Monday, June 02, 2008

banho de mar

Contínuo fascinada por Clarice Lispector, neste livro, em particular. Hoje lia um capítulo dedicado a um banho de mar. Ontem contava o prazer e a dádiva de um banho de mar. Ela aqui conta aquilo que eu queria contar e não consigo. Ou talvez não conte mas eu leio-o à mesma:
" Vai entrando. A água salgadíssima é de um frio que lhe arrepia e agride em ritual as pernas.
Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade- já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a despeerta do seu mais adormecido sono secular.
E agora está alerta, mesmo sem pensar, como um pescador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto."

Lispector, Clarice; Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres; Relógio de Água; pág.67

Sunday, June 01, 2008

O erro de Descartes

Segundo António Damásio "Penso logo existo" é o Erro de Descartes. Sinto logo existo, será o que nos define como homens - para mim cada vez mais, também.
Porque é que a nossa cabeça está sempre a trabalhar? Não para de pensar - é preciso ter a humildade de lhe dar descanso: não somos nem a consciência, nem a salvação da humanidade.

Wednesday, May 28, 2008

concentração

O simples gesto de entornar nozes na taça, porque completamente concentrado, ou seja o pensamento está apenas centrado nele, torna-se fonte de supremo prazer.

Tuesday, May 27, 2008

sinais

Alguns de nós estão hoje a assistir ao "concerto do ano", pelo menos era esse o vaticínio caseiro - Animal Colective: may be!
Eu, na pacífica paz do lar, regresso ao tema de há uns dias pela leitura do artigo de opinião de Mário Soares no Diário de Notícias " Pobreza e Desigualdades" - o velhote continua lúcido!

Monday, May 26, 2008

Silêncio

" mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra, e da Lua. Então ele, o silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como arde, Ulisses, por ser chamada a responder- cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio."
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres; Clarice Lispector; Relógio de Água; Maio de 1999

Sunday, May 25, 2008

contra senso

Embora nos últimos tempos os meus escritos sejam pouco sociais, não quer dizer que não ande preocupada. Este não é um lugar de alienação ou de divertimento (só)... é um lugar reflexo de vida: preocupa-me o aumento de custo de vida e a necessidade de redução de despesas. Claro que a "pescadinha de rabo na boca" que é o comportamento da economia de mercado gera consequências encadeadas de fim muito duvidoso e preocupante. A isto juntam-se as recentes notícias sobre os índices de pobreza em Portugal (20% da população portuguesa é pobre!) e sobre o distanciamento, cada vez maior, entre ricos e pobres.
Sinto muitas vezes que vivo num mundo de disparates. Parece que perdemos o sentido de espécie, a vontade da sua perpetuação e andamos a devorar-nos uns aos outros.
Penso: eu não sou daqui!

Mas que santo é este?

Porto, sexta-feira, 23 de Maio

Friday, May 23, 2008

Laços de aniversário

Lá, na casa dos meus pais, na minha casa, em dia de aniversário enfeita-se a cadeira do aniversariante com um laço. Estes, azuis e brancos, a cor da monarquia, vieram de Cimo de Vila - o meu Avó era um monárquico assumido, ou pelo menos,era essa a imagem que gostava de dar dele. No dia 20, foi dia de aniversário na casa mãe e eu fui buscar o laço à gaveta para enfeitar a cadeira. Ao jantar desfiamos memórias.

Wednesday, May 21, 2008

erros

Hoje teria que ser este o desabafo: dei um erro ortográfico que se ampliou até ao limite sem eu dar conta. Fiquei completamente derrotada. Usei um há do verbo haver quanto não devia...

Tuesday, May 20, 2008

evocação

Escavação


Numa ânsia de ter alguma cousa,

Divago por mim mesmo a procurar,

Desço-me todo, em vão, sem nada achar,

E a minh’alma perdida não repousa.


Nada tendo, decido-me a criar:

Brando a espada: sou luz harmoniosa

E chama genial que tudo ousa

Unicamente à força de sonhar…


Mas a vitória fulva esvai-se logo…

E cinzas, cinzas só, em vez de fogo…

- Onde existo que não existo em mim?


………………………………………..

………………………………………..


Um cemitério falso sem ossadas,

Noites d’ amor sem bocas esmagadas –

Tudo outro espasmo que princípio ou fim…


Mário Sá Carneiro

Poemas Completos

(edição de Fernando Cabral Martins)


Retirado providencialmente da edição do poemário deste ano de 2008, porque faz todo o sentido.

Saturday, May 17, 2008

tic's

Cheia de boa vontade e espírito cívico decidi participar na discussão pública do PDM da Maia. Abro o site e dizem-me que foi concebido para ser aberto com o internet explorer. O meu computador não abre páginas com o internet explorer. Porquê? Não sei, coisas de informáticos. Vou para o computador do Pedro: não tem internet explorer. Vou lá para fora e abro: dizem-me que é a primeira vez que vou abrir o mapa e mandam-mo instalar - carrego OK, mas não instala. Depois tento registar-me. É a primeira vez que o faço. Preencho os dados e registo-me. Resposta já está registada!!! Bem, peço nova palavra passe. Abro o email, recebo a palavra, volto ao site, introduzo a nova palavra passe - está errada! Verifico se tenho o caps lock ligado ou qualquer outra tecla do género, nada. Confirmo a palavra passe e o nome.... desisto.
Acho que vou ver o PDM da Maia em papel se ainda existir nessa versão. Se assim não for este modo de participação é um bom modo de ninguém participar.

Friday, May 16, 2008

Silêncio

À saída da aula de yoga falava-se da experiência do silêncio. Alguém dizia que esteve três dias sem falar. Concluía-se depois que o silêncio não é a ausência de palavras - é ausência de comunicação, porque com os olhos, com os gestos também se comunica. Eu vou mais longe - o silêncio é a capacidade de interiorizarmos, olharmos para dentro, fechando ou pelo menos seleccionando os estímulos exteriores.
Há momentos em que é preciso o silêncio.
Será muni?

Wednesday, May 14, 2008

eva

Hoje de manhã ouvi a inacreditável notícia que dizia que o Vaticano admite a existência de outros planetas habitados, mas este por seres que não cometeram o pecado original, a saber: não provaram o fruto proibido gerado pela árvore da ciência, do conhecimento do bem e do mal.
Esta é das metáforas bíblicas que mais aparece no meu dia a dia. Não assim, evidentemente. Até porque eu sou daqueles que sou tentada e não resisto a provar, talvez por ser eva. Levarei comigo todos os Adões que quiserem. Mas às vezes, noutras circunstâncias, penso que queremos saber de mais, possuir demais, dominar de mais, e depois ficamos embaraçados nas teias da inveja, do ciúme, do poder e de outras fraquezas humanas.

Tuesday, May 13, 2008

Validades

O meu sobrinho não come nada fora de validade. Eu disse-lhe que ele já tinha comido muitos iogurtes, no bolo feito por mim, com iogurtes fora da validade e depois acrescentei que tinha comido um iogurte de soja hoje. Ele respondeu-me: "Deve ter sido o único que comeste dentro da validade!" - esta é a minha fama.

Monday, May 12, 2008

Seria?

O que permanece. Sabemos das leis da física e da química que tudo se movimenta e se transforma e nada permanece imutável. Para além do universo ínfimo, reino imponderável da transformação, também no visível, tudo se transforma.

Sabemos que alma pesa 21 gramas - tal é a diferença de peso entre o ser vivo e o ser morto, no momento imediato ao vivo. Ou não sabemos?
Eu entendo e procuro o “algo” que identifica e que distingue cada ser: uma árvore, um pássaro, uma pedra, um rio, o arco-íris - aquilo que não muda - o imutável, o que permanece. Seria "rucshi"?

