Saturday, August 30, 2008

Lamparina



Era assim que se faziam as lamparinas na casa dos meus pais. A planta, não sei como se chama, dá uma flor, verde e carnuda que, depois de seca, desfolhada e embebida em azeite, serve de pavio para a chama. Usava-se para celebrar a estadia da Sagrada Família. A Sagrada Família ainda lá passa, as lamparinas é que já não são estas.

Tuesday, August 26, 2008

Sempre

" Sempre! Que palavra horrível! Faz-me arrepios ouvi-la. As mulheres é que gostam muito de a usar. Conseguem destruir um romance de amor quando procuram fazê-lo durar para sempre. Além disso, é também uma palavra sem sentido. A única diferença entre um capricho e uma paixão para toda a vida é que a paixão dura um pouco mais."
O retrato de Dorian Gray; Owscar Wild; Colecção Novis; Visão; pág.32

Praia do Forte de Paçô



Tenho algumas praias de eleição. Esta é uma delas. Há alguns anos que não ia lá. Reconheci-a igual e esplêndida na discrição, na quietude, na envolvência.
Chega-se de carro por um estradão entre campos de milho. Ao centro do areal está o forte, que lhe dá o ar insólito ao apresentar-se como marca humana ancestral, ao que se aliam alguns armazéns de barcos, bem conservados e alinhados. Na praia as rochas subdividem o espaço, criando recantos acolhedores e protegidos do vento. Também as rochas delimitam pequenas baías, onde as algas brincam com o mar e com os nossos corpos.
Apesar de ainda ser Agosto estavam apenas algumas, poucas dezenas, de pessoas. Por isso o silêncio povoado de mar sobrepunha-se a qualquer outro som.
Que se conserve assim por muitos anos.

Saturday, August 23, 2008

de férias com as mulheres

De férias... finalmente!
Para elas convoco grandes mulheres. Mulheres vivas, que vivem comigo no mesmo espaço e no mesmo tempo. Elas fazem-me muita falta.
Os homens são uns aldrabões. Ao dobrar da esquina apanhá-mo-los nas mais ingénuas mentiras...
tudo para nos impressionarem, para serem melhores e mais machos, coleccionadores de experiências únicas e supremas... a gente sabe e goza!
Desculpem os meus amigos, honrosas excepções a este estereótipo... eles sabem quem são!

Tuesday, August 19, 2008

Anémonas

Como os manjericos as anémonas são seres vivos que me cativam: sob as águas límpidas e frescas, estendem os seus tentáculos que ondeiam ao sabor da corrente. De cores vivas e múltiplas mostram esplendorosos interiores sem qualquer receio: chamam, cativam, hipnotizam. Sentido-se ameaçadas, dobram-se sobre si, enganam-nos com um aspecto exterior anódino: mecanismos biológicos de defesa.

Wednesday, August 13, 2008

mangericos

Este ano os meus pais mantêm quatro manjericos viçosos em pleno Agosto. A minha mãe compra quatro, um para cada filho, que usualmente trazemos para as nossas casas e deixamos morrer de calor, de sede, ou, quem sabe, apenas de falta de carinho. Este ano, nenhum de nós recolheu a dádiva e eles, alinhados em frente à janela da cozinha, do lado de fora, apresentam-se em toda a sua frescura.
Os manjericos são uma erva engraçada - quando lhes passamos a mão libertam um odor magnífico!
Transpus esta ideia para os humanos: de certo modo somos assim e é bom que assim sejamos. Tratados com carinho perante uma carícia libertamos todo o nosso "odor", ou seja, cultivados e tratados com muito amor, damos o nosso melhor.

Tuesday, August 12, 2008

björk @ swtmn 08


Vamos lá ver se a gente se entende: quem não foi ao Sudoeste ver a Björk é burro! Burro burro burro! Com as palavras esgotadas, convido-vos a ler aqui o que pensam outros e a espreitar nas minhas fotografias tiradas com os olhos embaciados.

