
A nova prática da Maria, o Yoga, que vai crescendo como mania. Ela aponta e desenha para se tornar "pro" e surpreende-nos sempre com a sua macacada tão bem desenhada. Ó, como é bom estar em casa!
Isto hoje é muito sério…não que habitualmente não o seja.
O Avô dos meus filhos está doente. Cheguei a casa à hora do almoço e disse que ia vê-lo. Não é perto e a decisão da ida implicava a “perda” de um sábado. De imediato os dois disseram que também iam. Eu não disse: “ Meninos, vêm comigo ver o avô.” Eles disseram espontaneamente que iam. Aliás a Joana já o tinha dito antes.
O Avô está doente. Esteve no hospital e está muito debilitado. Quando lá chegamos estava sozinho porque a Avó tinha ido às compras. Ficamos cerca de uma hora a falar com ele, sobre teatro, sobre literatura, sobre desenho, sobre pintura, sobre a experiência do hospital. Há muito que não o fazíamos. Ele sempre foi a personagem superior e distante que distribui máximas e repreensões veladas pelos netos, sobretudo por estes, que são mais “destemperados”. Hoje era um homem frágil, humano, sensível que se emocionou com a nossa – deles- presença.
Isto leva-me a reflectir sobre a tendência para esconder a doença, a velhice ou a morte às crianças e aos adolescentes. O contacto com estes lados da vida só os enriquece e os faz mais homens e mais sensíveis. Eles não precisam de procurar emoções feitas ou induzidas para sentirem. Regressaram felizes e eu com eles, em paz.
Ouvi uma entrevista com o psiquiatra Pio de Abreu que dizia que a nossa identidade se define através da imagem que os outros nos devolvem. Hoje reflectia nesta circunstância da definição da identidade individual, que não se define por si só, mas precisa de ser devolvida pelos outros para que dela tenhamos consciência – um paradoxo irónico, sem dúvida! O individual uno e solitário não existe se não houver outros que reflictam a sua imagem. Um eremita no meio do deserto não se concebe a ele próprio como ser com identidade?
Uma das frases de Aquilino naquela entrevista de que falei, marcada pelo tempo, penso. Penso mais: seria inadmissível hoje chamar à mulher "bicho". Seria inadmissível, que um homem da estatura de Aquilino, assim se referisse à Mulher numa entrevista na rádio nacional. No entanto, à parte o "bicho" aqui tido em consideração depreciativa, pode exprimir apenas estranheza para sua compreensão de homem. Os homens e as mulheres - como se fôssemos duas faces da mesma moeda que tem entre si um muro, que não deixa ver o outro lado.
“ A senhora tem um gatinho?” Eram quatro e meia e tinham tocado à campainha dois miúdos. Perguntei de longe o que queriam e o mais pequeno disse-me “ Tem que vir cá”, para de seguida me fazer a pergunta. “Tenho”, respondi. “É que eu queria um gatinho. Já tive um mas fugiu. Já perguntei à minha mãe e ela disse que podia ter um gatinho.”
Iniciamos a caça aos gatinhos. Pequenos, são seis agora. Fugiam, enquanto os miúdos desesperados, tentavam agarrá-los. A minha inabilidade e apreensão não ajudaram nada. Então propus: “ Voltem às sete horas que o meu filho já está e ajuda-vos.” Lá foram tristes. Passado um quarto de hora voltaram a tocar. O miúdo mais pequeno, o que falava e queria o gatinho, já o tinha ao colo. “O senhor aqui do lado ajudou-me a apanhá-lo. Eu disse que podia, que a senhora me dava o gatinho”. “E tu vais tratar bem dele?”, respondeu-me logo “Vou, eu gosto muito de animais”. Perguntei-lhe como se chamava “Eurico”, respondeu-me. “Quando passares aqui à porta toca para me dizeres como está o gatinho.”
Foi embora feliz, senti-o.
Canção amarga
Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
- Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.
Agora, tu, só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.
Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.
Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
- Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!
E por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão Ferreira, Matura Idade 1973
Antologia Poética, Publicações D. Quixote, 1983
quando acordei, não sabia do mundo senão a derrota.
acordei com a música e com os gritos de terror
que atravessavam as paredes.
lá fora, os pássaros a voarem na claridade,
vozes distantes sopradas pela aragem.
eu sentia que as palavras que podia dizer
eram ridículas. eu acreditava que nascem lugares
para o amor e que, nesses jardins etéreos,
a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto
suavemente.