Thursday, May 08, 2008

aniversários

Hoje faz anos o Keith Jarret. Já sabem que este músico é talvez aquela combinação com que mais me identifico. Ouvir a sua música dá-me muito prazer e a ele associo bons momentos da minha vida.
Mas hoje também faz anos a nossa amiga. O ano passado festejou os anos com a Joana em Inglaterra. Ainda o ano passado disse aqui que ela faz também parte de muitos dos nossos dias luminosos. Novamente e sempre muitos parabéns!

modelos


De regresso a casa. Quando estava na secretaria da Casa de Saúde da Boavista vi um paninho de crochet, nada de especial, mas cujo efeito de conjunto era muito bonito. Desenhei-o para memorizar e cheguei a casa e reproduzi-o. Não está correcto, mas já sei qual é o erro: o segredo está no modo como pegam as rosetas.
Lembrei-me da minha mãe, que sem a muleta do desenho, reproduzia panos de crochet, pontos de malha e outros modelos. Se não herdei dela as mãos de fada herdei-lhe o gosto.

Sunday, May 04, 2008

outras correntes

Por vezes factos, aparentemente previsíveis, alteram o desejo de vida. Apesar de materialmente o dia se desenrolar do mesmo modo, sem alterações qualitativas, há qualquer coisa que não bate certo - qualquer coisa que os outros não vêem, qualquer corrente que não passa, qualquer entendimento que colapsa.
Ontem à noite estávamos a jantar e o fogão na cozinha deu um estouro e o exaustor desligou. Pensei que tinha avariado. Hoje descobri que não deixou de funcionar mas tinha desligado a corrente eléctrica no quadro.
É preciso ver o que se passa.

Thursday, May 01, 2008

O primeiro 1ºde Maio

“… fazia-me bem aquele ulular compassado, o braço martelado, as pernas marchando sincopadas, sentia-me respirar colectivamente, identificava-me com propósitos que desconhecia, transpessoalizava-me, como gota de água desindividualizada integrando o bloco compacto da onda direccionada por um só caminho para um só fim, fazia-me bem a despersonalização, anulando-me, prendendo-me a uma corrente colectiva, ressurgia senhora de mim, desejosa de ser como todos, igual a todos, submersa na mesma vaga, consciente de que a minha força só era força se unida à força dos outros, …”
transcrição de “ O último minuto na vida de S.” de Miguel Real

Comecei a lê-lo ontem e acabei-o hoje. É um livro pequeno, falarei sobre ele mais tarde.

Uma Segunda Juventude e A Ilha dos Jacintos Cortados

Apetece-me escrever conjuntamente sobre “Uma segunda Juventude” e “ A ilha dos jacintos cortados” livro de Gonzalo Torrente Balester. Teria mais lógica escrever sobre o filme de Copola e o livro de Mircea Eliade que o funda, mas não li o livro e não me apetece lê-lo. Tanto o filme como o livro de Balester, têm todos os condimentos que me fazem gostar de…

não que sem uma espécie de resistência original que se vai dissolvendo com a duração do acto de ver ou do acto de ler e depois, ainda mais, quando pedaços nos assomam em confronto. As viagens no tempo, a simultaneidade de erupção de acontecimentos passados no presente, a procura do início, da razão das coisas, estão presentes nos dois objectos, combinando-os, mais o livro, com um modo leve e onírico de nos ler no mundo. No filme este voltar no tempo assume uma dimensão física que se materializa na segunda e efectiva juventude. No livro o presente é espectador do passado, ainda que se diga que passado, presente e futuro são simultâneos: a história é uma grande tela plana onde tudo se desenrola ao mesmo tempo.

No filme confesso algum cansaço. Achei-o longo e às vezes perdido em efeitos estéticos algo desconjuntados. O livro achei-o denso, mas tão agudo sobretudo na narração do presente/ presente que ainda anda por cima das mesas, das estantes, no carro, para reler passagens, que pressinto não apreendidas naquilo que (me) podem significar.

Saturday, April 26, 2008

Aviso

Avisam-se os habituais clientes que começou a época balnear com um soberbo banho, apenas de mergulhos nas ondas, um sol quente e uma praia imensa.

Macieira do Japão


Acho que dá as flores mais bonitas que conheço.

Friday, April 25, 2008

É Abril




25 de Abril SEMPRE

25 de Abril


25 Abril Sempre!

Sunday, April 20, 2008

Centro Interpretativo do Monte Padrão




A inauguração do Centro Interpretativo de Monte Córdova e reflexões à volta.
Que bom é que se façam obras fora dos centros, onde há outras pessoas que olham para a cultura erudita e para a arquitectura de outro modo - talvez com olhos perdidos e incapazes de perceberem no todo as partes. Olhos que lentamente se vão habituando à forma e à luz, e que já gostam, ainda que não entendam.
Que bom perceber que se pode encher esta sala com esta gente, para ouvir o arqueólogo falar de construção de memória, de identidade, de percepção e entendimento da história.
Que bom pensar que se pode encher mais vezes esta sala com esta gente e que só deste modo estas portas não se fecharão.
Quem contribuiu para a construção deste edifício sabe que os caminhos que trilha um arquitecto municipal, um engenheiro municipal, os construtores locais, não é fácil nem a direito: é tortuoso, implica cedências e dúvidas - dúvidas que recomeçam amanhã quando o Centro abrir as portas a um público que vai ter que conquistar.
É fácil chegar a Monte Córdova, ao Monte Padrão, ao Centro Interpretativo e ao Castro. Fica apenas a 20 minutos do Porto e é um local excelente para passeios de Verão.

Companheiros cá de casa

Corações - Alain Resnais

Conversávamos à saída do filme: “ Não entendi nada do filme:” “ Eu também não” “ Não é especialmente bonito, não tem diálogos bons…” “ não se percebe aquela “gaja”, bíblias, igrejas e depois aquilo das cassetes” “ Depois estão sempre a dizer é tudo muito complicado, muito complicado e nunca sabemos a razão dos comportamentos, do porque é complicado”. “ Só se for para dizer como são frágeis as relações entre as pessoas.”

Vou por aí. Foi o que me ficou, algum desencanto que advém da monotonia das nossas comuns vidas, ainda que à noite, fora de horas, em frente à cama de um moribundo depravado, se vista a pele de bacante para ficcionar outro ser. Algum desconcerto perante a atitude jovem pura, em jogo de engate nocturno, escandalizada com o deleite do irmão, entradote, em frente aos vídeos oferecidos pela casta colega de trabalho.

Está bem. Talvez seja por aí que Alain Resnais nos quer levar, trocando-nos as voltas, não nos dando nada em troca, a não ser o espectáculo comum da precaridade das nossas vidas e dos nossos amores: tudo se faz e se desfaz num ápice.

Confesso que não percebo bem o louvor dos críticos.

De notar que Resnais faz este ano 86 anos.

Monday, April 14, 2008

cinema caseiro

...ainda hoje sem eco de ontem e com eco de ontem: Apocalipse Now - o filme. Revi-o ontem à noite depois de ter lido há pouco "Coração das Trevas" de Conrad. Inevitavelmente voltou hoje à mesa do jantar e pós jantar, misturado com educação, filosofia, maneira de viver, coerência...
No seu melhor porque também um filme dos melhores!

a pianista

Ela é a pianista. Penso... não encontro outra ao vivo. Ela duas vezes: no Coliseu há uns cinco anos e ontem na Casa da música, por ocasião do quarto aniversário. Ela, na mesma. Ela diferente dos outros: pequena diva, efémera, volátil, até ao momento em que se senta e domina o piano e a partitura e nós com ela, poderosos também. Ela é poderosa e subtil, ela é leve e presente, ela quando pára pára e fica o silêncio, que não é silêncio porque é música antes e música a seguir. Ela toca notas que se soltam como pérolas no ar, notas soltas, pedras preciosas que se perdem e nos prendem. Qual foi mesmo o último extra? Eu, inculta, não sei. Mas decerto algum Chopin qualquer com o violoncelo por companheiro. Nele soltaram-se as pedras preciosas que guardei no meu bolso para recuperar na monotonia do dia- a -dia.
Maria João Pires, ontem à tarde, na Casa da Música, por ocasião do quarto aniversário com Pavel Gomaziakov, no violoncelo.
Espero as críticas dos críticos, mas para mim chegou e sobrou para armazenar. Gostei também do décor: a mesa e as velas a arder e o jarro com água.

