Sunday, September 21, 2008

jogo dos três pauzinhos e das três pedrinhas

brinho
Este era um dos nossos jogos de praia. Reeditei-o para o meu sobrinho. Uma espécie de jogo do galo, mais interactivo e longo, porque as pedras e os paus movem-se continuamente até um dos jogadores conseguírem formar uma linha ( aqui não valem as diagonais!).

Thursday, September 18, 2008

novamente o tempo

“Oh, havia pouco tempo, sim, ele sabia. Quase podia ouvir o enorme silêncio com que os ponteiros do relógio avançavam. Mas não se sentia revoltado por ser o guardião de tempo tão curto: o tempo de uma vida inteira também seria curto. Aquele homem já aceitara a grande contingência. (…)

Aliás no seu trabalho de construção da realidade, havia em desfavor de Martim a novidade de as coisas não serem mais óbvias; ele esbarrava a cada momento. Contra si, também, havia consciência do tempo preciso. Embora Martim tivesse uma grande vantagem: se a vida era curta, os dias eram longos. Ainda a seu favor ele tinha o facto de saber que devia andar em linha recta, pois seria pouco prático perder o fio da meada. A seu desfavor tinha um perigo à espreita: é que havia um gosto e uma beleza em uma pessoa se perder. A seu desfavor tinha ainda o facto de entender pouco. Mas sobretudo a seu favor tinha o facto de que não entender era o seu limpo ponto de partida.”

Clarice Lispector; A Maçã no Escuro; Relógio d’Água; pág. 144, 145

A hora da canção

WILCO - MORE LIKE THE MOON



I see you in the morning
Wearing only one shoe

I say, I see you've lost something
What're you gonna do?

You say but no, I found one
There's another out there for you

I see us all as customers
Holding no purchase so far

Collapsing galaxies
Feathered with falling stars

I see us all as something
But nothing like we truly are

Why don't you come to me now
More like you are

I know we should be grateful
Everything is falling apart

Everything is breaking
And it lifts my heart

To see you as an angel
As some ghostly work of art

Why don't you come to me now
Know who you are

Tuesday, September 16, 2008

São Pedro das Águias II

o
o
São Pedro das Águias é um pequeno eremitério românico localizado no concelho de Tabuaço. Construído pelos monges beneditinos passou depois para a Ordem de Cister. Capela única, preciosa e pequena, com a porta principal voltada à eloquente escarpa de xisto e as costas voltadas ao vale verde e fechado, onde no fundo corre o límpido rio Távora. Concentração de sentido que nos abre para acolher os extremos que Torga reflecte no seu poema.

Monday, September 15, 2008

São Pedro das Águias

São Pedro das Águias


Entre a capela e o rio,

Indecisa, a poesia…

Vaguear na corrente?

Sonhar num capitel?

Ou manter-se fiel

Aos dois acenos:

À paz e à inquietação,

À inércia e ao movimento,

Sem ir e sem ficar?

Vela

De moinho de vento

Presa ao chão, a voar…

Miguel Torga, 9 de Maio de 1971

Thursday, September 11, 2008

urbanidade

“As melhores reflexões acerca da natureza da grande cidade viram-se forçadas a contrariar o mito da proximidade, mito em que a alienação, a impessoalidade ou a frieza corporizavam o mal, e que se revelou incapaz de entender os benefícios libertadores e culturais da convivência com estranhos. Um dos grandes contributos de Simmel foi precisamente demonstrar que aquilo que a crítica conservadora entendia como anonimato, alienação, desinteresse e decadência era, na verdade, uma condição para o desenvolvimento individual.”

Innerarity, Daniel; A nova Urbanidade; JA 231

A cidade como organismo democrático que permite a livre expressão da individualidade, que cultiva a tolerância, que admite o desenvolvimento do exótico, que permite a diferença, porque:
o meu merceeiro, não conhece o meu médico, que não faz parte da minha família e não é médico dos meus colegas de trabalho, nem amigo dos pais dos meus filhos, nem professor, nem meu colega no ginásio, nem meu vizinho, nem .......

Tuesday, September 09, 2008

pensar, não pensando

“ O ser humano é uma criatura pensante, mas as suas grandes obras realizam-se quando ele não pensa nem calcula”( D.T. Suzuki), ou seja, “ pensa, embora não pensando”. E este “não pensar” é o pequeno grande segredo a que se deve aspirar, fonte da coisa única, a face do inimitável e do irrepetível”.

Moreira, José Guardado; Ecos do Japão; Revista LER; Junho de 2008

Monday, September 08, 2008

A Minha Senhora

As da minha vida, chamam-se Rosalina, Rosa, Beatriz,… e hoje são quase inexistentes. A Rosalina acompanhou-me quarenta e oito anos. Andou comigo ao colo e sempre me chamou menina. Foi para casa da minha Avó com treze anos e lá morreu com oitenta e um.

