Thursday, August 24, 2006

Vila do Conde


Hoje de manhã a Sílvia perguntou-me “ Madrinha, vamos onde?” Instintivamente respondi como é hábito “ A Vila do Conde.” Depois pensei no que respondi e interroguei-me “…e se fossemos?”. Fomos. O Pedro moeu-me a cabeça, como sempre: “… e o que vamos fazer? E o que tem?” Respondia: “Vamos passear. Vamos ver.” “Ver o quê?” voltava ele a perguntar. Depois veio a lição de moral: “És sempre o mesmo. Não gostas de experimentar. Se não sabes o que te espera, não arriscas. Ainda vais acabar por passar férias, todos os anos, na mesma casa, no Algarve.”
Paramos na marginal de Vila do Conde, a tal que criticam muito por ser cinzenta. Gostamos. Todos. O pavimento corrido e escuro, pontuado pelas caldeiras das árvores e as guias em granito, os pittosporum ainda imberbes, os balizadores (os únicos bonitos que até hoje vi), as rendas de canas que desenham as dunas, os pescadores, a capela da Sr.ª da Guia, o forte, fizeram-me mudar de opinião quanto à habilidade de Siza Vieira para desenhar espaços públicos. Custa-me a admitir que seja difícil de entender, como me custa a admitir que pudesse ser de outra maneira. É generoso, largo, enche o olhar que se espraia para se fixar num qualquer ponto do horizonte real ou imaginário. Provavelmente as pessoas de hoje são mais como o Pedro antes da experiência: gostam que as conduzam, que as explorem, que induzam consumo e comportamentos. Sentem-se inseguras em cenários diferentes do habitual. A diferença está em que o Pedro perante o imprevisto usufrui, dá-se e reconsidera, os outros, sentem-se desconfortáveis e morrem na praia.

Sunday, August 20, 2006

convite

Aquele que dissemos que íamos fazer e ainda não fizemos.
Aquele que paira, promessa de uma festa do Conta-mina.
Para os amigos e leitores, informal e (quase) espontâneo.

Será:
Dia 27, lá para o meio da tarde. Porque é domingo. Aquele fim de dia morno, quando a semana de trabalho começa a estar presente e não apetece fazer nada. A festa será para isso – para não fazer nada, simplesmente estar.
Em lugar acolhedor, informal, aberto, sem preconceitos…a todos os que vierem por bem. Esperemos que não chova.
Aguardo que a minha designer para o formalize.
Podem trazer as famílias, porque aqui há espaço e há miúdos.
Por questões logísticas, pedimos para confirmarem quantos vêm para mconceicaoster@gmail.com.

Friday, August 18, 2006

Contrabaixo


Talvez sim. Talvez este seja o último reduto.
O contrabaixo. A base da música. O que sem estar presente evidencia. Dá corpo, permite… que os outros instrumentos sejam música. Aquela que os ouvidos analfabetos ouvem. Aprender a ouvir o contrabaixo. Ouves? Faço um esforço para…só ouvir o contrabaixo. Ouço.
O contrabaixo… na vida é, são… os ruídos, o pano de fundo, o receptáculo, a casa, a família, a música, o “nódoa”, tudo o que permite…
a exaltação da minha solidão.

Thursday, August 17, 2006

festa na aldeia

O dia amanheceu frio e chuvoso. Um dia de outono, no verão. Uma vontade de outono que sucede ao pico, quente e intenso de verão. Pós- festa, para mim.
Ouve-se lá fora o silêncio, contrastante, com o bulício quente de dois dias antes. Era a festa da aldeia. Os conjuntos e os foguetes. Saudades das bandas (por acaso a que ia na procissão da festa na aldeia, até nem tocava mal e levou-me, por escassos minutos, na nostalgia do tempo!)
Festa na aldeia. Na cidade da Maia, permanece a aldeia, no seu pior. O atraso, os rostos pobres, sofridos, subdesenvolvidos, a marca do tempo. Não do tempo biológico ou meteorológico. Não a curtição da vida do campo. Apenas a pobreza, de espírito, de ideias, de conteúdo, de pensamento. Todos os anos a reedição para pior, da procissão, do padre, do presidente da Assembleia Municipal, dos foguetes, dos tapetes de verdes. A Nossa Senhora da Assunção, da Caridade, das Dores, com meninos de plástico nas mãos e óculos seguros por elásticos. Os anjinhos sem asas, perdidos sob o cheiro podre da relva cortada que desenhava o tapete. Relva em vez de feno. Desenhos modelados em vez dos verdes postos aleatoriamente. Ainda algumas colchas de damasco nas varandas.
Ao lado a mediocridade áurea, conceito romano, que descreve a velhice, tão contrário ao dos gregos em que a idade é a porta de entrada para o respeito e sinónimo de sabedoria. É assim por cá. Só que a mediocridade não é só áurea, mas também argêntea ou neófita. Aqui mais que em Roma, alastrou a todas as idades e fases da vida.
Por isso conta-minar com o vírus da inquietação e do sonho, faz todo o sentido.

Monday, August 14, 2006

fazer

“ Era como uma ebulição cega que só se descarregaria numa insónia ou numa dessas súbitas disposições para as lágrimas quando alguma grande música o comovia, ou era trespassado pela visão súbita de um campo sazonado. Para outros bastava-lhes simplesmente o prazer que estas vagas sugestões de beatitude, estas percepções da beleza lhes causavam em si mesmas. Mas ele provinha dessa obstinada e desequilibrada tribo que ansiava por fazer qualquer coisa com elas – por compreende-las e recriá-las numa forma menos lancinantemente transitória que aquela que a realidade outorgava. Que havia de fazer? Era esse sempre o seu pensamento, e ele atormentava-se intimamente com a noção de que não havia nada, que não podia fazer nada, que não havia nada a fazer.”
Durrell, Lawrence; Lívia ou o Enterrado Vivo; Difel; pág 152

Hoje de manhã quando ouvia Schumann e depois Brahms, pensava na vida densa, de loucura e sofrimento, que aqueles que hoje são capazes de nos comover, tiveram. Eles são desta “tribo” e conseguiram transformar a ebulição cega, compreendendo-a e recriando-a até à porta de entrada para a nossa comoção.
Que hei-de eu fazer, eu que também pertenço a essa tribo? Nada, não há nada a fazer…talvez apenas aquietar-me para simplesmente absorver o prazer.

Friday, August 11, 2006

TDF

Há outras tensões…esta é a tensão pré-férias. O tempo a correr, os programas pós-férias a comprometerem-nas mesmo antes delas chegarem. Programar muito bem os cinco dias que faltam, tentações de adiar o seu início mais uns dias, para que possa finalmente gozar a casa sem tempo… e programar uma viagem de sonho de uma semana…fora do tempo e do lugar. E ainda uma festa pelo meio com trabalhos de casa que me são atribuídos.
Mas Agosto é um mês difícil. Se por um lado se trabalha melhor, porque tudo está mais calmo, por outro quando precisamos de alguém ouvimos “ Está de férias, só volta dia …” e depois outro “ Está de férias só volta dia …”. Programar com as férias dos outros e com as nossas á ainda mais difícil.
Hoje está tudo muito negro, apenas me aquece o calor, o céu, o sol, e o amor (d)na Grécia.

Primavera
“ Na Primavera, os marmeleiros
da Cidónia, regados pelas correntes
dos rios, lá onde das Virgens
está o puro jardim; e os pâmpanos
a crescerem sob folhagens sombrias,
rebentos de vinha. Mas para mim o amor
não descansa em nenhuma estação;
ardendo sob o relâmpago
como o Bóreas da Trácia,
lança-se de junto de Cípris com sedentas
insânias, tenebroso, desavergonhado,
e com força, de cima para baixo, sacode
o meu espírito.”

Íbico, in Poesia Grega; organização, tradução e notas Frederico Lourenço; Cotovia; 2006

Wednesday, August 09, 2006

pnpot

Acabei de ler o PNPOT. Fiz um esforço enorme para ser crítica e produzir um documento para a participação da Câmara Municipal. É sempre difícil, deste lado, de quem sofre as directivas do governo, do legislador, do especialista; e de quem enfrenta o cidadão inculto, egoísta, preconceituoso: dizer alguma coisa com lógica. Aqui não temos tempo para pensar, apenas para reagir. Emotivamente ou mais defensivamente (vantagem da idade e da experiência) com uma ligeira “dor de cotovelo” , por não poder estar do outro lado – de quem dita as leis, ou de quem as critica. Por isso ler o Programa Nacional para a Política do Ordenamento do Território foi, um prazer e um suplício. Se está bem feito? Teria que estar, tantas são “as cabeças” a pensar…mas há sempre uma outra “cabeça” mais esclarecida para criticar, encontrar, mil e um defeitos (mas criticar é bom, desenvolve-nos filosoficamente). Se tem uma Visão (oh! conceito moderno) credível? Claro que tem, um Portugal competitivo construído sobre um ambiente sustentável (conceito um pouco menos moderno) e solidário ( conceito igualmente moderno). Se apresenta soluções? Claro que apresenta, centenas de medidas, inventadas para o Portugal do Futuro (onde é que já li isto?). Se vamos dar-lhe uso? Claro que…
Não sabemos. Tudo depende de, e de, e de ….
O conta-mina serve também para fazer este comentário que obviamente não vou mandar para o site www.territorioportugal.pt/
Ainda bem que tenho muitas outras coisas que me motivam e consubstanciam a minha veia pró-activa, às vezes quase hiper-activa…senão não aguentaria a nostalgia e a frustração de não ser “ um rato de biblioteca”…

Monday, August 07, 2006

1 ano




(atrasado, mas...)

Sunday, August 06, 2006

porque gosto do verão

Ontem, no aniversário do conta-mina, de que só me lembrei à noite, fomos à praia.
Estive sentada num rochedo liso com o Pedro e depois com a Joana, que chegou entretanto, quase uma hora. O mar estava azul. Observamos uma lancha que trazia um mergulhador. Outro, perto, permaneceu dentro de água todo o tempo. Viam-se pequenos barcos parados ao fundo sobre a linha do horizonte. Lá no fundo, outra linha ligeiramente ondulada marcava uma sombra. Perguntei ao Pedro “Será uma nuvem?”. Ele respondeu “É o Brasil.” A conversa lenta e serena intensificou a paz do meio-dia onde as ondas incansáveis marcavam o ritmo repetitivo da alma, que se espraiou até ao Brasil. O sol cristalizou o sal na nossa pele que ficou esticada e seca. Regressamos lentamente pela areia grossa. Os dois, agarrados a mim diziam “ Tu és o José Azevedo, tens que marcar o ritmo” enquanto se queixavam que a areia lhes magoava os pés.

Friday, August 04, 2006

nome precisa-se

Preciso urgentemente de um nome para a Fundação que irá gerir o projecto da Fábrica do Teles. A Fundação para além de se dedicar à criação e desenvolvimento do projecto da incubadora de empresas de base tecnológica e ao desenvolvimento do parque tecnológico, fomentará actividades culturais, recreativas e de lazer. Por isso o nome não deve centrar-se apenas na perspectiva do desenvolvimento tecnológico e científico. Inovar, crescer, sustentabilidade, ambiente, qualidade, ciência, mecenato, apoio às artes e ao conhecimento, comunicação, futuro,...
Reunir todas estas ideias numa personagem, num conceito, numa expressão, mas não numa sigla mais ou menos abstracta constituida por iniciais. É difícil, mas era bom que a encontrassemos... no máximo até segunda feira.