“ O que é certo é que cada vez me vou apercebendo menos da existência da estrada. Porque já a conheço de gingeira. A nós, no entanto, parece-nos belo aquilo, sobretudo, que nos é familiar. É o que se diz. Mas provavelmente comigo não acontece o mesmo. Ou então a familiaridade com uma coisa deixa-me livre para ver outra coisa no mesmo lugar. Para ver as ludovias. Assim, rectifiquemos: a nós parece-nos belo tudo aquilo que é suficientemente indiferente para nos permitir ver, em seu lugar, o que nos apraz. Talvez faça mal em pôr isto na primeira pessoa do plural. Voltemos ao singular: a mim parece-me… (vide acima).”
boris vian
Por mim pode ficar na terceira pessoa do plural, pelo menos para mim e para ele.
O fim-de-semana. As férias sem férias.
O calor bole lá fora. Silêncio, bichos e pássaros. Cerveja muito fria e jornal. Um livro acabado… mais um, pelo silêncio da casa, em hora do convencional almoço. Um trabalha, outra espraia-se em almoço de conforto, outro dorme, para recuperar da noite sem dormir e a restante, está de férias, sem férias. A tarde seguirá na mornidão inactiva das horas até ao esperado banho de mar, lá para as sete. Antes algumas tarefas obrigatórias para que tudo decorra dentro do previsto: sempre há um jantar a providenciar. A mesa de verão já retomou, só agora, o seu lugar no pátio. Ontem contávamos as árvores e refazíamos a sua existência: pinheiro (agora só um) ácer pseudo-plátano, dois carvalhos, um ginco, um liriodendro tulipeiro, vários cedros, magnólias, macieira, limoeiro, oliveira, e outras perdidas na ignorância dos habitantes presentes….
Ontem ainda a magnólia tornou-se visível a preto e branco, em flor de janeiro.
Ofereceram-me a tarde e eu ofereci-a ao prazer …da leitura.
Encontrei Francisco Lázaro. O nome despertou-me um fio de memória. Apeteceu-me ligar ao meu pai para confirmar a realidade. Não o fiz. Sei que vai morrer
Não sei se sou capaz de contar a reviravolta que este pequeno ensaio provocou. O amor pelos livros, a paixão pelos livros – senti-me retratada, senti-me possessa, percebi como a leitura (não leitura de trabalho) toma conta de mim e me ilude, transporta, me abre o tal “silêncio só meu” que posso manter fazendo as tais outras tarefas diárias: o que li continuará fervilhando no meu pensamento.
“ O erudito, o verdadeiro leitor, o fazedor de livros, vive saturado pela intensidade terrível da ficção. Por formação, fica predisposto a identificar-se de maneira mais intensa com as realidades textuais, com a ficção.” George Steiner, mas também Michel Crépu, na reflexão centrada
“ O que é a literatura? Um lugar que não é lugar, um tempo que não se mede pelo tempo, uma língua que não é linguagem. Esse lugar, esse tempo e essa língua podem tornar-se objecto de desejo, permitem pressentir uma forma particular de conhecimento, ou talvez de revelação” Esse vício ainda Impune, Michel Crépu integrado no "Silêncio dos Livros" editado pela Gradiva em Junho de 2007.
Não posso fazer qualquer post oficial no site da Trienal porque simplesmente não vi o Pólo I- o Pólo por excelência.
Vi os outros dois. Vi o que me apetecia ver e fiquei com umas réstias de sentimento de culpa, como profissional, por ter cedido à tentação de uma “imperial” fresquíssima numa esplanada em vez de…
Siza é Siza e sabe bem à alma, aparte as fotografias serem más (ou mal impressas) e a Serpentine ter sucumbido ao calor do espaço. A organização do espaço pareceu-me bem e a selecção das obras interessante. Sem a pretensão que é tão comum à nossa colectividade profissional.
O Pólo II, que visitei por interesse pessoal, pareceu-me bem no modo de exposição da secção destinada às áreas metropolitanas. Menos bem quanto ao conteúdo. Levanta-me uma questão: organizar uma exposição mais que projectar a forma é construir o conteúdo de um modo legível e apreensível. Não chega dizer que o tema é o “vazio urbano” e deixar quase totalmente aos participantes a definição do conteúdo. Os textos são cada um de sua nação, compridos e maçadores; os projectos seleccionados muito díspares e pouco coesos no conjunto; a grande percentagem de planos, mal expostos e mal explicados ( e um plano é sempre difícil de explicar). Por isso a exposição parece mais uma feira de vaidades do que uma mostra das áreas metropolitanas. Como pode um projecto como o do Metro do Porto estar ausente, enquanto tal, da exposição? É ou não o projecto mais relevante e mais estruturante da região?
Mas talvez seja mesmo assim: não temos áreas metropolitanas temos conjuntos de municípios, cada um por si.
