço-o, quase sempre, sozinha: a olhar as árvores, o horizonte verde, a soprar o fumo pela frincha da janela, ou debaixo do exaustor da cozinha, para não incomodar os que não fumam. Já sabia que poderia olhar a paisagem sem ter um cigarro na mão. Apenas consciencializando o acto de estar a olhar pela janela. O acto de não pegar num cigarro significa para mim um ganho de tempo calmo. Ao contrário de outros fumadores, para mim, o não fumar é um factor anti stress. Então porque gosto de fumar? Pelo gesto, mais que pelo gosto. Relembro a minha tia brasileira que dizia “ Vício bonito.”… mas sei como os outros fumadores, que não posso dizer “Não fumo” , prefiro dizer “Hoje não fumei”, até me esquecer do gesto de pegar num cigarro…porque também não quero fazer como aquele personagem tirsense, que deixou de fumar há vinte anos e continua a passear de cigarro na boca.

Wednesday, January 03, 2007

laica

Depois de treze anos a fazer-nos companhia a Laica morreu. Esperávamos a morte da Laica. Nem isso impediu que algumas lágrimas nos saltassem dos olhos por não podermos impedir a nossa cadela de sofrer. Vai Laica, vai, deixa-te ir para o outro lado. E ela foi diante dos nossos olhos, lentamente.

O Pedro dizia-me no domingo que o homem é o único animal que não sabe morrer.

Tuesday, January 02, 2007

trabalhos de ano novo

… e com o ano novo decidi iniciar a revolução energética cá em casa.

As máquinas só vão lavar à noite. Darei instruções claras à A. para não as pôr a lavar durante o dia, como ela muito gosta. Depois não me posso esquecer de às dez horas da noite pô-las a lavar, senão ouço raspanete no dia seguinte.

Outra das medidas para economizar água, disse-me ontem o meu irmão, é o meter uma garrafa de 1,5l de água dentro do depósito do autoclismo.

Ora bem. Quando cheguei a casa a seguir ao almoço de ano novo, pelas 17.30horas decidi meter mãos à obra. Primeiro obstáculo: já não me lembrava como desatarraxava a tampa. Lá veio o ajudante e tiramos a tampa. Segundo obstáculo: estava tudo sujo e tive que limpar ferrugens de anos. Depois a tampinha que segura o êmbolo da descarga caiu dentro do depósito e com a pressão da água da descarga desapareceu. Procurar arame para tentar reaver a tampa. Mas, nem arame em condições, nem tampa. Solução: roubar a tampa de outro autoclismo com menos uso que ficará inactivo até eu arranjar outra carapuça. Monta e desmonta, porque a bóia ficou encravada.

Balanço: mais de uma hora dedicada ao controlo do consumo de água; uma tampa perdida; alguns depósitos de água consumidos, mas esperemos que o retorno seja recompensante… para o mundo, já que para mim, por enquanto, só me meti em trabalhos.

Monday, January 01, 2007

Concerto de Ano Novo

A mãe, há pouco, ligou à avó dizendo “mamã, olhe que vai dar o concerto de ano novo na um às 10.30 e na rádio às 10.15.”. Cá em casa, agora, temos uma televisão ligada, sem som, para a imagem, a aparelhagem da sala, com duas colunas, para as notas e o rádio, branco e pequeno, da cozinha, para acompanhar o pequeno almoço. Agora sabe a ano novo. Feliz 2007 aos meus.

Sunday, December 31, 2006

periferias

Há alguns anos que percebi que o conceito de periferia é cada vez menos um conceito geográfico. Esta descontextualização do conceito tem vindo a acentuar-se com a globalização. A distância a um centro não é mais medida em quilómetros mas em tempo de acesso e este pode ser físico ou virtual.

Como tal ser periférico deixa de ser um lugar para ser uma condição. Pode ser-se periférico no centro das grandes cidades, no país mais central da Europa, em Tóquio ou em Nova Yorque. Inversamente, pode ser-se central estando em Portugal, na Finlândia, na Coreia, na Islândia ou em Timor.

Esta questão surge muitas vezes na minha cabeça a piscar com um sinal de alarme porque continuamos a pensar na periferia como um lugar geográfico. Por isso continua a marcar a nossa agenda social e política a dualidade litoral/interior, quando o nosso interior (a 150/200Km da costa), mesmo geograficamente, é litoral na maioria dos países europeus. E por isso, enquanto não mudarmos a nossa atitude interiorizando que ser periférico ou central é uma condição, encontraremos sempre desculpa para o nosso atavismo e sua auto-justificação.

Inevitavelmente a 31 de Dezembro algumas retrospectivas invadem o pensamento sem que a obrigatoriedade de fazer projectos retire leveza ao sonhar de um novo ano.

Wednesday, December 27, 2006

ainda...novamente

O Natal continua de múltiplos modos, com múltiplos saberes, construindo múltiplas recordações. Experiência de presente que sabe a passado com um travo de futuro. Natal sem presente. Registos interiores. Flashes, imagens, que ancoram a vida – momento estático e eterno. Mesas de quatro metros, com toalhas de Natal feitas à medida, porque não há medida para tamanha mesa. Mesas onde não cabem pais, filhos e netos …e outros adoptivos e adoptados. Mesas onde não cabem os “egos”, onde se baralham máximas, sem nexo, sem tom, onde se tocam copos tingidos de cores e de cheiros. Mesas onde as palavras perdem sentido para se tornarem afectos medidos e desmedidos à medida de cada um. O direito a tudo e o direito a nada, neste puzzle onde tudo encaixa. Não sou mais do que uma simples peça colorida ou baça, à medida do gosto e do desejo que aqui sei satisfazer ou sublimar. Parte desta cadeia de muitos elos, apertados ou mais soltos, fechados ou com pontas, que se prendem a outras mesas de quatro metros ou mais, muito mais.

Monday, December 25, 2006

Ainda

Para além de tudo J., o que gostei foi da experiência completamente individual de usufruto da música. Ele, Messiaen, Roger Muraro e eu.

Mas o que gostei, foi de estar ao teu lado, ao vosso lado, ao lado daqueles que conseguiram escapar ao frenesim do Natal para o experimentarem de outro modo.

Éramos cerca de trezentos, sentados no coro da sala Guilhermina Suggia, com a sala vazia por fundo. Cada um por si, mas cada qual com a certeza de que não estava ali sozinho, seriam trezentos por si. Mesmo aquele senhor que lutando contra o problema do sono insistiu em ficar e nos distraiu por momentos.

É destas experiências sublimes e incontáveis que se faz o lado bom da vida. Só quem lá esteve entenderá e por isso ainda bem que estivemos os que estivemos.

Não deixei de me lembrar de mais quatro que gostaria tivessem tido esta oportunidade.