Wednesday, August 02, 2006

Herberto Helder


Quando regressava a casa, a Antena 2 presenteou-me com Herberto Hélder, comentado por Gastão Cruz e por José Tolentino de Mendonça. Mais do que isso, pelo próprio, dito por ele mesmo, novamente. Há cerca de meio ano ouvi-o também, noutra viagem de regresso a casa, ao meio-dia de domingo. Fiquei então fascinada e registei-o neste blog. Hoje também. Já procurei o CD destes registos, mas não o encontrei. É imprescindível que o encontre. Preciso dele para aqueles momentos escolhidos, tanto como preciso de ser surpreendida por ele. O poema que ouvi era de “A colher na boca” livro de 1961 e escolhido por Gastão Cruz. A sua voz é telúrica como a poesia, contínua e integral, tão completa que nos agarra nos seus braços para sempre.

Tuesday, August 01, 2006

paisagem


A paisagem constitui uma realidade dinâmica: “(…)os usos alteram-se, assim como as relações dos habitantes e dos visitantes com os territórios. É fundamental saber incorporar as mudanças, mantendo ou reforçando os valores de identidade, de memória e de uso.(…) PNPOT – Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território

O entendimento da paisagem, para além do postal que guardamos na nossa memória, é um desafio. Olhamos para o que nos envolve com a nostalgia do paraíso perdido, tentando manter a todo o custo, ainda que só na nossa memória, retratos da infância, da adolescência ou de outros tempos marcantes da nossa vida. Tentamos guardar retratos. Mas a paisagem é dinâmica e não é independente dos usos. Um campo de milho só faz paisagem, como campo de milho, se ele lá estiver semeado – se alguém semear, cultivar e colher. O campo é castanho, passa a castanho ponteado de verde, nas tais riscas paralelas que correspondem aos regos da sementeira, passa a verde-claro, verde-escuro, ondeando com o vento e a amarelo, de restolho seco. Se se mantiver o espaço livre de ocupação, mas não se semear o milho, nunca poderemos observar a sua transformação correspondente ao ciclo anual das sementeiras e colheitas. Um campo de milho é diferente duma vinha, de um pomar de macieiras, um souto de castanheiros, um monte alentejano. Mas todos eles estão associados a usos que, se se perderem, implicam uma descaracterização ou uma nova caracterização da paisagem.
Este é o desafio, saber olhar a paisagem, perceber o que a caracteriza, o valor que a sua configuração tem na nossa identidade e conservá-la quando for significante conservar os usos que a sustentam.
Quem conhece Santo Tirso, pode perceber muito bem esta dinâmica quando olha para o início da encosta que cresce até à Nossa Senhora da Assunção. Pode, ao longo do ano, observar as transformações da Quinta da Varziela, onde uma casa cinzenta da autoria de João Andersen, se integra pela dissonância da modernidade.

Saturday, July 29, 2006

sudoku

Quando li no domingo o meu horóscopo na Pública, para esta semana, supus que estaria em alta, pelo menos era assim que ele predizia. Como também já aqui disse, o melhor é ler só um, porque normalmente os outros são contraditórios. Estava por isso confiante para construir uma semana plena.
Trabalhei muito, perdi metade dos ficheiros do meu computador, deixei o meu cartão multibanco ser engolido pela máquina e ser remetido para Lisboa, tive dores de cabeça…e fiz muitos sudoku’s.
A questão dos ficheiros é a que mais me preocupa. O trabalho da Cultour, perdi-o todo. A base de dados que construí durante dois anos, a partir das publicações correntes dos jornais sobre obras de arquitectura portuguesa contemporânea, foi ao ar. É irrecuperável porque não a gravei noutro sítio e porque os jornais e revistas, donde retirei os dados, estão em sítios diferentes e muitos não são meus. Terei que começar de novo a partir do quase zero.
Os sudoku’s são, para mim, uma terapia. Quando chego exausta à noite, com a cabeça cheia de pensamentos, tão confusa que nem consigo concentrar-me para ler ou estudar, este exercício abstracto obriga a concentrar-me e ordena-me o pensamento. Por isso, para além de todas as vantagens que lhes atribuem (para combater senilidade, alzeimer, ou qualquer outra doença ou preguiça) são um excelente anti-stress. Números, só números, sequências ordenadas de números obtidos por raciocínios dedutivos, não me deixam margens a quaisquer devaneios filosóficos ou emocionais, que não sejam os da beleza dos símbolos ordenados ou da certeza de vencer simples desafios.
E depois, as matrizes desenhadas a duas cores, ou rabiscadas e corrigidas com o mesmo material, assumem no fim um aspecto tão gráfico ou pictórico, que me apetece encaixilhá-los.

Thursday, July 27, 2006

em jeito de balanço

Apetece-me falar de uma questão mais prosaica e que perpassa este ano de blog. Sim porque inauguramos este espaço em 5 de Agosto de 2005.

Deve haver muitas teorias sobre blogs. Às vezes ouço algumas, mas nunca me detive muito a pensar sobre elas. Ainda sem fazer teoria e sem precisar o conceito deste espaço, (relembro o primeiro post), gostava que ele tivesse sido mais um lugar de debate livre. Sem preconceitos e sem pretensões. Mais dialogante. Gosto de ler opiniões, de ser levada para lados que não vislumbro quando escrevo, sempre despretensiosamente. Para medir palavras e pensamentos, já basta o trabalho, a família alargada ( porque em casa somos uns despudorados) ou a sociedade, ou a Cultour,...

Apesar de os comentários não serem muitos, têm sido como eu gosto. Às vezes leio outros blogs, com dezenas de comentários preguiçosos, que não acrescentam nada à ideia... aqui tem havido espaço para muitas ideias.

Por isso não me incomoda o anonimato dos comentários. Acho que cada um deve ser livre de escolher ou não o anonimato. Acho que cada um deve escolher ser anônimo às vezes e outras não. Ou seja, algumas vezes o anonimato justifica-se, outras é hábito. Como também gosto que aqui uma mesma pessoa possa ser, conforme o dia, a hora ou o tema, um diferente personagem. Construí-lo ( ao personagem) , para além daquilo que pensamos que somos ( agora na linha dos comentários ao anterior post), é também um modo de nos configurarmos e encontrarmo-nos a nós próprios.

Espero a minha companheira de edição para o balanço sério do primeiro ano.

Espero os vossos comentários, dos muitos leitores (julgo), que aqui gostam de se passear...

Anónimos...ou não.

Tuesday, July 25, 2006

e agora...

Escrever sem teia.
Assim me apetece, hoje. Como jazz, que ouço. Sem teia, sem tema. Discorrendo nas ideias. É para isto que me serve este blog. Assim o entendam: sem ser diário, o que se me apraz no dia – cheio ou vazio, de trabalho – de trabalho e… daquilo que no trabalho flutua entre… dispersão, concentração. Improviso.
Sou, aquilo que os outros fazem de mim – pelo modo como me interpelam e definem ser. Sou só, solitária, porque muito em interacção (palavra da moda que faço o possível por não usar – moda – faço o possível por não ser moderna, por ser apenas).
Estar aberta, ou carente, sempre à espera de uma outra leitura, de um outro desejo, de uma outra vontade de interferir, de interpelar, de criticar.
Estar à espera, ser terra pronta para sementeira, negra e fértil, húmus repleto de vida, de outras vidas…
Que já fui, que não sei… não lembro, apenas em “déjà vue”s instantâneos ou em momentos de intensa comunicação que me fazem pensar, que antes deste “mim” que conheço outro foi.
Este espaço, depois do jantar, que fiz, e antes do trabalho, que se prolongará, …
Este espaço é bom porque se povoa, coloniza e fertiliza.
Um dia revelarei a palavra passe de entrada neste blog e muita coisa se perceberá…
... e não tenham medo, porque nada do que aqui se diz, viola intimidade, essa, puro conceito cultural, está para mim muito longe deste espaço e tem inevitávelmente e obrigatoriamente uma dimensão de pura liberdade.
... lia ontem uma crónica no Expresso em que ( não me apetece agora procurar o nome) dizia ( não sei se dizia, mas assim fiz minha a ideia), Woddy Allen era um magnífico actor, porque se representa a si próprio...

Monday, July 24, 2006

Concerto para violino

Concerto em Ré maior para violino e Orquestra de Bethoven- opus 61
Este concerto faz parte da minha relação/revelação da música. O meu pai tinha-o, suponho em vinil e eu sempre julguei que também o tinha, já em CD.
Mas não, não faz parte da minha discoteca, embora faça parte da minha vida.
Hoje, quando entrei no carro, após um dos semanais almoços familiares, encontrei-o na Antena 2.
Gozei-o no carro, em casa, no quarto, deitada sobre a cama no silêncio da tarde de domingo.
É bom ter condições para poder gozar a música. É bom poder senti-la assim. Agradeço a quem dá espaço ao meu silêncio. Agradeço a quem me ajudou a sentir a música.

Sunday, July 23, 2006

ciência subjectiva

“No entanto, em tudo o que examinei, a natureza subjectiva da pesquisa científica era evidente. Por exemplo, até há pouco tempo, as fêmeas de muitas espécies eram tidas como monógamas, preferindo acasalar-se com apenas um macho. Sabe-se agora que esta teoria está errada – as fêmeas da maioria das espécies são polígamas, optando por acasalar-se com vários machos. Na realidade, a ideia de a fêmea ser monógama era uma noção científica resultante de uma ideologia, não dos factos. A ideologia, neste caso, era a noção ultrapassada de que as fêmeas não conseguiriam e não deveriam sentir desejo e prazer sexuais, como os machos podiam e conseguiam. A conclusão é que a ciência pode ser tão subjectiva como qualquer outra disciplina, e que, para entender as teorias científicas , deve examinar-se a cultura que as cria.”

Blackledge, Catherine; “A história da V”; Asa Editores, SA; Lua de papel; pág 14
Independentemente do facto, que dá muito que conjecturar, interessa-me aqui esta perspectiva de ciencia subjectiva. Até que ponto as descobertas e os avanços são condicionados pela cultura? E será legítimo que assim seja?

Friday, July 21, 2006

Sweet Intuition, Honey


E tumba, sempre consegui fazer o cd! Lá vai ele nos phones amanhã, a caminho de Melcões, e depois no carro e depois na sala. E eu e os amigos. Uma semana de amigos e de natureza. L., vai um cd para ti, pela mãe.

Thursday, July 20, 2006

trabalho de casa

Todos ( os da casa) comemos uma maçã da macieira. São brancas, suculentas e ácidas na medida certa.

Gosto de fazer o trabalho de casa. Bendita a hora em que subi aqueles degraus: em que algumas incompatibilidades, incompreensões ou mal-entendidos, me obrigaram a deixar problemas mesquinhos para trás. E, não só mesquinhos, também aquele trabalho quotidiano e desgastante que não se vê, mas que é o suporte de uma instituição. Não desvalorizo quem hoje o faz, porque sei o que custa e que sem ele nada do que hoje faço seria possível.

Gosto de ver mexer. De trabalho colectivo por um objectivo comum. Quando o objectivo ultrapassa o nosso “buraco” e se transforma numa peça de um projecto mais amplo, mais interessante se torna.

E é mesmo assim. Trabalhar em rede, paradigma presente e ausente da nossa tradição. É de facto a saída para Santo Tirso, para a região norte e quem sabe, para o país. Acredito que sim e por isso gosto de envolver-me e envolver outros nestes projectos com futuro. Gosto de perceber que todos começamos a acreditar que o futuro também passa por nós.

Obrigada a todos.

Wednesday, July 19, 2006

Cold Wind e o próximo.


alva noto & ryuichi sakamoto | aurora
william shatner | that’s me trying
the arcade fire | cold wind
sébastien tellier | fantino
timo maas | bad days
magnolia electric co | hold on magnolia
wintersleep | people talk
rocky votolato | white daisy passing
the arcade fire | haiti
télépopmusic | smile
madalay | please
hooverphonic | renaissance affair
my latest novel | the reputation of ross francis
phoenix | long distance call
lali puna | micronomic
broadcast | come on let’s go
nouvelle vague | wishing (if I had a photograph of you)

Poucas coisas me dão mais prazer do que preparar um cd de música. Escolhê-las, com os ouvidos, encaixá-las, umas na outras, para que tudo flutue. Para que não se dê pelo mudar de canção. E fazer as capas, ainda que a preto e branco (poupança, recursos, etc.). Este é o mais recente, com estas canções. Um novo vem aí. Estou feliz comigo.

