Monday, January 23, 2006
Eleições
Sunday, January 22, 2006
Domingo de eleições
Vamos sair para votar, todos contra Cavaco. Gostaríamos de ter uma surpresa.
A minha indecisão resolver-se-á lá, no cacifo de voto. Falta ainda saber se a pergunta “ Quem queres ter na segunda volta?” vai fazer algum sentido no momento. Votar em consciência também é difícil porque nenhum daqueles cinco homens me pode representar.
Saudades de Jorge Sampaio.
Friday, January 20, 2006
Swing
José Duarte no programa Jazz com Brancas, antena 2.
Então eu tenho swing. Vá-se lá saber como e onde.
Wednesday, January 18, 2006
um bom sinal
Já ontem queria fazer esta referência. Não tive oportunidade. Mas chega hoje e nunca tarde. Na europa do norte e do leste existem algumas mulheres nos cargos mais altos. Na europa do sul não. Comentávamos na mesa da cantina, se é por os homens serem machistas nas sociedades mediterrânicas. Concluíamos, na mesma mesa, que não são só os homens que são machistas as mulheres também o são, porque:
· Para nos impormos fazemos o papel de super mulheres: o do trabalho, o de casa, o de mães;
· Deixamos que os homens nos continuem a tratar como menores;
· Deixamos que os homens vivam plenamente as suas responsabilidades e ambições profissionais, continuando sempre a cobrir as suas retaguardas;
· Até achamos isso bem e natural: não somos iguais somos diferentes. Mas esta "diferença" mascara muitas sujeições.
Monday, January 16, 2006
Depoimento
Para uma aula na Escola Superior de Belas Artes do Porto (21.05.1980)
Eu sei, eu sei
sim eu sei. Sei-o agora e já há muito tempo o sabia.
Sim, sei, sei isso.
Mas eu sei isso e também sei o contrário.
E é tão difícil saber isso e saber o contrário.
Sim, eu sei
eu sei que a Terra terá cinco milhões de anos
eu sei que a Vida terá mil milhões de anos
eu sei que a “pequena” distância da Terra à Lua anda aproximadamente pelos 400 000 Kilómetros.
Eu sei, sim eu sei
eu sei que tenho apenas 56 anos de idade, 1,65m de alto e um passo de 70 centímetros.
Sim eu sei,
mas sei também
que a praia ficará diferente se eu lhe roubar um grão de areia
eu sei
que o mar não será o mesmo se eu lhe chorar uma lágrima
eu sei
que o Universo se altera quando respiro ou mesmo quando penso.
Sei, eu sei, eu sei que venho de longe e vou para longe
sei que não estou apenas aqui mas em muito lado, sei que não vivo “apenas” o tempo que vivo.
Sei que o infinitamente grande é tão infinito como o infinitamente pequeno.
Eu sei e sei mais e muito mais.
Sei que não sou excepção.
Sei que sou como todos os homens
os que nasceram e os que morreram
os que hão-de nascer para morrer.
Eu sei que entre mim e os outros há uma eterna e indissolúvel união.
E que os outros precisam de mim, tanto quanto eu deles necessito.
Eu sei que é este saber-mo-nos infinitamente grandes por sermos infinitamente pequenos que constitui
a paixão pela vida.
Eu sei, sim eu sei.
E é sobre esta Vida de paixão que tem sido a minha que vou falar.
Com ironia, com tristeza, por vezes com rancor, mas sempre, sempre com paixão.
Há anos pensei um pensamento para gravar numa porta que ofereci, simbolicamente, para a casa de uns amigos.
Esse pensamento pensava simplesmente: faz de cada um momento uma Vida.
Ofereci a porta mas não gravei o pensamento.
Gravei-o na memória e procuro praticá-lo no quotidiano.
E é essa paixão pela Vida que quero apaixonadamente transmitir. Porque não vive quem não mergulha permanentemente e apaixonadamente na paixão da Vida.
Eu sei, sim eu sei.
Eu sei.
Fernando Távora
Agenda da Câmara Municipal de Matosinhos uma homenagem ao arquitecto Fernando Távora, 2006
Saturday, January 14, 2006
excentricidade
Conquistar o direito a uma vida própria e sedutora para os filhos, luz que abre caminhos não percorridos e não sabidos, para além de todas as tarefas quotidianas e socialmente correctas, é um desafio. Porta para uma identidade, que ultrapassa a meta única de ser mãe. Certeza de que a vida continua para além daqueles que realmente criamos através do acto biológico da procriação. Por isso rejeito visceralmente máximas que dizem “ Se não fizer mais nada já cumpri o meu dever” ao olhar para os meus filhos bonitos, inteligentes e justos.
O meu dever, o nosso dever é de todos os dias criarmos futuro, o Nosso, e termos como dizia João Ferrão, hoje, aqui e agora “Saudades do futuro”. “A vida é dura e mais dura é a razão que a sustém”.
Friday, January 13, 2006
Um excerto de Proust
Em "Em busca do tempo perdido (Volume I) - Do lado de Swan", Pág. 245, Edição Relógio de Água
Thursday, January 12, 2006
Desculpas
Monday, January 09, 2006
história e identidade
Espaço: Uma sala aberta para o pátio/jardim
Tempo: Parado/suspenso
Contexto: Um almoço simples e um bom vinho
Conteúdo: Uma conversa sobre identidade
Porque é que nós portugueses vivemos sempre a pedir desculpa, com um misto de complexo de inferioridade e de nostalgia do passado, da era dos descobrimentos?
Pergunto muitas vezes porque é que os programas de história no 4º ano, no 5º, no 6º, no 7º e no 8º anos do ensino básico (falta-me ver se no nono também), são sempre à volta dos descobrimentos? E sobre os descobrimentos, a perspectiva é sempre a de um povo empreendedor e conquistador?
Tenho para mim que o mais importante da nossa história dessa época, é a capacidade de aculturação, de perceber por dentro as civilizações que abordamos e de com elas nos misturarmos. Ao contrário dos espanhóis que impuseram pela violência o domínio da sua cultura, os portugueses, ficaram, estabeleceram laços, integraram. Mas essa é a perspectiva menos valorizada no ensino comum da história. Dá-mos sempre mais importância a um Afonso de Albuquerque, que na Índia dominou pela força.
Hoje Portugal acolhe povos de muitas origens, desde África, América do Sul, ao Leste Europeu. Não me parece contudo, que tenhamos hoje essa capacidade histórica, que outrora nos caracterizou, de saber aprender e integrar outras culturas. Ontem via na televisão uma reportagem sobre o Natal dos ucranianos, com manifestações de repercussão pública, que mais pareciam folclore do que vontade de apreender e aculturar. Mas esta capacidade de integrar exige uma consciência de identidade e de orgulho próprio que definitivamente não temos. Porque não temos consciência de povo, não sabemos de história, da nossa história e não nos reconhecemos. Estamos sempre mais preocupados com o vizinho do lado do que com o nosso lugar no mundo. Outro dia, Jorge Gaspar, dizia que não percebia porque é que o Porto queria rivalizar com Vigo, estando sempre preocupado com dominar o eixo atlântico, quando, como região, devia era preocupar-se com o seu lugar na Europa.