“A minha Senhora.” Era e é sempre assim que se referem à dona da casa onde trabalham. Vivem realmente numa espécie de escravatura, hipotecam o futuro, estas mulheres – memórias vivas do passado.

À Rosalina, história que conheço bem de perto, tentamos recuperá-la para a família. Passou a comer à mesa connosco, a ter todos os direitos e carinhos que se dão a uma avó. Mas ela fazia questão em manter o seu lugar, esquivando-se a mimos, que julgava inadequados à sua condição. Nunca cortou o cabelo, que amarrava no tradicional puxo, resistia a sair de casa e enjoava nas viagens de carro ou de camioneta, nunca foi à praia, nunca foi a Lisboa. Era a guardiã da casa, da qual só saiu uma dúzia de vezes, as mais delas, para o hospital – andava sempre aos tombos. Continua lá, sentada no banco da cozinha a descascar feijões ou ervilhas, que dividia em saquinhas para dar aos meninos.

Cozinhava como ninguém, mas fazia também as suas aldrabices que, mesmo depois de detectadas, raramente confessava.

Restam ainda algumas sobreviventes. Vieram “da terra” para servir e adoptaram de corpo e alma a “ Minha Senhora e os Meninos”.

O que pensam estas mulheres da vida delas? O que sabemos nós, os meninos, das vidas delas?

Saturday, September 06, 2008

cartas e dedicatórias

Há algum tempo que a correspondência entre Sophia e Sena repousava na minha mesa de cabeceira e era recurso para dias especiais. Hoje acabei de as ler, mas continuarão recurso para dias especiais. Porque são especiais, são boas, são sérias e reflectem uma relação de amizade comovente.
Cartas, reflectia, gosto de cartas, gosto de escrever cartas. Mas as cartas implicam distância. Se eu escrever uma carta para o meu parceiro(a) do lado, é mau sinal. A carta é um modo de comunicação para quem está longe. Na carta misturam-se notícias com reflexões, expressam-se sentimentos. Os mails não substituem as cartas.
Dedicatórias, tenho vindo a perceber a sua importância. No fim deste livro coleccionam-se as dedicatórias de Sena para Sophia - elas marcam o tempo, marcam os livros e compõem a vida.

Thursday, September 04, 2008

Aquele Querido Mês de Agosto - Miguel Gomes

“Porque é que os portugueses não sabem parar?” Foi esta a pergunta que me assaltou quando saí do filme. Às tantas generalizei. Mas eu não sou muito conhecedora do cinema português mais recente.

Quanto a mim este perde por ser longo demais. Sobretudo porque a última parte, a que torna o filme enfadonho, é a pior. Todos nós, os quatro que fomos ver o filme, tínhamos um momento certo, cerca de meia hora antes do final, para terminar - era naquele baile em que a música se referia ao título.

A ficção está realmente a mais. Com isto não quero dizer que o filme se devia reduzir ao documentário ( o que o torna mais interessante é essa mistura entre documentário e ficção, entre a realidade e a sua representação) mas quero dizer que a ficção poderia ser desenvolvida a partir da preparação para a sua produção. Depois, bastaria a exposição do tema do melodrama, até porque ele é muito pobre e débil.

De resto divertimo-nos. Rimo-nos, quase desbragadamente, perante o nosso retrato. É um retrato português e é um retrato credível. Chega mesmo a ser brilhante na maneira como nos prende durante mais de duas horas sem cansaço.

Deixa-me um pouco apreensiva os mais novos aderirem tão facilmente a esta imagem de Portugal!

Tuesday, September 02, 2008

escritas

" E contou-me que escreve poemas. Que todas as vezes que escrevia era como se resolvesse um problema, depois ficava livre."
"Mandei-lhe uma boca" ; Olga Gonçalves; Caminho; 3ª edição Abril de 1987


É tanto assim, às vezes!

Monday, September 01, 2008

repetições

“- (…)Um romance de amor vive da repetição, e a repetição converte um apetite em arte. Além disso, cada vez que se ama é a única vez que já se amou. A diferença no objecto do amor não altera a integridade da paixão. Só lhe dá mais intensidade. Na melhor das hipóteses podemos ter na vida apenas uma experiência magnífica, e o segredo da vida está em reproduzir essa experiência tantas vezes quanto possível.
- Mesmo quando ela nos magoa Harry? – perguntou a duquesa, após algum silêncio.
- Especialmente quando nos magoou – respondeu Lord Henry.”

O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde; Colecção Novis; Visão; pág 223

Saturday, August 30, 2008

Para sempre

Sempre. Ainda a propósito da transcrição de Óscar Wilde e de Sempre.