Sunday, December 24, 2006

É Natal, na Casa e na Música

A Casa e a Música. Entrei procurando o Natal, do qual já todos falam e não sinto. Talvez tenha sido ali. Talvez por, finalmente, ter tido um tempo para mim. "Vingt Regards sur l'Enfant-Jésus", de Olivier Messiaen, que pensava assustar é, felizmente, uma peça lindíssima e que me foi acessível. Uma peça que chega à porta, espreita e abraça. Junte-se a companhia (Mãe, M. e F.) e, pronto, é Natal. Na Casa e na Música. Mas tanto para fazer...

Saturday, December 23, 2006

natal

Tenho conseguido passar ao lado do lado mau do Natal. Por coincidências que me fazem voltar a trás e recolher à casa, aos amigos. Evidências e factos demonstram solidariedade e afecto.
Recolhi cedo, para sair novamente. Estou sozinha a fazer o jantar que provavelmente não vou comer. O silêncio da música acompanha o remontar das prendas: verificar, inventar o que falta, com o que se tem, procurar no fundo do armário ou da gaveta, com o olhar do coração: sem fugir à pessoa, aquela tão especial quanto os laços que nos ligam.
…e depois a antena dois ofereceu-me um bilhete duplo para o concerto de Natal de amanhã. Roger Muraro e Olivier Messian.
Um bom Natal.

Friday, December 22, 2006

O Ginco


O ginco é a nossa árvore de Natal. Despe-se de amarelo para os nossos olhos.

Wednesday, December 20, 2006

O que se faz...



... para não trabalhar.

ligações covalentes

O caderno preto é do N., o amarelo é meu.

Sunday, December 17, 2006

Atmosferas

Acabei de ler Atmosferas de Peter Zumthor. Estava a regista-lo na base de dados e o livro chamou-me, porque ele fala do seu conteúdo: nove pontos mais três pontos anexos, que tentam transmitir, desmontar o sentido da qualidade arquitectónica. Para Zumthor: “ Qualidade arquitectónica só pode significar que sou tocado por uma obra”. Por mais pontos em que Zumthor, ou outro, tente desdobrar esta qualidade, tente racionalizar o método, percebemos que essa qualidade de gerar emoção está sempre entre tudo, para além de todo o resto, no modo como as coisas, as pessoas, o som, a luz a matéria se relacionam. E elas relacionam-se no vazio e não na ausência, ou talvez na ausência feita conteúdo, pelo que somos e pelo modo como percepcionamos o que nos envolve – atmosferas.
Livro magnífico, macio, duro, austero e quente, que nos envolve e transporta da sua para outras atmosferas.
Para os homens mais do que para os arquitectos… e extremamente didáctico.

“ Ou seja, provavelmente, o meu capítulo final ou o meu último objectivo é: A forma bonita. Encontro-a talvez em ícones, reconheço-a por vezes em naturezas mortas, que me ajudam a ver como algo encontrou a sua forma, mas também nas ferramentas do dia a dia, na literatura e nas peças musicais”.
Zumthor, Peter; Atmosferas; Editorial Gustavo Gili, SL

Gilberto Gil

A cultura brasileira sempre me fez alguma confusão. Acho que é a leveza que o sol carrega que os torna tão diferentes e que me faz temer a ligeireza com que andam a vida. Pouco importa. Aos poucos aprendo a gerir a intolerância e a abrir-me às verdadeiras manifestações de beleza que vêm do país irmão.
Foi assim que entrei no Auditório da Reitoria da Universidade de Aveiro. Primeiro, sem lugares marcados e temendo que os estudantes deitassem tudo a perder (por vezes, têm uma certa tendência a fazê-lo, lá com as capas pretas e aquelas coisas todas que não compreendo, cheios de uma etiqueta e normas estranhas –sou estudante.); segundo, com a melhor companhia possível, que me adoçou o início de fim de semana (sou menina).
E Gilberto encanta. E as pessoas respeitam e, depois, vibram. E Gilberto vibra também, com as mãos e com o rosto e com a voz. Às vezes, com um cruzar de pernas. Nota-se nas sombras. Em vão tentei desenhar, em vão tentei agarrar as frases mais bonitas das letras, em vão tentei anotar o que via em mim e o vibrar em ti.
O concerto ainda cresce. Todos os bocadinhos. O seu tom melancólico, por vezes, o seu êxtase febril. E o balanço. Tudo é ainda tão fresco. Que cresça, que cresça sempre.

Saturday, December 16, 2006

melancolia

Vagueio perdida na beleza da casa.
Vagueio perdida na luz da escuridão.
Ouvi Sophia, li Sophia.

Uma ideia:
O filho do pobre, o filho do rico, o filho do operário, o filho do professor, todos entendem uma história da mesma maneira, porque não estão condicionados. Com os adultos não é assim. Muitos adultos, a maioria dos adultos, não entendem um livro. O seu conteúdo não lhes diz nada. Contrariamente ao que acontecia na antiga Grécia onde a Íliada ou a Odisseia eram obras universais, para toda a gente.
Outra ideia:
A casa. Todos os homens precisam de uma casa. Mas precisam de uma casa bela. Todos os homens precisam de beleza. Custa tanto fazer uma casa feia como uma casa bonita. As casas sociais devem ser desenhadas pelos melhores arquitectos.

Sophia esteve em 1974, hoje, no programa “O nome das coisas”. Sophia encheu também esta bela casa, feita do nada que é o belo.

Thursday, December 14, 2006

Tinta da China a más horas.



desenho para projecto.
(quero dormir e parabéns maria!)

contornos

Ontem ao ouvir a entrevista de Ana Sousa Dias a Daniel Baremboin ri-me da perspicácia dele quanto a uma pergunta dela. A pergunta era se ele achava que a diferença de leitura dele, enquanto maestro e de um pianista executante sobre a interpretação de uma obra poderia resultar mal, “não funcionar”. Ele respondeu-lhe de imediato “É muito feminino”. Ela ficou surpreendida e suspensa. Ele voltou a afirmar “É muito feminino pensar que pode não funcionar. Um homem sabe sempre que funciona, tem que funcionar.”
Porque é que a mulher pensa sempre na possibilidade de não acontecer o que quer e deve, tem de acontecer? Porque é que nos atormentamos com as impossibilidades antes da existência do problema? Deste modo não condicionamos o decorrer do acontecimento? E não nos furtamos à execução do acto pela antevisão ficcionada do seu efeito?
Fazemos a história completa sem existir história, românticas, trôpegas ou simplesmente emersas numa cultura de medo do que pode acontecer. Façamos, que fazemos sempre melhor que eles.

Monday, December 11, 2006

La Jetée


la jetée - chris marker
(obrigada à professora g. por mo emprestar)

Procurar, recolher e partilhar imagens

Vemos imagens e, automaticamente, adicionamo-las à nossa base de imagens na memória. Não temos consciência até elas ressurgirem outra vez, muitas vezes em soluções para projectos e ideias, ou porque uma paisagem nos lembra certa imagem, ou, até, porque encontramos algo que nos faça sentir o mesmo.
Acho precioso ter uma base de dados de imagens estéticas, na memória. Por isso ( e não só por isso...) vejo filmes, folheio livros de imagens, leio poemas e romances, passeio na rua de máquina fotográfica (e sem ela), ouço música...
Quero partilhar as imagens que guardo conscientemente. As outras, não as conheço até me (re)lembrar. E assim serão os próximos posts no conta-mina.