Esta reflexão decorre da viagem, não com o objectivo da fuga, mas como um modo de regresso, de retorno ao nosso interior, à nossa identidade.
Saturday, January 07, 2006
eternidade presente
Quando tudo se desenrola num tempo assustadoramente acelerado, como outro dia reflectia neste espaço, julgo que o nosso papel como educadores e como seres que querem estar vivos, é o de conquistar tempo ao tempo. Saber esperar, encontrar o momento oportuno para criar, para dizer, para dar, para ter, é o desafio que se põe. Resistir ao impulso de conquistar o tempo no momento, para que o momento transcenda o tempo e se torne eternidade presente.
Friday, January 06, 2006
Ressaca II
Thursday, January 05, 2006
Ressaca
A minha visão da cidade alterou-se nesta segunda visita. Esta alteração não se operou sobre a visão exterior que tinha da cidade: ela conquistou-me e como raras vezes tive pena de regressar. Estranho, porque quando cheguei senti desconforto e perguntei-me como é que eu vou aturar isto seis dias? Sinto que ficaram coisas por fazer mais do que por ver, porque Manhattan, sob ponto de vista do turista não é difícil de ver. A geometria e métrica das cidades americanas facilita a vida aos turistas, que percorrem por cima cada rua, cada avenida, cada loja, como que debicando sem saborear as diferenças de paladar.
Desta vez o Pedro fez um magnífico trabalho de compilação de lojas e espaços temáticos que eu completei com a definição de percursos que procuraram mostrar-lhes a cidade nas suas diferenças. A chuva e a neve não permitiram a conclusão do programa mas deram um gosto especial (sobretudo a neve no último dia do ano).
Como vou fazer para regressar a New York e: perder-me em Greenwich Vilage; sentar-me a ouvir no Blue Note; voltar ao Witney Museum; saborear o Harlem; experimentar as comidas coreanas, japonesas e turcas; jantar nos acolhedores restaurantes italianos da down town; e reconhecer a partir de dentro a história urbana da cidade?
Tuesday, January 03, 2006
Sunday, January 01, 2006
impressões
É muito difícil falar de qualquer coisa quando estamos dentro dela. Se estes USA são muito diferentes dos que experimentei há cinco anos, julgo que não. Recordo apenas que não sinto a influência hispânica que senti em 2000.
Estando aqui agora uma ideia vêm-me sempre à cabeça: os extremos tocam-se. Uma cidade de altura e densidade e uma cidade de espaço. As distâncias são imensas e os vazios contam-se em milhares de passos que se desenrolam automaticamente avenidas fora. As pessoas amontoam-se e não nos olham nos olhos. Quando o fazem é para usarem um sorriso cínico de censura perante algum lapso interpretativo de quem não entende este “novo mundo”. A ostentação toca na miséria e ao mesmo tempo tudo se mistura.
Mas o que é certo é que os USA conquistaram o mundo, sobretudo para os mais novos. Aqui apercebi-me que as referências do Pedro são as da NBA, da NBC, ... e que tudo lhe é familiar. Sentem-se em casa na língua, nas referências, nos heróis, esperemos que não na cultura e na identidade.
Saturday, December 31, 2005
Friday, December 30, 2005
Wednesday, December 28, 2005
Até lá
Tuesday, December 27, 2005
Sempre de partida
Não preparo a ida para além do essencial e também não arrumo nada do que fica. Porque a vida é sempre uma permanente viagem e cada lugar deve estar sempre pronto para deixar. O que nos custa é esta consciência de que tudo é efémero por mais essencial que se afigure no nosso presente. Mais do que as coisas os sentimentos. Um sentimento que hoje sentimos vital amanhã pode apenas ser uma recordação, sem qualquer dor ou mágoa. Mas hoje pensar nisso dói, uma dor por antecipação da perda, que provavelmente nunca se terá. Uma dor por pensar que pode até nem doer. Uma dor do futuro.
Saturday, December 24, 2005
Desejo de Natal
Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.
No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se era para voltar a sentir o quante do teu colo.
Maria do Rosário Pedreira
em "Natal...Natais"
Oito séculos de Poesia sobre o Natal
Antologia de Vasco Graça Moura
Friday, December 23, 2005
Tardio Advento
As velas do Advento continuam por acender. Não fez sentido.
As prendas, compradas por empreitada. Agora vou compô-las. Respigar.
Este é o verdadeiro trabalho de Natal. Escolher o que faz sentido, juntar, redistribuir, para voltar a dar. Dar.
A família está novamente junta. Soube-me especialmente bem rever a Joana e estar com ela, excessivamente constipada e com saudades, já, de Aveiro, bom sinal.
Hoje começa o meu Natal. As lembranças de um ano cheio de mudanças que eu compilo, a partir deste momento, em alguns dias que auguro felizes.
Para todos.
Wednesday, December 21, 2005
Amanhecer
Deixo este pequeno poema, leve e juvenil, cuja autora é uma recente descoberta nossa.
Na impossibilidade de o publicar ao amanhecer, faço-o no início da noite.
As luzes pestanejam
Verde, azul, vermelho
Beijam o vidro.
Eu arregalo os pés
Acordo os braços
Enquanto o dia boceja.
Olívia Rosmaninho
Sunday, December 18, 2005
Há dias
O João, aqui ao lado navega por Time Square, onde estaremos daqui por catorze dias.
Há pouco, em conversa de pós-jantar, concluíamos que a chave para ultrapassar a barreira do tempo e do espaço está na comunicação. Cada vez o tempo é maior, infinitamente grande porque cada vez é mais pequeno, infinitamente pequeno, porque mais denso. Hoje um ano corresponde a um século de umas décadas atrás. Com o Francisquinho, há uma semana, falava disso mesmo, ao recordar o Perú, em que a falta de comunicação, isolou séculos e parou-os no tempo.
O espaço é cada vez maior, porque cada vez mais pequeno, também. A velocidade, que desafia o tempo no espaço, já não é vivivel para um humano. O João dizia-me que as velocidades possíveis na fórmula um são impraticáveis porque um humano desmaia se as experimentar. Ontem, eu e o Zé, concluíamos que o presente não existe, porque o tempo se ultrapassa a ele mesmo, em cada instante. E também que o vazio é fundamento da matéria. Hoje eu e a Emília líamos a vida no presente, passado, futuro.
A ficção científica de ontem é hoje passado.
Existimos? Ou talvez não.
Friday, December 16, 2005
Agradecimento
Toda esta perseverança e diligência, este comércio inocente e magnífico de figurações e símbolos, este ritmo nascido de mãos cheias de memória, talvez seja tão-só magia sem segredo, um reverenciar uma divindade de que até o nome já se esqueceu, uma nostalgia de coisas elementares sem mácula. Talvez… Seja como for, é perturbante que um homem em certas horas, e não das menos sombrias, se empenhe até alucinação em recriar umas frágeis raízes que o mar deu à costa, pedras de um rosa delicado, folhas onde o oiro da manhã se refugiou, pálpebras ainda com restos de sono." (…) e Eugénio de Andrade continua em “Tudo é só um puro dizer no tempo” a desfolhar sentidos e a evocar almas de homens que nos oferecem a paz, a luz, ultrapassando o tempo. Ele e outros, outros por ele, às vezes têm o dom mágico de nos transportar para este estado de pura harmonia, indizível e intemporal que, porque vivido uma vez, nos atingiu o coração.