Sunday, April 13, 2008

acordo ortográfico

Há temas que arrumo, talvez por preguiça ou porque são demasiado pesados para nos metermos neles a sério. O acordo ortográfico está nesta categoria. Hoje de manhã no entanto ele entrou na minha cabeça através do debate da antena 2. É realmente um tema pesado, complexo e que, egoistamente, não me interessa muito, porque vou poder continuar a escrever como sempre até ao fim dos meus dias.

Mas intuitiva e superficialmente acho um verdadeiro contra-senso. Porque criar regras exteriores para uma língua viva? Porquê a necessidade de formatar situações que estão em mutação? Porquê o medo à mudança e à invenção? Alguma vez as diferenças ortográficas foram impedimento a que lêssemos Jorge Amado, Machado de Assis, Clarice Lispector e outros? E escritores como Mia Couto respeitam que acordo?

Como dizia Maria João Seixas é inacreditável como se vai gastar imenso dinheiro para implementar o acordo, quando nunca se fez nada para promover, desenvolver e cultivar a língua portuguesa. Disso é exemplo a actividade do Instituto Camões.

Somos assim em tudo ( este somos não sei se refere aos portugueses ou aos humanos) é-nos muito difícil defender por dentro, defender evoluindo, criando, sem medo de ser revolucionário, sem medo da mudança. Somos essencialmente conservadores e precisamos de regras ainda que seja para as transgredir a todo o momento: a regra e a transgressão fazem parte do mesmo mundo conservador – são as duas faces de uma mesma moeda.

Saturday, April 12, 2008

Toalha de chá



No passado domingo quando cheguei a casa dos meus pais vi esta toalha na mesa. Era a toalha do chá bordada pela minha Avó Sílvia. Lembro-me de ela a bordar: escolhia o tecido, o desenho, passava-o a papel químico, escolhia as linhas e as cores e depois iniciava a tarefa. Esta é bordada com "perelé" ( não tenho a certeza se é assim que se escreve mas é assim que se pronuncia). Foi com a minha Avó e com a minha Mãe que aprendi a bordar. Bordava paninhos para lhes oferecer nos anos e elas faziam anos seguidas: a Mãe a 19 de Março e a Avó a 21. O da Mãe era instruído pela Avó e bordado às escondidas para ela não saber e o da Avó ao contrário. Vejam o meu drama: tinha que bordar ao mesmo tempo dois paninhos, às escondidas e sem contar nada às instrutoras, que eram parte interessada.
Gostei de rever a toalha e achei-a lindíssima!

Thursday, April 10, 2008

silêncio

Há dias em que o silêncio é de ouro.
Mas o que é o silêncio? Neste caso são apenas ruídos ou músicas ao fundo não provocados por mim nem pela minha vontade.

Tuesday, April 08, 2008

lilases com filetes de polvo


Lilases. Os lilases são flores de arbusto que florescem na primavera. Têm um cheiro intenso. Associo-os ao domingo de ramos, quando os colhia dos lilaseiros de casa dos meus pais para os oferecer à minha madrinha, que era a minha Avó Mimi. A Avó Mimi gostava de lilases. Em minha casa tenho este pé que veio de casa dos meus pais. No domingo trouxe outro rebento, de um lilaseiro branco, para plantar no meu jardim.
PS: hoje fiz um jantar óptimo: filetes de polvo com arroz do mesmo. Que me desculpem os restaurantes e o meu querido irmão, excelente cozinheiro, mas os meus estavam mesmo muito bons. Filetes de polvo devem ser panados com pão ralado, como sempre se fez lá em casa.

Monday, April 07, 2008

Capela de Quebrantões


Obra datada ou obra intemporal? À intemporalidade aspiram as grandes obras de arte: o parténon não tem tempo, o panteon não tem tempo, o Guggenhein de Nova York não tem tempo...
Outras obras têm tempo, mas não são datadas, isto é: o tempo passa e não se desactualizam, mas são presentes, sempre no presente.
Esta capela de Quebrantões é assim, é desta categoria: não se desactualiza, não tem por onde, porque tem pouco desenho, mas é matéria, é quase só matéria: o peso da madeira, a transparência do vidro, os rasgamentos das aberturas, o peso do betão,... e nela sentimo-nos gente!

Saturday, April 05, 2008

José Fernando Gonçalves




Foi muito compensador o passeio de hoje de manhã. Diziam-me que talvez tivesse sido a melhor visita da Cultour: à capela mortuária, casa dos escuteiros e capela de Quebrantões em Oliveira do Douro. Lá no site da Cultour, estarão disponíveis fotografias e testemunhos. Para já, aqui esta pálida ideia, de três obras maduras, profissionais, vividas e bonitas de um arquitecto muito bom.
José Fernando Gonçalves brindou-nos com a sua sabedoria e descrição tão pouco comuns nos tempos que correm. Obrigada.

Thursday, April 03, 2008

retornadas


... finalmente encontrei-as, perdidas no lixo com outro nome imposto!
As de um fim de semana de retorno ao ambiente de infância ( se bem que com as evidentes marcas da contemporaneidade)... para recordar novamente.
...

Tuesday, April 01, 2008

muros I



... de xisto e granito, na cerca do adro da igreja de Meijinhos!

Sunday, March 30, 2008

Fim de semana



Não era nada disto que tinha programado escrever. Mas depois de uma odisseia à procura de imagens de um passeio perdidas no computador, vísiveis em formato pequeno mas inacessíveis, perdi tuda a frescura e a paciência para mais. Uma pálida imagem de Melcões por entre os castanheiros despidos.

Thursday, March 27, 2008

Evocações

Antes de começar a trabalhar ( em verdade já comecei) gostaria de ligar três factos/pensamentos: a propósito da data de nascimento de Rostropovich ouvi a Sarabanda da suite nº 5 de Bach, que me fez lembrar Bergman e outra Sarabanda em tarde luminosa passada em Lisboa na primavera de 2005. Bergman e Rostropovich morreram o ano passado.
Antes ouvira o delicioso assobio de Andreas Scholl. Já me tinham dito que ele assobiava, mas eu ainda não tinha ouvido.

Sunday, March 23, 2008

Igreja de Santa Maria




O domingo de Páscoa terminou no Marco. A porta da Igreja de Santa Maria abriu-se para deixar entrar um rasgo de crepúsculo na nave. As cruzes do compasso recolhiam. Dentro a parede grávida recolheu-nos no seu conforto. Foi a primeira vez que assisti a um ofício nesta igreja. Hoje na companhia de arquitectos que fizeram a dupla experiência: crentes (ou não) celebraram a ressurreição e absorveram os múltiplos significados da obra. Cá fora alguns foguetes iluminaram a noite.

Páscoa


Páscoa... também à mesa.

Saturday, March 22, 2008

Ovos da Páscoa



Desde que me conheço são estes os nossos ovos da Páscoa. Nunca foram de chocolate, sempre foram ovos de gema e clara. Sempre foram tingidos desta cor, com cascas de cebola. Sempre os partimos nas cabeças uns dos outros. Eram só de uma cor, sem desenho, quando eram feitos pela R. e passaram a ter estas folhinhas quando a outra R. se lembrou, um dia, de lhes colar salsa à casca. E agora são assim. A nossa Páscoa, cá em casa e em casa dos avós, só faz sentido com estes ovos bonitos.

Frésias


Frésias. Flores que acompanham a Páscoa de cheiro intenso e fino. Há-as de várias cores: vermelhas, amarelas, liláses. As de casa dos meus pais são estas. Esta, por acaso já é de minha casa. Vieram num vaso que trazia outra planta e os bolbos das frésias também lá estavam. Depois ficaram e desdobraram-se. Agora já são alguns pés, não muitos.
São as que eu mais gosto, pequenas, delicadas de desenho, mas fortes e resistentes ao tempo, com um cheiro intensíssimo e cores suaves.

Friday, March 21, 2008

Dia Mundial da Poesia III


aqui: silêncio

Dia Mundial da Poesia II



... foi deste modo em Santo Tirso!
(Ouça-se um poema atrás da imagem, neste caso "Ode ao pão" de Pablo Neruda, dito por Mário Viegas.)

Dia mundial da poesia

A ausência de voz humana envolve os sons matinais e concebe o meio fértil para a colher a poesia.