Espero que vos sirvam como me servem a mim.

Sunday, December 10, 2006

Aveiro à noite.


Aveiro à noite. Tudo o que vejo são os meus pés e a calçada. Está muito frio para ter a boca e o nariz fora do casaco. São passos sem som. Ouço os barulhos da cidade (porque uso phones a maioria das vezes?) e são só carros que passam, zumbem e ecoam. Passo pelo único homem, não esconde o ar suspeito. Finalmente a minha rua. Tão minha como vossa. O prédio quente e o quarto. Não é assim tão tarde. No caminho, no meu silêncio, já contínuo e de horas, penso muito.
ontem, pela meia noite (& fotografia de uma noite parecida, em novembro.)

Frank O. Gehry

( Como não tenho nenhuma fotografia digital do edifício de Gehry, ilustro com a extensão do Museu de História Alemã de I.M.Pei, que demonstra a mesma atitude perante a herança.)



“ Respeito a regra áurea: o problema de fundo é ser bom vizinho. O que quer dizer respeitar o que está na envolvente, o contexto. Retornámos aqui à lição de Mendelsohn, que se refere ao modo como nos posicionamos relativamente a qualquer coisa que existe, como se junta qualquer coisa. Foi isto que tentei fazer, no caso do edifício de que agora falamos, pondo-me o problema do relacionamento com a porta de Brandeburgo, tão imponente e maciça, dotada de um carácter forte e de uma específica dureza, que configura a Pariser Platz, procurando não diminuir nem tornar banal esta presença.” Frank. O. Gehry; "Construire su Pariser Platz; Casabella

Este foi um dos edifícios de que mais gostei em Berlim. Reli há pouco um artigo de Ghery sobre a sua relação com Berlim, com a cultura de Berlim, que engloba muita arquitectura e entendi claramente a sua perspectiva, que já tinha sentido perante o edifício na Pariser Platz. O entendimento da modernidade, da vivência da democracia na cidade, passa também pela manifestação de linguagens diversas, formuladas através da reflexão sobre o contexto e a história. O modo como Ghery, com uma nova regra interpreta a racionalidade da arquitectura neoclássica, expressa na porta de Brandeburgo, usando apenas pedra e vidro, é soberbo de contenção e rigor. O vidro inclinado perpetua o vazio, desenhando e transportando-nos do envasamento para a capitel numa ilusão de leitura clássica, sem o ser, contudo. Acima dele, do ilusório capitel não existe arquitrave, friso e cornija, existe apenas o vazio do céu. Tudo isto feito construção, pela subtileza da massa material da pedra reinterpretada pelo movimento do vidro e pela sua transparência. Transparência quente, por reflexo da luz interior emoldurada de madeira, que se reflecte no exterior, fazendo-nos rodar a cabeça, para a comparar com as passagens por entre as colunas da Porta de Brandeburgo.
Uma obra arquitectónica assente na terra, que nos faz subir o olhar, sem nos deixar esquecer a perenidade de qualquer obra humana.

uma casa


Quando o passado conforma o presente. Quando o passado condiz com o presente. Uma toalha de tons quentes, de terra pousada sobre a mesa e uma chávena de chá de jasmim…uma sala com paredes feitas de livros. Um chão feito de tacos castanhos, escuros e mel. Uma janela para a cidade. Uma janela para dentro.
A casa. O nosso abrigo, para a chuva e para a alma. A casa.
Uma casa feita de luz. Luz que muda. As plantas crescem com a luz da casa. As plantas dão-se bem nesta casa. Crescem ao som da música. Estremecem e revigoram. Não é uma casa na escuridão. É uma casa na luz.
Saber projectar uma casa é uma arte. Fazer viver uma casa é um dom. Um grato dom que se experimenta: no chá, no sol e na escuridão, nos gatos, no som do piano, nos ruídos, nos trauteios soltos, no cheiro que vem da cozinha, nas mãos secas e ainda enérgicas, no intervalo…
no intervalo…no intervalo…

Saturday, December 09, 2006

outras trocas

BALANÇO
Que fica de quem passa? Um eco de mágoa
ao ouvido da tarde? Uma pausa de palavras
na frase do instante? Uma interrupção de passos
a caminho da porta? Um sal de sentimento
no coração da amada? A vida esfarelada
numa dissipação de rumos? Ou um peso
de esquecimento na sombra da memória?
Mas quem passa não pensa no que fica,
se os passos o levam para onde espera
ficar; e se o seu destino é a passagem,
onde ficar é sair de onde não chegou a
habitar, é o tempo que o obriga a não olhar
para onde não há-de voltar, mesmo que aí
tenha deixado o que pensou consigo levar.
Náufrago sem ilha nem barco, ou
marinheiro preso ao porto, é ele o seu próprio
fim, como se a cada momento não soubesse
que não é dele o que leva, e só é dele o
que perde, como se o não quisesse guardar,
para que chegue mais depressa, ao cair da noite,
a esse cais onde ninguém o irá esperar.
E repete, então, o que não devia fazer, para tudo
fazer de novo, como se tivesse de o fazer.

Nuno Judice

Trocas (?)

Os trabalhos estão todos atrasados. Os projectos são só metades. As malas não foram desfeitas. Hoje apanhei o comboio cedo. Estou em casa. Há tanto tempo que não tinha uma companhia tão boa para jantar! Vou pôr os olhos de dormir. Vou tirar o corpo de amar. Vou pô-lo a descansar. Obrigada, M..

Thursday, December 07, 2006

trocas

Nada apaga a experiência. Quantas vezes temos de reordenar valores para experimentar: trocar o dever pelo prazer. Trocar os resultados de um teste por um momento emotivamente partilhado, vibrante. Assim nos fazemos, assim queremos viver.

Wednesday, December 06, 2006

berlim 2


Há cidades que nos apanham desde o primeiro momento. São estáveis, lêem-se linearmente sem sobressaltos.
Há cidades que crescem com o tempo e com a distância. Contaminam e geram uma vontade imensa de voltar. São cidades que apaixonam.
Do primeiro tipo conheço muitas: Paris, Barcelona, Helsínquia, Nova Yorque, ….
Do segundo conheço duas Roma e Berlim.
Cheguei há pouco e a cidade cresce.
Às primeiras voltamos com serenidade e segurança, como se o regresso fizesse, desde sempre, parte do nosso quotidiano. Não há urgência porque naturalmente sabemos que a elas voltaremos.
Às segundas, temos que voltar, estamos sempre a voltar, mesmo que não voltemos. Elas recriam-se pela nossa imaginação.
Berlim soma histórias, que se sobrepõem ou justapõem. Berlim mostra as suas cicatrizes. Construídas e reconstruídas, não têm pudor e abrem-se deixando-se desfrutar. Berlim cresce em mim. Apetece-me voltar.