Wednesday, December 14, 2005
Publicidade
Tuesday, December 06, 2005
Sunday, December 04, 2005
ruínas
Reencontrei-os no passado e não os reconheci no presente. Quebrei laços e com isso perdi um pedaço de história. Isso não me preocupa minimamente nem me faz sentir mal. Só que faltavam lá pessoas, as pessoas do passado que faziam parte da essencialidade daquele quadro. Sem elas o quadro não é o mesmo. Por isso tive saudades dos meus avós, muitas saudades. A continuidade da relação teria permitido a substituição: os avós morrem e são substituídos pelos pais, para que o tecido se reajuste e remende os buracos que se sucedem ao desaparecimento. No meu caso os buracos continuam lá, bem visíveis, bem presentes, ainda bem. Não preciso de fotografias para os lembrar. Basta-me o quadro desfeito desta existência.
Isto leva-me a um texto de Henry Miller, sobre a ruína e o modo de com ela lidarmos:
“Um dos fascínios das ruínas é que sugerem ou revelam sempre a configuração original ou, por outras palavras, a intenção. No meio da maior devastação temos a certeza de encontrar pedaços isolados de perfeição: um arco, um pilar, uma cúpula, um pedaço de pavimento. O trabalho de restauro não só dissipa o charme e o mistério como produz o efeito, um simulacro, de rigor mortis. Nunca nada parece o que foi. O tempo é o mestre apaixonado da decomposição. A criação e a destruição são gémeas, como o foram o amor e a justiça.”
Viagem a uma terra antiga, in Viragem aos oitenta; Henry Miller; Editora Fenda; Lisboa 1999
Friday, December 02, 2005
Magnífico feriado
No entanto este foi um excelente feriado. Fiz tudo o que gosto: li, fui ao ginásio, tomei um óptimo banho a seguir, fiz o almoço calmamente, ouvi música, trabalhei.
O almoço merece destaque. Contra o costume, em dias como este, decidi fazer almoço. Sentamo-nos os quatro à mesa, conversamos, rimos, divertimo-nos. Como foi diferente de quando comemos apenas “qualquer coisa” informal e rapidamente! Comer, independentemente da qualidade e da quantidade, é um acto social e contribui mesmo para comuniquemos.
Isto não é sempre assim tão harmonioso. Às vezes a mesa é local de conflito, de discussão, de não entendimento. Mesmo assim lugar de fundamental para o nosso equilíbrio e crescimento conjunto.
E se juntarmos um copo de um bom vinho tanto melhor.
Tuesday, November 29, 2005
Beleza e Comunicação
Lembrei-me de um pequeno e delicioso texto que li ontem, de Gao Xingjian, todo ele intenso de conteúdo e sentido. Escolho no entanto uma passagem que tem tudo a ver com o que diz o compositor.
“ Suprimir el sentimiento estético individual en provecho de explicaciones no contribuye en nada al desarrollo de la individualidad en la creación artística, pues, en ese caso el individuo se hunde en el último concepto artístico de moda. Desde el momento en que el artista intenta ser el primero en expresar la voz de su época, en hablar de su época, debe recurrir al lenguaje más común, pero cuanto más común es el lenguaje, más vacío resulta. Entonces el discurso non tiene nada de novo que expresar, solo tiene una apariencia de discurso.”
"La belleza está en el instante"; Gao Xingjian; Em "Por outra estética seguido de relexiones sobre la pintura"; El Cobre Ediciones, S.L. ; España 2004
Sunday, November 27, 2005
O Fiel Jardineiro- notas sobre o filme
A leitura que faço para mim, não é tão benevolente: A verdade da vida não é tão clara, a divisão do mundo entre bons e maus, parece-me aqui demasiado linear. Tessa, um anjo; Justin um amante, no sentido em que o amor dá força e sentido a tudo, até à própria morte. Ele vai ao encontro dela deliberadamente, prepara-a continuando o projecto que ela deixara inacabado, redimindo-se das suas pequenas infidelidades a Tessa.
Encontrei o meu lugar em África, bem no seu interior, onde nada existe para além das pessoas, com insignificantes roupas que as protegem, fome, doença e o lixo exportado do mundo global (neste caso medicamentos fora de validade e novas drogas para teste) para ajudar este outro mundo global que é África.
Delírio de mar e pátria.

Temos andado a correr para o Museu Marítimo de Ílhavo, duas vezes por semana, à custa de um projecto acerca da pesca do bacalhau. Sinto uma proximidade às ondas, ao mar, às redes, à pesca, ao trabalho árduo quase comparável às directas. Sinto uma proximidade à vida solitária do pescador sozinho no seu dory. E uma proximidade à nossa tradição, à nossa nação. É pá, desculpem, é do sono. Não durmo desde as 9.30 de ontem. São 7.24. Mas isto é uma bela fotografia, se é!
Wednesday, November 23, 2005
Os passarinhos
Hoje depois de jantar, já tarde, estava na cozinha a tomar café e a observar os passarinhos… a namorar. A namorar no Outono. O bengalim macho com a bengalim fêmea e o mandarim macho com a mandarim fêmea. Não se misturam. Encostam as cabeças e “beijam-se” com os biquinhos duros. Os dos mandarins são vermelhos e os dos bengalins escuros. À noite juntam-se todos em linha no poleiro, nunca intercalados – dois bengalins e dois mandarins, mas os quatro completamente encostados. Encolhem as cabeças nas penas e adormecem. A graça deles advém da sua vitalidade e dos movimentos muito entrecortados e frenéticos. Piam só. Um piar grave, mas sonoro.
Mas certo, certo, é que namoram no Outono.
Monday, November 21, 2005
Outra lógica
Mas porque é que esta lógica, que deveria ser a lógica da vida, é hoje, como ontem, uma lógica de contra-poder? Parece evidente, para qualquer mente saudável, que não faz qualquer sentido deitar fora alimentos quando há milhões a morrer à fome. Não me esqueço da bem conseguida imagem do Live Aid, quando puseram a multidão a estalar os dedos de três em três segundos, significando cada estalar uma pessoa a morrer à fome. Em cada três segundos morre uma pessoa à fome! E não me venham com discursos de globalização da economia mundial, de garantias de preços de mercado ou de cotas, ou de qualquer outra coisa.
Reivindico a minha ingenuidade, os meus sonhos de ser missionária, a minha condição de humanista outsider, para relembrar à Joana e ao Pedro e a muitas Joanas e Pedros de qualquer idade, que o mundo não é só aquele que lhes é dado viver. É preciso ver mais longe e sobretudo ambicionar ser solidário a qualquer preço.
Friday, November 18, 2005
E mais um poema
Em paredes, em pedaços,
Turvam-nos os dias em horas
De amarguras, de demoras.
Estas sombras que morrem
Sobre os sonhos dos que dormem
E o mundo não recolhe.
Só mente, só acolhe.
Olívia Rosmaninho
(É que, ao que parece, hoje é mais um dia com uma noite mal dormida e muito trabalho para fazer, enfim.)
confidências
A disponibilidade a mesma. O lugar sabido. Convoquem-me sempre.