Tuesday, July 18, 2006

Macieira


Gosto de árvores. Quando vim morar para aqui os dois mil e quinhentos metros quadrados de área, que mantemos em comum, estavam semi-despidos. As necessidades de implantação de três casas e a vontade do arquitecto, pouparam três carvalhos americanos, um acer pseudo-plátano e três pinheiros. Destes, um caiu com as intempéries de 2001 e outro foi deitado abaixo por razões de segurança. Eram aparentemente feios. Três pêlos altos espetados no relvado, que para nós davam alma às casas. Ficaram os troncos, onde a Joana inscreveu o nome de Alberto Carneiro, num hapenning de fim-de-semana, destinado a um trabalho escolar. Os troncos servem ainda de baliza aos estafados jogos de futebol dos meninos (e às vezes dos adultos, feitos meninos). As minhas prendas de anos, oferecidas e pedidas ao meu irmão “lavrador”, outro dos habitantes deste paraíso, são árvores e arbustos, entre os quais se conta a dita macieira.
Tem talvez sete anos e dá maçãs bichadas e raiadas de vermelho. Têm que ser colhidas cedo para não ficarem farinhentas. A macieira cresceu e, por mais que me estenda, já não consigo apanhar metade das maçãs. Lembram-me outras macieiras da minha infância que nada têm a ver com as golden, grayam smith ou pink lady que se compram no supermercado. Eram as maçãs de São João de casa dos meus pais, também raiadas de vermelho, as bravo de esmolfe da vinha do avô e as do Costa. O Costa era uma macieira, também da vinha do Avô. Lá em cima, em Lamego, as maçãs eram chamadas de “peros”. Ao fim da tarde íamos de cesto apanhar as que caiam ao chão para cozer para o jantar. Faço o mesmo com as maçãs da minha macieira, cozo-as. Gostamos delas sem açúcar e com canela.

Sunday, July 16, 2006

Pescar luz caída

Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda

Laurie Anderson e Songs and Stories


Laurie Anderson é uma contadora de estórias. E não digo apenas uma contadora de estórias. Quem sabe contar estórias, inventar estórias, torná-las reais, é um ser superior, talvez um patamar próximo de Deus ou das nuvens do céu. Laurie Anderson é uma contadora de estórias e talvez o público devesse sabê-lo, quando compra os bilhetes para as perfomances. E digo performances e não concertos. E talvez ela devesse sabê -lo e deixar-se de cantorias.
Song and stories
, o seu último espetáculo (que tive o prazer de ver na casa da música, no passado dia 13, vinte lugares afastada da Raquel e, ainda assim, com ela) é delicado e delicioso, mas longe da simplicidade perfeita da perfomance anterior (que eu e a mãe vimos no teatro s. João), The End of the Moon. As canções são bonitas e as estórias lindíssimas. Ela, ao falar, enche o palco, como sempre. Só precisava dela. Dela e das estórias dela. E nada mais. Tudo o resto é adorno: não é necessário o cantar, a projecção de imagens e até os outros instrumentos. O violino dela, esse chegava. Em suma, queria um s.joão dois, mas, ainda assim, tive um espectáculo excelente.
De realçar é a história dos pássaros e do tocador de flauta. São poesia. Mas o público, nem o mais culto, é educado para a beleza e para a sensibilidade. E eu tenho pena e, a mim, dói-me que nem toda a gente saiba abrir a boca de surpresa e abane a cabeça por não suportar tamanha beleza. Mas nós conseguimos, não é? Eles não.

Friday, July 14, 2006

outras férias

Ainda não são as outras férias. O ritmo continua intenso, à parte alguma descompressão conquistada às férias dos outros.

Para mim as férias também são isto. Lembro muitas vezes Vasco Graça Moura numa entrevista em que dizia que neste tempo de férias instituídas, para os outros, ele gostava de ficar em casa. Os outros arrumam-se de armas e bagagens dentro dos carros e rumam a praias, a filas de gente e de carros, a falta de água, a esperas em aeroportos, a programas à medida que devem ser respeitados ao minuto, a madrugares violentos para ver algum tesouro da humanidade, a.... Nós às vezes também somos os outros.

Mas as férias de que eu gosto neste tempo de férias são as que gozo por entre o tempo de trabalho e são os dias que consigo passar em casa ( sem empregada). São os dias longos de Verão, que podem começar num livro até que deixe de apetecer ler ou o ler se desenrole num sono retemperante. São uma ida à praia no norte, com água fria e um banho que nos deixa o corpo rijo e energético. São os amigos que vêm sem hora para um tempo sem horas.

As férias dos outros gozo-as agora. As minhas férias em casa começarão daqui a um mês e meio.

Por isso dolce podes vir quando quiseres, que tu, como outros assim dolce, são sempre bem vindos.

Thursday, July 13, 2006

confissões de uma leiga

Como previsto ontem fui ao Coliseu. Dispus-me para isso e ainda que sem companhia, desperdiçando um bilhete oferecido, entrei numa sala vazia (pelas minhas contagens estariam trezentas pessoas). Mais do que do concerto, gostei da atmosfera. A orquestra, de jovens tocou na plateia. Os músicos, quando não tocavam a obra que se ouvia, vinham sentar-se ao nosso lado e aplaudiam efusivamente os seus colegas.
A Suite Tenente Kijé de Prokofief, não conhecia. Música de filme, adaptada depois a suite, assentava exactamente na juventude da orquestra. Gostei bastante, pela particularidade da forma e da alegria nostálgica, tão russa e tão nossa.
O concerto para clarinete de Mozart, que ouvi pela segunda vez na mesma semana, foi muito diferente do que ouvi dirigido e tocado por António Saiote. Gostei mais do primeiro, onde António Saiote demonstrou experiência e sensibilidade, quando ontem sobressaía exaltação e força.
A sinfonia n.º 5 de Schostakovitch, que conheço da interpretação que tenho pela Filarmónica de Viena dirigida por Mariss Jansons, desiludiu-me um pouco. Aos meus ouvidos de leiga, algumas coisas não bateram certo e a comunhão entre as cordas e os metais não foi, como esperava, plena. Também as cordas quando tocam sozinhas na atmosfera intimista que em crescendo nos permitem elevar até aos clímaxes que se sucedem ao longo de toda a obra perdiam afinação, sobretudo nas partes que antecedem a entrada dos outros instrumentos.
Mas soube-me muito bem, quanto mais não seja quando hoje escrevo ao som da interpretação que possuo.

Concerto pela Orquestra Juvenil de Sindney, 11 de Julho, Coliseu do Porto

Tuesday, July 11, 2006

coincidências

Há coincidências nos dias bons.
Ouvi pouco rádio. Mas de manhã apanhei novamente o 2º andamento do concerto em sol de Ravel e a seguir Fratres de Arvo Pärt.
Consegui um bilhete para ouvir amanhã no Coliseu a 5ª sinfonia de Schostakocich …e depois, quando regressei às 20 horas, liguei novamente a antena 2 e lá estava Keith Jarret. Não conheço o concerto. Tenho que esperar pelo fim para saber o que é. Mas que é ele, não há dúvida, ouço-o gemer.

Sunday, July 09, 2006

projector de slides

O meu projector de slides demora algum tempo a focar. Anda à procura da distância exacta, para trás e para a frente e depois, na maioria das vezes foca. Às vezes não. Quando isso acontece temos que rodar manualmente a lente até conseguir que a imagem fique nítida.
Este esforço de focar em função do objecto é um trabalho de todos os dias. Também nas relações humanas. É necessário encontrar exactamente o ponto de focagem da relação que mantemos com outra pessoa e adaptarmos a nossa lente à especificidade da imagem. Às vezes essa focagem não é automática porque a relação não é intuitiva. Essa focagem manual obriga a uma descodificação e a um esforço minucioso porque implica perceber sistemas, histórias, culturas, posturas, defesas, até encontrar o ambiente certo para a comunicação.
Por vezes a tendência é descartar, dizer não me interessa, não me diz nada. A experiência diz-me que não é assim. Para ultrapassar a barreira do relacionamento socialmente correcto e conseguir, mesmo com aqueles que às vezes julgamos que nada têm para nos dizer, ouvir e interpelar, temos que deixar de fora muitas coisas, na imagem de fundo desfocada, para apenas nos concentramos no dito foco que nos põe no universo comum. E existe sempre um universo comum.
Ouvia ou lia uma frase não sei onde que me interpelou: “ Se a Europa não entende o Islão então o Islão conquista a Europa.”

Saturday, July 08, 2006

Quatro dias de férias

Quatro dias de férias significam:
- domínio do tempo
- descartar obrigações quotidianas
- trabalho, por gosto, sempre
- música, muita
- cinema
- filha, a minha filha
- saudades, do meu filho
- conversas, como a que ecoa
- exercício físico, castigar o corpo
-…muito mais…
Prometo escrever sobre:
1- O meu projector de slides
2- Outras férias
3- Macieira
4- Fumar mata
5- Felicidade
6- Imponderáveis
7- Conversas
8- Outras palavras
9- Convite


Não sei se a ordem será esta, mas tudo isto construiu a minha manhã…
Aquela que quero partilhar com os amigos.

filosofias

Parece-me que…
Acho que …
Julgo que…
É sempre assim connosco, e nunca: É.
Porque explicamos tudo com base na intuição e na subjectividade e nunca procuramos a verdadeira razão para o que acontece. Ficamo-nos pela preguiça do “eu acho que…”
No trabalho pergunto muitas vezes: porquê? Quero dados, quero factos, mas depois é difícil encontrá-los. Não temos o trabalho organizado para os obter e por isso não podemos contabilizar, medir, para inverter processos, para corrigir.
Ouvia hoje, numa entrevista a Desidério Murcho, que a razão deste comportamento português se deve também a não termos um comportamento filosófico, entendido não como saber da história da filosofia, nas construir ideias, inovar, perguntar, criticar.
Ouvia também dizer que os países mais avançados na ciência e na filosofia não têm esta disciplina, a filosofia, integrada nos curriculum escolares. Dá que pensar. Dá para entender que esta é uma questão cultural, que nos atravessa e marca.
Dá para perceber que esta atitude não está em mudança.

Wednesday, July 05, 2006

traduções

"No original “balls”que significa também “balas”, mas no contexto aponta para a acepção “plebeia” do termo, perdendo-se portanto na tradução – obrigada a optar – a indefinição do original. Durrel pretende algures que o autor tem o direito de escrever até aquilo que ele próprio não sabe o que quer dizer – o que não é agora o caso –, mas abusa desse direito criando extremas dificuldades ao tradutor que, nessas circunstâncias, se encontra impossibilitado de concretizar o dever de fidelidade ao pensamento – confuso, impreciso, inexistente… – do autor. São inúmeros os passos onde isso ocorre ao longo desta obra”.
Nota do tradutor em Monsieur ou o Princípe das Trevas de Lawrence Durrell
... porque independentemente da justeza da tradução, este livro, na segunda leitura que dele faço, me desiludiu no que se refere a gralhas tipográficas, ...
... porque, sempre me fazem imensa confusão as traduções. Como se pode traduzir na fidelidade à forma e ao conteúdo? Se ao conteúdo, uma boa tradução é obrigatoriamente fiel, à forma, julgo que será muito mais difícil. Como se traduz poesia? Quando ela é plena de recursos estilísticos e de duplos sentidos?
Esta é no entanto a contingência e a condição de quem gosta de ler e não consegue ler originais, de quem não domina línguas, de quem não domina todas as línguas... e mesmo que as conheça, não poderá perceber totalmente o conteúdo do que lê. Tantas são as matizes que derivam do contexto.