Monday, December 04, 2006

berlim


Cheguei agora a casa. Cheguei de outros. Sentámo-nos nos cafés. À roda papéis, fotografias, mapas e conversas calmas. Contámos, calámos, ouvimos, sorvemos. Andamos entre salas e debates. Andamos entre gente “perdidos” nas ruas largas.
E dissemos é este espaço que falta no “nosso” dia-a-dia, o da distância, da estética, da ética. O da procura, o da realização nos pedaços, nas dobras pequenas, nas sobras minúsculas das esquinas, nos espaços amplos, abertos no tempo e sobre ele, no pulsar das várias cidades, desta cidade - Berlim. Sem dizer palavras. A repetir. Obrigada.

Friday, December 01, 2006

O que lhes falta


Cheguei agora a casa. Cheguei dos amigos. Sentámo-nos nos cafés. À roda papéis, tesouras, imagens, cola e fita cola, canetas, marcadores e conversas calmas. Cortámos, colámos, desenhámos, pintámos. E dissemos é este espaço que falta no “nosso” design, o da estética, o da procura, o da realização nos pedaços, nas dobras pequenas, nas sobras minúsculas de papel. Sem dizer palavras. A repetir. Obrigada.

Thursday, November 30, 2006

Wednesday, November 29, 2006

esta manhã

Encontrei A. no espaço cinzento e verde, do interior para o exterior do lugar. Encontrei-o vivo e apaixonado. Disse-lhe: “Mas é bom estar apaixonado?” Ele respondeu-me “Eu não estou apaixonado”, mostrando um certo incómodo de menino adolescente apanhado em falta. Gostei de ver vontade de recomeçar sempre, atabalhoadamente, como se da primeira vez se tratasse. Repegar a vida para de novo a reinventar, noutro cenário, como se não houvesse tempo.
A sua vivacidade amainou a minha intolerância e construiu o discurso coincidente, sem precisar de mais, apenas deixando-me levar.

Tuesday, November 28, 2006

o lado sexista

Comentemos então o lado sexista da questão. O que me impressionou foi exactamente Susan Sontag afirmar peremptoriamente que os homens apenas se interessam pelas mulheres enquanto elas mantêm a frescura da idade e atractividade física. Ou seja, uma mulher quando envelhece deixa de ser interessante, sob um ponto de vista integral e único para o homem. Porque este desinteresse, ou o seu interesse tem sempre como porta de entrada a atracção sexual. Os homens chegam além, apenas quando a partir desse interesse são levados mais longe? Apenas tendo como finalidade essa satisfação? Esta incapacidade de, em qualquer idade a mulher manter para o homem interesse sexual, é um sinal de imaturidade, por parte dos homens, que me custa a admitir. Mas ela admite-o e afirma-o. A relação amorosa plena conseguida por parte destas duas mulheres, segundo pelo menos o prisma de Annie Leibovitz, só é possível porque as mulheres ultrapassam o preconceito e os códigos, admitindo a beleza mesmo num corpo marcado pela idade. Mesmo assim, ainda assim e talvez mais assim, a pessoa humana consegue a plenitude porque alia num só ser a experiência e a sabedoria num corpo admitido e vivido como belo. Consegue a unidade do dual que sempre nos conforma. Mas as próprias mulheres admitem e pensam que a idade as mata como seres sexualmente desejáveis. Desvalorizam-se, desleixam-se e hipotecam a sua atitude perante esta ideia universalmente assumida.
Mas se tal é verdade, o que me custa a admitir, então o caminho será o seguido por estas duas mulheres, amando-se integralmente até à morte, deixando sobrevir o luto e a saudade não dos tempos idos, da memória do que fomos, mas daquilo que hoje e em qualquer idade somos. Sempre belas enquanto integrais.

Monday, November 27, 2006

sem título, apenas porque não o encontro

Li um interessante artigo na Pública (emprestada) que por isso cito de memória e que suscita esta reflexão. Era sobre Susan Sontag e Annie Leibovitz. Esta falava na sua bonita história de amor que vivera durante quinze anos com a primeira. Dizia, Susan Sontag, que era bi-sexual. Quando começou a envelhecer e deixou de suscitar interesse para os homens, foi com as mulheres que ela reconheceu a profundidade das relações. Porque as mulheres a partir dos quarenta anos desabrocham e atingem toda a intensidade.
Não quero comentar pelo lado sexista da questão. Nem quero comentar para me auto-consolar com a passagem dos anos.Mas porque é que só chegamos lá, pelos quarenta? E porque é que as marcas da idade no corpo nos tornam menos interessantes (tanto a homens como a mulheres)?
A dificuldade em lidar com a passagem do tempo é sem dúvida uma das principais características da sociedade actual. Pelos quarenta, tudo se ganha ou tudo se perde. A vida ganha a luminosidade da auto-confiança ou entra na obscuridade do medo da decadência. Não ouvimos muitas vezes “ Depois dos trinta e cinco é sempre a cair.”? Por isso tenho necessidade de repetir muitas vezes aos mais novos, aquilo que para mim é um dado completamente adquirido e um lugar comum: a experiência de vida, vivida com paixão e reflexão, transforma as pessoas e torna-as seres cada vez mais encantadores e bonitos. Recuso o eufemismo daqueles que vendo um velho dizem “o que interessa é a beleza interior”. Um velho, uma velha são também bonitos, aprendamos a vê-lo. Felizmente verifico que transmito qualquer coisa e gosto de ver J. guardar carinhosamente, como algo de muito precioso e belo, uma fotografia de Pina Bausch. Ou de ver P. abraçar carinhosamente a avó, dizendo que ela é tão bonita como a Jane Fonda.
Trabalhemos para isso.

Saturday, November 25, 2006

o desenho (da maria)...


...foi impresso e espalhado pelas paredes do DeCA.

Friday, November 24, 2006

rendo-me às novas tecnologias

A novidade do dia. Descobri a minha salvação. Quem me conhece de perto sabe que à sexta-feira digo: “Detesto fazer compras. Detesto hipermercados, mas perto da minha casa só tenho hipermercados.”
Feliz coincidência: ontem à noite perdi-me da net a fazer as compras on line. Passe a publicidade, fui primeiro ao Jumbo, que é o hipermercado mais próximo da minha casa. Não me entendi. Registei-me, mas quando cheguei a “vias de facto” tinha que escrever nome a nome os produtos que queria e desisti. Sei lá o nome dos produtos que compro! Conheço-os pela forma e pela cor e escolho-os pela composição e pelo preço. Experimentei o Continente. Perdi uma hora e pouco, mas era a primeira vez. Fiquei excitada, contei a toda a gente e hoje…
Chovia torrencialmente como sabem. Atravessei a tempestade e entrei em casa às dezassete horas. Fechei as portas e deambulei em tarefas domésticas. Os filhos fizeram-me companhia à distância. Aquela distância do conforto sem intromissão. As compras chegariam entre as 18.30 e as 20.30h. Estava na expectativa. Às 20.25h tocaram à campainha. Abri a porta e vi uma carrinha do Continente, com um homem exausto, sobrevivente à chuva e ao vento, com os sacos das “minhas” compras. O peixe arranjado. A fruta bem escolhida. A máquina do Multibanco na mão.
Encontrei a minha felicidade. Vou apurar o sistema e… espero que nunca mais me encontrem num hipermercado.