Embora não concorde, ou não remeta directamente a acepção do Sempre para o género, feminino ou masculino, o certo é que nós (aqui não sei se falo no nós mulheres) o Sempre é um mito, um paradigma, um objectivo e por isso também um motivo de sofrimento. O sempre estraga tudo. Quando pretendemos eternizar o momento num desejo de possuir a eternidade: do estado, do sentimento, do momento, hipotecamos a sua vivência real e completa, pela garantia efémera de uma promessa. De que vale o para sempre se referido ao futuro?
Referido ao passado, constata uma evidência; referido ao presente é, é imanente, está; referido ao futuro é um cheque em branco que ninguém deveria passar: não é bom para quem o passa, porque provavelmente estará a mentir, nem para quem o recebe, porque é uma mentira piedosa que pretende prender o outro garantindo um pretenso (in)certo futuro.
Mas é bonito ouvir dizer “Hoje, é para sempre.”.

Amanhã poderá não ser: mas hoje o presente é futuro! O presente tem assim uma dimensão infinita. Não um infinito cronológico, temporal, ou geométrico, mas um infinito físico medido em intensidade.

Lamparina



Era assim que se faziam as lamparinas na casa dos meus pais. A planta, não sei como se chama, dá uma flor, verde e carnuda que, depois de seca, desfolhada e embebida em azeite, serve de pavio para a chama. Usava-se para celebrar a estadia da Sagrada Família. A Sagrada Família ainda lá passa, as lamparinas é que já não são estas.

Tuesday, August 26, 2008

Sempre

" Sempre! Que palavra horrível! Faz-me arrepios ouvi-la. As mulheres é que gostam muito de a usar. Conseguem destruir um romance de amor quando procuram fazê-lo durar para sempre. Além disso, é também uma palavra sem sentido. A única diferença entre um capricho e uma paixão para toda a vida é que a paixão dura um pouco mais."
O retrato de Dorian Gray; Owscar Wild; Colecção Novis; Visão; pág.32

Praia do Forte de Paçô



Tenho algumas praias de eleição. Esta é uma delas. Há alguns anos que não ia lá. Reconheci-a igual e esplêndida na discrição, na quietude, na envolvência.
Chega-se de carro por um estradão entre campos de milho. Ao centro do areal está o forte, que lhe dá o ar insólito ao apresentar-se como marca humana ancestral, ao que se aliam alguns armazéns de barcos, bem conservados e alinhados. Na praia as rochas subdividem o espaço, criando recantos acolhedores e protegidos do vento. Também as rochas delimitam pequenas baías, onde as algas brincam com o mar e com os nossos corpos.
Apesar de ainda ser Agosto estavam apenas algumas, poucas dezenas, de pessoas. Por isso o silêncio povoado de mar sobrepunha-se a qualquer outro som.
Que se conserve assim por muitos anos.

Saturday, August 23, 2008

de férias com as mulheres

De férias... finalmente!
Para elas convoco grandes mulheres. Mulheres vivas, que vivem comigo no mesmo espaço e no mesmo tempo. Elas fazem-me muita falta.
Os homens são uns aldrabões. Ao dobrar da esquina apanhá-mo-los nas mais ingénuas mentiras...
tudo para nos impressionarem, para serem melhores e mais machos, coleccionadores de experiências únicas e supremas... a gente sabe e goza!
Desculpem os meus amigos, honrosas excepções a este estereótipo... eles sabem quem são!

Tuesday, August 19, 2008

Anémonas

Como os manjericos as anémonas são seres vivos que me cativam: sob as águas límpidas e frescas, estendem os seus tentáculos que ondeiam ao sabor da corrente. De cores vivas e múltiplas mostram esplendorosos interiores sem qualquer receio: chamam, cativam, hipnotizam. Sentido-se ameaçadas, dobram-se sobre si, enganam-nos com um aspecto exterior anódino: mecanismos biológicos de defesa.

Wednesday, August 13, 2008

mangericos

Este ano os meus pais mantêm quatro manjericos viçosos em pleno Agosto. A minha mãe compra quatro, um para cada filho, que usualmente trazemos para as nossas casas e deixamos morrer de calor, de sede, ou, quem sabe, apenas de falta de carinho. Este ano, nenhum de nós recolheu a dádiva e eles, alinhados em frente à janela da cozinha, do lado de fora, apresentam-se em toda a sua frescura.
Os manjericos são uma erva engraçada - quando lhes passamos a mão libertam um odor magnífico!
Transpus esta ideia para os humanos: de certo modo somos assim e é bom que assim sejamos. Tratados com carinho perante uma carícia libertamos todo o nosso "odor", ou seja, cultivados e tratados com muito amor, damos o nosso melhor.

Tuesday, August 12, 2008

björk @ swtmn 08


Vamos lá ver se a gente se entende: quem não foi ao Sudoeste ver a Björk é burro! Burro burro burro! Com as palavras esgotadas, convido-vos a ler aqui o que pensam outros e a espreitar nas minhas fotografias tiradas com os olhos embaciados.