Do outro lado, na secção destinada ao sector imobiliário, achei a concepção de um mau gosto atroz. Dei umas voltas por entre cortinas e panos tensos para dar de caras com Foster ou outros protagonistas inesperados desta cena. Mas não é hora para percorrer qualquer labirinto, nem momento para descobrir o minotauro- é apenas a I Trienal de Arquitectura de Lisboa.
No Polo I, uns contentores azuis, à entrada expulsaram-me do recinto e fui cair à esplanada para a já apresentada imperial.
Espero que daqui por três anos se volte a realizar, para fazer jus ao nome e para melhorar…
Do paradigma da complementaridade ao paradigma da individualidade. Se no século passado, tendo como fundamento a cultura judaico-cristã realizávamos o Homem, com o sentido do dois em um(homem+mulher=um), essa meta/missão (na linguagem contemporânea) desvanece-se. Infelizmente apenas para aquela extensa minoria.
Se no final do século passado e princípios do século XXI, prevalece o paradigma da individualidade, confundido com o do individualismo (não raras vezes egoísmo, egocentrismo, narcisismo), acredito que só daremos o salto quando nos centrarmos na complementaridade múltipla. Recordo a reflexão sobre trabalho de equipa e transformo-o em respeito pela liberdade individual que se realiza paralelamente à realização colectiva.
Do lado dos afectos também. Eu, que sou eu, bebo em muitas fontes, preciso de múltiplos sabores para colorir a minha pessoa( a que gosto de chamar alma). Cada um na sua especificidade e para cada um, o respeito pela sua integridade e liberdade.
Esta reflexão apenas sentido no mundo ocidental, naquele em que não se pensa que, em quanto se luta pela sobrevivência, os nossos queridos morrem de fome, de SIDA ou de uma simples gripe por falta das drogas banais que a curem.
Queria ter a posição dos claustros
A posição do monge antigo que os varre
A posição do moribundo que pergunta as horas
A posição das árvores quando as crianças sobem
A posição dos ramos quando os ninhos nascem
A posição de alguém que já não mora. Queria
Como se tivesse
A posição da casa e alguém me visitasse.
Daniel Faria
Fomos ao cinema ver Lady Chatterley, que a Joana já tinha visto. Durante o longo filme uma pergunta pôs-se-me: o que seria possível cortar sem que ele perdesse intensidade? Quando saímos a pergunta surgiu. Também ela se pôs a L.
É difícil perceber como tornar o filme menos longo. É um filme construído de contextos, onde as paisagens, as flores, as ervas, as árvores, as roupas, os gestos, aparentemente supérfluos, participam do erotismo presente –sempre presente e mais presente do que latente. A evolução da relação lê-se nos olhos, nas mãos (impressionantemente animadas dela – finas e grandes - e rudes e directas dele), lê-se em cada passo refeito, em cada repetição do gesto anterior que avança um pouco mais.
Esta é uma história universal e intemporal. Tão nossa – tão perdida num tempo em que a os actos tendem a confinar-se ao presente e à repetição apenas. Aqui o aprender o corpo é a dois, é para além dele, na ousadia da dádiva.
Gostei … gostei muito, apesar do cansaço e vou lembrar-me deste filme muitas vezes para sobreviver ao quotidiano.
Boneca de linho, o que fazes?
Porque reeditas sentimentos?
Levas-me contigo
e não sabes que as tuas penas
são momentos.
Sombras do pecado ancestral
Sempre eco
de uma culpa irreal
Que torna a angústia em tensas linhas
Montadas em redes finas
Tecidas na mesma malha das minhas.
A pergunta:
( sempre uma miragem):
Como é possível viver assim,
Em terreno de alta voltagem
Rumo ao horizonte sem fim?
AS MULHERES DA MINHA GERAÇÃO
………elogio profundamente merecido!
Hoje têm quarenta e muitos anos, inclusive cinquenta e tal, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabolicamente sedutoras, isto, apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afectuosa celulite que capitoneam as suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais.
Formosamente reais. Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciadas e casadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de acercar-se do terceiro e do quarto intento. Que importa?
Outras, ainda que poucas, mantêm um pertinaz celibatarismo, protegendo-o como uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando abre as suas portas a algum visitante.
Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!
Nascidas sob a era de Aquário, com influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kubrick e do início do boom latino-americano, são seres excepcionais.
Herdeiras da revolução sexual da década de 60 e das correntes feministas, elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução.
Jamais viram no homem um inimigo, apesar de lhe cantarem algumas verdades, pois compreenderam que a sua emancipação era algo mais do que pôr o homem a lavar a louça ou a trocar o rolo do papel higiénico quando este tragicamente se acaba.