Thursday, November 23, 2006

Recursos humanos

Ás vezes custa-me usar a palavra recurso para os humanos. Sinto que é como profanar uma alma. Reduzi-la ao simples aspecto material de recurso. Somos usados para produzir riqueza e valemos enquanto produtores dessa riqueza. Mergulho e volto à superfície. Tateio a água e com os movimentos contínuos do corpo ando para a frente: 25, 50, 1250 metros algumas manhãs por semana. Acompanham-me pensamentos variados e variáveis, concretos e inconfessáveis. Penso nos amigos, nos "recursos" que vou conhecendo lentamente e com gosto. Uns mais à frente no percurso do conforto. Outros que intuo e que me proporcionam momentos inolvidáveis. É bom. Os recursos humanos são matéria prima para a vida. A melhor matéria prima. Sem ela nem os diamantes, nem o petróleo, nem o ouro tem qualquer significado. Lido com a melhor matéria prima e só ela me conforta quando estou triste. Hoje não é o caso, felizmente.

Wednesday, November 22, 2006

Caminho para o Comboio nº7

Caminho para o Comboio nº6

o desenho

Gerir o correio. Gerir o blog. O tempo é curto, mas ainda dá para apreciar uns bonitos desenhos e pensar: há quatro anos isto não pareceria possível. Na realidade bloqueamos os nossos meios expressivos, não desenvolvemos as nossas capacidades e perdemos o modo de nos transcendermos. O desenho é disso o exemplo mais claro. Os nossos programas escolares não ajudam a vencer as barreiras que nós próprios criamos quando o nosso modo de representação da realidade já não nos satisfaz. Até aos 8, 9 anos o desajuste entre o que representarmos e o que quereríamos representar não nos assusta. O desenho está bem, deixa a criança em paz. Depois a consciência da incapacidade dos meios e modos de representação face à nossa vontade limita e bloqueia. O salto acontece quando o domínio da técnica acompanha a expressão e tudo é possível. Muito trabalho, muita concentração, muita perseverança.
Agora o desafio é romper a representação para deixar sobrevir a alma, quero ver… .Porque agora sei que este é o caminho certo para, a partir de dentro, perceber o que está fora e oferecer ao mundo um belo pedaço de outra “realidade”.

Tuesday, November 21, 2006

Caminho para o Comboio nº5

Caminho para o Comboio nº4

Caminho para o Comboio nº3

Caminho para o Comboio nº2

Caminho para o Comboio



Os posts que se seguem são acerca do caminho que fiz até ao comboio, no Domingo, para almoçar em família. Ainda não tenho os desenhos todos que quero, portanto é normal que estes desenhos vão aparecendo aqui ao longo dos dias e, talvez, meses. O almoço e a casa, no Domingo, souberam-me bem. O passeio também. Os desenhos também.

Tuesday, November 14, 2006

O tempo vertical da Beleza


Como a beleza deixa as palavras impraticáveis, não tento sequer compô-las em frases. Tentei em desenhos, às escuras, sem ver o papel e só focando o palco. E são as únicas palavras sobre Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Gary Peacock que vos dou. As palavras do silêncio.

Conta-mina

Evito falar. Apenas escrevo que não sei ainda muito bem lidar com o que vi o que ouvi.
Estava muito suspensa, muito expectante e fiquei em estado de choque. Não me apetece ler, não me apetece trabalhar, não me apetece ouvir música…há ainda um espaço ocupado na minha vida que não pode ser preenchido por mais nada a não ser pelo silêncio e pelo olhar brilhante de quem lá esteve… ou pela intuição de quem não esteve mas sabe. Conta-mina.

Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Gary Peacock, CCB, 13 de Novembro

Sunday, November 12, 2006

A banalização mata o desejo

Gostei de ouvir Francisco Allen Gomes dizê-lo, não porque a ideia seja nova para mim, mas porque me dá a oportunidade de voltar aos meus temas queridos e expô-los assim, claramente neste blog. Porque ele foi extremamente claro ao dizer que a sequência imediata do sentimento de desejo e da sua consumação não permite qualquer elaboração mental, qualquer efabulação, qualquer fantasia ou sonho, que alimentam, neste caso concreto o erotismo e a capacidade de qualificação de um acto. É esta curta distância temporal que leva à banalização, à necessidade de procurar outra experiência totalmente nova para repetir sempre a mesma pobreza de gesto. Mas é esta talvez a principal diferença entre o sexo animal e o sexo humano. Por isso estamos encurralados pela cultura e pela sociedade. Pela cultura porque não nos é permitido satisfazer, como os animais, a nossa necessidade sexual à medida da vontade, perdemos a original periodicidade sexual. Pela sociedade, entendida aqui como sociedade de consumo, porque vivemos uma época de valorização do descartável – usar e deitar fora, mesmo quando romanticamente encontramos o par da nossa vida. Talvez esta seja uma das principais razões dos nossos fracassos individuais e colectivos e uma das principais causas das cada vez mais frequentes depressões.
Saber incorporar como parte da construção do nosso eu a recusa, integrar o não, perceber o tempo, é um modo de viver distante da cultura ocidental. Por isso bebemos avidamente a orientalidade, ainda que percebida com os nossos ocidentais olhos.

assimilação

(republico este post, que pus há quatro dias, porque por inabilidade retirei-o do site)
Aprendi com 14 anos, nos bancos da escola que o que distinguia um ser vivo de um ser inanimado era a sua capacidade de assimilação. A minha professora de Ciências da Natureza, Valentina Sereno, empolgava-me, nas aulas que me oferecia no anfiteatro do Carolina Michaëlis.
Nunca mais esqueci este conceito, que me acompanha e relembro desdobrando-o em conselhos que orientam o meu dia-a-dia.
Adapto-o a circunstâncias que nada tem a ver com o princípio. Vamos ver se me consigo explicar. Andamos sempre à nossa procura. Aquilo que os outros vêem de nós, também somos nós, embora não seja a ideia que de nós fazemos. Somos sempre diferentes a cada instante para nós e para os outros. O importante, para a nossa a estabilidade é que estas relações sejam de um equilíbrio instável. Por isso penso que mais importante do que o que os outros pensam de mim é que eu pense que eles pensam bem – que sou amada. Ainda que seja apenas uma ideia minha. Por isso a minha felicidade não depende da verdade. Verdade- conceito estéril e redutor. Depende antes da verdade que ficciono e do modo como a assimilo – a incorporo como minha. Por isso os sentimentos que nutro por outros são apenas meus. Concedem-me paz e bem-estar porque eu sinto que para mim é muito bom gostar, independentemente daquilo que o outro lado pensa, ou sente. Posso construir uma imensa plenitude, vista do meu lado, ainda que do outro assim não seja, pelo menos não é certamente como do meu. E voltando a uma ideia já aqui explorada, ainda bem que não se medem sentimentos, porque senão teríamos uma tirania na medição do gostar. Poderia dizer objectivamente, eu gosto mais do que tu, por isso quero retorno, senão sofro, ou por isso estou primeiro.
Mas não, eu gosto à minha maneira e tu à tua, vocês à vossa. A única medida que tenho é a do conforto e do gosto que me dá sentir um olhar quente, um toque, uma palavra, mais longe um silêncio povoado…
Assimilar, incorporar o gosto dos outros na nossa vida, ainda que seja apenas a nossa maneira especial de o entendermos…