Tuesday, July 04, 2006

descontraidamente

Cá estou novamente.
Visito o blog, apenas o meu ou quase, porque não tenho tido tempo para outros vÔOs.
Gostei deste erro gráfico. Vou regressar ao ninho familiar para ver um documentário sobre a homosexualidade no reino animal.

Saturday, July 01, 2006

Escala


A escala é um conceito concreto que é de difícil domínio mas muito influente no modo como se vivenciam os espaços.
São muitas as vezes que olho para um desenho de um arquitecto, um desenho técnico ou uma ilustração, daquelas que agora estão na moda, e concluo que está fora de escala.
Uma casa é uma casa, tem portas janelas, cobertura, inclinada ou plana, envasamento ou não, mas tem que ter a escala de uma casa, para um agregado familiar de quatro ou cinco pessoas. Mesmo que tenha uma pessoa desenhada “à escala”, para dar a escala, muitas vezes não tem escala. Olho para o desenho e digo “ é um museu”, “ é um pavilhão desportivo”, “é uma casa das máquinas”,…
Quando pensamos em cidade o problema agudiza-se. Porque fomos formados para pensar objectos, para nos pensarmos no interior de objectos e o espaço aberto é ainda mais difícil de antever. Quem diz que uma árvore adulta, um carvalho por exemplo, pode ter vinte e cinco metros de altura? E vinte de largura? E qual é a dimensão do Terreiro do Paço? E qual altura dos edifícios que o ladeiam? E porque é que nos sentimos pessoas em Manhatham? Provavelmente mais humanos e mais confortáveis do que em Famalicão?
Saber ver… e depois perceber qual é a relação, qual é a interacção. Sentir e desmontar o sentir pelo estudo, encontrar a justificação geométrica, perceber a relação.
Em todos os tempos, desde a antiguidade clássica (ou talvez antes), passando pela idade média, pelo apelo clássico do renascimento, pelo novamente clássico do racionalismo ou mesmo do pós modernismo, quem leva a disciplina a sério precisa de estudar, precisa de regra, de módulo, de modulor…
Não é possível fazer arquitectura e pensar urbanismo sem perceber o homem e a sua escala, sem estudar muito, história e cultura.

Friday, June 30, 2006

Sempre o mesmo

Planeio, antevejo, gozo, romanceio, ...
Depois a realidade surpreende-me com o imprevisto, o inaudito, a sensaboria, a incomunicabilidade.
Outras vezes, a realidade surpreende-me com o imprevisto, o indizível, o milagre.
A idade traz-me apenas a capacidade de superar a desilusão pela percepção de que o sonho é também um matiz do real.

Wednesday, June 28, 2006

às vezes

Por mais voltas que o mundo dê os temas/problemas vão sempre bater no mesmo ponto: ciúmes, disputas de afectos, …
Somos postos no mundo, sem nos perguntarem nada, mas estou em crer, que na maioria dos casos, somos postos aqui porque nos querem, para o nosso bem-estar e para sermos felizes ( ou então por puro instinto de continuação da espécie – mas esse é outro tema). A felicidade de uns não tem que implicar a infelicidade de outros. Por isso muitas vezes me vem à cabeça a máxima, que aprendi nos meus tempos de comunista e que ainda hoje sinto como minha “ De cada um segundo as suas possibilidades a cada um segundo as suas necessidades”. Se assim fosse seríamos muito mais tolerantes, porque não exigiríamos de todos igual, respeitaríamos a diferença. Se assim fosse, entendíamos que uns precisam de algumas coisas mais do que outros e que isso não põe em causa o nosso lugar. Ele é único e à nossa medida.
Na prática estes podem também ser os conceitos de equidade e de coesão de que tanto se fala hoje.
Mas o ciúme, a inveja e a disputa estão sempre à espreita, não para viver melhor com o vizinho, mas para lhe “passar a perna”. Aqui não falo só do plano do “ter” material, porque aí, pelo menos racionalmente, quase toda a gente chega (basta ouvir o chavão acerca do ter e do ser), mas falo do “ter” possuir, pessoas e afectos: disputam-se pais, disputam-se irmãos, disputam-se parceiros, disputam-se amigos, disputam-se colegas de trabalho. Disputam-se até ninhos, consolos e confortos, tão potencialmente neutros como são os parentais.
A capacidade de amar dos pais é infinita e reproduz-se à medida do necessário. Penso nisso muitas vezes relativamente aos filhos: por ter dois filhos não divido a minha cota de amor por dois, duplico-a, fico com o dobro da cota, amando na diferença, na intercepção e na disjunção.
Só que às vezes não é bem assim…

outro tempo

As razões da minha ausência prendem-se com imensos afazeres e com dificuldades de entrar na net. Finalmente hoje consegui, agora. Não tenho nada preparado para escrever e as reflexões que me têm ocupado estão ainda demasiado embrulhadas para dar alguma coisa, ou então, são mais do mesmo. Ou então ainda, são muito profissionais, a nova lei das finanças locais, as novas arquitecturas das NUT’s, dificuldades de organização ou como gerir recursos humanos segundo as novas perspectivas autentozóicas. Que “chatice”, para este blog!
Mas são as pequenas vitórias e a maior liberdades de horários, conquistada sobre as férias do(s) filho(s), que me permitem esta disponibilidade mental, para me sentir senhora do tempo, conciliando bem o dever com o prazer. Ainda que às vezes o dever ( o que está por fazer) ensombre o prazer de não fazer.

Thursday, June 22, 2006

O Príncipe das Trevas

” (...) Gabrieli estava em paz porque era o senhor do seu método. Este é o segredo de toda a felicidade. Porque não conseguia ele sentir o mesmo a respeito de escrever livros? Oakshot detestava os livros em que tudo era cuidadosamente descrito e as conversas estupidamente registadas. Mas de facto era isso que Sutcliffe fazia.
De volta aos canais descobriu subitamente que já não lhe interessava saber se Deus existia ou não – o poente era tão fantástico que lhe tinha apagado quase inteiramente a consciência. A partir daquele espectáculo uma pessoa podia deduzir tudo – a respeito de Deus, queria ele dizer. Tão incrível e meticulosamente planeado e executado. Imagine-se os Venezianos sujeitos a um anoitecer destes todos os dias das suas vidas… Era demasiado. Só um benemérito daltonismo os podia salvar de ficarem loucos ou pelo menos estáticos. (...)”
Monsieur ou o Príncepe das Trevas; Lawrence Durell; Difel; Pág146

talvez

...talvez porque hoje se cumpre mais um solestício de verão...

pergunto

“ Pergunto, para mim, se a escrita tem passado?”
Hoje à hora de almoço, almoço colectivo e diferente do habitual no género e no lugar, lembrei-me desta frase. Relaciono-a com uma crónica de Miguel Esteves Cardoso, que li há tempos, em que ele referia como um mal dos portugueses é acharem que, perante a comunicação de uma ideia ou de uma experiência de outros, o que eles dizem ou vivem é exactamente aquilo que nós poderíamos ter dito ou vivenciado. Chocou-me. Porque sinto realmente e às vezes, não muitas, que a escrita não tem passado. Aquilo que leio é meu, na presente hora, minuto ou segundo em que o faço… e dou graças por alguém ser capaz de encontrar as palavras que me preenchem. Não poderia ter sido escrito por mim, porque infelizmente não consigo encontrar o modo pleno da expressão que traduza os sentimentos. Talvez que, para aquela pessoa que escreveu, a sua escrita não tenha o significado profundo e pleno que tem para mim. Mas é assim, a palavra deixa de ser nossa quando comunicada, os sentimentos vivem-se na comunicação.

Wednesday, June 21, 2006

colapso

Gosto de sentir a alta tensão da vida, na mistura que ela tem de real e imaginação. Gosto da alta voltagem. Mas ela exige um contraponto, que se constrói no aceitar a magnitude da vida universal, com o que ela tem para nos oferecer: às vezes o que se gosta muito e outras, o que se gosta menos.
Induzir, não é o mesmo que manipular. Induzir é condicionar ou acelerar aquilo que já estava destinado ou já existia latente.
Construir ou juntar pedaços, recombinando-os em novos estados. Assim construir é criar.
Já todos sabemos que para sentir o mais é preciso viver o menos…e que às vezes não é tão bom viver no menos. Talvez porque fomos culturalmente habituados a querer sempre o mais.
Hoje foi assim até receber um telefonema que me lembrou uma falha de energia que gerou um colapso de informação. Uma nódoa no dia profissional.
Apaguei o café, peguei num cigarro e decidi-me a trabalhar…um pouco mais.

O referido telefonema aconteceu a meio desta escrita, dum concerto por Artur Pizarro que ouço ao longe e da paz infinita que corre lá fora no pátio e no jardim.
Se alguém quizer que continue...

Tuesday, June 20, 2006

grupos

Qualquer que seja o motivo que leva as pessoas a organizarem-se em seitas, sociedades secretas, grupos fechados ou até mesmo experiências piloto ou pioneiras, há um grande risco desses mesmos grupos se autodestruírem. Geram dentro de si os germens da sua destruição. Esses grupos, porque fechados, vivem do oxigénio que são capazes de produzir e que, depois de sucessivamente respirado, sem renovação, se esgota. Nestes grupos as relações interpessoais são directas e densas e estão por isso sujeitas a riscos como os da sede de poder, da ânsia de protagonismo, de invejas, de domínio e de posse…. Todos aqueles sentimentos destruidores e permanentes na espécie humana. Reflicto sobre isto a partir do caso da Escola da Ponte, mas não posso deixar de lembrar-me da Serra do Pilar, comunidade cristã que tanto me disse e que passou recentemente por um duro processo de clivagem, que acompanhei de fora. Nas primeiras comunidades cristãs, tantas vezes aí reflectidas e discutidas, passou-se pelos mesmos processos e cometeram-se os mesmos erros. Porque somos incapazes de aprender com a história? …ou este é mesmo um mal congénito que não conseguiremos expurgar?
(isto é mesmo para ser assim. Hoje pouco rigoroso, apenas um apontamento que me dará ainda que pensar...)

