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Sunday, May 23, 2010

em torno de um livro

Peguei no livro, no silêncio da casa e li sobre o amor. Sobre o amor fleumático. Aquele amor egoísta, no dizer de Clawdia Cauchat, que a única coisa que almeja é o enriquecimento de nós próprios. Um amor que sabe esperar, mesmo que a espera seja em vão e faz dela um processo de conhecimento humano. “ Podemos falar de dedicação egoísta ou de egoísmo dedicado”, diz Hans Castorp, embora a fronteira entre os dois seja muito ténue. Enquanto o primeiro se aproxima da paixão, que gera o ciúme, que exige a posse, o segundo é paradoxalmente altruísta e egoísta: altruísta porque não exige exclusividade e está centrado no sentimento, no que ele desencadeia; egoísta porque, estando centrado no sentimento, se interessa apenas pelos efeitos do processo no enriquecimento individual daquele que ama.

Monday, May 10, 2010

Valentina Sereno

A professora que no liceu, talvez, mais me marcou, foi Valentina Sereno - professora de ciências da natureza. Foi minha professora no Carolina Michaëlis. Hoje lembrei-me dela, como me lembro muitas vezes. O que distingue um ser vivo de um ser inanimado? A capacidade de assimilação. Não sei se foi assim que ela me ensinou, foi assim que eu percebi e assim a lembro. Assimilar- capacidade de transformar matéria diferente na sua própria matéria. Hoje lembrei-a ao pensar na capacidade que temos de reflectirmos sobre as nossas experiências incorporando-as na nossa história pessoal.Ficamos mais densos, mais pesados e mais leves, mais desprendidos e mais conscientes do nosso lugar no mundo. Perdida a inocência ganhamos em sabedoria.Ando às voltas com Thomas Man " A Montanha Mágica" e assimilo.

Thursday, September 18, 2008

novamente o tempo

“Oh, havia pouco tempo, sim, ele sabia. Quase podia ouvir o enorme silêncio com que os ponteiros do relógio avançavam. Mas não se sentia revoltado por ser o guardião de tempo tão curto: o tempo de uma vida inteira também seria curto. Aquele homem já aceitara a grande contingência. (…)

Aliás no seu trabalho de construção da realidade, havia em desfavor de Martim a novidade de as coisas não serem mais óbvias; ele esbarrava a cada momento. Contra si, também, havia consciência do tempo preciso. Embora Martim tivesse uma grande vantagem: se a vida era curta, os dias eram longos. Ainda a seu favor ele tinha o facto de saber que devia andar em linha recta, pois seria pouco prático perder o fio da meada. A seu desfavor tinha um perigo à espreita: é que havia um gosto e uma beleza em uma pessoa se perder. A seu desfavor tinha ainda o facto de entender pouco. Mas sobretudo a seu favor tinha o facto de que não entender era o seu limpo ponto de partida.”

Clarice Lispector; A Maçã no Escuro; Relógio d’Água; pág. 144, 145

Tuesday, September 09, 2008

pensar, não pensando

“ O ser humano é uma criatura pensante, mas as suas grandes obras realizam-se quando ele não pensa nem calcula”( D.T. Suzuki), ou seja, “ pensa, embora não pensando”. E este “não pensar” é o pequeno grande segredo a que se deve aspirar, fonte da coisa única, a face do inimitável e do irrepetível”.

Moreira, José Guardado; Ecos do Japão; Revista LER; Junho de 2008