Ontem tive, finalmente, a oportunidade de ver o documentário ruínas. Perdi, nas ruínas do tempo, os comentários que li na altura da sua exibição no circuito comercial. Vi-o em condições especiais. Não as melhores, sob pondo de vista do objecto artístico, mas cenicamente envolventes: um ambiente de pré-ruína ou de obsolescência física. No dizer do perito comentador, ao contrário dos humanos, nos edifícios, a obsolescência social precede a física. Assim foi, uma fábrica que deixou de laborar em 1990 é agora uma ameaça, mostra as entranhas em decadência. A fábrica foi o lugar da exibição.
À noite explicava o filme aos meus filhos. Comunicar a experiência faz parte do seu conhecimento (comentava hoje com uma amiga ao almoço- interessante!) O filme apresenta no presente imóveis abandonados em planos fixos - vários planos para cada situação. O texto que o acompanha relata episódios passados no que foi o presente (aqui entendido como a época viva desses edifícios). Relatos do passado que nos transportam para um passado-presente quando visualizamos o presente-passado dos edifícios.
Inesquecível. Vou vê-lo novamente para confirmar mas não o verei no mesmo cenário.
Os panos negros que cobriam as janelas, a abanar ao vento, fizeram-me recordar as primeiras cenas de "O leopardo".
Thursday, September 30, 2010
Friday, September 17, 2010
El olvido que seremos
Ouvi há pouco, no noticiário das 17 horas da antena 2, que Hector Abad Faciolince, tinha ganho um prémio ( de que não recordo o nome) que lhe foi entregue hoje, por António Costa, em Lisboa. Por pura coincidência referi-o ontem aqui. Faço parte dos seus admiradores incondicionais: pela qualidade da escrita, pela seriedade da descrição, pela coragem do testemunho, pela profunda humanidade.
Li-o na língua original, oferecido por amigos colombianos, mas tenho emprestada a edição portuguesa, pelas mãos de um amigo português. Independentemente de tudo, será com certeza, um dos livros da minha vida.
Li-o na língua original, oferecido por amigos colombianos, mas tenho emprestada a edição portuguesa, pelas mãos de um amigo português. Independentemente de tudo, será com certeza, um dos livros da minha vida.
Thursday, September 16, 2010
Colombia e colombianos
Motivada pelos comentários que li em posts anteriores arrisco acreditar na bondade destes lugares e por isso escrevo, ainda, sobre a Colômbia.
Depois de voltar, com um livro oferecido na bagagem, li-o de imediato: " El olvido que seremos" de Hector Abad Facciolince. Relato comovente, profundo e pedagógico de Hector sobre a sua família, destinado a honrar a memória do seu pai. Para mim, mãe e educadora, que têm dúvidas, como acontece a todas as aspirantes a boas mães, este livro disse-me muito. Recordo-me de relatos, passagens carinhosas, cheias de imparcialidade dedicada, que me orientam nas duras tarefas do dia a dia. Dar um beijo ruidoso e impulsivo a um filho, quando ele, racionalmente mereceria um "grande puxão de orelhas", pode ser a atitude mais eficaz. Educar é, antes de mais, sermos expressivos testemunhos de paixão pela vida e incondicionais amantes dos nossos filhos, no melhor e no pior "todos os dias da nossa vida".
Agradeço aos colombianos - apaixonei-me por eles e por Bogotá.
Muito bem escrito, além do mais. Li-o na língua original.
Depois de voltar, com um livro oferecido na bagagem, li-o de imediato: " El olvido que seremos" de Hector Abad Facciolince. Relato comovente, profundo e pedagógico de Hector sobre a sua família, destinado a honrar a memória do seu pai. Para mim, mãe e educadora, que têm dúvidas, como acontece a todas as aspirantes a boas mães, este livro disse-me muito. Recordo-me de relatos, passagens carinhosas, cheias de imparcialidade dedicada, que me orientam nas duras tarefas do dia a dia. Dar um beijo ruidoso e impulsivo a um filho, quando ele, racionalmente mereceria um "grande puxão de orelhas", pode ser a atitude mais eficaz. Educar é, antes de mais, sermos expressivos testemunhos de paixão pela vida e incondicionais amantes dos nossos filhos, no melhor e no pior "todos os dias da nossa vida".
Agradeço aos colombianos - apaixonei-me por eles e por Bogotá.
Muito bem escrito, além do mais. Li-o na língua original.
Thursday, September 02, 2010
Douro


O Douro está na moda - ouvia-o hoje dito por um repórter televisivo. Fui prová-lo. A paisagem do Douro está a mudar, vinhas plantadas no sentido perpendicular à margem, socalcos construídos sem muros de suporte em xisto, rampas oblíquas para ligarem os socalcos: a paisagem do Douro já não é o postal que tinha gravado desde a minha infância.