Friday, November 10, 2006

alma de poeta

(…) Onde pode refugiar-se um homem que verdadeiramente pensa, no chamado “mundo real” como se pode ele defender contra a estupidez se não pela prática constante do equívoco? Responda-me. Sobretudo um poeta. Um dia disse: “ Os poetas não tomam verdadeiramente a sério as ideias e os homens. Consideram-nos um pouco como um paxá olha para os membros do bem fornecido harém. São bonitas, sim. Destinam-se a ser utilizadas. Mas não se põe o problema de serem verdadeiras ou falsas, ou de terem alma. Desta maneira, o poeta preserva a frescura da visão, e considera tudo milagroso. Era isso que Napoleão queria dizer quando descrevia a poesia como uma science creuse. Tinha completa razão do seu ponto de vista”. (…)

Durrell, Lawrence; Quarteto de Alexandria; Volume 2 “Baltasar”; Ulisseia; 1991

Tuesday, November 07, 2006

Vá lá...

Vejam lá se me entendem.
Há noite chego a casa e procuro no conta-mina momentos de descontracção. Fico desiludida quando abro o site e tudo está na mesma. Aqui, preciso de retorno, quanto mais não seja para sentir que este espaço continua a ser um espaço povoado. Porém, no dia a dia recolho palavras, sorrisos, cumplicidades, que vêm daqui – do conta-mina. É bom. É sinal de que passam por cá, ainda que incógnitos, anomimous ou imperceptíveis.
Mas quero mais. Merecemos mais. Vá lá…

Sunday, November 05, 2006

filosofia

Ouvia há pouco Maria do João Seixas manifestar a sua apreensão perante o facto de, com o processo de Bolonha, o ensino da filosofia sair dos nossos curricula de ensino. Dizia que é tanto mais estranho que isto aconteça na Europa, o berço do pensamento filosófico, quando nos EUA se tende a adoptar cada vez mais a filosofia como disciplina complementar em qualquer curso universitário.
Volto a um post que fiz há tempos sobre declarações de Disidério Murcho em que reflectia sobre o facto de em Portugal termos uma atitude muito pouco filosófica demonstrada pela nossa incapacidade crítica. É realmente preocupante perceber este caminho que nos leva à absorção acrítica do tempo e da vida como se não houvesse qualquer outro lado desconhecido para conhecer, qualquer outra pergunta para fazer.

Saturday, November 04, 2006

recursos humanos

Ultrapassar as relações funcionais é difícil. Habituam-nos a isso. Tudo tem um preço, um valor e um retorno, na, cada vez mais presente, sociedade dominada pela economia de mercado. As pessoas também são um recurso – um recurso humano.
Embora adira às novas teorias do sucesso das organizações, nas quais a adesão emocional aos seus objectivos, é fundamental para o seu sucesso, alguma força interior me diz, que isto é mais do mesmo: querem conquistar-nos pelo coração para produzirmos mais, para sermos mais eficientes e eficazes. Sinto-me enganada quando trabalho muito e depois ainda digo que gosto de trabalhar.
Porque eu gosto mais de me divertir. Divirto-me a pensar, divirto-me a conversar, divirto-me a ouvir música, divirto-me a ver um bom filme, divirto-me muito a ler… mesmo quando choro. Aprecio o que me faz chorar sem ser por mim. Chorar por sentir a dor e injustiça dos outros ainda que ficcionados. Desculpem a insistência em Durrell, mas, apesar das más traduções, das incompreensões, ele tem-me levado de mim para o mundo e do mundo para mim, num constante prazer de o ler, sem medo de me ler.

Wednesday, November 01, 2006

o lado oposto


“ (…) O facto de ter sido este o nosso último encontro confere-lhe uma importância que de outro modo não o teria. Não que, no que diz respeito a este livro, tenha deixado de existir; simplesmente, colocou-se no lado oposto do espelho, naquele lado que não reflecte a imagem – deixando-nos entregues às nossas doenças, às nossas baixezas, ainda operantes para o mal e para o bem no mundo real – e que é a memória dos nossos amigos. E, portanto, a presença da morte renova sempre as experiências, a sua função: ajudar-nos a meditar sobre essa coisa estranha que se chama o Tempo. Neste momento, contudo, estávamos colocados em pontos equidistantes da morte – ou pelo menos assim julgo. É possível que uma tranquila decisão, tivesse já começado a tomar forma dentro dele, mas não posso afirmá-lo. Não há mistério no facto de um artista querer por termo a uma vida que se esgotou (uma personagem no último volume exclama: “Durante anos esforçamo-nos por aceitar a ideia de que as outras pessoas não se importam absolutamente nada connosco; depois, certo dia descobrimos que é o próprio Deus que não se interessa por nós; e, o que é pior, descobrimos que lhe é totalmente indiferente que sejamos uma coisa ou outra:bons ou maus"). (…)”.

Durrell, Lawrence; Justine; Ulisseia; 3ª Edição - Abril de 1986; pág. 133/134

Tuesday, October 31, 2006

coincidências

Porque felizmente há uma ordem positiva que me acompanha.
Ontem ao passear na página da Casa da Música, verifiquei que ainda havia bilhetes para o concerto da Orquestra Barroca de Amesterdão com Ton Koopman. Quase comprei bilhete. Mas a responsabilidade impediu-me porque sabia que as tarefas eram muitas, “urgentes e importantes”. Hoje de manhã quase cedi à tentação de aproveitar os bilhetes que ofereciam na Antena 2 para esse mesmo concerto. Esqueci. Às 17 horas um bilhete caiu-me do céu. Bem haja ao anjo que mo ofereceu. Percebi que com um pouco de jeito conseguia ir ao Porto, de cabeça leve, para me deixar envolver.
Assim foi. Recados e um beijo da mãe resolveram os problemas práticos.
Lá estavam montanhas de arquitectos, alguns reincidentes, outros que não via há muito. Gente mediática.
Um concerto muito bom, para os meus ouvidos e para a minha alma. Porque cada vez mais o barroco me aproxima da eternidade. Regresso às origens? Rameau – revelação. Bach pai e filho e Hayden - o Adágio enlevou-me.
Mas para além disso novamente a coincidência de encontrar, por acaso e ao meu lado uma amiga, pedaço de passado (daquele que constrói ainda, todos os dias o presente) que eu prometera a mim mesma revisitar em breve. O destino constrói história.