Saturday, June 17, 2006

O Código Da Vinci

Fui ver com o Pedro o Código Da Vinci. Exitei em escrever.Nem ele nem eu gostamos. Passamos quase três horas numa sala a ver um filme que não nos disse nada: nem pela construção do discurso, nem pelo encademento das cenas ou por elas próprias, nem pelo argumento, nem pelo desempenho de actores.
Gosto de policiais. Neste, tudo é tão previsível e explicável que não suspende, nem prende o espectador. As explicações simbólicas, secretas, cabalísticas ou gnósticas, são tão superficiais que nos fazem esboçar sorrisos de inverosimilhança. É tudo muito leve e descosido para constituir a verdadeira razão. A única frase que retiro do filme é dita por Tom Hanks “ Ou se acredita ou não se acredita!”, por isso não serão desmentidos históricos ou de segredos bem guardados, que modificarão a face da história, nem destruirão uma crença ou uma religião. Ela alimenta-se dela própria e destas especulações paralelas que a confirmam. O fundamento é o mesmo, depende apenas daquilo em que se acredita.
Alguns factos que poderiam ser interessantes na caracterização psicológica das personagens, que não existe de todo, são dados ao desbarato e apenas preenchem tempo do filme: a origem do sentimento claustrofóbico de Tom Hanks ou o poder magnético das mãos de Audrey Tautou.
Não li o livro, mas depois do filme que vi, não irei lê-lo. Mas vê-lo teve pelo menos o mérito de me atirar sofregamente para o Quinteto de Avignon, de Lawrence Durrel que fundamentou a construção da minha personalidade em momento de viragem.
P.S( sem ser Princesa Sophie) - o Pedro diz que ficou com vontade de ler a descodificação do código

Thursday, June 15, 2006

Sobre arquitectura


O caminho que segue arquitectura em Portugal é preocupante. Não se consegue fazer boa arquitectura em Portugal.
O paradoxo existe quando, por outro lado, a arquitectura é uma disciplina cada vez mais mediatizada e influente. Ainda ontem ouvia no Ritornello um grande elogio a Siza.
Mas esta influência em vez de se centrar na qualidade e reconhecimento da boa obra arquitectónica desvia-se para a valorização da obra pela venda do nome do arquitecto.
Por isso convida-se Siza, Souto Moura, Llinás ou Chiperfield para conquistar mercados, já não só o português, mas o espanhol ou inglês. É ver todos os dias nos jornais as promoções de resortes, aldeamentos, empreendimentos imobiliários que no cartaz trazem em letra fosforescente nomes que duplicam e triplicam o valor real do objecto. Então, pode fazer arquitectura quem tem um nome fosforecente que garante mais valia económica e assim consegue impor um método, que implica trabalho, tempo e recursos para a execução, ou faz “arquitectura” quem se vende enveredando por caminhos que reduzem trabalho, tempo e recursos e conduzem a obras em que a imagem panfletária se enquadra nas receitas da sociedade de consumo. Estes segundos, praticam preços baixos, muito abaixo da tabela de honorários, minam o mercado com a concorrência desleal, envolvem-se em negócios imobiliários, fazem acordos com os construtores, destroem a profissão. Só que estes começam a ser a maioria e condicionam o mercado desvirtuando a arquitectura.
Quem faz bem, profissionalmente e gasta tempo e recursos a fazer um projecto de execução, mas não tem um nome que cubra o pagamento dos devidos e justos honorários, fica com o projecto guardado na gaveta, porque é caro, ou entra numa batalha desgastante que acaba muitas vezes nas secretarias dos tribunais.
A minha história construiu-se na celebração da arquitectura/construção. Na discussão do programa, na integração da obra no sítio, no respeito e diálogo com o cliente, no cuidado com o conforto, na batalha pela redução de custos… e assim continua na ligação que tenho à profissão em regime liberal e na Cultour. Entendo que o mundo mudou, mas tenho muito medo da revisão do 73/73. Não temos uma Ordem que nos defenda, tanto no controlo do ensino que se pratica como na defesa do exercício da prática profissional. Quem está também do outro lado, da instituição pública, teme necessariamente.
Não desistirei. Grandes arquitectos servem-me de referência. Eles continuam íntegros, exigem rigor, pagamento justo para um trabalho sério e empenhado e constroem para as pessoas viverem melhor. Eles foram Gigante, Melo, Távora e são ainda, Siza, Soutinho, Pedro Ramalho, Souto Moura, ….etc, etc, etc, e são ainda muitos os etc´s. São também mais novos, da minha geração e defendê-los-ei, custe o que custar.

Wednesday, June 14, 2006

digamos

Digamos, portanto, por um lado, enfim, tentamos, pois, portanto, digamos, enfim…..
Ouvia há pouco num debate este ruído, que embora ajude quem fala, dispersa quem ouve. Dei comigo a escrever palavras e a pôr tracinhos á frente para contabilizar as vezes que o Sr. Engenheiro as dizia. Não é a primeira vez que o ouço e lembro-me de ter feito o mesmo das outras vezes.
Não sabemos falar, perdemos a capacidade da retórica e do discurso comunicativo. No entanto ele é extremamente importante e boas ideias podem perder-se por incapacidade de comunicação que passa não só pela correcção do discurso, mas pela convicção e postura adoptada quando se diz – pela forma como se comunica.
Eu, mulher, sinto ainda mais esta deficiência e esta lacuna na minha formação. Para passar a barreira do pequeno grupo vejo-me aflita. Mas não quero ultrapassá-la à custa do enfim, portanto, porventura, às vezes, pois, assim, digamos…
Digamos que estou a ficar preparada para passar quatro dias de férias, mentais…

Tuesday, June 13, 2006

A Casa e a Música

A Casa e a Música

Regressei à Casa da Música. À sala 1, domingo à noite, 23 horas. Uma outra experiência, interior e para o interior. A Casa não se comportou à altura. Muito grande, luminosa, barulhenta para o tom intimista e necessariamente concentrado, que o concerto exigia. Nós estávamos a isso dispostos. Chegamos com tempo, gozamos a intimidade dos sofás e de conversas várias antes de nos dispormos a subir e a ouvir. A sala estava completa e por isso fui pela primeira vez para o camarote um. As cadeiras – uma luta constante para segurar o assento debaixo do meu corpo. A guarda de acrílico dividia o meu campo de visão em três partes que prejudicava a unidimensionalidade do palco, músicos e ecrã.

Alva Noto + Ryuichy Sakamoto
Não defraudaram as nossas expectativas. Gostei bastante…e fui levada algumas vezes para aquele espaço fora, onde música deixa de ter significado para além dela própria, até que o pensamento é apenas e só som, limite, nota, espaço e aqui também imagem. Fechei os olhos por vezes, porque não percebi a essencialidade do objecto comum, imagem e som, ou porque a imagem me fazia perder o som. Principalmente a última “música” do programa, ainda que prejudicada pela acústica no lugar que ocupávamos, foi sublime pela densidade e incómodo, levados ao limite do prazer…

Não crítico quem não gosta, entendo. Nem acho que gostar deste concerto seja sinónimo de vanguarda ou de qualquer entendimento transcendente e profundo… é apenas uma disponibilidade urbana e nostálgica como tantas outras.
Voltaria hoje, voltarei sempre.

Porque, à parte, Ryuichy Sakamoto sempre me fascinou. Fiquei presa à sua imagem e dela não me quero libertar.

arrisco

Há muito tempo que procuro um conceito de fidelidade que ultrapasse o medo da perda, a antecâmara do ciúme, a celebração da estabilidade conservadora. À fidelidade, contrapõe-se infidelidade, instabilidade emocional, incapacidade de aprofundar relações, efemeridade.
Na minha modesta opinião, porque não tenho quaisquer certezas, sei apenas que estes contra argumentos não me satisfazem. Nem reduzo a fidelidade à prática sexual com outro, que não o nosso companheiro(a) escolhido para a vida, nem posso admitir que a sua prática, da fidelidade, apenas entendida deste modo redutor, me satisfaça. O conceito de fidelidade, que encontro explicito no que vou lendo, assemelha-se ao do celibato defendido pela igreja católica. O padre para se dedicar aos outros e a Deus não pode viver a sua sexualidade prática e explicitamente. A qualidade de uma relação a dois “implica um trabalho a tempo inteiro, de exigência de atenção de perseverança”, lia hoje na revista do Público. Este “a tempo inteiro” é aqui aplicado literalmente, tanto quanto em todo o resto do artigo, o comportamento oposto, infiel, é reduzido a “…“comunicação leve”, de telecomando na mão, metidos connosco, em permanente zapping”.
No meio das minhas interrogações e incertezas, julgo que a questão essencial não está no que faço materialmente com os outros, mas no modo como me vejo a mim própria, como sou capaz de me aceitar, sem necessitar de ser confirmada pelo amor exclusivo do outro. Só esta aceitação de não exclusividade e relatividade permitem disponibilidade inteira, que os artigos que leio pretendem remeter, como estado a que se acede apenas através da fidelidade conjugal em sentido estrito. Acho exactamente o contrário – a fidelidade não é uma garantia, é uma atitude. A paz não se conquista pela certeza da exclusividade, conquista-se pela luta constante contra os valores negativos que me prendem a mim mesma e me tornam o centro do mundo. Sei que esta é a grande aventura de não negar sentimentos por medo e também o combate diário para os entender, convertendo-os noutros, quando são de natureza egocêntrica e configuram motivações negativas. Esta procura, este constante pôr em questão, descobrindo egoísmos encobertos, por vezes por atitudes lidas pelos outros como altruístas, é para mim uma postura incompatível com a segurança de uma relação cegamente exclusiva. Essas, para além de raramente serem plenas, vivem da pseudo segurança que ilude e confunde plenitude com ausência de vida. Para mim o caminho, ainda que na maioria das vezes pura utopia, passa pela capacidade de dar sem exigir retorno, de amar porque se gosta mais do que se precisa de amor. Os nossos casamentos, selados por uma garantia em papel para a vida inteira, são por ventura a nossa segurança precária, de fachada, que a qualquer momento pode ruir, às vezes tarde de mais, porque se passou uma (meia)vida a acreditar numa farsa bem representada.
A este post não são alheias algumas histórias recentes, que me rondam a porta, de mulheres de meia-idade que descobrem que andaram apostar numa fidelidade unívoca.
Se choco, que dê ao menos, para pensar...

Saturday, June 10, 2006

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Minha querida ------.
Entras no universo mediático pela minha mão.
Ainda que os outros não possam reconhecer-te, nem nomear-te.
Tenho muitas saudades tuas, fazes muita falta ao meu lado.
Porque me lês e entendes o que para outros não tem significado.
Porque não me pedes que te conte e ofereces apenas a tua presença e o teu sorriso.
Ensinas-me muito mais do que pressentes – aquela sabedoria que não se aprende nos livros.
Não penses que por não te falar não te pressinto. Estás presente, sempre - referência, pensamento, espírito e matéria.
Aguardo-te.
Vem quando quiseres.

este era o post de ontem que, ainda por razões alheias, não consegui publicar...

Meditação

"O poste
A respiração: Inspira, expira, sem mudar o que quer que seja, tu és esta respiração que vem e vai, que sobe, desce, sem pausas, que vem e que vai…

A corda
A atenção: Observas, sem impaciência, sem cólera, sem julgamento, segues com um olhar interior, indulgente e neutro, esta respiração, que vem e que vai. Se tens vontade de te agitar, de espezinhar, de gritar, de “urrar”, contemplas os teus pensamentos, as tuas emoções que te abalam, te arrastam, e não te implicas, deixas vir, deixas ir. E todas as cóleras, todas as impaciências se dissipam como fumo. E observas de novo a respiração que vem, e que vai…"

retirado dos melhores contos Zen publicado pela Teorema

este era o post de quinta-feira que por razões técnicas só hoje vê a luz...

Wednesday, June 07, 2006

amanhã

Amanhã escreverei qualquer coisa, nem que seja através das palavras de outros, porque ainda me faz falta este espaço.

Sunday, June 04, 2006

a propósito de referências

Ontem, quando ouvia Eduardo Souto Moura, recordei-me de outra reflexão feita noutro sítio e a outro propósito. Na Torre do Burgo, Eduardo falou das suas referências com o à vontade que o caracteriza: falou de Mies, em Nova York e em Chicago, falou de Calder e do convite feito a Ângelo de Sousa.
Em Santa Maria do Bouro, ESM, apropria-se das ruínas para com elas construir uma nova entidade. A ruína é um material de construção que ele manipula para construir o seu objecto, a sua obra. A ruína não é uma preexistência que se integra, com a sua identidade para conviver com outra identidade – a ruína faz parte do novo, é assimilada e torna-se contemporânea. A ruína é tão matéria, como o tronco de uma árvore, que dá corpo a uma peça de mobiliário.
No Burgo as referências são também assimiladas e deixam, por isso, de ser referências para constituírem partes da própria obra. Por isso ESM, fala delas com à-vontade – elas são matéria construtiva– são assimiladas e ao serem-no tornam-se noutra identidade ( processo semelhante ao desenvolvido por todos os seres vivos no na assimilação). Mies, em Nova York e em Chicago, deixa de ser, por isso, referência para se tornar matéria da obra- a Torre do Burgo.
Não deixa também de ser interessante a alusão a Nimeyer. Nimeyer não foi incorporado como Mies. Este sim funcionou como referência, como comparação, para validar o conceito da obra de Eduardo. Nimeyer não é interior ao processo conceptual, serve para testar uma ideia, para a confirmar e para usar, aqui sim, como referência.