Essa será a circunstância da minha vida…de resto contínuo, como sabem, a mesma.
Sonhadora, romântica, efabuladora, mas sempre com muitos por perto.
Este tom épico, não vem só da Íliada que leio com gosto…mas de mim que exaltada e confiante continuo a acreditar que o que nos move é o amor e a confiança de que não somos indiferentes.
Thursday, November 17, 2005
Balanço
Como também ainda não tenho certeza da importância deste espaço para outros, sinto que posso ceder a outras paixões e esquecer este lugar. Por outro lado acredito-o como uma ponte que nos leva para universos insuspeitáveis.
Digam de vossa justiça.
Monday, November 14, 2005
exactamente
Tarde triste.
É o Outono doente que começa.
Cada folha parece que tem pressa
De morrer.
Madura e fatigada, a natureza,
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.
E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar,
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dei na Primavera.
Miguel Torga, Diário XIV, 1984
Thursday, November 10, 2005
...não é só arquitectura
Eu vou de fim-de-semana, sem Internet. Saboreiem bem o texto.
Wednesday, November 09, 2005
Maria do Céu Guerra na Fábrica
Foi com surpresa que me deparei, Segunda, dia 7 de Novembro, numa das paredes do meu Departamento, na Universidade de Aveiro, com um cartaz acerca de um Ciclo de Poesia, sobre os 4 Elementos, na cidade de Aveiro. Logo, os meus olhos deslizaram um pouco mais e encontraram um nome conhecido: Maria do Céu Guerra.Assim, nesse mesmo dia, às nove e trinta da noite, caminhei até à Fábrica, com a Helena e o Daniel “caladinho”. No caminho, ainda me cruzei com a Carolina, que vinha da print-shop, com o último projecto que nos foi proposto impresso. Dei-lhe a opinião que ela queria ouvir. Quando cheguei à Fábrica já a Maria do Céu se movia e contava poemas, deixando que eles se mexessem no seu corpo, que o tomassem, que o moldassem. Desde logo, achei-lhe a voz muito mais bonita, muito mais grave, muito mais sincera. A telivisão estraga as pessoas, torna-as pouco intensas. Seríamos quarenta na sala? Logo passei para a fila da frente, para que ela me fitasse os olhos em alguns versos, para eu não perder os pormenores dos movimentos. Quarenta com o mesmo gosto, a mesma entrega? Fiquei meia hora a conversar com ela, no fim. Tem uns olhos que parecem o mar. Quarenta a ver na poesia a única salvação? Quero deixar tudo. Deixar tudo pela Poesia. E por isso já mandei um email. O princípio.
Tuesday, November 08, 2005
De Sophia
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços
Como se de novo fosse criada cada coisa.
Sophia de Mello Breyner
Arte poética
Declaração
Concluir que uma alteração circunstancial modifica relações fundamentais não era, até hoje, para mim evidência. Não estou disposta a aceitá-lo a não ser pela liberdade de esquecer aquilo que ingenuamente julgava verdadeiro.
Sunday, November 06, 2005
Sábado sempre
Cá em casa cabe música, cabe diálogo, cabe…
Cá em casa quase não cabemos nós.
Mas cabe trabalho, jantar (fazer jantar) leitura.
Cabe natureza, folhas, orvalho, cor de Outono.
Cabe a angústia da segunda-feira também.
A certeza de que o sábado não cabe na segunda-feira.
A angústia de que vou subir aquela escada para um mundo que não entendo.
…e onde suspeito não vou poder descobrir o meu canto…
O meu sábado. O ilusório real.
( A Joana está copiosamente bonita. Rosada. Os olhos negros e vivos. O som do teclado do computador, a duas, mistura-se. A boca é uma flor. Ela é a Joana eu, a sua mãe. A música de fundo - Ryuchi Sakamoto)
Alberto Carneiro em tinta vermelha

Friday, November 04, 2005
Para viver é preciso namorar a vida.
Por favor arranje um amante.
Durar é ter medo de viver. É trocar o hoje pelo incerto amanhã.
Frases soltas que retirei de conversas em programa de rádio ao sábado à tarde.
Que significado tem para mim? Muito.
Quantas vezes hipotecamos a vida presente por um amanhã supostamente melhor? Faz-me lembrar, aquela imagem recorrente, dos que tem por objectivo ganhar dinheiro que não tem tempo para gastar. Trabalhar por gosto é viver. Praticar desporto por gosto é viver. Namorar a vida é encontrar gosto a cada passo, é descobrir encanto nas coisas mais simples, é ser capaz de contemplar. Mais importante do que tentar adiar a morte é viver.
A ideia de vida eterna é markting. Sob a ideia de qualidade de vida vende-se imagem, corpos belos e saudáveis, iguais, indefinidamente e por muitos anos. O corpo não se transforma, envelhece e mantém-se jovem. Luta-se exaustivamente contra as rugas, contra a flacidez, contra o cabelo branco, contra ….Fazem-se sacrifícios imensos e compram-se hipóteses. Põem-nos uns óculos que só deixam ver beleza na juventude e na perfeição do modelo esteticamente convencionado. Os mesmos óculos que ficcionam a vida e a transformam em imagem de telenovela: praias idílicas de mar azul turquesa, palmeiras e bebidas espirituosas, claro que com a melhor companhia, quente e bronzeada deitada ao nosso lado ou nas suas melhores brincadeiras fogosas.
Viver hoje não é ficção. Comprar a beleza eterna é um logro. Entender que a beleza é eterna é sabedoria e saber vê-la sempre, a minha ambição.
Wednesday, November 02, 2005
Sophia & a poesia
Sophia, extracto de arte poética iv
Consigo imaginá-la, uma miúda quieta num canto, tão nova e já a ver a música das coisas. Com poemas a cairem-lhe nos ouvidos, para ela os escrever. A verdade é que a poesia paira no ar e basta-nos estar atentos para agarrá-la. Às vezes, agarra-se com uma fotografia, outras vezes com a memória, às vezes é um desenho, umas frases, às vezes agarra-se a poesia com um poema. Mas poucos agarraram os momentos como a Sophia.
(este post é para a Susana, que ouve a poesia suspensa no ar.*)
Monday, October 31, 2005
Outono [parte 2]
Sunday, October 30, 2005
Escola de Educação Ambiental da Quinta da Gruta

Voltei à Escola Ambiental da Quinta da Gruta.
Depois da inauguração formal. Hoje com chuva.
Pela segunda vez esta obra voltou a falar-me. Pondo a hipótese de o conceito não ser brilhante (sobre este tenho alguma dificuldade em estabelecer qualquer julgamento) penso que nesta obra, conceito e construção, não só andam a par, como se identificam completamente. É paradigmática sob este ponto de vista: a exaustiva atenção para que cada pormenor e mais do que isso, para que o próprio processo construtivo se identifique com a ideia. Sente-se que o resultado decorre duma íntima relação da obra com o seu autor e deste com o construtor/artesão. O processo construtivo está completamente determinado pelo projecto e pelo resultado que se pretende obter. Mudar a ordem de construção, mudar o dimensionamento de uma peça, de uma das camadas de que é composta a parede ou a cobertura, implica uma sucessão contínua de alterações em cadeia. Não há detalhe, o detalhe é a própria obra.