Sunday, October 29, 2006

Amador

Dizia hoje de manhã Olga Pratz, que adorava bandas filarmónicas. Nas bandas filarmónicas os músicos são amadores. Amador- aquele que ama e porque ama, toca, ensaia, leva para casa o instrumento porque precisa dele, porque o ama, faz parte da sua vida.
Os músicos profissionais, ensaiam, limpam os instrumentos, guardam-nos na caixa e deixam-nos ficar no local de ensaio. No dia seguinte voltarão para ensaiar e abrirão a caixa donde tiram o instrumento.
Talvez não seja totalmente assim. Talvez não seja sempre assim. Não é sempre assim, mas também é.
Interessante o conceito de amador, aproximação do conceito ao modo, a dissociação do conceito do modo, quando o conceito se torna abstracto para simplesmente nos dizer que se é amador – não profissional.

Wednesday, October 25, 2006

e porque havia de ver televisão?

“Não, não vejo televisão! E porque havia de ver televisão?”
Simplesmente porque Alberto Pimenta estava lá…mas só dei conta quando um telefonema de L. me alertou e perguntou “ Quem é este que está no canal 1?” Mudei apressadamente de qualquer canal em que o ecrã se tinha fixado há horas e reconheci Alberto Pimenta, para ouvir dez minutos de conversa fluida e interessante, em que se falou da arte- excesso, do corpo e do espírito, da dificuldade em perceber espírito através da beleza do corpo, de delatores, de história … de ser português.
Uma boa razão para ter visto a televisão que não vejo. Uma boa resposta à pergunta que inicia o “post” e que o próprio fazia no final do programa em reprodução de há talvez vinte anos.
Aqueles que farei de Mãe na próxima quinta-feira.

Saturday, October 21, 2006

Volver- Pedro Almodôvar


Um pequeno comentário sobre “ Volver”. O universo feminino lido com um olhar terno e engrandecedor. Para Almodôvar as mulheres são o máximo, as mulheres são mães, Mãe – acolhedora, confidente, cúmplice, amiga, aquela na cama de quem se dorme, com quem se tem conversas intermináveis, ainda que desfasadas no tempo. A mulher ultrapassa a mentira e desdobra-se no seu mundo, que os homens olham de fora, sempre prontos a violar: intimidade e corpo. Mas nunca penetram nesse mundo de cumplicidade e ternura. Quando um homem entra perturba sem transformar, gera o erro, rupturas e traições só reparáveis com o amor, com o voltar, volver. Irene volta para pedir desculpa a Raimunda; Raimunda encobre o assassínio revivendo o passado no presente cúmplice com Paula; Irene pede desculpa à mãe de Agustina acompanhando esta na morte.
E tudo isto, no mais leve e humorístico desencadear de cenas tétricas que nos encantam pelo meio de risos e sorrisos.
É este o nosso universo?
Também é este, à sobra da poderosa Anna Magnani.

Friday, October 20, 2006

recursos

"Às vezes ela não parecia a mesma, sir - disse Cade. - Dizia-me: "Cade, eu já ultrapassei o amor, agora odeio toda a gente, até o meu próprio filho." Eu temia pela sua razão.
(...)
O fim da morte é o princípio do sexo e vice-versa. Filhos são brinquedos abstractos, representações de amor, modelos de tempo, um recurso contra o não-ser"

Durrell, Lawrence; Constance ou práticas solitárias, Pág. 373/374; Difel

A honestidade mental que iludimos dos mais variados modos, auto elogiando-nos. Mas só ela nos permite olhar com desapego a vida - como se mais não fossemos que uma erva, uma pedra, uma gota de água... um recurso para apenas ser.

Wednesday, October 18, 2006

metas e utopia

Hoje vou dormir como um anjo. Um anjo sonhador porque …
Às vezes conseguimos atingir um sonho. Depois resta-nos sonhar com esse sonho até ao momento dele se realizar. E vai mesmo realizar-se.
Digo e penso muitas vezes que a nossa insatisfação decorre da efabulação sobre actos quiméricos e irrealizáveis. Quanto mais longe/alto pomos os objectivos, se não os entendemos como utopia, como motor de vida, mas como factos alcançáveis, quando esbarramos na impossibilidade, sofremos. Por isso, tenho para mim, que utopia é utopia, sempre longe, sempre paraíso, e metas passos intermédios que me dão a certeza de que essa utopia é irrealizável, mas que vale a pena lutar por ela. As metas, quando as atingimos, trazem bocadinhos de utopia ao nosso dia-a-dia. As metas são as parcelas de utopia que realizamos e que dão sentido ao percurso sempre ascendente da vida.
Para que não pareça totalmente abstracto: ouvi uma entrevista de manhã que me prendeu dentro do automóvel 45 minutos, parada, à espera que acabasse.
...e consegui bilhetes para o concerto do ano!!!

Tuesday, October 17, 2006

Miranda July & Me and You and Everyone You Love


Encaro Miranda July como a Laurie Anderson dos nossos tempos: em muitos lados com muitas ideias, com muitos projectos, com muita doçura. E Miranda é a nossa Laurie Anderson, a da minha geração. É contadora de estória, é poetisa nas estórias.
Me and You and Everyone We Know é uma pérola. Uma pérola pequenina para guardar num bolsinho e lembrá-la todos os dias. E é uma pérola cheia de pérolas. A pérola do peixe, a pérola do quarteirão, a pérola das lagartas e dos passarinhos. E a pérola do quadro na árvore, a pérola do quadro na árvore.
A densidade, a música, a fotografia.
O melhor filme que vi nos último anos. De chorar. Trailer aqui.

Sunday, October 15, 2006

Muhammad Yunus

A propósito do Prémio Nobel da paz dado a Muhammade Yunus reedito um post de Março.

A propósito de uma outra maneira de encarar a construção da paz, próxima da sabedoria popular " Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão". A paz dos ricos distingue os fazedores da guerra, a paz dos pobres começa quando se acredita na capacidade de eles mudarem os seus próprios destinos dando-lhes meios para viver... e não há paz enquanto houver pobres.

"Hoje estive numa sessão de esclarecimento da Associação Nacional de Direito ao Crédito realizada no âmbito da implementação de um dos projectos escolhidos pela Agenda 21 Local.

Empolgo-me com estas coisas e acredito. Acredito no micro, acredito nos idealistas e sonhadores, acredito na bondade das pessoas! Quanto mais micro, mais acredito.

Dói-me no entanto perceber que este não é um sentimento geral, nem sequer maioritário e ainda nem sequer de uma significativa minoria.

Mas se eu, que nasci do lado bom do mundo, sinto tantas dificuldades para tornar real um projecto, porque não acreditar que a bondade das ideias não depende da dimensão material de um projecto, mas antes das redes de solidariedade que se criam? Pouco importa que o máximo de crédito possível seja € 5000. O relevante é haver uma instituição que garanta a quem precisa dos €5000 o direito a que lhos emprestem. Esse empréstimo implica responsabilidade e confiança, provavelmente o que não é exigível a quem precisa de muitos €5000 para investir ( ou enterrar) em empresas tidas como fundamentais para a recuperação da nossa economia… e que depois, porque se perspectivam à escala global, deixam centenas ou mesmo milhares de trabalhadores ( dependentes) no desemprego.