Friday, June 02, 2006

outras forças

Tenho por hábito ler os horóscopos de fim-de-semana. Os do Público. Se ler outros, fico desiludida, porque na maioria das vezes, são contraditórios. Funcionam bem, mais ou menos como aqueles compridos de farinha e excipiente que a gente toma e que nos fazem bem, só de pensar que se tomou. Ou o soro fisiológico, que sendo apenas água, nos faz bem aos olhos, ao nariz, às alergias,…
No domingo quando li o horóscopo do Público fiquei contente. Sabia que tinha uma semana difícil pela frente, mas correria pelo melhor.
A semana passou. Igual à última. Teve de tudo e excesso de trabalho e de festas. Hoje estou muito, muito cansada.
Acerca de outro problema, bem mais grave, diziam-me há pouco “Que mal faz acreditar noutras forças para além das explicáveis científica e racionalmente?” Nenhum, digo, se isso nos conforta e nos faz viver melhor esta vida que se nos oferece.
Do fim-de-semana que hoje começa, espero retempero e força, muita, para o reequilíbrio necessário a este período em que o calor, o trabalho, a família e mesmo as relações sociais se esticam até ao limite… e no qual todos começamos a ansiar pelas férias.

Wednesday, May 31, 2006

Quase aacabar


Quando o trabalho continua por fazer e a neura é gigante, pegamos nos restos de estudos e montamos tudo sobre uma folha ou sobre um monitor e saem coisas assim. Esquisitas. Estranhas. Más. Estou podre. Estou a morrer.

Sunday, May 28, 2006

calor

Ouvir o calor lá fora. Um calor sem voz que, no entanto, ecoa pela casa. Dormem todos. Eu deixo-os dormir para os poder gozar de outro modo, também no seu eco, que me trespassa. Faço discursos e calo-me. Vivo outros tempos, meus, deles, deles e meus e só meus. Mexo nos livros que comprei, registo-os, leio partes, não me apetece parar. Passo suavemente pela manhã, como se tivesse o dom de não lhe tocar. Conquisto a liberdade pela capacidade de não existir. Sou apenas uma brisa, uma memória, uma corrente eléctrica ou electromagnética que se desmaterializa no tempo e no espaço. Como o calor, lá fora.

Ainda muito cedo fui dar um beijo à minha mãe e levar-lhes o jornal de domingo.

Wednesday, May 24, 2006

exactamente assim

Foi exactamente assim, como tinha previsto. Ginásio, um banho em casa, um café, os campos castanhos bordados a verde, música, por sorte Bach e Kurt Weil, … trabalho. Cheguei depois do Presidente e disse quando me encontrei com ele: “ Estou a chegar”. Ele respondeu: “ Eu também”. Tudo recomeçou com outra disposição.
Alguns imprevistos coloriram o meu dia. Quando cheguei a casa, contive outro ataque de neura. O Pedro estava à porta, mal disposto, com o Nódoa ao colo, os livros espalhados na soleira da porta e disse: “ Correu-me tudo mal. Perdi a chave de casa (tinha-lhe dado uma nova, exactamente hoje), não fui ao ténis, não consegui estudar e tenho um trabalho (de grupo) para fazer contigo!” Mais seria impossível. Recompusemos o tempo à nossa medida, como só eu e ele sabemos fazer. Agora ele vê o último episódio do 24 e eu escrevo mais uma página do meu novo diário.
Para amanhã não preciso de projectos e programas especiais.

Tuesday, May 23, 2006

para descansar

Para descansar…
Trabalhei mais de dez horas hoje, mais de dez horas ontem, em concentração, em acção…. Cheguei, inventei o jantar, procurei material para o Pedro e comi rodelas de tomate vermelho com azeite e sal.
O pior é que gosto de trabalhar. Faz parte do sentido da minha vida identificá-la com trabalho. O trabalho é uma finalidade. Assusto-me e pergunto: “Foi para isto que os meus pais me puseram no mundo?”. É assim que educo os meus filhos? É assim que me dou bem com o meu homem: com o trabalho por fundo, sempre retornando aos temas que nos ocupam o dia…de trabalho?” É assim. Arquitectura, urbanismo, planeamento, política, economia, imagem, cultura, recursos humanos.... Tanto, que faço do trabalho um hobby.
Mas apetece-me gritar: “ Procurem-me, levem-me para outros sítios, seduzam-me…com a vida – a distracção, as ideias, o gozo do inconsequente, do incongruente, do paradoxo, do dual. Porque do outro lado está o lúdico, a conquista de um tempo nosso, de descontracção, de puro gozo, ou de ideia pura, ou simplesmente de corpo e sensação.
Amanhã vou ao ginásio e não ponho os pés no trabalho antes das dez. Vou suar, correr, tomar um banho, besuntar-me em creme doce, pintar-me … ouvir música…conduzir suavemente, para poder observar os campos castanhos bordados com as verdes linhas paralelas do milho que desponta… e entrar de cabeça levantada no meu “buraco”.
O outro lado, o trabalho, mistura-se com este todos os dias…só que às vezes demais, como hoje e ontem.

Azulejo. Portugal.



Andámos a correr para as oficinas de cerâmica, do Centro de Congressos de Aveiro, durante umas semanas e, este fim de semana, fizemo-lo com mais afinco. O resultado foram 20 azulejos produzidos, manualmente, por mim. Uns melhores, outros piores, uns mais artísticos, outros mais trabalho. Aqui fica o final, que foi hoje entregue ao professor, com algum sono e muito stress, o azulejo e a sua embalagem. Os outros, fotografo-os, um dia.

Monday, May 22, 2006

neura

Completamente neura. Quando, para uma pessoa essencialmente prática e com a fobia da concretização, tudo se conjuga para complicar, não há outra saída que não seja a neura. Assim é, fechaduras que não funcionam, puxadores que caem, árvores que crescem desmedidamente, lâmpadas que fundem, cortinas que não funcionam, bicharada que cheira mal, que suja, está doente ou velha, a quem tem que se cortar as unhas e ainda por cima chuva. Tive que ir comprar areia ao Jumbo, para o gato mínimo, batizado de Nódoa, adoptado desde ontem e que não sabe fazer as suas necessidades ao ar livre. Chovia torrencialmente, não havia lugares e montanhas de pessoas acotovelavam-se num interior repleto. Isso já passou. Agora tenho que encontrar uma caixa para mandar, amanhã, dia sempre complicado, para Aveiro, por correio azul, casulos de bicho da seda.
Dou por mim a e gritar por dentro: “Deixem-me em paz.. Quando estiver sozinha, nem mais um bicho entra em minha casa.”
Apetece-me ir correr para o ginásio. Tomar um banho e sentar-me a folhear e arrumar, livros, jornais e CD’s. Fazer uma chávena de chá e sorver a luz do fim de tarde na calma de Outono…mas ainda estamos em Maio.

Friday, May 19, 2006

consciências

Hoje foi um dia difícil. Alguns dos meus amigos que por aqui passeiam, sabem. Sabem como é difícil mediante uma situação concreta saber como proceder. Resolver problemas, ter presença de espírito e perceber que às vezes muitos deles são materialmente irresolúveis. No entanto a comunicação, a organização colectiva e o reconhecimento do problema colectivamente é já em si uma solução. Funciona como segurança, como conforto, acalma-nos.
Para dizer como me fazem falta os amigos. Como às vezes estou completamente sozinha e tenho medo de importunar. Com que direito vou massacrar os outros com as minhas coisas? Ainda por cima eu que detesto ser “chata”, que por educação ou por auto construção me fiz, pelo menos exteriormente, discreta. Porque a discrição interior, a que chamo de humildade, é virtude perseguida e muitas vezes incompatível com esta discrição exterior que cultivo. A exterior é mais fácil e oculta muitas vezes grandes doses de egoismo. A interior é cultura, no sentido de auto educação, de capacidade de leitura dos nossos sentimentos e dos mecanismos que os geram, para os pudermos transformar. Esta é uma luta diária de descentramento, de me retirar do centro do mundo, de abdicação consciente, de consciência do universo. Todas as vezes que isso acontece sou feliz e confiante, ponho-me nas mãos de Deus e deixo que Ele guie os meus passos. Atenção, porque este Deus não sei quem é, sei apenas que É.

Ausência


Queria pedir-vos desculpa por esta ausência excessivamente prolongada. Trabalho e namoros e a vida feita num oito, depois, durante alguns meses. Novas descobertas e experiências, novos afazeres e mais trabalhos. Não há tempo para um livro, um disco novo, um filme, um poema, lido ou escrito. E se o há, não há tempo para os pensar. Não há, não, não há! Não é, de todo, minha intenção deixar este blog –não, Maria, não!- mas terão de esperar pelo renascer da minha vida pessoal, um pouco mais. Paciência.

(estudo de um logo, que nunca será logotipo.)

Thursday, May 18, 2006

liberdade

Tinha planeado um dia livre. De férias, sem horas. Um dia meu. Dentro das condicionantes, que foram muitas, tive-o. No que gosto. Vi amigos…dei. Conversei. Trabalhei para a Cultour. Libertei-me de um tropeço. Que me limitava. É bom. Muito bom. Jantei tarde…com o Pedro que me confirmou, com a sua alegria e fidelidade. Disse “ Eu acredito em ti. Tu contas-me os teus problemas.” Ele respondeu “Não conto tudo” Eu respondi “ Nem eu quero. Eu também não conto.” Pois tu, tens a ------- -------.” “ Tenho, mas é minha. Pura brincadeira”. É assim.
Dia 17 de Maio, não foi o dia de férias que ambicionava. Mas foi muito bom, dentro do conceito de liberdade que apreendi com Sartre.
Dia 18 de Maio “ Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida”. Os suspiros, provavelmente já não existem.

Tuesday, May 16, 2006

suspiros

Fiz suspiros. O Pedro tem uma festa amanhã e eu tinha claras de sobra.
Os suspiros são uma herança da casa dos meus pais. Aquela de que eu me orgulho ser a principal continuadora. Sempre se comenta: a receita, a temperatura do forno, a consistência, a forma e se têm “colinha”. Este é sem dúvida o objectivo mais almejado…mas se os outros não forem conquistados o trabalho não é perfeito.
Saem-me bem, quase sempre. Hoje também. Mas é muito importante a prática. Fazê-los muitas vezes para construir o método, para tirar partido, para inventar, para inovar. Mas só podemos inovar quando estamos seguros do material que temos e do modo de o fazer.
Tantas vezes fiz suspiros que agora estou a vontade. Mas os suspiros fazem-se sempre com as claras que sobram: do pudim, da aletria, do leite-creme. Nunca se guardam gemas, guardam-se claras, o parente pobre do ovo. Interessante, sendo os suspiros um dos paradigmas da família Melo.
As sobras; a experiência; o método; o conhecimento do conteúdo e do material; a inovação… como em tudo…na vida.
A fotografia não a consigo passar para o computador.

Saturday, May 13, 2006

Para ti, sempre

Separados fomos

Separados fomos por cítaras e canto
E pelos longos poemas silabados
E entre nós dois deitaram-se paisagens
Que nos mantinham imóveis e distantes

Embora o fogo secreto das palavras
E a veemência do canto e das imagens
Embora a paixão das noites consteladas
E o nevoeiro tocando a nossa face

Separados fomos por cítaras e canto
Como outros por prisões ou por espadas

Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das Coisas; Caminho


Comprei um livro especial para oferecer a uma pessoa, para mim, muito especial.