Antes de ir passear a Santo Tirso, onde com ela se convive na rua, deixo este ofício (de poeta) de António Osório, este ano lá homenageado.

Ofício

Armazenar sofrimento.

Distribuí-lo depois
límpido.

António Osório; Casa das Sementes

Thursday, March 20, 2008

Jantar de aniversário


...e a ementa foi: sável frito acompanhado com açorda feita com as milharas do mesmo! Óptimo, sublime, discreto e distinto no "tradicionalmente"!
O bolo de laranja, feito pela neta mais velha, comparou-se-lhes.
Jantar para comemorar os belíssimos e argutos oitenta anos de uma das Avós.

Monday, March 17, 2008

A minha mãe


Não temos por hábito por fotografias nossas aqui. Esta já foi há muito tempo, já não somos assim. A minha mãe tem muitas estórias, como lembrar-se sempre da roupa que vestiu em determinados dias especiais, ou como se rir com certas palavras estúpidas, até como lhe darmos mimos e ela empurrar-nos subtilmente com o braço e virar-se para o outro lado. A minha mãe faz bolos nos dias seguintes a noites do piorio. A minha mãe ri-se das desgraças. A minha mãe só pensa na piscina e no ioga. Eu e o meu pai não temos mão nela. Às vezes, a minha mãe "empequenece", com uma toalha do banho na cabeça e a cara dorida, e eu não sei muito bem o que fazer. E eu gosto muito da minha mãe. E ela muito de mim.

Sunday, March 16, 2008

Domingo de Ramos

Chegou a máquina fotográfica e a primeira fotografia escolhida é a do "ramo" da minha afilhada - feito árvore no jardim.
Uma japoneira branca, árvore histórica, importada do oriente para os nossos jardins ocidentais.

Saturday, March 15, 2008

A maestrina

Regressei à Casa da Música para ver e ouvir a ONP interpretar com o Coro da Faculdade de Letras Bach e depois sozinha a 1ª Sinfonia de Mahler, dirigidos por Joana Carneiro.
Conhecia-lhe a cara de olhos grandes e expressivos, o cabelo liso e a sua fala viva - uma mulher muito interessante. Ontem vi uma maestrina enérgica, elegante que em cada gesto excedia o próprio gesto. Frente a uma orquestra imensa, de múltiplas cores e sons, ela impunha-se com a sua leveza e emotividade. Tudo ligava.
Será esta a diferença entre uma mulher e um homem a dirigir uma orquestra: Joana Carneiro entrega-se e eleva-se em movimentos redondos e precisos sem pesar no chão - é energia pura, feita "gente".
Com Bach, eterno, celebramos a eterna páscoa. De Mahler a recordação da infância quando reconheci uma das sinfonias preferidas do meu pai - muito onírica, muito colorida, muito saltitante e ao mesmo tempo com o lado sombrio e fúnebre que sempre acompanha o autor.
Gostei

Wednesday, March 12, 2008

Muros

Enquanto espero pela máquina fotográfica os meus olhos "fotografam" vezes sem conta... muros! Os muros e as árvores são a minha paixão. Conheço muitos, especificamente: aquela pedra, aquele desmoronar, aquela reconstrução: os de xisto, os de granito, os de granito e xisto, os rebocados: com remate côncavo, largos, pesados, mas de pedra solta: os que suportam condutas de água, os que têm aberturas, como janelas, ou ameias, os que são encimados por esteios que suportam ramadas, os que...
Quando tiver a máquina fotográfica, promoverei neste blog!

Sunday, March 09, 2008

Jardins & fotografias


A mãe estava a falar dos cantos do jardim: aquele lá em cima, encostado ao muro da casa do tio; este aqui no pátio, com azálias, tulipas e folhas de diospireiro. Estava a falar que é bom ter uma máquina para fotografar estas coisas. Eu disse que a máquina fotográfica é para se guardar as coisas boas do dia. As coisas boas do ano. As melhores coisas. Eu tenho uma máquina para isso. Maria, a tua vem a caminho. Entretanto, troca flores com a avó.

Saturday, March 08, 2008

No Country for old Men - Joel e Ethan Coen

Vamos lá fazer o exercício retrospectivo que me faz encontrar o sentido de alguma coisa. Neste caso de “No country for old men”. Saí de lá completamente vazia. Sem saber o que pensar: um filme inverosímil – não é possível matar assim sem ser apanhado e sem sequer ser perseguido !-, um filme sem moral e sem lei, sem justiça, em que a sequência fria das mortes vai dolorosamente perdendo significado. Um bom filme, excelentes imagens, excelentes sequências, um western actual, um road movie. Pode tudo fazer sentido, mas para quem não é um profissional do métier, dispensável, prescindível. Não me parece que tenha ganho grande coisa com esta ida ao cinema.

mal estar

A mega manifestação dos professores provoca desconforto. Independentemente de qual o lado da razão, se é que ela existe, não posso deixar de me sentir insegura perante o que se antevê venha a ser esta manifestação.
O país está doente há já muito tempo. Um difuso mal estar -como reflectem com lucidez alguns. Mas sinto que não é apenas Portugal ( J. desafava sentado num banco de jardim em Madrid que os espanhóis são piores do que nós). Para onde fugir? Não há fuga possível a não ser dentro de nós e com aqueles que nos são próximos. Criar contra-poder, resistir, conta-minar viver o lado sério e bom da vida e simplesmente encontrar a paz a olhar para o sol que banha as árvores na proximidade da primavera.

Até sempre.



Porque ando nisto das mortes, na universidade. E porque isto é muito bem feito, apesar de custar imenso ver. E porque tem os arcade fire. E porque a optimus já não é o que era.

Thursday, March 06, 2008

comboios

O meu Avô, aquele gostava de relógios e tangerinas também gostava de comboios.

A casa, que se tornou dele quando casou com a minha Avó, é o “Paço da Marquesa” casa do séc. XVIII, que se foi transformando ao longo dos tempos e subdividindo em diversas fracções e funções: era na Rua Cimo de Vila e dava para as traseiras da estação de São Bento. O meu Avô sabia o horário dos comboios e ia frequentemente esperar a sua chegada à estação. Não ia esperar ninguém, ia simplesmente esperar o comboio e conversar com o chefe da estação e com o pessoal da CP. Aliando a paixão pelos relógios e pelas horas certas à dos comboios, determinava exactamente cada atraso na chegada.

As viagens para a Lamego eram feitas, até à Régua, de comboio. Obrigava a comitiva a estar na estação com meia hora de antecedência, para proceder calmamente à arrumação dos “volumes”: pacotes contados, para não se perder nenhum na viagem. Nestes contavam-se pelo menos um gato e um canário. Como seria de esperar há imensas peripécias à volta do transporte destes animais, que enjoavam, caíam da prateleira, mas sobreviviam sempre às quatro horas em trânsito. O meu Avô gabava-se de uma vez ter feito atrasar a saída do comboio, não por sua causa, mas porque esperava uma encomenda que se atrasou por qualquer razão circunstancial.

Havia também aquela figura dos carregadores, que transportavam as malas e tinham um número que os identificava: na Régua o arrumador da família era o 4.

Estas viagens duraram muitos anos, desde que o meu pai e as irmãs eram ainda filhos até às últimas já feitas com os netos: nós, os quatro irmãos e os meus primos.

Tuesday, March 04, 2008

_______________________

"Foi um momento funesto, porque na dobra não reside só o segredo do nosso destino, das forças que nos reduzem a pó sem nosso consentimento; aí reside igualmente o segredo da nossa origem , das forças que nos puseram em movimento, e nos dotaram para a acção. O homem foi lançado para sonhar esse destino e continuar o sonho da espécie viva. Mas acontece que o Filho do Homem não acreditou integralmente no seu sonho. Revelou-se incapaz de lhe dar corpo ao ponto de este poder integrar fisicamente também a espécie viva."
MGL, Finita
"Em toda a forma há vida e movimento, compreensão e projecto, percepção e sensibilidade."idem
Com as suas palavras vivo o meu luto hoje - nela... talvez que reencontre na dobra do destino o sentido do projecto vivo.