São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam.
Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam a sua parecença com Maria, a Virgem, numa noite de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El Raton com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Neruda e do cinema de Bergman.
No fundo das suas mochilas traziam pacotes de rouge, livros de Simone de Beauvoir e fitas de Victor Jara, e, ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, que se chama “Teu amor é um jornal de ontem”.
Falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor as canções de Sílvio Rodriguez e de Pablo Milanez, conhecerem os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias, dormindo em barracas e deixando-se picar pelos mosquitos, porque adoravam a liberdade e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam a fazer na sua formosa e sedutora madureza.
Souberam ser, apesar de sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas. Deusas com sangue humano. O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu companheiro por dentro.
A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda que nos façam sofrer, quando nos enganam, ou nos deixam, pois o seu sangue não é suficientemente gelado para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia de Santana.
Por isso, para os que nascemos entre as décadas de 40 e 60, o dia da mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando está você.
Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!
(escrito por Santiago Gambôa, escritor Colombiano)
Sob o paradigma da globalização não nos resta outra alternativa senão olhar para nós, sem o sentimento de hiper identidade fundamentada na interpretação excessivamente positiva e glorificadora do nosso passado histórico que, como refere Eduardo Lourenço, se transforma numa “espécie de álibi inconsciente, de informação inscrita na nossa memória, própria para nos desmobilizar e fazer perder de vista a urgência vital dos povos que se pensam, de preferência, em termos de futuro.”
A atitude terá que ser outra, indo além das nossas seculares fronteiras, para aceitar como europeus responsáveis e de pleno direito os desafios que hoje se põe à Europa.
Porque apesar de como diz Fernando Pessoa “As nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós” nós, portugueses e Portugal integramos a “Ideia de Europa” defendida por George Steiner na sua excelente e lúcida conferência realizada na Holanda em 2004. Somos possuidores de uma História e de uma cultura baseada na liberdade e na diferença, que se transcende pela unidade na diversidade.
Por isso temos o direito e o dever de sonhar o futuro da Europa, tal como o apresenta o filósofo:
“ (…)Liberto de uma ideologia falida, o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente. É porventura apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido de vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam construir-se como base. É entre os filhos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que “a vida não reflectida” não é efectivamente digna de ser vivida”.
Conforme prometido, aqui o texto!
"Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.
Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –
o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas."
Maria do Rosário Pedreira em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

As viagens. As viagens são entendidas como “tempos mortos” para a maioria dos mortais. Para mim estes “tempos mortos” são essenciais. O tempo de casa para o trabalho, do trabalho para casa, o tempo que passo em filas de trânsito, as esperas pelos miúdos, as esperas no médico. Preparo-me para as esperas e preencho-as às vezes com nada. E sabem-me bem.
Na quinta-feira, dia do nosso regresso, foi um dia de viagem. Preparámo-nos para isso. Era apenas isso que iríamos fazer: fechar malas, transportar malas, esperar, esperar em filas, iludir balanças, olhar, comentar, conversar, ler… e foi um dia profícuo. Qualquer coisa muda dentro de mim quando simplesmente estou nestes tempos de espera. Nesses momentos tudo está ordem e eu nessa ordem sucessiva e sucessória.



Andrew Bird já anda por aí, em assobios, violinadas e piruetas há algum tempo e eu já pousei os ouvidos na música dele há uns anos também. Nunca lhe liguei imenso, mas nunca me passou ao lado. Faz parte daquele grupo novo cheio de talentos com os Arcade Fire, Final Fantasy e talvez até o Rufus Wainwright. Todos eles para se ouvir com a maior das atenções. São novos e sabem bastante de como nos encher os olhos de lágrimas, de nos dar vontade de saltar e de sorrir.
O novo álbum Armchair Apocrypha é mais forte que os outros. Não que os outros não o fossem (eram!), mas este é mais rock (será?). Talvez mais pretensioso, mais escuro. Não sei bem, talvez. Mais crescido?
Sexta, vou com o Andrea ao concerto. Quero perceber como funciona o álbum em palco. E tirar uma fotografias.
Entretanto ouçam o disco e vejam esta actuação ao vivo.
“(…) – Esta cidade é bruxa, sabe, Daniel? Mete-se-nos na pele e rouba-nos a alma sem darmos por isso.
- Fala como a Rociíto, Fermím.
- Não se ria, que são as pessoas como ela que fazem deste mundo cão um sítio que vale a pena visitar.
- As putas?
- Não. Putas todos o somos, mais tarde ou mais cedo. Eu digo as pessoas de bom coração. E não olhe assim para mim. (…)”
“(…) Bea diz que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que o livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos.(…)”