É tudo uma questão de atitude, para mim, de valores. E poderão estar certos, não sou eu profeta que o digo, que economia social e que valores como os da coesão, são os únicos que nos podem salvar …ou por cegueira, perder-nos definitivamente."

Friday, October 13, 2006

ligação

Chamo a atenção para o http://poesiailimitada.blogspot.com/. Ao percorrer o site, com os olhos e o coração, identifiquei-me e perdi-me, sobretudo com Adam Zagajewski.

Thursday, October 12, 2006

quarta-feira 11

Este é hoje um espaço precioso. Que procurei quando cheguei e a que agora volto para…

Hoje é um daqueles dias em que procurarei poesia pelas piores razões.

Arranjarei justificações psicossomáticas para as minhas dores de cabeça.

Encontrarei justificação para subir e recolher ao vale dos lençóis com o meu livro de ocasião. Cedo, bem cedo contra o costume. E serão milhentos os pensamentos que cruzarão a minha pretendida leitura e o meu tranquilo sono.

Porquê quarta-feira 11 e não sexta-feira 13?

Quero crer que a tal sexta-feira será em alta.

Wednesday, October 11, 2006

livros

Dantes, lia livros metodicamente. Seleccionava-os conforme os gostos do momento, mas lia-os sempre até ao fim. A não ser aquelas “pedras” que por mais que se configurassem na história da literatura ou nas convenções da época, não eram de todo superáveis pela minha persistência e vontade de conhecer. Foram poucas as recusas, entre as quais conto José Saramago, em qualquer das suas versões.
A idade permite-me agora outro à vontade. Misturo livros, que leio intermitentemente, que retomo e largo, chegando quase sempre ao fim. Releio livros que me marcaram no passado, onde procuro hoje com outros olhos a seiva que outrora tanto me alimentou.
Os livros têm um lugar e um tempo. Na cama leio romances ou ensaios que nada têm a ver com a minha vida profissional. Na sala, leio livros de trabalho e jornais ou revistas genéricas ou da especialidade. Nas viagens, estudo matérias relacionadas com o que visito. Quando estou emocionalmente desperta, para o mais ou para o menos, procuro poesia. Às vezes a literatura vem ter comigo, numa imagem, numa entrevista, numa recordação. Outras, vou buscá-la deliberadamente.
Hoje, porém, fui buscar o romance do quarto para ler na sala.

Sunday, October 08, 2006

marmelada 2006


















Aqui está.
Com calma, com paz, também com Nina Simone.
Sempre saiu, como nos velhos tempos. Doce, com boa cor.
Os marmelos eram perfeitos, à custa de quê? Não sei.
Marmelada de 2006.

casa do sobreiro

Quando tudo se desenrola na certeza de que os dias se sucedem sempre.
Quando os intervalos de tempo cronológico são absorvidos pela intensidade do passado – o passado é devolvido ao presente em toda a sua plenitude, sem sobressaltos.
Porque o sobreiro permanece estático vendo passar os séculos, com os ramos estendidos sobre o jardim de verde intenso. As pedras, os musgos, o tanque, a mãe…
O tempo não passa a não ser em nós. Tanto quanto nos fecunda construindo velhos sobreiros de ramos estendidos, que num minuto, juntam séculos.

Finalmente...




...trabalho de designer e vontade de fazer este curso!

Thursday, October 05, 2006

Ainda hoje, outra vez. Dia especialmente profícuo.
A véspera de feriado é sempre boa, pela predisposição à conversa. Não há hora marcada para o dia seguinte. Não há tarefa, a não ser aquela a que me imponho por gosto – revisitar o passado. Vou a Braga - amanhã. Ver amigos antigos. Recompor pedaços que se mantiverem intactos na minha vida.

Wednesday, October 04, 2006

a propósito do fecho das urgências

Há algumas alturas da vida em que estamos especialmente débeis. Uma delas é, sem dúvida, quando esperamos do lado de cá de uma urgência de hospital notícias de alguém querido, que do outro lado se debate com a doença, a dor ou mesmo a vida. Por isso não posso aceitar, que estas situações sejam tratadas com a frieza dos números, com a eficiência economicista da boa saúde das finanças de estado. Não posso querer (crer) que tudo seja reduzido a cálculos matemáticos de rácios e distâncias e que por via deles, nos atirem para situações desumanas de mega-hospitais e urgências, onde o conforto humano e mesmo material deixa muito a desejar.

Para quando pensar que quando falamos de seres humanos não podemos apenas reduzir tudo a critérios de eficiência e eficácia? Para quando pensar, que quando falamos de vida e morte, é muito importante e eficaz acolher, ter um ombro para chorar, um espaço para sentir, para abrir a alma e deixar que os homens e os deuses (feitos homens – os nossos médicos são isso muitas vezes) dêem o seu melhor?

estrada de Sintra, desculpem da serra

Voltei pela estrada da serra, ao fim da tarde. Trazia a fruta no carro, aquela que ontem ficou por comprar... e pousei em casa. Trazia inúmeros pensamentos, gostos, amores, ilusões. Pousei no fazer do jantar, nas conversas reatadas, no trabalho... quase terminado. Ponto de situação, sempre. Ponto de situação.
Ponto- marca um momento, paragem no tempo.
Situação- Algo indefinível e mutante mesmo quando se decide fazer um ponto.
O melhor ponto de situação é um bom sono.

Tuesday, October 03, 2006

estrada da serra

Não sou Álvaro de Campos, nem percorro a estrada de Sintra.

Mas o regresso a casa, pelas 20.30 deu-me imenso gozo. A estrada sem luz, abria-se à minha frente - uma fita cinzenta iluminada pelos faróis, máximos ou médios, controlados conscientemente. Uma fita cinzenta debruada de dois traços contínuos brancos e outro, intermitente, a meio. Back a acompanhar a fita que se desdobrava ladeada pelo verde cinzento da vegetação lateral. Às vezes árvores, outras apenas ervas secas ou restos queimados dos incêndios de verão. O Outono anunciado no dia mundial da arquitectura. Ela, a arquitectura, ausente. Não era muito tarde e tudo se conjugava num início de noite calmo, sob controlo. Sob o meu controlo. Senhora da vida, da estrada, do devir, da estrada e da vida, deixando que tudo se desenrolasse na medida certa do imprevisto. Tudo o que vier será por bem. Eles, noutras paragens, dão sinais, telefonam ou não. Mas sei que estão também com o meu pensamento, no meu pensamento.

Sunday, October 01, 2006

arrumação

“Todas as coisas estão no seu lugar. Eu é que não sei onde é que elas estão.”
Padre Carvalho Correia

No mínimo, uma teoria interessante quanto à arrumação.