Monday, March 03, 2008

Maria Gabriela Llansol

Entrei no carro à uma da tarde e ouvi a notícia da sua morte. Disse alto "Oh!" quem ouviu não entendeu. Todo o dia vagueei, como peixe fora da água, talvez porque, pelas (t)suas mãos, me tenha sido aberto outro mundo, onde eu ando às vezes, mesmo parecendo que ando por cá.
Far-me-á falta ... fica a sua palavra.

Sunday, March 02, 2008

voltas de um texto

Hoje ao almoço, na mesa familiar, a minha mãe contou que tinha ido à loja - designação que dávamos à Casa Coração de Jesus onde o meu Avó passou a sua vida - e que a minha prima lhe mostrou um texto que tinha tirado da internet sobre o meu Avô: sobre a sua predilecção por relógios. Dizia a minha mãe: "Acho que foi escrito pelo Leonel", o primogénito dos netos a quem, ainda hoje, se atribuem múltiplas virtudes. Desliguei. Agora à noite, vinha para casa a pé e tive um lampejo de memória: acho que fui eu que escrevi aquilo. Cheguei e procurei aqui: o texto apareceu sob o título: os relógios do Avô.
O mundo dá voltas e o texto também andou a voltear até chegar às mãos da minha mãe na loja do Avô.

Juno de Jason Reitman

O que achei interessante no filme: como um tema que é pesado, complicado (haja em vista as polémicas e fricções geradas à volta da lei do aborto) é tratado de uma forma tão "leve" - completamente fora da convenção. Às vezes parece que tudo vai resvalar para a convencionalidade, que a história se vai transformar e haverá bons e maus, bonitos e feios, amores e paixões extraordinárias, madrastas megeras, pais fechados, filhos incompreendidos, maternidades difíceis.
Mas é por dentro de uma jovialidade permanente, de um bom humor discreto que somos transportados suavemente nesta história e postos à prova nas nossas próprias convenções.
Resta-me uma dúvida: quais os efeitos do filme na geração retratada? Será que eles percebem a subtileza do discurso sem se desresponsabilizarem?

Tuesday, February 26, 2008

infinitamente

A noite chega e nada importa. O dia passou entre esperas, compras, cozinhas, textos, filas de trânsito, o dia passou

Nada importa, porque a vida está muito para além disso: está no espaço que a gente consegue abrir dentro de nós – sempre o espaço e o tempo –

A respiração é suave e completa embora o ar não seja puro… mas será também esta a nossa condição,

não importa – tudo depende do espaço que conseguimos criar cá dentro. O infinito, o infinitamente pequeno, contraditoriamente - infinito e pequeno - por isso infinitamente grande.

Monday, February 25, 2008

Caranguejos

Comentava hoje à hora de almoço que um dos nossos (portugueses) principais problemas é que queremos um emprego para toda a vida, uma casa para toda a vida, um marido ou uma mulher para toda a vida---- com isto somos incapazes de aceitar desafios ou correr riscos e cedo "calçamos as pantufas".

Sunday, February 24, 2008

A Magnólia

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.


Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria – na metáfora -

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e se resvala.


A Magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exilado aroma

perdido na tempestade,


um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.


Luísa Neto Jorge

Poesia, 1960-1889



Ainda porque as magnólias enquadram os nossos dias de inverno.

Saturday, February 23, 2008

magnólias

As magnólias já lá estão. Depois do apelo de Graça Dias, traduzido no semanário de maior tiragem no país, choveram as magnólias para o pátio da Capela Mortuária de Santa Eulália, em Oliveira do Douro, projectada por José Fernando Gonçalves. Ainda pequenas, esgueiram-se para o céu e mostram as pétalas brancas e oxidadas caídas de dias no relvado. Era assim que as queria o arquitecto: pétalas brancas, puras que morrem no chão, na terra, para descanso dos olhos dos que enterram os seus mortos. Símbolos, simples e despretensiosos que nos agarram à vida nas horas de viver outras mortes.

Foi deste modo que hoje de manhã as conheci: a capela mortuária de Santa Eulália e a Capela de Quebrantões. Na pacificidade conquistada aos subúrbios, estas obras levantaram um turbilhão de perguntas e de reflexões: sobre a arquitectura, sobre o exercício da profissão, sobre as cidades e os subúrbios, sobre a morte e sobre a vida…em sábado de manhã.

No próximo dia 5 de Abril a Cultour vai com o arquitecto reconhecer estes lugares.

Sweeney Todd




Eu até nem gostava muito do Tim Burton. Eu até nem gosto muito de sangue. Eu até não gostava nada de musicais. Eu até fui convertida até às unhas e cabelos. E quero só que vão ver o filme por favor, que ele é mesmo muito bom. E os actores também.

Thursday, February 21, 2008

intimidade

" Conie ficou a pensar: "Intimidade completa! Deveria querer dizer contar tudo à outra pessoa e a outra pessoa contar tudo também. Como deveria ser cansativa e doentia uma ligação em que cada um fosse capaz de se esquecer de si." O Amante de Lady Chaterly; D.H. Lawrence
Omitir é faltar à verdade? A intimidade implica contar tudo? A fidelidade implica abdicar da nossa intimidade pessoal?Até que ponto é importante a realização individual para o bom relacionamento a dois ou mesmo em grupo? Na actualidade este pensamento de Conie universaliza-se, no bom mas mais no mau sentido: no sentido egoísta, da desresponsabilização, na falta de investimento na verdade das relações.

Wednesday, February 20, 2008

descansos

Este novo look exerce sobre mim alguma atractividade. Embora não tenha tempo nem disposição para me pôr a filosofar, apetece-me chegar ao fim do dia e descansar os olhos na luminosidade do amarelo sobre o fundo negro... e daqui partir para outros mares.

Monday, February 18, 2008

TED - ideas worth spreading



TED

TED é um conjunto de conferências de download gratuito com as pessoas mais interessantes à face do globo. Há de tudo e do melhor. Como se tivessemos convidado os nossos amigos mais inteligentes para jantar. Para adquirir conhecimento, para manter o cérebro a trabalhar.

Sunday, February 17, 2008

novidades


O conta-mina mudou.
Deste modo ganhamos um novo alento para continuar com o mesmo conceito:
“Contamina - de contaminar; aquilo que contagia; por contacto ou por ideia; alastra...”
Sem preconceitos e sem pretensão: apenas para testemunhar a vida, feita de filmes, de livros, de pensamentos, de exposições, de viagens, de trabalho.
Mas sempre em volta da arte.
Afinal o que é a arte? – a não ser esta acentuação vital que nos move para a procura da luz?
O preto no fundo é uma opção prática pela poupança energética.
Com a mudança apostamos também na vossa fidelidade.


Wednesday, February 13, 2008

Guiding- architects

É muito bom viver uma cidade de outro modo. Ainda que por poucos dias, fui reconhecer Roma do lado do utilizador, em trabalho... mas trabalho com prazer. As sessões de trabalho decorreram muito próximo do Panteão, na Praça do Colégio Romano no magnífico palácio Doria Pamphili. Daí percorremos as ruas próximas para inesquecíveis confraternizações à mesa. Destaco os Ristorante Maccheroni, na Piaza delle Copelle, a Enoteca Corso, na Via del Gesù e o Da Albino - il sardo all'angoletto na Via de la Lucce em Trastevere. A luz de Roma no Inverno é magnífica! O Campidoglio ao anoitecer, recortado no magnífico azul escuro do céu, onde os estorninhos pouco antes tinham executado graciosas danças, é inolvidável...
Sem máquina fotográfica recordarei apenas com a memória este fim de semana.
Foi o encontro anual dos Guidings-architects, este ano em Roma.

Friday, February 08, 2008

!!!

Hoje, contra o costume a televisão está ligada. Está a emitir aquele concurso, "Quem quer ser milionário?" À pergunta " Em 2005 os alemães elegeram uma mulher para chanceler, quem era?" Respostas possíveis: Leni Riefenstahl; Golda Meyer; Angela Merkel e outra qualquer evidência de que me esqueci. Diz a concorrente: " Não faço a mínima ideia." Recorreu à ajuda telefónica. Diz do outro lado perita escolhida " Diz, diz: eu acho que é a Angela Markel. Eu acho..."