Friday, May 12, 2006

Alcino Soutinho

Gostei imenso de rever o Soutinho. Duas horas a falar de arquitectura, passando por biologia, por ecologia, por pedras, por sentido, por opção, por política. Já quase me tinha esquecido do que é um arquitecto, telúrico ou eclético com a despretensiosidade de uma conduta que, independentemente de leituras mais ou menos moralistas ou preconceituosas, faz dele um homem integral. Já quase me tinha esquecido de um passado anti-fascista, de uma luta que foi vital e que determina um homem em que a velhice é um dom. Ele relembrou-o de um modo simples mas avassalador, predeterminante na pessoa e na serenidade que transmite, sem contemplações mas com disponibilidade. Lembro aquela crónica que há anos li no Jornal de Arquitectos do Pitum Keil do Amaral, que retratava os arquitectos que perdiam a coluna vertebral à custa de tantas cedências… face ao politicamente correcto e conveniente. Mesmo quando as leituras exteriores, que às vezes fazemos, nos orientem para juízos mais dependentes. Nada é tão linear como os nossos juízos precondiconados por ideais externos e sonhados, romanticamente.
É muito bom ouvir falar apaixonamente do que se faz aos dezoito anos, como aos quarenta, como aos setenta. Só temos uma vida, oferecida. Resta-nos saber honrar a prenda, completando-a com os adereços que conseguirmos resgatar.

Thursday, May 11, 2006

brasileiros

Não gosto de brasileiros. Quem comigo lida já sabe. Digo-o amiúde, também como provocação.
Deixem-me ser primária.
Não gosto porque:
- Falam bem demais;
- Têm um país onde é fácil viver: não precisam de roupa para se aquecer do frio do Inverno, a natureza dá-lhes espontaneamente alimento;
- Têm a música no corpo e não precisam de se construir para a entenderem;
- Usam a nossa língua com um a vontade tão natural que dizem o que não sabem, dizem apenas; …
- O Carnaval faz esquecer tudo;

… e depois na vida é igual: facilidade, improviso, expediente, desigualdade sem remorso e samba.

Puro preconceito talvez …ou não, porque tenho paixão por África, pela África que não conheço.

Wednesday, May 10, 2006

insatisfeita

Às vezes gostaria de ter as palavras certas para dizer. Depois penso que direito, ou melhor que sabedoria tenho eu para o fazer? Estou do outro lado ou penso que estou, não sei. Porque é sempre uma incógnita o decurso da vida e o que ela nos tem destinado. Até que a surpresa surge. Pode sempre surgir a qualquer hora, sem qualquer razão, sem qualquer justificação. A vida não é como a matemática. Há problemas sem determinantes, há resultados sem parcelas. Há resultados que não satisfazem uma incógnita e então na vida quatro podem ser igual a dois. Esta é a minha insatisfação. Não poder determinar a causa do resultado. Sabendo o resultado não poder dar outra resolução ao problema. A vida é o que é … até hoje estou do lado bom, mas insatisfeita.
Para quem me entende ou quer entender, duas parcelas: uma hora de estudo com o Pedro e... uma incógnita, uma injustiça. Estou aqui sempre atenta.

Saturday, May 06, 2006

Chifon de laranja

Este lugar é para tudo, até para deixar a tal receita do “Chifon de laranja”:

1 chávena e meia de açúcar;
1 chávena e meia de farinha
½ chávena de sumo de laranja
½ chávena de óleo
6 ovos

Mistura-se o açúcar com a farinha. De seguida os líquidos ( óleo, sumo de laranja e gemas de ovos), por fim as claras em castelo.
Coze em forno médio.

Friday, May 05, 2006

Morte em Veneza

Pois que a beleza, meu Fedro, e só ela, é digna de ser amada e visível e ao mesmo tempo: ela é – nota bem!- a única forma do espiritual que recebemos através dos sentidos. Ou então, o que seria de nós se, por outro lado, o divino, a razão, a virtude e a verdade se nos quisessem revelar através dos sentidos? Acaso não morreríamos e nos consumiríamos de amor, como outrora Sémele perante Zeus? Assim, a beleza é o caminho do homem sensível para o espírito – só o caminho, um meio apenas, pequeno Fedro… E em seguida proferiu o mais subtil, aquele cortejador astuto: ou seja, que o amante é mais divino que o amado, visto que naquele existe o deus e nestoutro não - ideia que talvez seja a mais terna e a mais irónica que jamais foi pensada e da qual nasce toda a malícia e a mais secreta volúpia do desejo.

Thomas Mann; Morte em Veneza; Biblioteca de Verão; Edição Diário de Notícias; pag59/60

Thursday, May 04, 2006

Vou ler

Trouxe trabalho. Não cheguei tarde. Fiz o jantar com calma e sem rasgo. O tempo esgota-se e eu não tenho vontade de fazer nada. Queria um poema, mas não me apetece procurá-lo. Um poema que falasse da vida, daquela que se conquista por entre a doença e a dor – que eu hoje não tenho ( doença e dor). Que falasse da luta, daquela tal capacidade de transformar o mal-estar em bem estar, das transformações que o nosso corpo opera pela sobrevivência. Pulsão vital e biológica, explicável cientificamente pelas palavras de Damásio. Que falasse da injustiça da doença, que retirasse Deus à Natureza, que não confundisse destino com vida. Que caia do céu o pão da vida para me alimentar a mim e a outros que me parecem menos afortunados do que eu. Mas não sei nada, porque muito se passa sem que o saibamos e a vida é um fio ténue, sempre no limite da tensão. Que não sejamos nós humanos a estica-lo até à ruptura, porque nascemos para ser felizes, ainda que essa felicidade nos chegue pelos mais recônditos atalhos.
Decididamente não vou trabalhar hoje. Vou ler.

Sunday, April 30, 2006

Dona Maria

Com um arrepio ao fim da tarde, pelas mãos de Carlos Drumond de Andrade chegou a mim a mãe da Dulce: a Dona Maria.
A Dona Maria, quando a conheci, já se movia mal. Pousava de leve sobre as coisas, falava baixo, murmurava à vida.
A Dona Maria era a mãe…da Dulce.
Das flores do jardim que olhava curvada e explicava de cima com carinho.
Lembro os bolos – ainda guardo na minha agenda a receita do chifon de laranja, que ela me ditou de cor, num passeio também ao fim da tarde. Lembro o pão de abóbora e frutos secos. Lembro a casa que se confundia com a terra, a pedra castanha posta e sobreposta, colada com terra, para sobreviver na sua precariedade ao tempo.
A Dona Maria era a casa, era o jardim, era a terra.
Agora a Dulce é a Dona Maria.
Agora a Dulce é a Mãe.

Santa Maria

Dizia, a quem me entende, duas horas depois de terminar a visita a Santa Maria no Marco, que se não for mais, só por momentos destes vale a pena continuar a Cultour.
Só pode ser assim, com pessoas que gostam de ouvir, gostam de entender e vão apenas à espera de que aconteça. Se esta viagem fosse só com arquitectos, Álvaro Siza não teria a oportunidade de nos falar de espírito, de teatro, de arquitectura. Porque é de arquitectura que se trata, quando fala do movimento do ajoelhar, do levantar, do barulho do objecto que cai. Porque, como bem terminou, o espírito não se constrói porque se quer, o espírito está… e está sempre, numa, casa, num museu, num hotel, em suma numa pedra ou numa árvore. O espírito não faz parte do programa de um templo, cristão ou pagão.
Mas ele, Siza, é assim, disponível e total. Sentado no meio da assembleia a falar e a responder às inteligentes perguntas que lhe foram feitas. Ouviu e contou…e nós absorvemos por dentro, ficamos impregnados de um estado.
Não tenho fotografias, guardo-as na alma: o azul intenso recortado na alta porta de madeira já vivida; a barriga grávida da parede pronta à oferta, a reflexão difundida da luz tépida sobre os azulejos que reflectiam ainda o som…da água que escorre pela pia de mármore, a marca do homem que vem até nós pela paisagem exterior que se oferece, pelo som dos passos, dos objectos manipulados e até dos grafittis ou das esmorradelas nas paredes.
Não precisamos por certo que nos indiquem o caminho, que estabeleçam paredes/regras nem que nos dirijam o olhar, basta que nos deixemos guiar para esse estado, essa eterna viagem, que nos leva de nós para Deus.
Agradeço o prilégio.

Friday, April 28, 2006

Torre do Burgo

Talvez o projecto mais abstracto do arquitecto. Projecto em que a pele é determinante, puramente conceptual. Pilha de madeira, de esteios de granito ou de betão, ou apenas torre. Edifício e encomenda que em 1991 não era comum ser entregue a um arquitecto autor. Mas foi assim em 1991. O projecto de uma torre apanhou de surpresa o arquitecto habituado a projectar casas. A grande escala foi por isso um desafio. Resolvida a questão da relação com a rua, neste caso a Avenida, através de um edifício substancialmente mais baixo, ficou a torre, que agora, em 2006, se ergue alta e bem visível para quem circula na Avenida, na VCI ou na parte ocidental da cidade. Em Junho próximo vai terminar a obra, mas antes disso, o arquitecto, aceitando o repto da Cultour, vai guiar-nos pelos seus interiores explícitos e implícitos. Iremos perceber como se ilude a escala ou como o desenho pode determina-la. Como se relaciona interior e exterior, como o conceito pode ser construído sem cedências e com uma coerência a que não é alheia a técnica – a engenharia, a regulamentação, a construção, feita acto e tornada real, também pela nossa visita.
No próximo dia 20 de Maio, o arquitecto Eduardo Souto Moura, guiará as pessoas que interessadas pela arquitectura, o irão acompanhar nesta incursão por uma das suas obras mais emblemáticas. Esta é uma oportunidade única para visitar esta obra de um modo integral e orientado.

Wednesday, April 26, 2006

com ou sem cravo

Há dias assim contra a norma, contra a regra, que nem por isso me seduzem. Vagueio pelas horas como sonâmbula, sem deixar de ser uma imagem desfocada, descontextualizada: nem mãe, nem mulher, nem profissional, nem dona de casa, nem mulher de limpeza. Retiro a maquilhagem que nada encobre nem nada refaz. Dispo a roupa e apetece-me pôr sobre o corpo, para conformar a brisa, uma t/shirt velha e umas calças largas não de forma, mas por ausência de conteúdo…e apagar-me lentamente em vapores de incenso e penumbra.
Há dias assim, dias de mudança, dias sem nome e sem tom, ainda que cheios de significado social e cultural: 25 de Abril. Talvez assim seja porque Abril 25 tem para mim muito significado na memória. Tem demasiado significado para poder ser confundido com uma polémica sobre um cravo na lapela, ou não, enquanto se faz discurso na Assembleia da República. Porque sim ou porque não, falsa discussão, sobre a posse de um símbolo, que não morrerá na minha história, com ou sem ele na lapela ou no decote.