Tudo se conjuga para a desconstrução da forma a partir dela própria. A forte presença volumétrica exterior, construída a partir de uma solução de decomposição dos volumes ritmada e de regra mais sensível do que racionalmente perceptível, abre-se a um interior desconcertante. Um corredor roto, completamente iluminado de luz natural que nos coloca no exterior. Um corredor/rua que se vai sucedendo em praças, largos, recantos, mais ou menos misteriosos. Ainda que de um relance, após a passagem do átrio iniciático, se abranja toda a longitude do edifício, ele nunca nos é presente, excepto pela condição do nosso percurso.
Aqui arquitectura percorre-se, a arquitectura usa-se.
Saturday, October 29, 2005
Machu Pichu

Esta é uma memória recorrente que faz tanto mais sentido quanto o tempo dela nos afasta. O peso da altitude, a obra do homem e a pujança da natureza … e eu, perdida no ar rarefeito, com os movimentos lentos e entrecortados pela atmosfera e pelos raios intensos do Sol, como planos fixos.
De resto o mistério que ainda envolve este lugar contribui para o insólito da experiência.
Ficar preso em Machu Pichu deve ser assustador. Porque esta cidade encantada e perdida emerge de desfiladeiros apertados donde se despregam grandes pedras. Águas Férreas, povoado donde se acede a Machu Pichu é asfixiante – uma fenda que é bom deixar. Lembro-me de comentar que não queria ficar naquela terra nem uma noite. Ao contrário Machu Pichu é uma fuga para o céu onde apetece repousar.
Deixo aqui um dos desenhos que então me ajudaram a sentir esta cidade.
Snow Borne Sorrow
A tarefa a que Sylvian, Jansen e Friedman se propõem, ao juntarem-se sob o nome de 9 Horses, é a revitalização da pop acústica já muito explorada por Sylvian, ao longo do seu percurso musical. Snow Borne Sorrow é um disco que escorre como um todo parecendo não ter princípio nem fim, sem se destacar uma canção. Isto é bom, não mau. Um disco para ouvir no quotidiano: ao acordar, no caminho para a universidade, nas aulas de desenho, no comboio, no carro e numa conversa ao jantar, a trabalhar, para adormecer, enquanto sentado, a ouvir o vento rebolar, do outro lado da janela. A voz de David Sylvian é inconfundível, grave e profunda, com uma dicção perfeita, desvendando as letras geniais. Os músicos, de uma mestria exímia, tocam melodias complexas em pormenores que resultam num ambiente quente e sensível. Steve Jansen e a sua bateria e percursão estão no seu melhor. De salientar só a vontade que me dá, ao ouvir a faixa número 8, Serotonin, de abanar e balançar a cabeça, como fiz no carro, com o pai, hoje. O grafismo do cd é belíssimo e cuidado. A comprar, não aconselho download. Podem ouvir-se alguns segundos aqui.
Friday, October 28, 2005
apenas um poema
Amor desejo e ódio:
Penso que não fazem parte de nós depois
Que passamos o portão.
Não são duradouros, os dias do vinho e das rosas:
Saído de um sonho enevoado
O nosso caminho emerge por algum tempo, fechando-se depois
Dentro de um sonho.
Ernest Dowson (1867/1900)
In Rosa do Mundo- 2001 Poemas para o futuro
(tradução de Cecília Rego Pinheiro)
Thursday, October 27, 2005
Joaniversário
Wednesday, October 26, 2005
O Arco das Espumas
Sobre as praias tocadas de infinito.
Sophia de Mello Breyner Andersen
em " O tempo dividido"
Hoje estou triste
Hoje também estou em perda. Aquele post de há uns meses, sobre a reserva de eficiência, hoje não é verdade. Depois de 21 anos de serviço na Câmara onde trabalho, de 13 como Directora de Departamento, decidi mudar. Por vontade própria e contra outras vontades. Mas saibam que estou triste. Este bolg, desculpem-me,será algumas, raras vezes, diário. Hoje. Sinto-me um pouco perdida dos olhos dos que me apoiam e me gostam. Um pouco desconfortável por não saber exactamente o que me espera.
Desculpem o desabafo incongruente com a dinâmica de mudança que eu sempre defendi.
Tudo bem. Eu sei que nada ficará na mesma e que amanhã seremos outros, com ou sem vontades de mudança determinadas.
Monday, October 24, 2005
Domingo de manhã

Arte conceptual por via do trabalho da Joana.
Friday, October 21, 2005
A pergunta pró-activa
Quando me encontro perante a dúvida do que devo fazer.
Quando a legalidade me leva para uma resposta que contradiz o bom senso.
Quando o socialmente ou politicamente correcto contradiz a minha verdade.
Faço a pergunta ao contrário: O que é que perco se proceder contra a lei, ou contra o social ou politicamente correcto? O que é que os outros perdem? Se a minha atitude vier a gerar um problema como o resolvo? Tem solução a posteriori?
Estas perguntas são de risco e induzem a acção. Não são defensivas, não me deixam instalar na paz podre. Tenho para mim que, o que não quero, é decidir distraidamente e sem pesar consequências. Isso é erro e negligência. Agora quando ajo conscientemente, estou segura, porque saberei, perante qualquer um, justificar a razão porque o fiz… e se for “condenada” será pela minha boa causa.
Presidente interplanetário
Muitos vão ser os comentários hoje, amanhã e depois de amanhã!
Não vou comentar conteúdos, não vou manifestar-me a favor ou contra.
Aliás, terão de repetir o discurso muitas vezes para eu descobrir alguma coisa.
Mas continua a ser o homem frio e tenso. Cada palavra parece arrancada de um poço de escuridão e profundidades insondáveis.Tem um ruído metálico de fundo que soa a qualquer engrenagem desconjuntada.
Nem a particularidade de o fazer no dia de aniversário do seu casamento torna este homem mais humano. Será sempre um extraterrestre.
Teremos um presidente interplanetário?
Wednesday, October 19, 2005
Temporada de Patos
Monday, October 17, 2005
Somos
Penso logo existo: não. Existo e por isso penso.
...ou o erro de Descartes, segundo Damásio.
Para os mais novos
Por ignorante entendo não me perceber na minha relação íntima e individual com o mundo e com a natureza. Essa construo-a por referência a outros e com outros, por isso, também como ele diz, procuramos a informação para saber aquilo que não queremos fazer. Nada existe por si só, mas por referência, no campo da matéria e no campo das ideias.
Sunday, October 16, 2005
A Cultour em Santiago

Como vem sendo hábito ( aparte a modéstia) a visita da Culrour correu lindamente.
Porque as obras são excepcionais.
Porque o arquitecto Marco Rampulla é simples e acessível (desculpem se firo susceptibilidades, mas nem parece argentino).
Porque as pessoas são das mais variadas origens e gostam de arquitectura.
Vivemos calmamente um dia diferente que vai ficar na nossa memória muito tempo.
Brevemente darei outras notícias.
Ficam duas fotografias feitas com o telemóvel, porque a minha fotógrafa falhou.