Wednesday, August 06, 2008

Alexandra, Aleksandr Sokurov

Ainda a quente e sem grandes reflexões, como convém a este espaço, digo convicta e emocionalmente que gostei, mais do que gostei.
As coisas boas acontecem, ainda que esperadas, e a expectativa era grande. Galina Vishnevskaya ( que ligo a Rostropovich) é Mãe, Mulher e paradoxalmente, na acção exacta do filme, Avó - por isso Mãe e Mulher. Para mim também a Rússia, pátria, mãe e mulher que conciliadora transcreve um movimento irracional (metafórico) por entre um cenário real de retaguarda da frente de guerra, para ver o neto e nele entender o Homem e o Filho. É a Mãe de todos os homens que vagueia insólita no desconcertante campo de batalha. É a lucidez feita carne, que, evidenciando cansaço, se dá ao abandono nos braços do Homem. " O meu corpo está cansado, mas a minha alma quer viver mais". Mulher e Homem, Mãe e Filhos, Rússia e Tchetchénia, num abraço de ternura e desacerto, doçura e dureza, que nos abre a alma.
A Imagem na melhor senda dos mestres russos, Eisenstein ou Tarkovsky.
A música seguindo os passos dos grandes românticos russos.
" Cheiras a Homem", mas " Não te lavas! És forte e bonito, mas não respeitas o teu corpo" dito ao neto que no pico da virilidade a abraça ternamente e a penteia, lhe refaz a trança. "As mulheres são todas iguais" no dizer dele: as mulheres que se abraçam cúmplices à espera no momento da partida e só aí ganham cor ( o filme é todo sépia).
A Rússia é um mundo. A Rússia é Europa e Portugal também.

Sunday, August 03, 2008

O Leopardo

O livro é de casa dos meus pais. Fui buscá-lo para o emprestar a um amigo. Num intervalo de leituras programadas decidi lê-lo. Em boa hora. Um livro único em todas as acepções, porque também foi o único romance do autor, o Príncipe de Lampedusa.

Aqui o Príncipe de Salina, que tão bem recordo na figura de Burt Lencaster.

“D. Fabrício conhecia desde sempre aquela sensação. Havia dezenas de anos que ele sentia o fluído vital, a faculdade de existir, a vida em suma, talvez até a vontade de viver, desprendo-se de si, vagarosa mas continuamente, como os pequenos grãos de areia que escorregam um a um, sem pressa e sem detença, pelo estreito orifício da ampulheta. Em certos momentos de actividade intensa, de grande atenção, esse sentido de contínuo abandono desaparecia para reaparecer, imperturbável, nos fugazes momentos de silêncio e de introspecção: tal como um zumbido contínuo nos ouvidos ou como o bater de um pêndulo se impõe quando todo o resto se cala; e, nesse momento, apercebemo-nos de que eles sempre ali estiveram, vigilantes, mesmo quando não se ouviam.

(…) A sensação, de resto não andava, de princípio, ligada a qualquer mal-estar. Muito pelo contrário, esta imperceptível perda de vitalidade era a prova, a condição, por assim dizer, da sensação de viver; para ele, afeito a escrutar espaços exteriores ilimitados, a explorar vastíssimos abismos interiores, aquilo estava bem longe de ser desagradável: era o sentimento de um esboroamento contínuo, miudinho, da personalidade, acompanhado porém da vaga esperança de que, algures, essa personalidade se reconstruiria (obrigado, Senhor!) menos consciente mas mais ampla.(…)”

O Leopardo; Tomasi di Lampedusa; Capítulo VII, Pág 277/278; Colecção Autores Universais; Livros do Brasil

Wednesday, July 30, 2008

aguardemos calmamente

Embora o desgaste seja muito e este pré-férias se misture com muito cansaço, para que saibam, venho aqui todos os dias. Os mais novos estão bem melhor... alheios as estas lides gozam o ambiente natural e psicológico dos festivais de verão! Estão por isso desculpados da ausência neste espaço. Os mais velhos... espero que não desanimem - o descanso chegará, em catadupa ou simplesmente, a curto ou a médio prazo, mas prometido e, pelo menos no presente caso MERECIDO.