Sunday, February 03, 2008

Candelária

"Candelária a rir o inverno está para vir.
Candelária a chorar o inverno está a acabar."

Hoje é dia da Senhora das Candeias. A Candelária está a rir: um dia de sol intenso e céu azul: o inverno está para vir.
Desde que me lembro, sempre este provérbio serviu para aferir o futuro, pela boca da Sr.ª Rosalina e agora pelo meu hábito em lembrá-la.

Saturday, February 02, 2008

PM

Preciso de escrever sobre a polémica à volta de Sócrates. A nova polémica que confirma cada vez mais a intuição de que os valores do país se estão a mudar para muito pior.

Independentemente da maneira como O Público pega no caso, que é evidentemente na perspectiva da caça às bruxas, o que é certo é que a conduta do PM é bem representativa do nosso comportamento em sociedade. O que interessa é estar legalmente limpo e não moralmente. O que interessa é que Sócrates não recebeu dinheiro pelas actividades que exerceu e não o modo como as exerceu. O que interessa é que Sócrates afirma que é autor dos projectos que assinou e não a (não) qualidade dos projectos que assinou. O que interessa é que, quando ele era responsável pelo alvará de uma empresa de construção civil, o Instituto da Construção e do Imobiliário ainda não tinha recusado o seu nome, por lhe faltar o certificado de habilitações e não o facto de ele saber que não poderia fazê-lo sem ele.

Quem é este Primeiro Ministro de aparência tão correcta? O que mais se esconde por trás dela? Ou será que esta conduta é actualmente tida como correcta? Que o interessa é ter a papelada em dia e as desculpas encadeadas para se viver na aparência de que se é correcto.

Thursday, January 31, 2008

outrora agora

" Fui-o (feliz) outrora agora" este verso de Fernando Pessoa, ou de um dos seus heterónimos ( perdoem-me os meus amigos mais eruditos) persegue-me e acompanha-me.
É bom ter a capacidade de ser feliz outrora agora. Ler o passado com os olhos crentes do presente, dar-lhe outras matizes, se for o caso, e recuperar com a memória o sentido e a alegria de viver. Sabedoria do tempo, coloratura do tempo... o tempo cura, o tempo engana, o tempo transforma, o tempo...
Qual de nós não olha sorridente para as lágrimas do passado que se transformam em condescêndencia e nostalgia?

Wednesday, January 30, 2008

ah - cd mix




telepopmusik | brighton beach
lykke li | little bit
cocteau twins | half-gifts
uh huh her | explode
telepopmusik | close
bonobo | silver
i love you but i've chosen darkness | long walk
uh huh her | run
cocteau twins | heaven or las vegas
brian eno | an then so clear

bardi & noemi | dream
stephanie dosen | way out

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Monday, January 28, 2008

Sunday, January 27, 2008

Pavilhão Multiusos de Gondomar


O Pavilhão não usa materiais nobres, tecnologias sofisticadas ou soluções construtivas inovadoras. É na humildade demonstrada que se releva a grandeza do projecto. Siza usou chapa pintada e caixilhos de série, blocos acústicos aparentes, monopavimentos, rebocos projectados e é com esta matéria que articula o gesto, livre mas consciente, que unifica o projecto e que o interliga com o resto da sua obra.

Siza o arquitecto que já ganhou o pritzker, o meu ídolo arquitectónico, que me habituou a granito, mármore, madeira; que me habituou a programas nobres, bibliotecas, museus, escolas, lazeres; tem neste pavilhão a humildade de usar materiais feios, com pormenores em série de desenho duvidoso, sem que isso afecte a qualidade e o empenho do seu desenho. É também a particularidade do programa: este é um programa difícil porque é um programa múltiplo. Grandes contentores com a obrigatoriedade de se encherem com múltiplos conteúdos e com a ambição de todos acolherem funcionalmente bem. Tarefa díficil e talvez impossível, mas sinal das necessidades contemporâneas.

Outra das reflexões foi gerada na sala de treinos, onde a sensação de clausura é reforçada pelas suas qualidades acústicas. A ausência de reverberação confunde a percepção da dimensão do espaço. A propagação do som dá-nos a medida do espaço. Aqui a ausência de eco fecha-nos sobre nós. Talvez não seja boa para a prática desportiva mas é, sob ponto de vista formal, um objecto notável.

Tuesday, January 22, 2008

Tangerinas

Quando eu era miúda os meus avós paternos moravam no Porto. Ao fim de semana, ao sábado ou ao domingo, vinham primeiro de autocarro e depois de eléctrico, passar a tarde à Maia. A razão da mudança de meio de transporte deveu-se ao lugar da entrada: o autocarro, o L, partia do cimo da Avenida dos Aliados e o eléctrico, o 7, partia da Praça da Liberdade. Os meus Avós moravam na rua Cimo de Vila, nº 25. A minha Avó andava mal, porque tinha bicos de papagaio, por isso custava-lhe subir a avenida e então começaram a ficar pelo 7. Esta opção implicava que o meu pai os fosse buscar à Ponte da Pedra por volta das duas da tarde, quase sempre acompanhado dos filhos ou pelo menos de alguns (somos quatro).

O Avô chegava e, nesta altura do ano, fazíamos uma digressão até à tangerineira que ficava ( e fica ainda agora já velhota e pouco fecunda) à beira do tanque de cima. Nós parecíamos macacos a correr nas bordas do tanque ou a trepar aos ramos para lhe colher as tangerinas com que ele se deleitava. Tangerinas, laranja claro, redondas e achatadas, de sabor agreste, ligeiramente doces, que espirram abundantemente quando se descascam… tangerinas que ainda hoje existem e me chamam à casa da minha infância.

O ritual terminava na sala de jantar quando a minha mãe ia buscar o "aparelho" para medir a tensão aos avós. Nós ficávamos em obrigatório silêncio à volta da mesa a observar o acto. Em silêncio mesmo, para a Mãe ouvir bem o bater do coração, primeiro da Avó e depois do Avô. Quando chegava a vez do Avô, a Mãe media uma vez e não dizia o resultado. Dizia antes: "Vamos lá a acalmar Papá!" À segunda vez os parâmetros baixavam um ou dois pontos e então a minha mãe lá comunicava o resultado ao qual juntava alguns conselhos saudáveis. Depois media-nos a nós com aquela mistura de paciência e ilusão que só as mães sabem usar.

Sunday, January 20, 2008

Expiação

Gosto de escrever sobre o que vejo e ouço sem ler a opinião dos críticos previamente. Esta é uma outra leitura, a leitura do público não especializado, a leitura do espectador amante de cinema, de música, de literatura, de pintura ou de escultura ou de… qualquer forma de arte. Arte aqui entendida como modo de expressar sentimentos e emoções através de manifestações no tempo e no espaço.

Assim será com o filme que hoje fomos ver “ Expiação” de Joe Wright. Não vou, pelas razões expostas, falar do filme como objecto fílmico. Vou falar daquilo que, ainda muito fresco, me impressionou. A cena em Dunquerque, um passageiro contra corrente, observador anestesiado do espectáculo decadente da guerra. Uma vítima da guerra e a guerra vista de outro modo, sem a coerência dos actos, mas lida nas coletaridades da vida dos homens que a fazem. Para mim um modo inovador de filmar a guerra. A atmosfera tem qualquer coisa de felininiano, nas cenas, nas filmagens, nas cores, nas personagens. Depois todas as outras interrogações bem vivas na pequena mas fulgurante intervenção de Vanessa Redegrave: o que é a verdade? De que vale a verdade? Os múltiplos modos de ler a realidade e o modo como uma leitura, verdadeira aos olhos de quem a lê, condiciona o curso da vida e como se transforma ao longo dela. A realidade da ficção, a redenção (expiação) pela ficção.

Parece-me que, não fosse alguma imaturidade no tratamento destes temas, traduzida em excessos de tempo e de imagem, ou cedência a alguns clichés e o filme seria um daqueles que eu elegeria para o patamar dos favoritos. Da música não gostei nada.