Thursday, October 13, 2005
Das Lágrimas
A pequeníssima aranha assusta
a criança que eu estava a olhar,
e chora. “ Meu duplo filho,
não temas a imensa labuta
da caçadora de insectos.
Ela estende uma rede, tão frágil
que a podes romper com o menor dedo.
A menos que, antes do gesto, encontres
a beleza do tecido luminoso,
quando a aranha ofende o Sol
roubando-lhe alguns raios,
ou a beleza da água que ela retém,
como diamantes sem preço,
rosácea de lágrimas.”
Fiama Hasse Pais Brandão
Memória de momentos mágicos que se podem esfumar ao mínimo gesto.
linguagens
Levantam-se questões interessantes e aparentemente contraditórias com o que penso. Provavelmente há vários estádios de maturação e entendimento de uma linguagem, mas será que só quando a dominamos completamente, somos capazes de retirar dela o verdadeiro gozo?
Será que quando desconhecemos completamente as regras de uma linguagem temos a mesma abertura para a acolher sem preconceito na sua plenitude? De uma forma menos completa mas até mais aberta e despreconceituosa? E será que se soubermos as regras ficamos presos a elas e não podemos interpretar a linguagem conforme o sentimento?
Dúvidas que partilho. Porém julgo saber que o caminho da procura e do conhecimento é irreversível, um vício que nos mantém vivos, pelo gozo de descobrir e precisar sempre de mais descobrir.
Wednesday, October 12, 2005
Nenhuma obra-prima é cobarde
Tuesday, October 11, 2005
Um voto faz a diferença!
Sim senhor! Este é o país que temos, eu sou cidadã eleitora. Votei na freguesia de Vermoim, concelho da Maia, Escola Preparatória Gonçalo Mendes da Maia, na mesa de voto nº 1, com o cartão de eleitor 1699.
Mas, … em Manteigas o PSD ganhou ao PS por um voto. Como é lógico e evidente o candidato do PS pediu para recontarem os votos. A Comissão Nacional de Eleições disse que não era possível porque as actas estavam todas assinadas sem ter havido, no acto, qualquer contestação.
Porque é que o que é lógico se torna impossibilidade? Somos escravos das leis, do papel?
Mas o lema denominador comum de todas as campanhas foi: “ Primeiro as Pessoas”. As pessoas não se enganam e um voto legitima uma equipe, com maioria absoluta, para governar quatro anos. Um voto faz a diferença!
Monday, October 10, 2005
Atárquicas 2005
Friday, October 07, 2005
A casa e a música (partes III e IV)
A casa estava cheia de um público mais formal e mais social, mas muito menos musical.
Il Giardino Armonico
Conhecia interpretações mas nunca os tinha visto ao vivo ou em qualquer filme. Se não estranhei o insólito da interpretação que se faz de ritmo e movimento, fiquei no mínimo presa à composição e movimentação dos músicos no palco. Os músicos tocavam de pé, excepto o violoncelo o alaúde e o cravo, por impossibilidade.
De bom gosto, mas quase a tocar o excessivo no que se refere a expressividade corporal. O Pedro diz que os músicos pareciam árvores frágeis ao vento. Polichinelos movimentados por qualquer teia invisível.
Com Viktoria Mullova. Achei muito interessantes as variações de intensidade que numa transição suave nos absorviam até ficarmos presos no mais ténue som do violino. ( Vantagens da acústica da casa?)
A música
Vivaldi, Sammartine e Haendel, todos da mesma época, mas Vivaldi muito diferente. Para mim de uma composição mais clara, mais sintética e mais directamente comunicativa.
Parte IV ( dia 7 às 13horas)
A casa estava virada do avesso. O concerto foi na sala 1. O público estava no coro. Viktoria virada de costas para a plateia e de frente para nós. Um público musical.
A música uma bolha. A ténue superfície transparente separou-nos do mundo e da casa.
Não foi empolgante, mas suave e sóbrio como Bach.
Agora vou regressar ao mundo. A crítica fica para quem sabe…para mim a oportunidade de entrar na bolha.
Wednesday, October 05, 2005
Dogville hoje

Filme profético e divino.
Profético, porque a cada momento presenciamos Dogville nas nossas relações e vemos impotentes, o fio débil mas incrivelmente forte que nos puxa para baixo! Down…down…down…
Divino, porque de uma lucidez exterior e altiva que nos faz sentir como marionetas perante o seu olhar.
Tuesday, October 04, 2005
A terra é...
Então transcrevo este comentário passado, que me foi oferecido, porque hoje faz todo o sentido:
" A terra é uma grande ilha que flutua num grande mar e está suspensa por uma grande corda em cada um dos pontos cardeais que desce, desde a abóbada celeste, a qual é feita de rocha sólida. Quando o mundo envelhece e fica usado demais, as pessoas começam a morrer, as cordas quebram-se e deixam que a terra se afunde no grande mar e tudo volta a ser água outra vez.”
Monday, October 03, 2005
Desculpa antecipar-me!
Eu arrepiei-me. Sim, eu também tinha visto. Sozinha, na rua e na sala. Não tinha reparado na diferença das sombras.
Pina Bausch

(Actual-Expresso; 1 de Outubro de 2005)
Sunday, October 02, 2005
Trabalho e Arte
Henrique Silveira no seu blog “ Crítico Musical”
Saturday, October 01, 2005
O Vazio da Ausência
Quase poderia transcrever este pensamento, extraido de um qualquer texto de Miguel Sousa Tavares, que me foi enviado por uma amiga, sem nada dizer.
Mas não quero.
Porque precisamos de guardar objectos, de pretender possuir pessoas, para nos equilibrarmos? Porque temos dificuldade em conviver com a ausência? Porque fomos educados para uma economia de mercado, na qual o usar e deitar fora, é o fundamento da criação de riqueza? (Ou às vezes até o deitar fora sem usar, como modo de criar valor). Porque nos criam necessidades que não temos?
Tenho vindo a perceber que é mais compensador descolar do ilusório real: uma fotografia, um objecto ( ou até mesmo uma pessoa), para o reinventar com as asas do meu afecto, da minha recordação, do meu amor.
Thursday, September 29, 2005
Cultour
Wednesday, September 28, 2005
Matéria/Corpo
Monday, September 26, 2005
Björk no Meco, 05.07.03
A longa noite do festival de músicas electrónicas do Meco, pródigo em intermináveis filas de trânsito (10 km delas, duas horas para chegar) e em líquidos a preços de 2025 (1,5 € por imperial ou garrafa de água – o mesmo preço dos cachorros quentes picantes em promoção leve-dois-pague-um no já mítico bar/atrelado Psicológico), valeu pela actuação da Björk. Ao seu lado direito, uma secção de cordas e uma harpa; à esquerda uma parafernália de máquinas e respectivos geeks. No meio, a minúscula (e lindíssima) Björk a colar as duas ambiências. Inteligentemente (ao contrário dos senhores que se seguiram), optou por uma actuação menos popzinha a favor de mais experimentação e total entrega. Os ritmos quebravam-se e ressurgiam, a voz ia a sítios quase impossíveis e as explosões tornavam-se verdadeiras apoteoses, com direito a fogo de artifício (literalmente). Resultado: o público via-se na obrigação de estar concentrado; era apanhado de surpresa a cada instante. A actuação pautou-se precisamente pelo uso e abuso do factor surpresa até no que se refere ao alinhamento. Durante a maior parte do concerto, Björk e a sua trupe interpretaram canções menos rodadas. Apenas no fim, novamente para criar um efeito de apoteose – neste caso emocional, não sónica – recorreram a peças mais recentes ou mais populares.