Sunday, July 27, 2008

Voltando à Grécia através de Roma

"(...) Mas em Roma, isto é a alguns quilómetros de Roma, gostei acima de tudo de Vila Adriana. É uma Grécia perseguída, invocada, que já não é a Grécia pois os Deuses são Antinous e morrem. Há em tudo um misto de nostalgia e perfeição, numa beleza que tem dentro de si uma falha secreta. (...)"
Correspondência 1959-1978
Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena
Guerra e Paz

Friday, July 25, 2008

meia-noite

Deixei-me transportar pelo livro, longo e contraditório, indescritível nas sensações que foi provocando: de espanto, de dúvida, de incredibilidade, de sentimentos ... os últimos capítulos tiveram sobre mim o poder de gerar lágrimas que rolaram lentas na mornidão da casa ao princípio da noite. Ficou a paz comum, feita de coisas comuns, a paz doce da vida que é...
" Aprendemos tantas coisas quando envelhecemos. E, todavia, todo esse conhecimento... tudo isso, desaparece quando morremos. Parece-me um desperdício tão horrível. (...)
" Provavelmente, as lições mais importantes temos de ser nós próprios a aprênde-las sozinhos."
O pastor não viu que o cesto "vazio" estava cheio de lindas coisas do céu , que a mulher lá tinha metido para ambos. " A tampa do cesto são os teus olhos. Quando eu olho lá para dentro vejo coisas "lindas, lindas - tudo aquilo que lá puseste durante toda a tua vida. Até Violeta que conheceste quando eras criança lá está. Está lá para ti sempre que quiseres. Mas o segredo é que ela não pode sair para este mundo. O destino dela é permanecer só dentro de ti. De facto sempre que tentas fazê-la sair ela morre."

Escrito a propósito de Meia-noite ou o princípio do mundo de Richard Zimler

Tuesday, July 22, 2008

redodendro

O rododendro é a designação comum às plantas do género Rhododendron, da família das eriáceas que reúne cerca de 850 espécies, entre elas a azálea e o loendro.

Resultado de uma primária busca destinada a investigar a diferença entre redodendro e loendro. Concluo que não estava tão errada como isso quando as confundia, porque essencialmente a distinção depende do porte. A azálea conheço-a bem, arbusto do meu jardim. Os loendros multiplicam-se nos separadores centrais das nossas vias rápidas e, pelos vistos, é também planta de culto lá para os lados de Vouzela. Terá entre 2 a 5 metros de altura. O redodendro parece-me que é aquela árvore bonita, aberta ao céu e aos olhos, em flores vermelhas, que nos cativou no passado sábado na Avenida da Boavista!

Friday, July 18, 2008

idades,,,,

Às vezes penso na idade: na meia idade. Na minha idade, quando estatisticamente já passei a meia idade, faço jogos de modo a iludir a circunstância: ainda não passei estatisticamente a meia-idade consciente: ou seja, desde que me reconheço, talvez ainda tenha outro tanto para andar em relação ao que a minha memória reconhece!

Mas penso mais, penso que, relativamente aos mais novos, tenho a vantagem de cá ter chegado. Eles não sabem se chegarão. Felizmente o corpo não me dói e até agora não me prega partidas. Compenso alguns gemidos, com consciência e com a plena presença: às vezes demais para os contextos…

Wednesday, July 16, 2008

regressos

Ao regressar da praia, sábado passado, depois de oito horas seguidas de mar e sol, neste caso algum providencial vento também, Keith Jarret interpretou o concerto de Colónia... não havia (no meu entender) melhor música para o momento. Agora recordo-o.