Monday, January 14, 2008

Adega Maior

Acabei de escrever três pequenos textos sobre obras de Siza. Partilho um deles:

Adega Maior – Campo Maior – 2003/2006

Fixar o edifício na paisagem aberta e imaculada do Alentejo constitui o primeiro desafio para o arquitecto. Foi preciso encontrar, através da leitura sensível e premonitória de que talvez só ele seja capaz, o “acidente” que determina o local certo para pousar o objecto estranho: estranho à cor, estranho à forma, estranho às culturas e construções locais. É o cruzamento de dois elementos artificiais construídos pelo homem, uma estrada e uma escavação, que dita a localização do edifício.

É uma adega, programa funcional decorrente da actividade agrícola local. A conjugação de espaços com características formais e funcionais específicas permite a articulação de escalas que, se exteriormente afirmam claramente o edifício na paisagem, internamente constroem uma sucessão de espaços sombrios e recolectores, como convém à função e à agressividade climática.

A cobertura verde e com um plano de água acentua o oásis na aridez crua da paisagem.

Sunday, January 13, 2008

manhã de chuva

Com o vento veio a chuva. A manhã foi chuvosa: muita chuva, muito vento, convidam à reclusão.
A imagem gráfica que associo a este estado de introspecção profunda, é a de corpos a devorarem-se a si próprios, voltando-se do avesso, com muitas cores. A esta introspecção associo as cores e as formas da cultura pop, talvez para atenuar ou tornar mais lúdico o acto que assim descrito poderia parecer tenebroso.
A chuva parou - mas atmosfera densa mantém-se - o interior dos corpos permanece visível na impossibilidade do desfrute.

6ª Sinfonia de Bruckner

De Bruckner, a 6ª sinfonia. Gosto de Bruckner. Fui-o descobrindo ao longo dos anos, através de bocados que ouvia no rádio e de textos sobre a sua controversa apropriação pelo nazismo. Hitler venerava Bruckner. Comprei um CD com a 4ª sinfonia dirigida por Otto Klemperer. Hoje fui ouvir a ONP que foi capaz de me fazer arrepiar, sobretudo no segundo andamento. O mistério dos segundos andamentos, ou de como os lentos perturbam os melancólicos. As cordas num só som, contínuo e sombrio, que nos envolve como uma teia da qual não nos conseguimos desprender, eco dos nossos sentimentos mais intensamente mornos e doces.
Na Casa da Música às seis da tarde, a ONP dirigida por Emilio Pomàrico.

Thursday, January 10, 2008

Pavilhão Multiusos de Gondomar

Ainda que correndo o risco de cruzar universos, deixo aqui o link para o site da Cultour, www.cultour.com.pt que programa para o dia 26 de Janeiro uma visita ao Pavilhão Multiusos de Gondomar. Não será o lugar próprio para fazer publicidade ao meu projecto Cultour, mas quem me conhece sabe que não vendo banha da cobra e por isso estou à vontade para dizer que penso que vale a pena. Eu também vou, como espectadora, ver uma obra de Álvaro Siza, por dentro - ele é o meu ídolo, como arquitecto!

Tuesday, January 08, 2008

quando acontece

Muitas vezes acontece. Quando acontece, eu tenho capacidade de o ler, às vezes. Outras vezes, leio sempre dois factos, antes e depois, mas não sou capaz de os relacionar. Sempre foi para mim um enigma e um objectivo conquistar a capacidade de leitura complexa, que sobre vem ao raciocínio relacional. Mas há coincidências evidentes. As mais das vezes, as que consigo ler, derivam da música.
Ontem de regresso a casa, mergulhada em raciocínios complexos, num automóvel com a lotação completa, já noite e com chuva, liguei o rádio e mergulhamos todos nos acordes do segundo andamento do concerto em sol, para piano de Ravel.

Saturday, January 05, 2008

pequenos poderes

Muitos dos pequenos poderes constroem-se através do sonegar de informação. Deste modo as pessoas tornam-se imprescindíveis e não permitem que o seu trabalho seja avaliado.

Na função pública instituem-se muitos pequenos poderes que conduzem ao desespero de quem tem a obrigação e o desígnio de decidir e de quem gosta de trabalhar de um modo aberto e participado. Não pensemos que se mudaram muitas coisas após o 25 de Abril! As atitudes continuam a ser parecidas: as pessoas têm as cabeças fechadas, só pensam nelas, gostam de mandar e precisam visceralmente de ser publicamente reconhecidas. Conjugando estes vícios com uma fraca cultura de exercício do direito de manifestação e de participação, o quadro em que se move a função pública é deprimente. Junto ainda uma boa dose de machismo que anda de braço dado com o caciquismo e pronto, temos um dia a dia que só dá vontade de aspirar pelo fim de semana.

Ei-lo finalmente!

Tuesday, January 01, 2008

Paranoid Park de Gus van Sant

Por estranho que pareça foi o primeiro filme de Gus Van Sant que vi, embora até já tenha escrito sobre outros que não vi, de tal forma este realizador é presente na crítica cinéfila e, de acordo com muitos, portador de uma visão sobre a juventude.
Aqui discordo dos críticos: para eles Gus Van Sant tem uma visão jovem, é mais um deles. Fui ao cinema com um jovem de 16 anos, tal qual o protagonista do filme. Gostou, não o inclui entre os melhores filmes do ano, talvez porque o nosso retrato nos é tão familiar que nunca nos passará pela cabeça que possa ser destacado.
Para mim Gus Van Sant disseca com um olhar adulto e perspicaz a adolescência: mas não são precisas palavras, juízos ou conceitos psico-filosóficos: basta uma câmara, a manipulação do tempo e dos enquadramentos, para nos definir a tristeza, a solidão, ou apenas o desejo de vida, que preenche completamente este miúdo e os outros... Nunca o enquadramento está completo no sentido compositivo tradicional, as caras dos adultos quase não existem, os corpos são vistos pela metade a não ser que interesse destacar qualquer parte para a caracterização do todo. Os movimentos tem o tempo manipulado aumentando-lhes a intensidade dramática, as filmagens são muitas vezes feitas sob ponto de vista da personagem, torcidas, insólitas, apaixonantes como nas cenas de skate. Estas cenas são o sonho, a conquista do tempo e do espaço que qualquer adolescente gostaria de experimentar.
Confirmo que mesmo que este não seja um filme para adolescentes é sem dúvida um filme para os adultos limparem a cabeça de muitos dos preconceitos que a enchem... se forem capazes.

Monday, December 31, 2007

paraíso

Há algum tempo que venho iniciando o tempo do menos. Estou sozinha em casa. Nada mexe. O dia está luminoso... os bichos preguiçam de olhos dormentes. Eu arrumo livros e penso... 2008 - o ano do menos. Tirar, retirar, dar, entregar... do que é que preciso? De nada, apenas o essencial para sobreviver, o resto tenho dentro de mim. A terra é congénita. Ao longo de anos fui adquirindo sementes que pus a germinar... espero apenas ser capaz de fazer com que os outros à minha volta descubram o paraíso que possuem também, para que os possamos partilhar. Convido-vos para o meu ________ imaterial.

Sunday, December 30, 2007

ideias para juntar

Para continuar o post da Joana, antes que perca oportunidade, direi que algumas das imagens que vi ontem me perseguíram durante a noite: em sonhos e nos pensamentos que povoam o limbo entre sonos. Tão fortes e tão negras, tão gritantes e tão soturnas, tão suplicantes e tão resignadas. Será isto que nos é dado ver no culminar da vida? Será isto que nos é dado sentir no limiar da morte? Depois de algumas experiências limite, no hospital, no silêncio, no desatino, a pintura que conhecia mudou e resplandece de um vigor insuspeitado... para além da técnica exímia.
Um único senão - alguns fantasmas do passado, desnecessários, que nos distraem o olhar da essencialidade das obras mais recentes.
(algumas coisas fizeram-me lembrar Goya - eu sei que Goya é um dos seus pintores favoritos)
Confirmo que vale a pena ver.