Monday, April 24, 2006

Uma história de Violência- David Cronenberg

Senti desconforto. O filme, do princípio ao fim, não nos deixa desviar um segundo do problema essencial: a violência extrema e potencial que todos nós carregamos e a fina e precária linha de fronteira que separa o bem do mal. Porque a mais pura violência tem justificação.
O percurso da personagem principal Tom Stall e Joye, não é linear como também não é linear a mistura das duas identidades, no presente. Elas no mesmo tempo se misturam, num tempo cronológico, embora coexistindo separadas ainda, são, sem qualquer sombra de esquizofrenia partes do mesmo homem, presente. Embora para Edie talvez essa fosse, a esquizofrenia, a justificação mais pacífica para perceber o marido, quando, ao fim de vinte anos de casamento, o descobre um assassino.Ela manifesta repulsa ao descobrir que o marido que amava é também outro: porque não o possuia completamente e porque não o reconhece nesta nova personagem.
Mas não é esse o caminho que segue a história, nem que seguem as outras personagens, de que o caso evidente é o filho. Para o bem e para o mal o assassino mistura-se com o marido, sem se destruírem, antes reconstruindo-se e dando corpo à sua verdadeira identidade. Um, sem o outro, não existem. E no olhar final que trocam, ela percebe-o integralmente (esta é a minha leitura, já que tudo fica em aberto).
Tom nunca deixou de ser Joye. Tom apagou Joye por opção até ao momento em que, para defender a sua nova vida (a empregada, o filho e a si próprio), deixou explodir a violência de Joye. Não era uma questão de esconder o passado, mas de sobrevivência, de uma escolha definitiva da sua vida de opção. A ideia de que são os contextos que criam os assassinos também não justifica comportamentos, por si só. Porque Tom teve que atravessar o deserto para mudar e mudou, deixando para trás o irmão e a violência gratuita. Mudou para a aparente “normalidade”, que contém sempre, ainda que submerso e oculto, o lado de Joye. Mas não é essa a normalidade?
Impressionaram-me ainda as duas cenas de sexo: a primeira pelo reencontro com a adolescência e a paixão de um casal com vinte anos de casamento. Num cenário recomposto, ela seduz o marido para outro tempo. Tempo de gozo, de desprendimento, de surpresa, de subversão. A segunda pelo reencontro de Edie com Joye, um lado violento e essencial, sem limite e sem tempo, em que o prazer se consuma no desconforto de o viver para além da coerência e do já adquirido.
Na linguagem o filme é também essencial. Na construção do discurso narrativo transporta-nos, desde o início, para um limiar alto e contínuo, sem oscilações. Nada ( ou quase nada) está a mais. A transfiguração das personagens obtida pela posição da câmara e pela iluminação é incomodativa de tão real: sem nada aparentemente se passar.

Saturday, April 22, 2006

sobre a mesma mistura

Ainda sobre a mesma mistura…aquela que me faz aspirar à eternidade e por momentos vivê-la. Longos momentos da tal beatitude a que só se chega, segundo Damásio ou Espinosa, pelo controlo sobre os estímulos emocionalmente competentes negativos: absorvendo-os para os reduzir, pela sua experiência controlada, criando assim imunidade e deles fazer estímulos emocionalmente competentes positivos. Nesses momentos é possível experimentar a beleza pura, do bem, bem-fazer, bem sentir: interferindo milimetricamente e gratuitamente com os outros (amando), ouvindo Bach ou Mozart, Schubert ou Malher, como diz Damásio, a quem eu neste momento acrescento Keith Jarret ( como poderia acrescentar mais alguns), vendo Miguel Ângelo; experimentando Siza; ouvindo Herberto Hélder; lendo Sophia; olhando o mar ou as pedras de granito em paisagem agreste; conversando simplesmente sobre isto, com…, com…, com… e com.
Outro dos caminhos é a ciência. Sobre esse estou menos informada, mas interessa-me cada vez mais- e na arquitectura vejo, ainda, esse lado potencial.
E finalmente percebendo, por isto e pelo muito mais que se chama esperança, que não estou sozinha.

misturas explosivamente pacíficas

“ A solução Espinosa pede ao indivíduo para reflectir sobre a sua vida, com o auxílio do conhecimento e da razão, na perspectiva da eternidade e não na perspectiva da imortalidade de cada um. E a liberdade é um dos resultados da solução Espinosa, não a espécie de liberdade que habitualmente contemplamos em discussões sobre o livre arbítrio, mas sim uma liberdade radical, uma redução da dependência em relação aos objectos de que somos escravos. Um outro resultado é a possibilidade de intuir as essências da condição humana. Essa intuição junta-se a um sentimento de serenidade cujos ingredientes incluem prazer, a alegria, o deleite mesmo, mas para o qual a palavra beatitude me parece mais apropriada (...). Este sentimento “intelectual” é sinónimo de uma forma de amar a Deus de modo intelectual – amor intellectualis Dei”
António Damásio; Ao Encontro de Espinosa; Publicações Europa-América; Pág 308

Este último capítulo do livro foi para mim uma revelação cientifica e filosófica. Nele encontrei o principio das minhas dúvidas, das minhas angústias … e da salvação pela esperança, segundo Espinosa, na última frase citação do livro “ A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa futura ou passada, sobre cujo resultado temos alguma dúvida.”
Sempre.

Em fundo Keith Jarret, Concerto de Paris, em boa hora veio ter às minhas mãos.

Thursday, April 20, 2006

cultour

Tresmalho-me nas ondas da Cultour. Apostada num projecto que iniciei há dois anos, adquiriu visibilidade há um ano e ainda não vingou completamente, mas dá sinais disso.
Que me satisfaz e me cumpre. Me dá a alegria das conquistas por entre saudáveis gargalhadas. Somos uma equipa que cada dia se vai tornando mais coesa e mais complementar. Cada um vai protagonizando as tarefas que mais tem a ver com as suas características. Conquistamos pessoas para o terreno da arquitectura como profissão, desempenhada com paixão e rigor. Tarefa que arrebata e eleva e nos faz vibrar a cada conquista. Às vezes tenho medo de que o contexto não confirme este projecto.
Noutros países projectos destes tem sucesso. Em Berlim uma empresa do género programa duzentas viagens por ano! Aqui, fazem-se mais do que isso certamente. Mas todas, ou quase todas com base no expediente, no trabalho sem recibo e sem encargos, feito pelo amigo do amigo, que até tem um amigo, que está cá a trabalhar no Siza ou no Souto Moura e dá um jeito. Somos explorados, exploramos e deixamos que nos explorem. Até quando?

Monday, April 17, 2006

santa bárbara



Começo a escrever sem destino. Como sem destino foram os últimos dias passados com uma grande família muito perto da natureza e da precariedade.
Ao abrir o blog descobri um post que vem de São Paulo. Abri-o. Nas fotografias reconheci alguns dos lugares por onde passei aqui em Portugal, na Beira Alta, ainda terra de paixão. Só que aqui percebi que a atitude perante a paisagem não será a mesma. Aqui estraga-se a paisagem, para marcar-se o tempo com o sentido de posse sobre o lugar. Aqui vi a Santa Bárbara destruída pela mão do homem de hoje: uma estrada aberta rumo ao topo, um morro amontoado de perdas partidas e uma Santa (Bárbara) grotesca de granito pousada em cima do morro artificial. No sopé um altar de granito voltado à paisagem e uma placa comemorativa do acto, fixo ao morro.
Santa Bárbara faz parte da minha memória. A primeira vez que lá fui, a pé, não havia outra forma de lá chegar, teria dez anos. Tínhamos partido sem destino, ou talvez o destino estivesse apenas na vontade do meu pai que nos guiou: a mim, aos meus dois irmãos e a dois primos. Subimos a encosta inclinada, com paus e uma bandeira da monarquia que sempre levávamos. Não sabíamos bem o significado da bandeira, ela era para nós apenas uma marca e um aviso que permitia a comunicação com a restante família que ficava em casa, no monte em frente e que, com os binóculos, outro objecto fetiche da minha infância, nos procurava por entre as pedras e a vegetação rasteira característica da altitude. Do alto tínhamos o mundo aos nossos pés, o nosso pequeno mundo feito uma imensidão.
A descida foi atribulada: pela sede, pela trovoada, pela chuva, pelas bolhas nos pés. E depois da descida rumo a Lalim no vale do Varosa, restava ainda a subida pela outra encosta até casa.
Voltei lá mais tarde, duas vezes ainda a pé.
Ontem fui de carro. Vi a violação do sítio arqueológico. Os meus filhos subiram um pouco mais, atravessaram a “floresta dos druidas” ( plantação densa de coníferas feita há cerca de trinta anos) e lá de cima olharam um horizonte sem mácula.

Thursday, April 13, 2006

quarta feira (ainda) santa

Mesmo nas férias de Joana, este blog está abandonado há dias. Para mim dias cheios…de trabalho. Planeados ao minuto e vividos tão absorventemente que os intervalos sobrantes são as viagens de automóvel ou então um cair na cama como uma pedra e dar lugar aos sonhos, estúpidos, frequentemente, mas também frequentemente muito exactos e explicáveis. Daqueles que nos perseguem durante o dia em imagens, que de soltas, se conjugam.
Tudo sempre feito a pensar no fim-de-semana de Páscoa – a tal pontuação, que entrecorta a escrita de parágrafos densos.
Volto a falar dos ritos e da Quaresma. Vivida de um modo exterior à religião cristã, mas aproveitando o conceito: luto, revisão interior, olhar para dentro, jejum, deserto. Como é possível deserto no nosso mundo sobrepovoado e cheio de estímulo? Um apelo, uma vontade, uma mudança, um recentramento: posso abrir novamente os olhos.

Sunday, April 09, 2006

boneca de linho

Boneca de linho, o que fazes?
Porque reeditas sentimentos?
Levas-me contigo
e não sabes que as tuas penas
são momentos.
Sombras do pecado ancestral
Sempre eco
de uma culpa irreal
Que torna a angústia em tensas linhas
Montadas em redes finas
Tecidas na mesma malha das minhas.

A pergunta, sempre uma miragem:
Como é possível viver assim,
Em terreno de alta voltagem
Rumo ao horizonte sem fim?

Wednesday, April 05, 2006

vocabulários

Exausta de vivências paralelas que se entrecruzam:
políticas, projectos, planos, estratégia, conceito, parcerias, custos, sustentabilidade, criação de públicos, multiusos, interagir, integrar,emocional, acertivo, autentozóide, liderança, eficácia, eficiência, recursos, sistema, diversidade, coesão, viável, divulgar, comunicar, interactividade,empreendorismo,…

Alma, lugar, sentimento, amor, afecto, emoção, sabedoria, luz, Terra, universo, raízes, silêncio, tudo, nada, essência, vazio, intimo, individuo, privacidade, perda, sonho, fantasia,ciúme, desejo, sexo, sobrevida, morte, tempo, momento, espaço, cor, perfume, corpo, mãe,….

Minuto, hora, dia, trânsito, stress, violência, exaustão, limite, pobreza, fachada, exterior, púbico, sexo, droga, comida, promoção, valor, empresa, corpo, …


de partido a filosofia ou princípios e agora é o conceito.
Apenas palavras, que se excluem ou se incluem, conjunção ou disjunção na matemática, ciência exacta da VIDA.

Tuesday, April 04, 2006

Os Cabelos

Os Cabelos

Sinto os cabelos
A pisarem-me o pescoço
A entrarem em mim
Pela redonda gola da alma.

Enrolados em meus ossos,
Tecem os fios do meu corpo
E entrançam-se nas suas dobras.

Olivia Rosmaninho (com voz aqui)

Monday, April 03, 2006

Domingo (versão 2)


Domingo, esta semana, não foi em família. Aveiro, à semana, custa-me muito. Por razões do coração. Domingo foi fotografias à hora do almoço e do jantar, gelados, músicas, a varanda da Raquel e muitos passeios sozinha. Muitas ruas, muitas casas, muito ar. Ainda bem que mudou a hora.

Sunday, April 02, 2006

domingo

Fechei os olhos para o sol. O verde passou a laranja e depois a cor de tijolo escuro e novamente a laranja claro que escureceu até à cor de tijolo escuro. Os raios de sol fim de tarde de Primavera, lamberam-me a cara, docemente. Um verdadeiro domingo de Páscoa ainda em tempo de paixão. Ao longe ouvia a monocórdica voz do padre que relatava a paixão de Cristo, ampliada até este infinito pelo megafone, em dia de procissão dos passos. Quase esqueço este ritual! Preparo pacientemente o grande fim-de-semana que se avizinha para redescobrir na natureza a força das coisas. Tão somente a força da vida, por detrás das minhas pálpebras cor de fogo.
Nada como este domingo de sol para me libertar da noite longa dos últimos dias e fazer regressar a paz do dia. Finalmente, sempre concluo que sou diurna. Sol do sol, sou do silêncio conquistado, sou da luz, sou do dia.
Ainda bem que mudou a hora.