A casa e a música (parte 2)
O Quarteto
O quarteto Borodin, que me levou até àquele espaço infinitamente precário do limite matemático.
A música
Shostakovich - Quarteto n.º 1 e n.º 13. Shostakovich há muitos anos que o procuro. Cada vez que o ouço descubro novidades. É o compositor que me transposta do clássico à contemporaneidade. O Quarteto n.º13, que não conhecia é um grito magoado.
Depois Beethoven - Quarteto n.º13, um descanço.
A vivência da música é uma experiência individual, a mais individual das experiências.
Sunday, September 25, 2005
Drogas Somáticas
Saturday, September 24, 2005
Dia
Friday, September 23, 2005
As cidades de Walter Beijamin
Walter Beijamin move-se pelas cidades com olhos estrangeiros e maliciosamente infantis. Espia lugares insólitos, comuns e desprezíveis das capitais europeias. Sem preconceitos e estereótipos pode distanciar-se da opaca realidade urbana.
“Lo que contienem las miniaturas urbanas de Benjamin son visiones panorâmicas, miradas surrealistas, gracias a las quales, todo lo que parece entrar irremisiblemente en la decadência es, precisamente, la mejor matéria prima para darnos uma iluminación del futuro.”
Las ciudades capitales de Walter Beijamin; Ignasi de Sola Morales, “Metrópolis”; Gustavo Gili
Thursday, September 22, 2005
Wednesday, September 21, 2005
Comentar apropriando
Tuesday, September 20, 2005
Do encapar livros
Mas, estou quase a deixar de o fazer. Mais um anito e estou safa! Ainda bem.
Restarão as recordações do papel encerado, do cheiro a amoníaco ou do desesperante e eficiente papel autocolante transparente.
Monday, September 19, 2005
Greta Garbo
Greta Garbo é como se dizia no Público: única na sua época e geração. Não há quem se lhe compare no tempo que a antecede e no tempo que a sucede. É uma estrela no céu. Supostamente a minha geração já não responde a estes ideais de beleza, a estes padrões e cânones. Talvez eu não faça parte da minha geração. Fazia hoje 100 anos.
Sunday, September 18, 2005
Os sindicatos da vida
Inquietante. Porque ao fazer esta afirmação consideramos os adolescentes como um grupo próprio, com comportamentos e interesses próprios, como uma classe aparte. Faz-me sempre confusão quando se divide o percurso da vida em partes, sendo cada uma delas estanque. Sai-se de uma classe e entra-se na outra. Vêm-me sempre à cabeça que deveria haver o sindicato dos bebés, das crianças, dos adolescentes, dos jovens adultos, dos adultos em maturidade, do início da terceira idade e dos velhos.
Mas cada um de nós desliza por estas etapas, com mais ou menos consciência delas, vive em grupos heterogéneos e não se associa, nem organiza, em função das fases da vida.
Por isso esta visão de impenetrabilidade que subjaz à frase de Alexandre Melo, como todo o artigo, como provavelmente o filme de Gus van Sant, angustia-me e se, pode fazer todo o sentido em função do que a motiva, o filme, a obra de arte, não faz em termos de vida.
Nós vivemos juntos e queremos ser felizes juntos. Não me tirem os belíssimos momentos de sintonia intergeracional que tenho com os meus filhos e com os amigos deles.
Thursday, September 15, 2005
...
Às vezes, na vida, parece que chegamos sempre atrasados. Até à própria vida.
Conta-me o que sabes
eu quero absorver tudo
e morrer sobre a areia quente
de um dia de verão
lentamente.
Prédio do Coutinho
Li na edição do Expresso do último sábado, que o arquitecto Eduardo Brito, autor do projecto, vai pôr uma acção contra o estado português com base no Código de Direitos de Autor, pedindo uma “avultada indemnização” se o prédio for demolido. No mínimo polémico.
Wednesday, September 14, 2005
Funcionários Públicos
Espero que os números estejam certos, porque ouvidos a tomar o pequeno-almoço às 7.40h, apontados no papel que se tem à mão, para serem reproduzidos às 17.30horas, constituem já uma soma considerável de imponderáveis para serem totalmente fiáveis.
No entanto o que me interessa é pensar sobre eles. Eu como funcionária pública, sei que é preciso reduzir à despesa e não me importo de o fazer. Espero que se mantenha a vontade de mexer com os interesses estabelecidos e que, as medidas sejam levadas até ao fim, sem medo dos juízes, dos professores, dos enfermeiros, dos médicos, dos polícias, dos militares, dos …e dos políticos. Os interesses são muitos e as queixas, evidentemente, cruzadas.
Tuesday, September 13, 2005
Interpretar a Arte
Quando escrevi sobre Mahler concluí que mudamos de patamar no entendimento da música, quando aprendemos a gostar dela, mesmo que ela não sublinhe o nosso gosto, o nosso modo de estar no mundo, ou o nosso estado de espírito.
O mesmo direi para as outras artes. É preciso distinguir o gostar espontâneo, intuitivo, do gostar que vem a seguir ao aprender a gostar. Este, o aprender a gostar, é um processo, que implica tempo, paciência, atenção e estudo. Fazer uma fotografia, é diferente de fazer um desenho do mesmo local; olhar para uma planta ou um alçado não o mesmo que redesenha-los, percebendo os seus traçados; ler um texto não é equivalente a transcrevê-lo; e provavelmente copiar uma partitura não será igual a ouvir uma peça musical (isso infelizmente não posso atestar).
E gostar porque se percebeu a génese e a forma, porque se enquadrou no tempo, é profundo e não se pode esquecer nunca mais. Não é susceptível a mudanças conforme estados de espírito. Pode confortar-nos mais ou menos, mas não é por isso que deixaremos de gostar.
Posso no entanto entender sem gostar? Se gostar implica uma adesão emocional?
Tenho para mim que se nos dedicarmos seriamente a entender uma obra de arte, se lhe dermos esse tempo para ela falar, para ela interferir connosco, aprenderemos a gostar.
Ou então talvez ela não seja uma obra de arte.
Hoje que vivemos a cultura do imediato, do consumo, é essencial educar pela arte, tanto no que isso representa de dedicação e de atenção ao não evidente, como nas portas que abre a valores de solidariedade e de humanidade, sempre na relação com aquilo que nos ultrapassa, ainda que isso, sejemos apenas nós, Homens, na nossa maior dimensão.
Saturday, September 10, 2005
Individualidade
“As Fúrias”, disse Bunny, com os olhos baralhados e perdidos sobre a madeixa de cabelo.
“Exactamente. E como é que elas enlouqueciam as pessoas? Aumentavam o volume do monólogo interior, ampliavam as qualidades já presentes a um ponto excessivo, transformavam as pessoas nelas próprias a tal ponto que elas não aguentavam.”