Álvaro Rocha, Estrada de Santiago



Fomos visitar o Avô ao hospital e, depois, fomos visitar a exposição do Avô. São muitos quadros (mais de 90?) e, como sempre, alguns desnecessários. Mas é o Avô que sabemos existir, como se estes últimos anos de pintura, em que sempre se repetiu o mais do mesmo, o tivessem feito desabar nestas coisas novas. Nunca nenhum de nós teve tanta vontade de comprar uns quadros dele. Nunca nenhum de nós suspeitou que por trás do "estou a preparar uma exposição" estivesse este conjunto de quadros tão novos. Vejam-na, está em Viana, no Centro Académico - IPVC, até 13 de Janeiro. Como assinámos no livro, "Boa, Avô!", boa!

Saturday, December 29, 2007

tempo de natal

O tempo de natal é assim: em casa cedo, com dois filhos a bulir. Filmes na televisão com músicas épicas.
Hoje ao almoço encontrei-me com duas amigas: uma queixava-se do dia de Natal em casa dos sogros. Castro Laboreiro, numa aldeia, longe de tudo, segundo ela. Ouvi a descrição com a reserva mental de pensar que era exactamente o que me teria apetecido! A outra, mais próxima, contava que tinha estado em frente à televisão a ver um desses filmes românticos que falam das vidas dos casais. Sózinha no conforto morno de um lar quente, tinha-se deixado chorar. Que bom! Deixar-se chorar com o filme, sem ter que controlar as lágrimas doces...
Ainda não tive a sorte de chorar lágrimas doces neste natal!

Friday, December 28, 2007

Benazir Bhutto

Luto por Benazir Bhutto.
A morte assim mitifica ainda mais a personagem: mulher, prémio nobel, exilada, política, assassinada.
Fiquemos com o mito e glorifiquemos a mulher.

Thursday, December 27, 2007

Monday, December 24, 2007

A nossa história de Natal

De malas e mentes prontas para rumarmos a Viana para passar o Natal com o lado paterno da família dos meus filhos. O Natal estava já composto, imaginado.
Porém um telefonema aflito e atordoado de uma Avó à deriva decidiu a ida precoce. O Avô estava novamente internado no hospital. Ela estava muito confusa e não sabia bem o que se tinha passado. As compras de natal, o bulício, a obrigatoriedade de preparar a consoada em família e a solidão fizeram-na mingar, encolher perante a vida que jorra em catadupas a um ritmo que já não lhe é confortável.
No domingo, antevéspera de Natal sem projectos mas com um destino fixo, fomos a Viana - os quatro. Esperamos a hora da visita para reencontrar o Avô. Os três de cá de casa e a Avó, aqueles que partilham do seu sangue, foram vê-lo. A primeira foi a Joana, recebida por um espantado " Tu! O que fazes aqui?". No dizer deles o Avô está mais pequeno na cama do hospital. Ele vai passar o Natal no hospital.
A Avó recuperá-mo-la. Precisa de mimo, de muito mimo, dizem os netos. Vão buscá-la de tarde para o mesmo Natal, este no lado materno da família dos meus filhos.

Sunday, December 23, 2007

dia de inverno

Linhas rectas, constantes. Linhas quebradas, com pontos altos e pontos baixos, negativos e positivos. Linhas curvas ascendentes e descendentes... apenas linhas que se prolongam no infinito, se conjugam em troços, se encontram em pontos. Não fechadas e por isso não definem polígonos, não representam figuras. Apenas linhas muitas linhas sem cor. Só linhas.
Às vezes gostava de me expressar pelo desenho e pela pintura. As minhas ideias conformam-se em desenhos que vejo no espaço mas que não sou capaz de traduzir no papel ( ou simplesmente não tento). As minhas ideias e os meus pensamentos são essencialmente gráficos.
Hoje esteve um dia de sol óptimo e o Porto ofereceu-se aos meus passos, horas de passos que comeram lentamente distâncias, pararam, entraram, viram, falaram... em muito boa companhia.
Passeio fora dos tradicionais locais de compras de Natal, do Campo Alegre a Massarelos, pelos caminhos do romântico, de Massarelos ao Infante, ao Largo de São Domingos, Rua das Flores, Clérigos, Carmelitas, Carregal, Palácio, D. Pedro V e novamente ao Campo Alegre.
Com o declinar do dia encontrei Handel na Casa da Música, Messias em concerto do Natal.

Thursday, December 20, 2007

Muito bem feito

Embora tenha a sensação que ninguém me liga nenhuma aqui continuo.
Talvez seja a azafama do Natal que ilude vontades e atira as pessoas para histeria colectiva. Todos os anos, ou talvez apenas nos mais recentes, tento fugir-lhe e encontrar um modo calmo de fazer as necessárias compras ou recomposições de prendas que criam o colo para bem estar na quadra... sem ser mal entendida pelos que realmente me são queridos. Estive cinco dias de férias: passeei pelas lojas ( nunca em centros comerciais gigantes), fui ao cinema, fui a Aveiro, li na cama de manhã, fiz sudokus, transportei meninos, fiz bolos, suspiros, salames, gozei os meus pais e os belíssimos cozinhados do meu irmão, fui ao yoga, conversei com amigos e hoje fui trabalhar para amanhã iniciar o fim de semana grande e festivo - muito bem feito.

Sunday, December 16, 2007

Estamos todos malucos?

Este mundo é muito estúpido e assustador. Se começarmos a desfiar a sucessiva lista de disparates o que apetece mesmo é enfiar-mo-nos num buraco. Só que já não há buracos que nos ponham a salvo.
Na CCDR andam a discutir medidas para melhorar a qualidade do ar. Uma delas será a de diminuir a emissão de gases provenientes da combustão de lareiras! Por um lado temos que diminuir a nossa dependência energética, temos que diminuir a dependência de energias não renováveis, temos que cumprir a regulamentação térmica, criam-se centrais de produção de biomassa e por outro proíbem ou desincentivam o aquecimento através da combustão de madeira ( será que não é o mesmo que a biomassa?). Querem taxar as lareiras domésticas e pedem às Câmaras Municipais para colaborarem nessa tarefa.
E tomem nota que este Plano de melhoria da qualidade do ar parece que é mesmo para ir para a frente!
Estamos todos malucos?

Saturday, December 15, 2007

Promessas Perigosas

" Quem és tu?" esta é a pergunta que Anna faz a Nokolai já perto do fim do filme e é também a pergunta a que tentamos responder durante todo o filme e depois... já cá fora.
Num filme em que Cronenberg nos surpreende pela "banalidade" do enredo, afinal uma história de máfia, tinha que ficar esta ponta por desvendar: mas afinal quem és tu? És bom, és mau, és julgador, és conivente, és um anjo ou és demónio? Quando tudo parecia ser claro, Nikolai surge sentado no restaurante, sem outras personagens, no lugar do antigo "padrinho" que entretanto supomos foi preso. O motorista, que se tinha infiltrado na máfia para a desvendar e destruir, que ganhou o estatuto de "filho" para ser imolado, aparece sózinho no quadro do poder e capaz de tudo, tão inexpressivo é o seu olhar.
Para além de tudo o mais um filme na tradição do bom cinema clássico, uma atmosfera pesada e redonda onde o conforto e o luxo nos fazem admitir o maquiavélico: o poder do luxo, do negro, do vício: o poder do poder.
Uma boa escolha em dia de aniversário.

Promessas Perigosas de David Cronenberg com Vigo Mortensen; Naomi Wats; Armin Mueller-Stahl

Friday, December 14, 2007

No dia do meu aniversário

O dia do meu aniversário é um dia para o meu egoísmo, para os meus prazeres: cinema, ler, ouvir música, amigos a que junto a este ano também uma aula de yoga!

Wednesday, December 12, 2007

Manoel de Oliveira

" Sabe que um artista tende a duas coisas: à perfeição e ao absoluto. Não param de fazer filmes. Por isso o Fellini diz que é um vicioso, porque nunca chegou à perfeição nem nunca chegou ao absoluto. É o que acontece com os outros. Continuam a fazer filmes, filmes, filmes, na esperança de tocar estes dois pontos."
Saudável lucidez de um homem de 99 anos em entrevista ao Expresso!
Manoel de Oliveira, muitos parabéns e muitos anos de vida.