O que constrói a paisagem? A paisagem deve manter-se fixa no tempo? Como preservar a memória adaptando-a às novas necessidades produtivas? Devemos guardar os "postais" ou temos que fazer postais contemporâneos?
Eu, entendo tudo, mas gostava mais do meu postal de infância.
Sunday, August 15, 2010
Bogotá



Depois do regresso já, por duas vezes, houve atentados em Bogotá.
Percebo-os melhor depois de conhecer a atmosfera pesada e densa que se esconde por trás da vida de Bogotá. A montanha ( cordilheira ocidental dos Andes) tem uma influência imensa no ar que se respira, na luz que invade a cidade, na névoa que a enche.
A cidade situa-se a 2640 metros de altitude. Depois de uma viagem em teleférico de 10 minutos, chegados a Monserrate, 800 metros acima, Bogotá dá-se em toda a sua imensidão.
O ar, necessário para respirar, falta e temos, necessariamente, que mover-nos lentamente para encontrar o olhar intenso, melancólico e profundo de um colombiano.
Daí, talvez, o repetido interesse dos nossos amigos pelo conceito "Saudade".
Estou em crer que, embora eles não tenham a palavra, trazem na alma o sentimento.
Tuesday, July 06, 2010
questões de moda
Os blogues estão mesmo fora de moda!
Talvez esteja na altura de fechar este. Afinal faz cinco anos no dia cinco de Agosto!
Talvez esteja na altura de fechar este. Afinal faz cinco anos no dia cinco de Agosto!
Sunday, June 20, 2010
Jorge Moyano
Grande concerto. Jorge Moyano interpretou Alban Berg, Liszt e Johannes Brahms. Tudo, mas sobretudo a sonata em Si menor de Liszt, foi um dos momentos mais altos e compensadores que se me têm oferecido. Creio que nunca tinha ouvido esta sonata. Alguns dos presentes, que já tinham ouvido outras interpretações, estavam também extasiados com a interpretação. Provavelmente tivemos sorte pela sensibilidade com que fomos surpreendidos. " Após as enigmáticas notas seguidas por silêncios com que a sonata tem início ( e com as quais vai terminar), uma escala descendente arrasta o ouvinte para um universo inquietante". Os silêncios, a inquietação dos silêncios...
Sunday, June 06, 2010
Casa da Música fora de horas
Clubing de Junho. Ontem. Vazio, ou quase, porque as coincidências de programação obrigam-nos a desperdiçar oportunidades ( Serralves em Festa - também lá passei). Mas ontem Magnus Lindberg e a ONP, Alva Noto e Moderat, deixaram-me completamente satisfeita e nas nuvens. Espanto-me perante o poder que alguns tipos de música, diversos e quase diametralmente opostos, exercem sobre mim.
Sunday, May 23, 2010
em torno de um livro
Peguei no livro, no silêncio da casa e li sobre o amor. Sobre o amor fleumático. Aquele amor egoísta, no dizer de Clawdia Cauchat, que a única coisa que almeja é o enriquecimento de nós próprios. Um amor que sabe esperar, mesmo que a espera seja em vão e faz dela um processo de conhecimento humano. “ Podemos falar de dedicação egoísta ou de egoísmo dedicado”, diz Hans Castorp, embora a fronteira entre os dois seja muito ténue. Enquanto o primeiro se aproxima da paixão, que gera o ciúme, que exige a posse, o segundo é paradoxalmente altruísta e egoísta: altruísta porque não exige exclusividade e está centrado no sentimento, no que ele desencadeia; egoísta porque, estando centrado no sentimento, se interessa apenas pelos efeitos do processo no enriquecimento individual daquele que ama.
Sunday, May 16, 2010
Casa da Música ao domingo
Nunca tinha ido aos concertos comentados de domingo na Casa da Música. Fui hoje porque na sexta à noite não pude ir ao concerto da ONP. A Casa da Música estava esgotada. Cheia de miúdos e de adultos. A orquestra vestida informalmente. Antes de começar as vozes infantis enchiam a casa de sons. O silêncio fez-se de imediato depois do anúncio que o espectáculo ia começar.
O concerto à volta de Zoltán Kodáli. Conheci a música de Zoltán Kodáli na Hungria quando lá fui. Associei-o a Béla Bártok e à Hungria, país fascinante com mais ou menos a mesma área e o mesmo número de habitantes que Portugal. Um país cheio de histórias, onde povos e invasões, anexações se misturam.
A Suite de Háry János é também uma história. Colorida, viva, que fala do Império Austro-húngaro e da invasão napoleónica. Nada mais apropriado para uma manhã de festa, domingo de sol.