Donna Tartt; A História Secreta; Dom Quixote
Religo este extracto, de um dos livros que leio actualmente, com o paradigma da individualidade, constante na pós-modernidade, versus individualismo, enquanto lado destrutivo da individualidade, e ainda com o texto “Vida Real Inventada”, publicado aqui em 7 de Setembro.
Friday, September 09, 2005
UM país?
O relatório da ONU para o desenvolvimento humano e a demolição das torres de Tróia.
Segundo o primeiro Portugal é o país com mais desigualdade da União Europeia e desceu um lugar na ordenação em função do desenvolvimento humano. Não é de estranhar porque para a definição do ranking contam os níveis educacionais. (*)Mas no mundo o fosso entre ricos e pobres também aumentou. Temos dois mundos, ou até três – o dos ricos, o dos pobres e dos ricos que oficialmente são pobres – os que não cumprem as suas obrigações fiscais e outras. Infelizmente em Portugal este número cresce.
Quanto à demolição das torres, para além de ser o primeiro processo de implosão com dimensão em Portugal, parece que reverte em alguns ganhos ambientais e, evidentemente económicos. Qual será o mundo que este processo vai enriquecer: o primeiro, o segundo ou o terceiro? Ou será que vamos ainda conseguir construir Um país?
Thursday, September 08, 2005
Colhe todo o oiro
Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.
{Eugénio de Andrade}
vida real inventada
A presença de outro ou de outros, torna-se mais dolorosa, porque se é obrigado a ignorar aquilo que não é ignorável – a vontade intensa de construir aquela história.
É mais fácil, não sei se mais saudável, ter fisicamente afastado o objecto do nosso interesse ou o cenário da nossa história. Assim a nossa imaginação é livre e a confrontação, violenta e presencial, com a impossibilidade não existe, deixando por isso espaço à imaginação para ver apenas o rosto do outro, que eu próprio construo.
Até que ponto esta atitude não se traduz em comportamentos patológicos, em a que realidade se confunde com o sonho, passando o mundo a ser uma ficção? Ou é possível manter um saudável equilíbrio entre sonho e real, que permita dar espaço ao outro diferente da nossa criação, sem perder o sabor dessa nossa criação?
Apesar das dúvidas julgo que ser adulto é perceber este jogo e jogá-lo, constituindo deste modo a almofada para as nossas desilusões quotidianas. Sonhar de olhos abertos e como dizia Walter Beijamin, “nunca contar os sonhos antes de tomar o pequeno-almoço”. Adaptando: partilhar com parcimónia a nossa vida real inventada.
Tuesday, September 06, 2005
Távora, novamente
Raramente, em tempo de trabalho, conseguimos sentar-nos à mesa para jantar, os quatro, a horas decentes (entenda-se, entre as nove e as dez da noite). Hoje, foi mais para as nove, caso raríssimo.
Falamos de arquitectura ( e vida). Da importância de Fernando Távora na arquitectura portuguesa, da Escola do Porto, de Carlos Ramos, do conjunto de circunstâncias excepcionais que nos fazem hoje presentes, e que nós, teimosamente, escondemos no fundo do baú. Da internacionalização e da valorização das origens – legado de Távora, que nos abre portas de um modo consciente e nos faz redescobrir, informadamente, o nosso passado, a tradição. Temos uma enorme herança a defender, um enorme legado para pôr a render. Outros antes de nós o fizeram: Álvaro Siza…e todos os outros, que mais atrás, constituem a base onde ele é, para o mundo, Álvaro Siza.
Os olhos dos meninos brilhavam. Embora nenhum deles se prefigure na esteira da profissão, são sensíveis e sabem o que significa estar de corpo inteiro naquilo em que se acredita.
Por hoje, uma boa noite.
Sunday, September 04, 2005
Foi num dia calmo de fim de verão
De manhã fomos à praia. Não havia vento. Não estava muito quente. Não havia muita gente.
De tarde o tempo correu devagar. Nada foi feito do princípio ao fim, mas à medida do que foi apetecendo: ler, ouvir música, registar CD´s, cozinhar, tomar café fora. Tudo se misturou, na paz que interliga todas as coisas e os seres, inexplicável e harmoniosamente.
Agora um frio ligeiro retesa-me os músculos e o sol vai-se lentamente.
Foi num dia assim que morreu Fernando Távora.
A minha homenagem.
Porque também é preciso merecer a morte.
Para os mais novos (que sei) que lêem este blog.
A Joana teve o privilégio de o conhecer e por isso tem a sorte de o recordar.
Fernando Távora foi um Homem. Que nos seduziu, a mim e a muitos, de um modo suave, como esta tarde de fim de Verão, mas duradouro.
Fernando Távora não morreu, porque um Homem nunca morre.
Para os mais novos que gostam da vida e da arquitectura, comecem por ler " Da organização do Espaço"* e deixem-se ir levados por esta lenta tarde calma de fim de verão.
(*) Edição do Curso de Arquitectura da ESBAP - julgo que foi reeditado pela FAUP
Saturday, September 03, 2005
Nova Orlães - EUA
- 400 000 crianças abandonadas;
- 1 000 000 de pessoas sem abrigo (na sua maioria estes são as pessoas de menos posses, que não puderam, em um dia encontrar meios para abandonar a cidade);
- 25 000 pessoas refugiaram-se dentro da superdome, muitas estão armadas;
- 300 soldados com ordens para atirar a matar.
Nova Orleães localiza-se nos Estados Unidos da América do Norte.
Há efeitos exponenciais que derivam de má gestão ambiental e territorial.
Assustador.
Se assistimos, na sequência do Tsunami, a ondas de solidariedade e a comportamentos humanos e humanitários por parte das vítimas e de todo o mundo, porque é que aqui é diferente? Porque é que as pessoas se comportam como animais ferozes e a solidariedade internacional se retrai?
Thursday, September 01, 2005
O primeiro patamar da arquitectura
Concordo com Graça Dias quando diz que: “ Encontrar, identificar, lembrar, tornar análogo, é o nosso “processo científico”. Como tal, na pobreza das propostas de leitura residem quase sempre as causas de banalidade das respostas.”
É realmente na falta de capacidade crítica inicial, que se revela na incapacidade de equacionar o problema proposto (no caso da concepção arquitectónica todo o conjunto de condicionantes que informam o projecto), que reside o principal problema da nossa classe. Para além da preocupação em garantir à obra uma fidelidade discursiva que lhe confira uma identidade própria de autor, que Graça Dias tão bem descreve e que relança para o domínio da crítica, há um outro patamar, a meu ver anterior, que não se encontra de todo atingido pela maioria dos profissionais do ofício: a capacidade de leitura da “encomenda” enquanto resposta a um problema concreto, que só o autor do projecto com a sua leitura inteligente, crítica e informada, pode conformar.
Esta ausência de leitura: inteligente (porque relaciona); crítica (porque tem a capacidade de alterar contextos e propor alternativas); e informada (porque conta com a história, com a memória, com o sítio, com as condicionantes técnicas e programáticas e todas as outras); é bem visível na qualidade da nossa produção arquitectónica actual.
É a incapacidade de integrar este “processo científico” na produção arquitectónica e a vontade de afirmação de valores individualistas, em detrimento dos colectivos, que me faz, em parte, duvidar do futuro da arquitectura em Portugal.