Monday, July 14, 2008

Le Corbusier


Depois de usufruir deste magnifico mar (alentejano) rumamos a Lisboa para ver a exposição " Le Corbusier Arte da Arquitectura" no CCB. Uma desilusão, muitos contextos, muitas externalidades e pouco conteúdo. Exposição para o grande público? Mas o grande público merece mais: merece a Ville Savoye, bem detalhada, bem descrita, e bem desenhada; merece a Maison La Roche com a mesma aproximação; merece La Tourette; merece outra história da personalidade e da arquitectura. Não é isso a exposição. São muito bonitas as fotografaias de Lucien Hervé... ainda bem.
Um desapontamento que me reaviva a memória de Le Corbusier, aquele que para mim é verdadeiro ainda que polémico, arrisco: a principal peça na viragem da arquitectura.
( Atenção a fotografia não é Cap Martin, nem verão uma silhueta nua do génio ao longe, aliás, se bem me lembro, não havia ninguém no horizonte vislumbrável.)

Tuesday, July 08, 2008

a pedido

Um dos poemas lidos da passada quinta feira no Café Progresso:


Hei-de escrever-me inteira

Direita e sem tombar.

Hei-de saber-me

Como sei o ar.


Hei-de ser neste fio

Frio, esticado e esguio.

Hei-de ser nesta terra

Sem peso ou ferida.


E hei-de mudar-me

Num poema sem rima.

Hei-de morar-me

No teu corpo, na tua estima.

Sunday, July 06, 2008

prazeres democráticos

A praia: o mar e o sol. Um banho de mar. As ondas sucedem-se, fervem em espuma branca, que percorre longas distâncias até à morte no areal. Hoje enquanto tomava banho lembrei-me muitas vezes das "ondas do mar são brancas/ bravo meu bem/ no meio são amarelas" textualmente hoje assim.
Nada me faz mais plena que o sol e o mar. Espante-se quem me acusa de ser intelectual e de gostar de erudições!
O mar que me faz feliz? Este mesmo ao pé de casa: o Oceano Atlântico, aqui em Matosinhos. O sol que me revigora: este só. Não custa nada, apenas o gasóleo de uma viagem de quinze quilómetros e ainda trouxe o almoço: arroz de mexilhões roubados à costa e sob o controlo exigente dos nadadores salvadores.
A praia é o prazer mais democrático: soberbo aqui mesmo, ao pé da porta!

Saturday, July 05, 2008

café progresso


O que aconteceu no Café Progresso, quinta à noite, foi especial, porque como se vê ao fundo, encostada à ombreira branca da janela, de cabelo muito escuro e cabeça descaída, estava lá a Joana. A Joana leu, no sentir da mãe, os poemas mais bonitos da noite.
Não só por isso foi especial: é sempre especial quando as pessoas abrem em público o seu sentir, lêem a medo, engasgam-se, expõem publicamente aquilo que escrevem. Novos e mais velhos, juntos na mesma pulsão de exteriorizar o interior, de reinventar o já inventado e de repetir sempre e sempre a mesma palavra.

Wednesday, July 02, 2008

re coment

Optei por transcrever e interpretar o comentário anónimo ao meu post do dia 30. Porque me interessa interpretar e tentar perceber. Reescrevendo procuro sentido, interiorizo sentidos que se desvendam e desvelam.

Aqui:

...vai-se e volta-se, ao profundo silêncio…

a realidade não é o ruído que te rodeia!

a que velocidade acontece esta grande estagnação?

Olha, um atraso no anúncio do lado esquerdo

do futuro!

A mediação do vento e a libertação dos tigres, a quem a pedir?

Dir-me-ás se souberes tal viagem!!!

Acredito na cal das tuas palavras

na harpa que construindo

do vértice (o)culto

se despenham. Acredito porque dizes o sentido

raro de um raro espelho perdido.

E assim terás

o poder de sobreviver aos meigos ENGANOS!

Não, não sei!

Não porque cada hipótese se converte num

trapézio de poderes fingidos!