Conheci o cimbalão, instrumento de cordas percutidas com forma de cravo e som seco de cordas.
Assim se fazem públicos. Aos pais e educadores lembro que esta é uma boa maneira de degustar o domingo de manhã. Fora deste sítio divulga-lo-ei também.
O concerto à volta de Zoltán Kodáli. Conheci a música de Zoltán Kodáli na Hungria quando lá fui. Associei-o a Béla Bártok e à Hungria, país fascinante com mais ou menos a mesma área e o mesmo número de habitantes que Portugal. Um país cheio de histórias, onde povos e invasões, anexações se misturam.
A Suite de Háry János é também uma história. Colorida, viva, que fala do Império Austro-húngaro e da invasão napoleónica. Nada mais apropriado para uma manhã de festa, domingo de sol.
Conheci o cimbalão, instrumento de cordas percutidas com forma de cravo e som seco de cordas.
Assim se fazem públicos. Aos pais e educadores lembro que esta é uma boa maneira de degustar o domingo de manhã. Fora deste sítio divulga-lo-ei também.
Monday, May 10, 2010
Valentina Sereno
A professora que no liceu, talvez, mais me marcou, foi Valentina Sereno - professora de ciências da natureza. Foi minha professora no Carolina Michaëlis. Hoje lembrei-me dela, como me lembro muitas vezes. O que distingue um ser vivo de um ser inanimado? A capacidade de assimilação. Não sei se foi assim que ela me ensinou, foi assim que eu percebi e assim a lembro. Assimilar- capacidade de transformar matéria diferente na sua própria matéria. Hoje lembrei-a ao pensar na capacidade que temos de reflectirmos sobre as nossas experiências incorporando-as na nossa história pessoal.Ficamos mais densos, mais pesados e mais leves, mais desprendidos e mais conscientes do nosso lugar no mundo. Perdida a inocência ganhamos em sabedoria.Ando às voltas com Thomas Man " A Montanha Mágica" e assimilo.
Sunday, May 09, 2010
Galiza
Sunday, May 02, 2010
Nada tem a ver com esperança
Hoje, no meu programa de rádio favorito, ouvi a Maria João Seixas ler um excerto de uma crónica de João Benard da Costa que referia Musil, um dos meus escritores favoritos, mais ou menos assim " Quando se espera muito tempo acontecem coisas que só raramente acontecem." Coisas excepcionais, digo eu. A espera, saber esperar para saber perceber quando elas acontecem. Mas tem que ser uma espera viva e activa. O tema da espera e da vigilância é um tema bíblico, é um tema zen, é um tema temporal.
Eu espero...
Eu espero...
Sunday, April 25, 2010
Thursday, April 22, 2010
sempre o tempo
De vez em quando alguém me lembra a curva do tempo e a da sabedoria. De vez em quando alguém me lembra que enquanto a da sabedoria sobe a do tempo desce. Aqui, tempo entendido como o tempo de vida de um ente. De vez em quando alguém me lembra o paradoxo: devíamos começar quando estamos a acabar.
Será esta a leitura simplista de um humano?
... mas eu não sou capaz de fazer outra!
Será esta a leitura simplista de um humano?
... mas eu não sou capaz de fazer outra!
Sunday, April 11, 2010
Sábado de "Verão"
Começou a época balnear com uma excelente manhã de praia. Começou a época dos prazeres democráticos. Pensava: eu aqui, cheia de sol, de cor e de mar e outros a gastarem os cada vez menos euros a comer hamburguers em centros comerciais! Depois veio a tarde e os nossos corpos a libertarem lentamente o calor e a leveza que tinham acumulado. Depois, um, não tão democrático concerto ( os bilhetes custavam €25,00) na Casa da Música, Arcadi Volodos, muito aplaudido. Mais tarde orientei-me para estudar Ângelo de Sousa o que, decorrendo de obrigação profissional, me deu elevado prazer.
Friday, April 02, 2010
Erich Mendelsohn

Casas em Karolingerplatz; 1922
Gosto assim. Gosto de chegar de uma viagem e de a recompor na primeira pessoa do singular. Li sobre Berlim: sobre a história da arquitectura. Li em italiano, em inglês, em francês. As línguas não me foram estranhas."Architectura Contemporanea I" de Manfredo Tafuri e Francesco Dal Co; Erich Mendelsohn de Bruno Zevi; Hans Scharoun de J. Christoph Bürkle; Berlin The architecture Guide.
Sobretudo Eriche Mendelsohn. Schönberg e Mendelsohn. Mendelshon como o Schönberg da arquitectura: sozinhos na procura de uma arte atonal. Será que tenho de voltar a Berlim? Será que tenho de o ir descobrir a Jerusalém?
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